Tábula rasa, de Steven Pinker.

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Lennine

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Apr 3, 2008, 3:10:55 PM4/3/08
to Filosofia - USJT
Outra posição relativista, negacionista da natureza humana, é aquele estória de que não-sei-quê vem "do espírito da humanidade"... como é mesmo o nome? Husserl, pois sim.

Saudações naturalistas
Lennine.
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"Outro livro sobre natureza e criação! Ainda existe gente que acredita que a mente é uma tábula rasa? Não é óbvio para qualquer pessoa com mais de um filho, para qualquer pessoa que tenha tido um relacionamento heterossexual ou para qualquer pessoa que tenha notado que as crianças aprendem a língua mas os animais domésticos não, que os indivíduos nascem com certos talentos e temperamentos? Já não superamos a dicotomia simplista entre hereditariedade e ambiente e percebemos que todo comportamento provém da interação entre ambos?"

Esse é o tipo de reação que vi em meus colegas quando lhes expliquei meus planos para este livro. À primeira vista, não é uma reação despropositada. Talvez a questão da natureza versus criação já esteja encerrada. Quem está familiarizado com as obras atuais sobre mente e comportamento tem visto argumentos em favor de um meio-termo como:

#Se o leitor agora estiver convencido de que a explicação da genética ou a explicação do ambiente venceu excluindo a outra, não teremos feito um trabalho suficientemente bom na apresentação de um lado ou do outro. A nosso ver, é muito provável que tanto os genes como o ambiente tenham sua importância nesta questão. Qual poderia ser a combinação? Somos decididamente agnósticos neste problema; até onde podemos determinar, os dados ainda não justificam uma estimativa.#

#Este não será mais um daqueles livros afirmando que a genética é tudo: não é. O ambiente é tão importante quanto os genes. O que as crianças vivenciam durante seu crescimento é tão importante quanto aquilo com que elas já nascem.#

#Mesmo quando um comportamento é hereditário, o comportamento de um indivíduo ainda é produto do desenvolvimento e, portanto, possui um componente causal ambiental. [...] A visão moderna de como os fenótipos são herdados pela replicação tanto das condições genéticas como das ambientais leva a crer que [...] as tradições culturais – comportamentos que as crianças copiam dos pais – provavelmente são cruciais.#

Se você acha que esses são meio-termos inócuos mostrando que todo mundo já superou o debate natureza-criação, pense melhor. Na verdade, essas citações provêm de três dos livros mais incendiários da última década. A primeira foi extraída de The Bell Curve ["A curva normal", sem tradução em português], de Richard Herrnstein e Charles Murray, para quem a diferença nas médias dos resultados de testes de QI entre negros e brancos americanos tem causas genéticas e ambientais. A segunda vem de The nurture assumption [Diga-me com quem anda, na tradução para o português], de Judith Harris, para quem a personalidade da criança é moldada por seus genes e pelo seu ambiente, e portanto a semelhança entre filhos e pais podem ser devidas ao fato de terem genes em comum, e não apenas aos efeitos da educação. A terceira é encontrada em A natural history of rape ["Uma história natural do estupro", sem tradução para o português], de Randy Thornhill e Craig Palmer, que argumentam que o estupro não é simplesmente um produto da cultura, mas tem raízes também na sexualidade masculina. Por terem invocado a criação e a natureza, e não somente a criação, esses autores foram acuados, vaiados, duramente atacados pela imprensa e até criticados no Congresso. Outros que expressaram opiniões nessa linha foram censurados, agredidos ou
ameaçados de processo criminal.

A idéia de que natureza e criação interagem e moldam alguma parte da mente pode até vir a revelar-se errada, mas não é débil nem inatacável, mesmo no século XXI, milhares de anos depois de a questão ter sido colocada. Quando se trata de explicar o pensamento e o comportamento humanos, a possibilidade de a hereditariedade ter algum papel, seja ele qual for, ainda tem o poder de escandalizar. Admitir a natureza humana, muita gente pensa, é endossar o racismo, o sexismo, a guerra, a ganância, o genocídio, o niilismo, a política reacionária e o descaso com as crianças e os desfavorecidos. Qualquer afirmação de que a mente possui uma organização inata é interpretada não como uma hipótese que pode ser incorreta, mas como um pensamento imoral até para ser cogitado.

