AHISTRIA: Somerset (Morgan Freeman) um detetive a uma semana da reforma. Mills (Brad Pitt) um detetive jovem e ansioso por tomar o seu lugar. No entanto, ambos vo acabar juntos a resolver o caso de um assassino em srie meticuloso que mata as suas vtimas de acordo com os sete pecados mortais.
David Fincher conta que, depois da primeira apresentao de "Seven" ouviu crticas duras. No difcil imaginar a receo do grande pblico a uma histria onde um "serial killer" se inspira nos sete pecados capitais. Mas h melhor ponto de partida do que uma mistura entre os recantos mais escuros da mente humana e as imagens religiosas?
Mills (Brad Pitt) e Somerset (Morgan Freeman) so detetives na esquadra de uma cidade americana (no se sabe qual), onde chove durante quase todo o filme. O primeiro novato, entusiasta, tem o sangue na guelra. O segundo est a poucos dias de se reformar, quando lhes chega a investigao ao primeiro de uma srie de assassinatos: um homem obeso foi obrigado a comer at os seus rgos rebentarem. O crime revelou um mote: a gula.
David Fincher quer levar-nos para dentro das personagens. E consegue faz-lo ao sugerir aos nossos olhos a que devem prestar ateno. O realizar aponta-nos claramente o ponto de vista atravs do qual estamos a assistir narrativa. Na viagem at cena final, o serial killer fala atrs das grades do carro dos detetives. Mills est em cheque nessa cena e o olhar dele que nos dito para acompanharmos.
Mas David Fincher tambm quer cegar-nos. D-nos apenas a quantidade de informao de que precisamos para acompanhar o desenrolar da histria. por isso que o filme se passa em ambientes escuros. So poucos os focos de luz nos cenrios onde as vtimas so encontradas e, em particular, na casa-refgio do serial killer. A ideia deixar-nos, literalmente, no escuro porque os detetives tambm esto procura do caminho certo no meio de pistas indecifrveis. tambm para acentuar o drama na histria que Fincher fez com que chovesse durante quase todo o filme (com exceo da ltima cena).
J a casa do "serial killer" uma representao da mente do criminoso, com dois mil dirios escritos ( mo pela equipa de Fincher) a retratarem os pensamentos do assassino. H fotografias reveladas na banheira e penduradas a secar. H esttuas de figuras religiosas. H recortes colados nas paredes. Em todos os detalhes, encontra-se uma preocupao constante de construir no espectador (sempre com subtileza) a imagem do "serial killer". No sabemos quem . David Fincher nem quis que os crditos iniciais revelassem quem o interpreta.
E isso no importa, na verdade, at que ouvimos a sua voz ao telefone, j estamos em quase metade do filme. Surpreendeu-nos o horror dos cenrios onde so encontrados os cadveres. E comeamos a esperar com expectativa o momento em conhecer finalmente o autor dos crimes.
Com exceo do disparo da arma de Mills, na ltima cena, no h momentos de violncia ativa no filme. Mas nem por isso deixa de ser um filme violento, porque o estado em que os cadveres so encontrados testemunho do plano diablico engendrado e cria no espectador a sensao de perigo iminente.
Por isso, sabemos que algo no vai correr bem a partir daquela ltima viagem de carro. A personagem de Spacey foca-se na de Brad Pitt. ele o alvo da sua obsesso. No meio do nada, um estafeta entrega uma caixa de carto a Mills. Somerset descobre que, l dentro, est a cabea decepada da mulher de Mills, Tracy (Gwyneth Paltrow), que estava grvida.
Este artigo aborda a temtica da psicopatia atravs da lente do diretor David Fincher em seu filme SEVEN, os sete crimes capitais", exibido no ano de 1995, que impressiona a todos pelo seu magnfico roteiro. Como entrar na mente de um serial killer? Entender a motivao de seu desejo, a estruturao de sua subjetividade, a moo pulsional que o impele a ser e sentir o mundo de forma to peculiar? Estes questionamentos nos impelem a seguir investigando.
O filme SEVEN "os sete crimes capitais" apresenta o lado obscuro da mente de um serial killer, que pensa e age de uma forma muito particular. Seu modus operandi se baseia nos sete pecados capitais: gula; cobia; preguia; luxria; vaidade; inveja e ira. Estes so comportamentos que no podem ser dissociados do humano e que so considerados pecados pelo catolicismo desde a Idade Mdia. No entanto, esse modo de fazer atuar seu pensamento vai alm das fronteiras do territrio religioso, alcanando algo muito mais primitivo, algo que se desenha nas entranhas do humano: a mais pura essncia da loucura ou da anormalidade.
O conhecimento cinematogrfico se pe em contato com uma espcie de trabalho do inconsciente especialmente por privilegiar o uso da imagem. Nesse sentido, a leitura psicanaltica encontra assento cativo no cinema. E ao trabalharmos este filme, a psicopatia convida a psicanlise a decifrar esse enigma da psique humana que se esconde atravs da mscara da morte, do sinistro, do que inominvel.
