ALFRED JARRY E O COLÉGIO DE PATAFÍSICA

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wilson coelho

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May 14, 2011, 9:38:08 AM5/14/11
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ALFRED JARRY E O COLÉGIO DE PATAFÍSICA[1]

A ciência das soluções imaginárias

_________________

Adolfo Vásquez Rocca

(Trad. Wilson Coelho)

1.- Alfred Jarry precursor do Dadaísmo.

            Alfred Jarry precursor do Dadaísmo, do Surrealismo e do Absurdo, recém-chegado a Paris, de Leval, a cidade que lhe vira nascer aos 8 de setembro de 1873, se converteu em um habitué dos cenáculos freqüentados pelos poetas simbolistas.

            Aluno de Henri Bergson, na Sorbonne, o ainda incipiente dramaturgo era um homem extremamente cultivado, cujos versos e artigos eram já colaborações habituais na ‘Revue Blanche’ (Revista Branca), chegando o mesmo a ser o fundador de L’Imagier. Consegue o aplauso da grande Paris, em 1896, com ‘Ubu rei’, comédia satírica na qual se mesclam referências a ‘Macbeth’, com os excessos de um monarca tão tirano com nobres e plebeus como covarde na guerra.

            Contra todo prognóstico, o êxito que conhece ‘Ubu rei’, na Paris do final da belle époque, é tal que Jarry escreve uma segunda parte com o título de ‘Ubu acorrentado’ (1900). A glória literária corre em paralelo com a autodestruição a que o dramaturgo parece irremediavelmente condenado. Alternando realidade e ficção em seus delírios de bêbado, escreve ‘O amor absoluto’ (1899), ‘Messalina’ (1901) e a curiosa novela ‘O supermacho’, definida em sua edição espanhola como “uma mostra dos jogos aos que a teoria e a prática do amor podem entregar-se tendo por rival às máquinas, à velocidade, a todas as fantasias dos avanços científicos de começos do século XX”. Para a crítica, tão singular obra veio a ser um curioso exemplo de “futurismo grotesco”.

            O teatro do século XX começa a espreitar suas novas possibilidades – antecipando a Beckett – na noite de 10 de dezembro de 1896; com a estréia de Ubu rei, Jarry não só renovou a escritura dramática, como também os conceitos da encenação, passando pelo figurino, a maquiagem e, fundamentalmente, a atitude do ator.

            Alfred Jarry, de quem André Breton diria anos mais tarde que “aniquilou como princípio a diferença entre arte e vida”, montava numa bicicleta e pescava, era destro no uso da espada e levava quase sempre duas pistolas descarregadas com as quais disparava simbolicamente contra todo pseudo-artista ou impostor intelectual que cruzava em seu caminho. Ao que tudo pese, foi fulminado a queima-roupa por suas próprias pulsões autodestrutivas. Jarry morre alcoolizado, em 1907, não chegando a ver a publicação de ‘Gestas e opiniões do doutor Faustroll, patafísico’. A partir de sua leitura, seus muitos admiradores queriam por em prática uma ciência chamada “patafísica”, dedicada ao estudo das soluções imaginárias e as leis que regulam as exceções.

2.- O Collège de Pataphysique.

            Alfred Jarry inventa, assim, a Patafísica, “ciência das soluções imaginárias que outorga simbolicamente às delineações dos corpos as propriedades dos objetos descritas por sua virtualidade”, em sua obra Gestas e opiniões do doutor Faustroll, patafísico[2].

            A partir desta obra fundacional, o Colégio de Patafísica se define como uma “sociedade douta e inútil dedicada ao estudo das soluções imaginárias”.

            A Patafísica sobreviveu a Jarry, criando-se em 11 de maio de 1948, como contraponto irônico ao prestigioso Collége de France, o Collége de Pataphysique. Este Collége contou com ilustres sócios, entre os quais se encontram Raymond Queneau, Jacques Prévert, Max Ernest, Eugène Ionesco, Joan Miró, Boris Vian, Marcel Duchamp, Jean Dubuffet, René Clair, entre outros. Aqui, Boris Vian, Jacques Prévert e sua gata Labyronette acolheram as maiores festas do Colégio e, mais precisamente, todas as que celebraram ao Barão Mollet.

