Nossa cultura, aliás, nossa?
Em primeiro lugar, trago à questão uma das mais belas frases de um dos principais formadores desse estranhíssimo ser que hoje sou - meu grande amigo músico Pedro Osmar, do Jaguaribe Carne - e que prenuncia seu CD Signagem.
"Enquanto horizonte de um panorama da música no mundo, minha luta, meus sonhos, minhas utopias são para que a música da Bolívia, do Peru, do Chile, de El Salvador, de Cuba, de Nicarágua, da Guatemala, do México e da Argentina possam também habitar e dar sua contribuição cultural entre nós. Ritmos do planeta Terra, porque nem tudo é rock".
Certamente nem tudo é rock num mundo em que as várias experiências de vida, de culturas, de sensibilidades, de histórias, enfim, a diversidade dá o tom. Onde as criações se direcionam de um modo tal que tudo segue numa mesma direção - e estamos falando desde a música na rádio a formatos de cabelos e narizes - pode-se ter a mais absoluta das certezas de que a cultura ali não passa seus melhores dias.
Aí você liga o rádio e a MTV, e é tentado a desconfiar do “nem tudo é rock”, pois não é o que aparenta. Claro. Podemos acrescentar mais algumas poucas outras manifestações culturais que também têm voz, mas que pouco ou nada oferecem de inovador, ousado, educativo, ou mais voltado à criação que à mera reprodução de conceitos pré-estabelecidos e financeiramente viáveis.
Há muito, a impaciência me tem feito buscar saciar o amor pela música em focos alternativos ao mundo massificado da indústria cultural que vende milhões e imbeciliza em larga escala, algumas vezes de modo irreversível. Perdurar estúpido por ainda mais tempo tem sido um dos meus maiores temores e tenho buscado incansavelmente meios alternativos de resistir à corrente e não sê-lo tanto. Como se pode ver, ainda tem sido tímido o meu êxito, apesar de tanto esforço.
Ironicamente, a mesma globalização que exclui de modo devastador e joga na mais terrível indigência milhões de indivíduos com altíssima potencialidade cultural, termina por promover também a interação de tantos povos, em virtude dos avanços tecnológicos que possibilitara.
Não é que essa interação não seja necessariamente conflitiva e tantas vezes unilateralista. Se não fosse, os nossos torés indígenas, rabequeiros e aboios teriam tanto espaço nos meios de comunicação dos EUA quanto a música americana tem nas nossas televisões e isso não acontece. Por esse ângulo, é certo que se pode compreender a preocupação de Ariano Suassuna em radicalizar no purismo da identidade da cultura local e desmerecer tanto a idéia do Mangue Beat, que, tal qual a Tropicália, se ateve mais a aliar aos resistentes ritmos tradicionais a vertente deletéria da cultura hegemônica.
Claro que não se pode negar que pernambucanos e baianos têm seus méritos, sobretudo no que concerne à própria construção de uma identidade cultural brasileira, em que o povo aceita suas próprias manifestações locais, uma vez que passam a despontar nos meios de comunicação em massa – já não sei se aceitariam caso se limitassem aos recantos subalternos em que a cultura popular historicamente foi isolada. Enfim, aliar a cultura tradicional à cultura midiática tem suas vantagens, porque possibilita o acesso de tantos a uma realidade que lhe é pertinente, mas que até então lhe fora sonegada. Entretanto, Mangue e Tropicália pecam ao endereçar o mesclado de suas criações exclusivamente - não em todas, mas na maior parte das vezes - com o rock americano.
A questão não é se o rock tem ou deixa de ter mérito também. É claro que tem. Quem vos fala é um fã de Led Zeppelin, Jimi Hendrix, Pink Floyd e Janis Joplin. Entretanto, outras tantas manifestações plurais, como as da música indiana, africana, latino-americana não chegam facilmente até nós. Como podemos acreditar que se está construindo uma cultura universal se nos falta esse contato, para além das culturas imperialistas?
Aí é onde entra a tecnologia e a promoção do contato entre as culturas. Certamente, eles podem também ser usados e concebidos em outra direção.
O mundo digital tem aberto espaços para que as minorias também se manifestem. Blogs, orkut, youtoube, sites de compartilhamento de CD’S, vídeos, e-books, cineclubes e outras tantas formas de subversão têm dado voz e formado um verdadeiro sistema da contra-cultura, em que esta troca de impressões acontece, à parte daquilo a que a mídia oficial dá cobertura.