Este livro trata das colorações morais, emocionais e políticas do conceito de natureza humana na vida moderna. Reconstituirei a história que levou as pessoas a ver a natureza humana como uma idéia perigosa, procurando desenredar as armadilhas morais e políticas que emaranharam a idéia ao longo do caminho. Embora nenhum livro sobre a natureza humana possa ter esperança de não causar polêmica, não o escrevi para que fosse mais um livro "explosivo", como se diz nas sobrecapas. Não estou, como muitos supõem, contrabalançando uma posição extrema a favor da "criação" com uma posição extrema a favor da "natureza", deixando a verdade em algum ponto intermediário. Em alguns casos, uma explicação que dá predominância extrema ao ambiente é correta: a língua que falamos é um exemplo óbvio, e as diferenças entre raças e grupos étnicos nas pontuações de testes podem ser outro. Em outros
casos, como o de certos distúrbios neurológicos hereditários, uma explicação extremamente fundamentada na hereditariedade é correta. Na maioria dos casos, a explicação correta invocará uma complexa interação entre hereditariedade e ambiente: a cultura é crucial, mas a cultura não poderia existir sem faculdades mentais que permitam aos seres humanos criar e aprender a cultura. Meu objetivo neste livro não é argumentar que os genes são tudo e a cultura não é nada – ninguém acredita nisso –, e sim investigar por que a posição extrema (de que a cultura é tudo) é tão freqüentemente vista como moderada, e a posição moderada é vista como extrema.

Tampouco admitir a natureza humana tem as implicações políticas que muitos temem. Não requer, por exemplo, que se abandone o feminismo ou que se aceitem os atuais níveis de desigualdade ou violência, nem que se trata a moralidade como ficção. De modo geral, tentarei não advogar políticas específicas nem apoiar propostas políticas de esquerda ou de direita. Acredito que as controvérsias sobre políticas quase sempre envolvem trade-offs entre valores concorrentes, e que a ciência está equipada para identificar esses trade-offs, mas não para resolvê-los. Muitos desses trade-offs, como demonstrarei, originam-se de características da natureza humana, e ao trazê-los à luz espero tornar mais bem fundamentadas as nossas escolhas coletivas, sejam elas quais forem. Se estou advogando algo, são as descobertas sobre a natureza humana que foram menosprezadas ou suprimidas nas discussões modernas
dos assuntos humanos.

Por que é importante esclarecer tudo isso? A recusa em admitir a natureza humana é equivalente ao constrangimento vitoriano com o sexo, só que pior: ela distorce nossa ciência e nosso trabalho acadêmico, nosso discurso público e nossa vida cotidiana. Os lógicos dizem que uma única contradição pode corromper uma série de afirmações e permitir a proliferação de falsidades nesse encadeamento. O dogma de que a natureza humana não existe, diante dos fatos obtidos pela ciência e do bom senso indicando que ela existe, é justamente uma dessas influências corruptoras.

Primeiro, a idéia de a mente é uma tábula rasa distorceu o estudo dos seres humanos e, assim, as decisões políticas e privadas que se guiam por essa investigação. Muitas políticas voltadas para a criação de filhos, por exemplo, inspiram-se em pesquisas que encontram correlação entre o comportamento dos pais e o comportamento dos filhos. Pais amorosos têm filhos confiantes, pais autoritários (não muito permissivos nem muito punitivos) têm filhos bem-comportados, pais que conversam com suas crianças têm filhos com maiores capacidades verbais e assim por diante. Todo mundo conclui que para criar os melhores filhos os pais têm de ser amorosos, autoritários e conversadores, e se os filhos não se saem bem na vida a culpa tem de ser dos pais. Os pais, lembremos, fornecem aos filhos os genes, e não só o ambiente do lar. As correlações entre pais e filhos podem estar nos dizendo unicamente que os mesmos genes que fazem os adultos serem amorosos, autoritários e conversadores fazem seus filhos serem autoconfiantes, bem-comportados e bem-falantes. Até que os estudos sejam refeitos com filhos adotivos (que recebem dos pais apenas o ambiente, e não os genes), os dados são compatíveis com as possibilidades de os genes serem fundamentais, de a criação ser fundamental, ou de qualquer coisa intermediária entre essas duas hipóteses. Contudo, em quase todos os casos, a posição mais extrema – a de que os pais são tudo – é a única contemplada pelos pesquisadores.

O tabu da natureza humana não só põe antolhos nos pesquisadores mas também faz de qualquer discussão sobre o tema uma heresia que precisa ser aniquilada. Muitos autores, de tão desesperados para desabonar toda insinuação de uma constituição humana inata, jogam a lógica e a civilidade pela janela. Distinções elementares – entre "alguns" e "todos", "provável" e "sempre", "é" e "tem de ser" – são sofregamente menosprezadas a fim de que a natureza humana seja pintada como uma doutrina extremista e, com isso, os leitores sejam conduzidos para longe delas. A análise de idéias é comumente substituída por difamações políticas e críticas pessoais. Esse envenenamento da atmosfera intelectual privou-nos dos instrumentos para analisar questões prementes sobre a natureza humana, justamente quando novas descobertas científicas as tornam críticas.