A histria do filme se desenrola em sete dias e se passa na chuvosa e sombria cidade de Los Angeles, onde dois detetives que apresentam caractersticas bem diferentes acabam de se conhecer e so encarregados de uma arriscada investigao. A primeira cena do filme se produz em torno da morte de um homem que havia sido assassinado pela sua esposa. O detetive William Somerset, interpretado por Morgam Freeman, visita o local do crime no exato momento em que o perito afirma: "crime passional". O detetive ironizando responde: "Olhe a paixo na parede". Somerset um policial maduro, reflexivo, solteiro e solitrio, admirado pela sua experincia, mas bastante cansado.
A sete dias de sua aposentadoria conhece o detetive David Mills, interpretado por Brad Pitt, um policial jovem, impetuoso e cheio de iluses, recm transferido de uma pacata cidade do interior para substitu-lo. casado com Tracy, professora de escola primria, interpretada por Gwyneth Paltrow.
Somerset, antes de sair de casa, num gesto extremamente simblico aciona o metrnomo, disposto sobre sua mesa de cabeceira. A apenas sete dias de se desligar da corporao, acontece o primeiro dos sete crimes capitais.
Os detetives vo investigar uma desagradvel cena de crime onde um homem imensamente gordo foi amarrado e obrigado a comer at a morte. Atrs da geladeira est escrito em gordura, a palavra GULA. O primeiro crime condena o gluto morte, pois o pecado da gula traduzido pelo desejo incontrolvel por comida. O obeso aparece como a figura que traz gravada em seu corpo a face do pecado capital.
Ao refletir sobre o crime diz: "Quando voc quer matar algum chega perto e atira. No se arrisca 12 horas para matar, a no ser que o ato tenha um significado". E esse no um ato isolado e tem um significado, pois os assassinos em srie so predadores que usam intimidao e violncia para controlar suas vtimas e satisfazer suas prprias necessidades. Devido a sua ausncia de empatia para com os outros, eles violam as normas sociais sem o menor senso de culpa ou arrependimento.
Tomando o DSM IV como base, encontramos que tanto o psicopata quanto o sociopata so classificados como casos de Transtorno de Personalidades Anti-sociais. J na CID 10 consta o termo Personalidades Dissociais. De acordo com a Associao Americana de Psiquiatria este termo utilizado para aqueles indivduos de comportamento habitualmente anti-social, que se apresentam sempre inquietos, incapazes de extrair qualquer experincia dos fatos passados ou dos castigos recebidos. Geralmente so pessoas insensveis e hedonistas, de imaturidade emocional muito acentuada, e com muita habilidade para racionalizar seu comportamento de modo a que parea correto e sensato.
Os transtornos da personalidade so anomalias do desenvolvimento psicolgico que perturbam a integrao psquica de forma contnua e persistente. De modo geral, a psicopatia representa uma falha no processo de formao da personalidade, cuja caracterstica essencial do transtorno seria um padro de desrespeito e violao dos direitos dos outros. A extrema crueldade e insensibilidade emocional, assim como o engodo e a manipulao maquiavlica das outras pessoas so aspectos centrais neste transtorno da Personalidade.
Sob o ponto de vista intelectual, ele no possui qualquer prejuzo de sua capacidade de discernimento entre o certo e o errado, porm, no plano da afetividade carece de emoes morais, sentimento de culpa, arrependimento, piedade ou vergonha. O psicopata no um deficiente mental, ele possui uma boa fluncia verbal e uma inteligncia normal ou acima da mdia, geralmente uma pessoa encantadora que possui uma excepcional capacidade de manipulao e seduo. Mentir, enganar e manipular so talentos naturais para o psicopata, sendo difcil desmascarar suas mentiras.
A indiferena emocional o que o torna to perigoso, pois lhe permite cometer os crimes mais hediondos sem remorso. O psicopata uma pessoa sem valor moral e tico, sem considerao pelo outro, com total insensibilidade, mas plenamente responsvel pelos seus atos.
Pouco tempo depois acontece o segundo crime. Um famoso advogado da cidade violentamente assassinado, e a palavra COBIA est pintada na parede, com seu prprio sangue, mas as digitais so da prxima vtima.
A cobia um desejo descontrolado de adquirir riqueza material. A possibilidade de ter muitas coisas o que seduz e d prazer. O advogado encontrado amarrado com a cabea sobre seus livros, com o rosto e um pedao de carne do quadril cortados. A posio sacrifical aparece como forma de remisso do pecado. Dessa forma, procedeu o advogado, soltando criminosos para obter dinheiro e poder, portanto, morre, oferecendo-se diante do prprio objeto de seus crimes: os livros. Assim sendo, a colocao de sua prpria carne na balana da justia sobre sua mesa serve para redimi-lo de seu pecado.
Somerset l um trecho retirado da obra O Mercador de Veneza de William Shakespeare que o psicopata havia deixado: "Uma libra de carne. Nem mais, nem menos. Sem cartilagem, sem osso, s carne. Cumprida esta tarefa ele estaria livre".
Uma mente que arquiteta lentamente seu projeto salvacionista e que no meio de sua desorganizao catica encontra toda a sua lgica. Seu desejo punir sete pessoas segundo seus pecados capitais com vistas absolvio. O que leva Somerset a dizer que: "Estes crimes so atries foradas. Ele deve ter deixado outra pea do quebra-cabea. Coisas que ns deveramos ver, mas no vemos. Coisas que vemos, mas no percebemos ou ocultamos, pois sempre pode haver algo que deixamos passar".
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