Mas não é que isso é subversivo mesmo? Não são poucos os casos de grandes conglomerados econômicos que voltam seus esforços à contenção e à penalização dos multiplicadores culturais. E esses fatos recentes, creio, talvez possam, inclusive, ser pensados como inscritos no terrível processo de criminalização dos movimentos sociais, em especial dos movimentos culturais insurgentes.
(Criminalização, você pensa que não, mas sabe o que é. É o processo seletivo pelo qual as agências formais de controle social – digo, o Poder Legislativo, a.Justiça, a polícia, o Ministério Público – terminam por reproduzir em sua atuação um hegemônico sistema de valores que exprime predominantemente uma ideologia individualista, a qual dá ênfase até demais à proteção do patrimônio, atingindo as formas de “desvio” típicas dos grupos sociais mais débeis e marginalizados, e ênfase de menos à proteção aos interesses verdadeiramente sociais – tais quais o trabalho, a moradia, alimentação, cultura, educações – deixando passar em branco condutas socialmente ofensivas, em virtude de sua funcionalidade às exigências do processo de acumulação de capital, como a concentração de renda, o monopólio, a corrupção, o abuso de autoridade, o latifúndio e lá vamos nós...).
Acho que o Cine Falcatrua é um caso emblemático para a Justiça Brasileira. Um dos carros de frente da Cultura Livre, trata-se de um cineclube ligado à UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), com suas mostras de filmes, sob as (des) licenças Creative Commons e copyleft, e seus festivais de mídia-ativismo. Esse cineclube universitário trabalha com tecnologias acessíveis do digital para democratizar a produção cultural.
O grupo promove exibições abertas e gratuitas de filmes baixados da internet, sempre acompanhadas de discussões e intervenções. Também ministra a oficina Cineclubismo Digital Gambiarra, que ensina como produzir, projetar e distribuir filmes digitais. Além de tudo, ainda prepara material de divulgação acerca de direitos autorais, difusão cultural e cinema livre. Voltando suas intervenções para além dos muros universitários, o cineclube já expôs em bairros da periferia, galerias de arte, nas ruas e até em bailes funk.
(Aliás, para quem não conhece a histórica resistência do movimento cineclubista, aconselho dar uma pesquisada aí, sobretudo no período de ditadura militar).
Acontece que o Cine Falcatrua radicalizou na promoção do acesso à cultura. Não se limitou a exibir filmes históricos, cult, alternativos, independentes ou "underground" – o material clássico do cineclubismo. Também passou a oferecer filmes do grande circuito comercial. A galera fazia o download de cópias disponíveis na rede e as projetava gratuitamente — e antes da estréia oficial. Quer dizer: eles se antecipavam à indústria de entretenimento — como fazem os camelôs, mas sem auferir qualquer lucro. Eis aí o salto qualitativo desse projeto inovador (os caras são doidos mesmo! Peitando de graça a indústria do cinema!).
Ocorre que em virtude da exibição de Fahrenheit 9/11 (Michael Moore), a Justiça brasileira deu causa favorável à Consórcio Europa – empresa responsável pela exploração comercial da distribuição do filme, condenando cautelarmente a UFES a pagar indenização pela suposta violação aos direitos autorais e à propriedade intelectual. Digo “suposta” porque o próprio Michael Moore, diretor do filme, procurado pela articulação dos cineclubes na Itália, disse não se importar com a exibição didática de seus documentários sem fins comerciais. O Falcatrua recorreu da decisão em 2004 e aguardamos manifestações dos tribunais superiores.
Entretanto, convenhamos que não se trata de mero caso de aplicação fria da lei dos direitos autorais, ou de uma decisão simplesmente técnico-jurídica, pretensamente apolítica.
A Constituição Federal garante a função social da propriedade – art. 5°, XXIII; o direito exclusivo do autor (e não da distribuidora) – art. 5°, XXVII; estabelece como competência comum da União, Estados, DF e Municípios proporcionar os meios de democratização do acesso à cultura, à educação e à ciência – art. 23, V. Além disso, impõe ao Estado garantir a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiar e incentivar a valorização e a difusão das manifestações culturais – art. 215. Na legislação infraconstitucional, a LDA (Lei de Direitos Autorais – Lei 9.610/98), em seu art. 81 não exige autorização para exibição de audiovisual, quando sem fins econômicos. As normas previstas no Código Penal, ao oferecerem tutela ao autor perante violações patrimoniais e morais a seus direitos, têm incidência limitada diante das excludentes de tipicidade previstas no art. 46, V e VI da lei civil de proteção ao direito autoral, dentre as quais se permite a utilização de fonogramas ou videofonogramas para fins didáticos, sem intuito de lucro, do jeito que se dá nos blogs de disponibilização de material cultural.
