Não sei de onde veio a expressão "obras básicas", nem de onde se tiraram que os livros de Allan Kardec são só cinco. Só sei que isso não encontra respaldo fático (traduzindo: não é real). Em uma de suas últimas obras, o "Catálogo Racional de Obras para se fundar uma Biblioteca Espírita", logo na primeira seção, intitulada "Obras fundamentais da doutrina espírita", ele expõe 22 títulos, que são: O Livro dos Espíritos; O Livro dos Médiuns; O Evangelho segundo o Espiritismo; O Céu e o Inferno; A Gênese; O que é o Espiritismo?; O Espiritismo em sua mais simples expressão; Resumo da lei dos fenômenos espíritas; Caracteres da revelação espírita; Viagem espírita em 1862; Revista Espírita. Fazendo as contas (10 livros, mais 12 anos da Revista Espírita, cada um constituindo um volume), se chegará ao número verdadeiro. Poderão haver divergências leves no tocante ao total, dependendo da forma que se conte, pois um dos livros (Caracteres da revelação espírita), é simplesmente uma separata[2] de A Gênese, constituindo seu capítulo 1, o que faria com que esta publicação não fosse contada. Outros poderão arguir que, por Kardec ter desencarnado antes da publicação do ano de 1869 da Revista Espírita, o último ano não deveria ser contado, o que, a meu ver, não faz muito sentido, já que ele lançou 11 anos seguidos, não havendo razão para não lançar o décimo segundo. De todo modo, o que fica claro é que criou-se uma cultura que restringe o número de obras da sistematização a 5 e, uma vez que elas já foram lidas, caso o tenham sido, parte-se para outros livros que, como será demonstrado em capítulo apropriado, não podem ser considerados parte integrante da Doutrina Espírita. Ademais, isso impede que se tenha um conhecimento realmente mais vasto, tanto da História da Ciência Espírita, quanto do que ela fala e não fala, apoia e não apoia, é e não é. No primeiro caso, temos como exemplo o fato de que, além das 22 fundamentais, existem 10 outras publicações (entre elas, nem todas são de autoria de Kardec, como a imagem do auto de fé de Barcelona), que podem ser verificadas em uma lista completa presente no site
http://gruporivail.blogspot.com.br/. Já no segundo, como se verá mais à frente, nem tudo o que existe sobre a Ciência Espírita está nos 5 livros mais famosos, e, para completá-lo, é necessário recorrer às outras fundamentais. Esse "pentateuquismo" que se elaborou e se alastrou no seio do movimento espírita brasileiro faz com que, quando se fale em aprofundar os estudos do Espiritismo, se pense e se pratique recorrer a livros dos "santos" proclamados pelo movimento (vide capítulo VI), deixando de lado a verdadeira coletânea de obras espíritas e, em especial, relegando ao esquecimento, a fantástica Revista Espírita, o que cria confusão e faz propaganda equivocada, indevida, da Doutrina dos Espíritos.