A negação da natureza humana transbordou da academia e provocou uma desconexão entre a vida intelectual e o bom senso. A idéia de escrever este livro ocorreu-me quando comecei a fazer uma coleção de assombrosas afirmações de sumidades e críticos sociais acerca da maleabilidade da pisque humana: os meninos brigam e lutam porque são incentivados a isso; as crianças gostam de doces porque os pais os usam como recompensa por comerem verduras; os adolescentes têm a idéia de competir na aparência e na moda por causa dos concursos de ortografia e prêmios acadêmicos; os homens pensam que o objetivo do sexo é o orgasmo devido ao modo como foram socializados. O problema não é só essas afirmações serem despropositadas, mas também os autores não reconhecerem que estão dizendo coisas passíveis de serem questionadas pelo bom senso. Essa é a mentalidade de um culto no qual crenças fantásticas são alardeadas como prova de devoção. Tal mentalidade não pode coexistir com o apreço pela verdade, e a meu ver é responsável por algumas das lamentáveis tendências da vida intelectual recente. Uma dessas tendências é um desprezo declarado de muitos estudiosos pelos conceitos de verdade, lógica e fato. Outra é uma divisão hipócrita entre o que os intelectuais dizem em público e aquilo em que realmente acreditam. A terceira é a reação inevitável: uma cultura de comunicadores de massa "politicamente incorretos" que se deleitam com o antiintelectualismo e a intolerância, encorajados pela certeza de que o establishment intelectual perdeu o direito à credibilidade aos olhos do público.

Finalmente, a negação da natureza humana não apenas corrompeu o mundo dos críticos e intelectuais mas também prejudicou a vida de pessoas reais. A teoria de que os pais podem moldar os filhos como argila impingiu aos pais métodos de educação que são antinaturais e às vezes cruéis. Distorceu as escolhas que se ofereciam às mães quando tentavam equilibrar suas vidas e multiplicou a angústia de pais cujos filhos acabaram não correspondendo às expectativas paternas. A crença de que os gostos humanos são preferências culturais reversíveis levou planejadores sociais a desconsiderar que as pessoas apreciam a ornamentação, a luz natural e a escala humana, e forçou milhões a viver em insípidas caixas de cimento. A idéia romântica de que todo mal é produto da sociedade justificou a libertação de perigosos psicopatas que logo em seguida assassinaram pessoas inocentes. E a convicção de que a humanidade poderia ser reestruturada por gigantescos projetos de engenharia social gerou algumas das maiores atrocidades da história.

Embora muitos de meus argumentos sejam friamente analíticos – o reconhecimento da natureza humana não implica, logicamente falando, os resultados negativos que muitos temem –, não tentarei esconder minha opinião de que eles também têm um intuito positivo. "O homem se tornará melhor quando lhe for mostrado como ele é", escreveu Tchekov; portanto as novas ciências da natureza humana podem ajudar na condução a um humanismo realista e fundamentado na biologia. Elas revelam a unidade psicológica de nossa espécie sob as diferenças superficiais da aparência física e da cultura local. Levam-nos a avaliar a prodigiosa complexidade da mente humana, que tendemos a deixar passar despercebida precisamente porque funciona tão bem. Identificam as intuições morais que podemos empregar para melhorar nossas condições. Prometem a naturalidade nos relacionamentos humanos, encorajando-nos a tratar as pessoas segundo o modo como elas realmente se sentem, e não como alguma teoria afirma que deveriam se sentir. Proporcionam uma pedra de toque com a qual podemos identificar as racionalizações dos poderosos. Dão-nos um modo de enxergar através dos desígnios de autonomeados reformistas sociais que querem nos livrar de nossos prazeres. Renovam nosso apreço pelas conquistas da democracia e da soberania do direito. E intensificam as percepções intuitivas de artistas e filósofos que há milênios refletem sobre a condição humana.

Uma discussão honesta sobre a natureza humana nunca foi mais oportuna. Por todo o século XX, muitos intelectuais tentaram assentar princípios de decência em afirmações de base factual precária como as de que os seres humanos são biologicamente indistinguíveis, não têm motivações ignóbeis e são totalmente livres na capacidade de fazer escolhas. Essas afirmações agora vêm sendo questionadas graças a descobertas das ciências da mente, cérebro, genes e evolução. No mínimo, a conclusão do Projeto Genoma Humano, com sua promessa de uma compreensão sem precedentes das raízes genéticas do intelecto e das emoções, deveria servir como um toque de despertar. A nova refutação científica da negação da natureza humana nos deixa um desafio. Se não pretendemos abandonar valores como a paz e a igualdade, ou nosso comprometimento com a ciência e a verdade, temos de apartá-los das afirmações sobre nossa constituição psicológica que são suscetíveis de revelar-se comprovadamente falsas.

Este livro é para as pessoas que se perguntam de onde veio o tabu da natureza humana e que estão dispostas a investigar se os questionamentos desse tabu são verdadeiramente perigosos ou apenas pouco conhecidos. É para quem tem curiosidade pelo perfil que está emergindo de nossa espécie e pelas críticas legítimas a esse perfil. É para quem suspeita que o tabu da natureza humana nos deixou jogando sem um baralho completo quando lidamos com as questões urgentes com que deparamos. E é para quem reconhece que as ciências da mente, cérebro, genes e evolução estão permanentemente mudando nossa concepção sobre nós mesmos, e se pergunta se os valores que prezamos definharão, sobreviverão ou (como procurarei mostrar) serão fortalecidos.

[...]

PINKER, Steven. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 684p. Prefácio.
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