Enfim, fundamento legal existe para se comprovar a idoneidade da atividade do cineclubismo e de outras formas de ativismo cultural. Assim, se não é do intuito lucrar nem transgredir direito autoral, como se pode alegar a existência de qualquer infração civil ou penal, sobretudo considerando a inexistência de outros meios de acesso aos bens culturais?
A meu ver, no nosso tempo, este é um caso paradigmático. A “criminalização” dos cineclubes, a perseguição a blogs de educação cultural, como o SomBarato e o UmQueTenha, juntamente com a já clássica secundarização dos investimentos em políticas culturais decididamente públicas (e não dessas políticas de esqueminhas fechados àquelas mesmas turminhas de sempre, caramba!) colocam-se no coração dos embates da nossa sociedade pós-industrial, na qual, à coletivização da produção de inteligência e cultura opõem-se enfaticamente os dispositivos expropriatórios, oligopolistas e antidemocráticos do capitalismo.
* Pablo Honorato Nascimento é advogado, músico, cronista e crítico de arte. |
Valeu essa doidera! Uhhh-uhhhhhh
Galera... eu proponho que compartilhemos as nossas fotos, principalmente aquelas onde os companheiros estão presentes seja em primeiro plano seja no plano de fundo. Então, enviem as fotos para aqui ou vamos arrumar um jeito de colocar num site difundido na comunidade no Orkut para que todos possam acessar & baixá-las.
Abraços!
De: david gracejo <davidg...@gmail.com> |
Aqui vai o comentário de um amigo & escritor de São Paulo, o Ricardo Carlaccio, sobre o meu trabalho/vida:
Um cara sem lei
Gosto de caras que derrubam lustres e sobem em cima das mesas e uivam nos momentos mais inesperados. Caras que fazem isso quando não estão cruzando as fronteiras atlânticas com suas garrafas de vinho tinto. Gosto de poetas que assaltam supermercados no meio da madrugada e andam com suas calças jeans surradas e amam suas garotas durante um longo rolê pela praia. O Ikaro é um desses grandes poetas que salta de uma falésia desprezando a lei da gravidade. Que experimenta a vida como uma criança primitiva ou como um adulto em estado bruto. A poesia de Ikaro é a definição da liberdade, sem esconder o dark side que insiste em pousar em cima de seu ombro como um fantasma que aparece em noites insones e senta-se ao seu lado pruma longa conversa. Ikaro é uma mistura de Neal Cassady com Rimbaud, como já disse o poeta Ademir Assunção. Pra mim ele também é uma espécie de McMurphy, um estranho no ninho liderando uma rebelião hedonista.
Como já disse, gosto de caras que derrubam lustres e por isso mesmo jamais seriam convidados pruma festa de debutantes. Gosto do texto imprevisível que o Ikaro manda certeiro como um jab na fuça dos incautos. Gosto desse elemento que escreve sem lei e sem trégua, como o “Homem sem nome” do Clint, esse garoto que atravessa o rio inavegável. Ricardo Carlaccio Blog: Neal Cassidy Roubou Meu Maveco
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Pablo,
Esse seu texto
é mais que um texto... na verdade uma provocação! E, me sentido provocado, vou
dar alguns palpites sobre o que li. Comecemos então pela frase do mestre Pedro
Osmar. Pelo que entendi o que o Pedro coloca alí é sua luta (utópica? Aí já é
outra discussão...) a favor de uma maior igualdade e difusão entre gêneros e
ritmos de outras culturas e outros países, criticando uma hegemonia do rock/pop
que se disseminou mundialmente através dos meios massivos.
Você parte desse princípio para fazer uma crítica (sua) a algumas fusões musicais bem interessantes que surgiram no Brasil, ou seja, o Tropicalismo e o Manguebeat. E diz que "(...) Mangue e Tropicália pecam ao endereçar o mesclado de suas criações exclusivamente - não em todas, mas na maior parte das vezes - com o rock americano". Antes disso, cita o Ariano Suassuna (famoso por suas posições radicais em relação a fusões musicais e culturais).