            O Colégio de Patafísica decretou um período de ocultação, mas – segundo parece – aos 20 de abril de 2000 – celebraram a Desocultação. Anunciavam uma exposição de “Entradas, Nadas e Miragens”, mas ao aparecer ninguém a encontrou.

3.- A Patafísica como ciência das soluções imaginárias.

            A Patafísica é a ciência que se soma à Metafísica, bem como a si mesma, bem como fora de si mesma, e se estende para além desta, tão distante como esta se encontra da física. Um epifenômeno é o que se acrescenta a um fenômeno. Ao ser com freqüência o fenômeno um acidente, a Patafísica será sobretudo a ciência do particular, por mais que se afirme que só há uma ciência do geral. A Patafísica é a ciência das soluções imaginárias que atribui simbolicamente aos delineamentos as propriedades dos objetos descritos por sua virtualidade.

            A Patafísica estuda as leis que regem as exceções e explica o universo complementar ou, menos ambiciosamente, descreve o universo que podemos ver e que, talvez, devemos ver no lugar do tradicional. As leis do universo tradicional que cremos descobrir, ao ser também correlações de exceção, ainda que mais freqüentes, em todo caso de feitos acidentais, que se reduzem a exceções pouco excepcionais, não têm sequer o atrativo da singularidade.

            A idéia central da Patafísica é a consideração das leis gerais da física como um conjunto de exceções não excepcionais e, em conseqüência, sem nenhum interesse. Em suma, a regra é uma exceção à exceção. Este é o centro da “dialética” patafísica. E só a exceção é o que faz avançar a ciência. Para isso, basta recordar os princípios de Fleming, de Pasteur ou de qualquer desses ilustres cientistas para constatar que todo verdadeiro descobrimento acontece por acaso. Neste ponto é impossível não notar as similitudes com o que 30 anos mais tarde Popper[3] enunciaria como o Princípio de falsificação ou de refutabilidade.

4.- Deleuze: Jarry como antecendente de Heidegger.

            Agora, é Deleuze quem situa Jarry como um antecedente e fundamental, um precursor desconhecido, de Heidegger. A Patafísica (epi tà metà tà phusicà), segundo assinala Deleuze[4], tem precisa e explicitamente como objeto o gran giro, a superação da metafísica, o passo atrás mais além ou mais pra cá, “a ciência do que se adiciona à metafísica, seja em si mesma, seja fora dela, estendendo-se tanto mais distante desta como esta da física”[5]. Até o ponto de que cabe considerar a obra de Heidegger como um desenvolver da patafísica conforme os princípios de Sófrates, o armênio, e de seu primeiro discípulo, Alfred Jarry. As grandes similitudes, memoriais ou historiais, concernem ao ser do fenômeno, a técnica e o tratamento da língua.

            Em primeiro lugar, a patafísica como superação da metafísica é inseparável de uma fenomenologia, é dizer de um novo significado e de uma nova compreensão do fenômeno. Trata-se de uma similitude alucinante entre ambos autores. O fenômeno já não pode ser definido como uma aparência; mas tampouco se definirá, como na fenomenologia de Husserl, como uma aparição. A aparição remete a uma consciência ao que se lhe aparece, e assim mesmo pode existir sob uma forma distinta daquela que faz aparecer. O fenômeno, pelo contrário, é o que se mostra a si mesmo em si mesmo[6].

            O “sendo” pode inclusive parecer uma degradação do ser, e a vida, do pensamento, mas, mais ainda, se dirá que o “sendo” corta a passagem ao ser, o mata e o destrói, o que a vida mata ao pensamento. A metafísica, toda ela, cabe no retraimento do ser ou o esquecimento, porque confunde o ser com o sendo. A técnica como domínio efetivo do sendo é a herdeira da metafísica: a termina, a realiza. A ação e a vida têm matado o pensamento[7].