Eu particularmente, vou na contramão desse pensamento. E, concordando com o Belchior assino embaixo quando ele diz que "o novo sempre vem". Acontece que nem sempre esse novo aparece com uma roupagem totalmente nova, como algo original que saiu do nada. Estamos cheios de exemplos por aí. Por exemplo: numa pesquisa rápida que fiz, vi que o Cordel (que em outros tempos diria que é uma invenção literária tipicamente brasileira/nordestina) tem origens lusitanas e que foi trazida para o Brasil pelos Portugueses. E estamos cheios de exemplos desse tipo. Penso que o Brasil com sua dimensão continental e diversidade cultural é propício para esse tipo de coisa. Nesse sentido, não sou tão duro a esses tipos de fusões, acho todos (Tropicália e Manguebeat) bastante interessantes, riquíssimos (mesmo predominando a batida rock) e necessários para que surjam novas expressões culturais.
Agora, concordo com a questão da predominância de ritmos rock/pop nos meios de comunicação de massa. Acho um saco e sinceramente não tenho mais paciência para ouvir o rádio com aqueles locutores de voz de veludo padronizada tocando as "músicas de trabalho" que as gravadoras determinam. Por isso gosto do Lobão que chutou o pau da barraca (embora depois tenha voltado ao mainstream). Mas, como diria Raulzito "quando se está em buraco de rato, de rato você tem que transar".
Então é usar o meio contra o próprio meio. Por outro lado, concordo com você quando se refere ao processo de globalização como algo irônico, mas eu diria que mais que irônico ele é contraditório (coisa típica de nossa modernidade). E essa mesma mídia e tecnologia que, por um lado, exclui e oculta algumas expressões populares que estão a margem, acaba abrindo espaços para uma maior divulgação e popularização destas.
Talvez essa discussão possa se resumir a uma frase sua: "(...) outras tantas manifestações plurais, como as da música indiana, africana, latino-americana não chegam facilmente até nós". Mas, acredito que pelo fato dessas outras manifestações não chegarem facilmente até nós isso não quer dizer que as fusões não sejam interessantes ou descartáveis. Elas podem até mesmo serem úteis. Vou dar um exemplo: na década de sessenta os Beatles foram pioneiros em misturar sua sonoridade (rock, diga-se de passagem) com a música indiana (mais especificamente um "insight" de George Harrison). Isso acabou de certa forma, tornando a música indiana mais conhecida entre os Ocidentais. E pra você ver, isso só foi possível, pelo menos naquele momento, por conta do rock e, claro, da popularidade dos Beatles.
Então, pra terminar, acho que a coisa deve ser vista de outra forma. O problema neste caso não é a fusão, mas o pouco espaço que se dá aos outros ritmos e expressões culturais. Quem um dia iria imaginar que Gilberto Gil participaria de uma marcha contra a guitarra elétrica?
Sugiro uma leitura bem interessante de um livro chamado “Rock And Roll - Uma História Social” de Paul Friedlander onde o autor vai tratar mais a fundo as implicações e imbricações do rock na sociedade.
Eu assino em baixo a proposta do colega! --- Em qua, 4/2/09, Ikaro Max <ikar...@yahoo.com.br> escreveu: |
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Rosa Luxemburgo
Uhh uhhhhhhh
Valeu aí esse Mutum!
Belas fotos Pedro!
Abração
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(Menos que Íkaro, mas eu também tenho meu lado provocador, Fabiano. A propósito, segue adiante um poema do meu pai que é a tua cara, Íkaro!...)
Concordo que as fronteiras são ficções.
No entanto, acho que também vamo concordr que não dá pra alegar que a realidade cultural de um povo não é um reflexo da sua realidade social, política, histórica e até ambiental daquele povo. Assim é que, por exemplo, certos instrumentos africanos feitos com couros de animais em extinção já não mais são utilizados em certas manifestações, em face dos desmandos resultantes da intervenção humana na fauna local.
Pra mim, a questão é menos quanto ao ser ou não ser "paraibano" e entender de cultura "paraibana" que propriamente quato a conhecer o povo paraibano em si, estar próximo de seus problemas e perceber como isso se evidencia nas canções populares, costumes, ritos, religiosidade e tudo o mais que habita o "armorial" da nossa cultura.
Diferente de ariano, acho bem-vindíssima a discussão acerca de se o que nós - fazedores de cultura - vimos realizando aqui precisa ser repensado, refeito, modernizado. A dúvida que me sobe à mente, entretanto, é a seguinte: será que "modernizar o passado" significa prescindir da minha cultura que está ali na feira, na praça, na praia, na favela e automaticamente implica em incorporar elementos que nos são alheios e não nos pertencem, ou apenas nos pertencem à distância?
E até onde será que tocar uma guitarra (que, inclusive, tem uma séria origem no "pau elétrico" brasileiro tocado por Armandinho, pai de Dodô e Osmar) significa necessariamente trazer modernidade para a cultura tradicional e por que tocar uma rabeca também não pode sê-lo? Noutras palavras, a modernidade é muito bem-vinda, desde que não atropele nada nem ninguém e não se filie a um conceito imperialista.
Tenho a leve impressão de que a construção de uma identidade cultural universal passa necessariamente por uma compreensão da realidade cultural local.
Acho que até hoje, à ressalva da Guerrilha Cultural paraibana, encabeçada pelo Jaguaribe Carne, não apareceram movimentos culturais tão importantes quanto a Tropicália e o Mangue, ambos com propósitos semelhantes, cada qual à sua época, de levar a sério uma idéia de Antropofagia Cultural, aquela mesma que já em 1922 se defendia na Semana de Arte Moderna e que tem a maior pertinência, por promover a diversidade e o contato entre culturas. Culturas, no plural. Mas sinto falta de ter visto o Gil ou o Caetano cantando o huayno andino, ou mesmo o Chico Science - todos artistas de primeiríssima linha -elaborar construções criativas advindas de elementos provenientes do Mali, do Afeganistão, além dos criativos riffes de guitarra e frases de baixo, inspirados em bandas inglesas e norte-americanas...
Por falar em minha/nossa cultura, acho engraçado uma coisa. Alguns amigos meus só conhecem o maracatu de colagens feitas por certos grupos internacionais de heavy metal... Não me sai da cabeça aquela lenda mitológica do Narciso, que acho que todo mundo conhece. O cara que, por não conhecer sua própria imagem refletida na água do rio mergulha para abraçá-la. Termina que ele morre afogado... Por não conhecer a própria imagem.
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Esse canto alerta teu coração
Feito pichação nas paredes dos muros
Sobreviver aos apuros
Longe da ira e da mentira
Só a rebeldia não sabe ser infame
E esse é o meu lado vândalo
Submetido ao escândalo
De amar e de dar vexame!
(Chico Berg)
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De: Fabiano P. Silva <fabian...@hotmail.com> |
Data: Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009, 17:34 |
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Você parte desse princípio para fazer uma crítica (sua) a algumas fusões musicais bem interessantes que surgiram no Brasil, ou seja, o Tropicalismo e o Manguebeat. E diz que "(...) Mangue e Tropicália pecam ao endereçar o mesclado de suas criações exclusivamente - não em todas, mas na maior parte das vezes - com o rock americano". Antes disso, cita o Ariano Suassuna (famoso por suas posições radicais em relação a fusões musicais e culturais). |
Eu particularmente, vou na contramão desse pensamento. E, concordando com o Belchior assino embaixo quando ele diz que "o novo sempre vem". Acontece que nem sempre esse novo aparece com uma roupagem totalmente nova, como algo original que saiu do nada. Estamos cheios de exemplos por aí. Por exemplo: numa pesquisa rápida que fiz, vi que o Cordel (que em outros tempos diria que é uma invenção literária tipicamente brasileira/nordestina) tem origens lusitanas e que foi trazida para o Brasil pelos Portugueses. E estamos cheios de exemplos desse tipo. Penso que o Brasil com sua dimensão continental e diversidade cultural é propício para esse tipo de coisa. Nesse sentido, não sou tão duro a esses tipos de fusões, acho todos (Tropicália e Manguebeat) bastante interessantes, riquíssimos (mesmo predominando a batida rock) e necessários para que surjam novas expressões culturais. |
Agora, concordo com a questão da predominância de ritmos rock/pop nos meios de comunicação de massa. Acho um saco e sinceramente não tenho mais paciência para ouvir o rádio com aqueles locutores de voz de veludo padronizada tocando as "músicas de trabalho" que as gravadoras determinam. Por isso gosto do Lobão que chutou o pau da barraca (embora depois tenha voltado ao mainstream). Mas, como diria Raulzito "quando se está em buraco de rato, de rato você tem que transar". |
Então é usar o meio contra o próprio meio. Por outro lado, concordo com você quando se refere ao processo de globalização como algo irônico, mas eu diria que mais que irônico ele é contraditório (coisa típica de nossa modernidade). E essa mesma mídia e tecnologia que, por um lado, exclui e oculta algumas expressões populares que estão a margem, acaba abrindo espaços para uma maior divulgação e popularização destas. |
Talvez essa discussão possa se resumir a uma frase sua: "(...) outras tantas manifestações plurais, como as da música indiana, africana, latino-americana não chegam facilmente até nós". Mas, acredito que pelo fato dessas outras manifestações não chegarem facilmente até nós isso não quer dizer que as fusões não sejam interessantes ou descartáveis. Elas podem até mesmo serem úteis. Vou dar um exemplo: na década de sessenta os Beatles foram pioneiros em misturar sua sonoridade (rock, diga-se de passagem) com a música indiana (mais especificamente um "insight" de George Harrison). Isso acabou de certa forma, tornando a música indiana mais conhecida entre os Ocidentais. E pra você ver, isso só foi possível, pelo menos naquele momento, por conta do rock e, claro, da popularidade dos Beatles. |
Então, pra terminar, acho que a coisa deve ser vista de outra forma. O problema neste caso não é a fusão, mas o pouco espaço que se dá aos outros ritmos e expressões culturais. Quem um dia iria imaginar que Gilberto Gil participaria de uma marcha contra a guitarra elétrica? |
Sugiro uma leitura bem interessante de um livro chamado “Rock And Roll - Uma História Social” de Paul Friedlander onde o autor vai tratar mais a fundo as implicações e imbricações do rock na sociedade. Fabiano P. Silva www.papirusfalantis.blogspot.com www.cavernadasideias.blogspot.com |
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Jamais sonhara em ser contradição
uma canção tecida
por linhas etílicas
& curvas poéticas
de sobressaltos desastrosos
um kamikase do orgasmo
um cafetão de paraísos
artifícios & delírios
uma anfetamina na língua da mina
com o "cara errado"
um zero que contem todos os números
& nenhum deles
nem sujeito nem predicado
nem objeto nem sufixo
uma linguagem sem gramática
um homem sem Leis
que não reconhece autoridades
coisas sagradas, rituais
advogados, tribunais, psiquiatras
nunca querer trabalhar
querendo se dar bem
& andar o mundo
criando tanta freqüência absurda
quem diria que seria
um degolador de Reis
um câncer no cu de Deus
um chefe de um bando não-autorizado
de jogadores
ladrões vegans de bancos & postos de conveniência
um curto-circuito nas entranhas do Sistema
um pai desempregado
um atirador de facas
na Cinderella
o mais importante expoente do futuro
sem nome na calçada da Fama
sem matrículas na Eternidade
- que nunca me torne Imortal! -
a fumaça de um haxixe
num ônibus com ar-condicionado
um antiinflamatório na cachaça
o batuque sem fim no fundo do buzão
um fugitivo em condicional
um país fracassado sem território nem povo
destroços de uma guerra
civis feridos
medalhas furiosas & brilhantes
em bustos de mármore
que se chamam "Homens"
uma árvore negra cheia de frutos proibidos
um caso perdido
- L O S T G E R A L -
um surto de ayuashka
durante três dias sem notícia
a agulha no palheiro
um cordeiro que pulou a cerca
& descobriu mil maravilhas no mundo
um galo sem canteiro
que não pára de cantar
tecendo os fios do Amanhã
Quem diria ser um dia
uma virtude alienígena
um paraplégico voador
um Deus no Vazio Universal
na Terra do Sol
OOOOOOOMMMMMMM - o único (des)mandamento
imigrante numa falida Europa
a vergonha da Família
- Ovelha Negra com marca de pé na bunda 0
que será um exemplo universal do Gênio
o iniciador não-reconhecido da Marcha dos Pelados
um porquê sem respostas
uma maldição livre de todas as amarras do possível
um beijo em segredo
um cunilingüe numa barraca
uma tentativa de estupro à ORDEM UNIVERSAL
O SIM & o NÃO
num mesmo corpo-poema
numa língua calejada
de incompreensões
& magia negra
um demente disfarçado de Anjo
ou um Anjo disfarçado de demente...criança... gente
Quem diria que eu seria
o Uivo na garganta epiléptica de Ginsberg
os traumas de Lautréamont
um viciado em paranormalidades burroughseanas
uma bala no peito de algum amor perdido
o Amor em pessoa, irreconhecível
vagabundo apátrida
buscando um descanso no peito de um desconhecido
a subversão total dos valores
em nome da queda dos impérios & opressões
Quem diria que a liberdade
seria tal contradição
& que tal contradição seria Amor
mesmo que por vezes
ele se fosse rebelde
& às vezes sem graça.
IkaRo MaxX
* escrito durante a viagem de volta no busão do Alemão Tur enquanto descansava na frente do buzão & a galera fazia um som lá atrás.
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