            Diria-se, em ambos autores, que a sede é a sede de um combate no que já se perde o ser no esquecimento, no retraimento, ou se produz o contrário e se mostra e se desvela. Não basta, em efeito, opor o ser e seu esquecimento, o ser e seu retraimento, posto que o que define a perda do ser é mais bem o esquecimento do esquecimento, o retraimento do retraimento, enquanto que o retraimento e o esquecimento constituem o modo em que se mostra ou pode se mostrar. A essência da técnica não é técnica, e “encerra a possibilidade de que o que salva surja em nosso horizonte”.

            Em Jarry, cabe precisar, esta abertura do possível também tem necessidade da ciência tecnicizada. E se Heidegger define a técnica pela ascensão de um “fundo” que apaga o objeto em benefício de uma possibilidade de ser, Jarry, por sua vez, considera a ciência e a técnica com a revelação de uns planos que correspondem às potencialidades ou virtualidades de um objeto: a bicicleta, por exemplo, constitui precisamente um excelente modelo, portanto, constituído por “vergônteos rígidos articulados e volantes impulsionados por um rápido movimento de rotação”[8]. Neste sentido, a patafísica comporta já uma grande teoria das máquinas, e supera as virtualidades do sendo até a possibilidade de ser.

            A ciência, em efeito, trata o tempo como variável independente: por isso as máquinas são essencialmente máquinas de explorar o tempo, “tempo-móbiles” mais que locomóbiles. A ciência sob esse caráter técnico faz primeiro possível um tombo patafísico do tempo.

            Jarry talvez lembre seu professor Bergson quando recupera o tema da Duração, à que define primeiro por uma imobilidade na sucessão temporal (conservação do passado), logo, como uma exploração do futuro ou uma abertura do porvir: “A Duração é a transformação de uma sucessão em reversão, é dizer: o devir de uma memória.” Se trata de uma profunda reconciliação da Máquina e a Duração[9].

            Nesse passo da ciência à arte, nessa reversão da ciência em arte, Heidegger recupera talvez um problema familiar de finais do século XIX, idéia que já encontramos em Jarry, particularmente em sua tese sobre a anarquia: no fazer-desaparecer, na consideração estética do crime, ao modo como é proposto por De Quincey[10], a quem Jarry admira profundamente.

Adolfo Vásquez Rocca é Doutor em Filosofia pela Pontífice Universidade Católica de Valparaiso. Pós-graduado pela Universidade Complutense de Madri, Departamento de Filosofia IV, Estética e Pensamento Contemporâneo. Artista Plástico e Especialista em Filosofia Contemporânea. Professor do Programa de Pós-graduação do Instituto de Filosofia da Pontífice Universidade Católica de Valparaiso, de Antropologia Filosófica na Escola de Medicina e Filosofia Política na Faculdade de Filosofia e Humanidades da Universidade Andrés Bello. Editor da Revista Observaciones Filosoficas HTTP://observaciones.sitesled.com/ e da Revista de Antropologia Médica, UNAB.

 



NOTAS

[1] Escrito por ocasião do Simpósio sobre Patafísica, celebrado na Faculdade de Belas Artes de Madri, em outubro de 2004 (29 de haha de 8479) e publicado originalmente em Zona Moebius, ano 3, sob o titulo “Alfred Jarry: patafísica, virtualidade e heterodoxia”. Simpósio que teve participação da Sociedade Neopatafísica de Madri, eme = M, arte ácaro (Mad/Gi/Bs. Aires), o Outro Ilustre Colégio de Patafísica (Uburriana e Valença), Ecrevisse (Zaragoza), Pepitas de Calabaza (La Rioja) e Oscar Dedos Agujereados (Palencia). O Simpósio conseguiu reunir importantes facções relacionadas à patafísica, coletivos que ainda sem aclamar a oficialidade de sua dedicação nem sua exclusividade não deixam de ter relevância imaginária.

[2]Gestes et Opinions du Docteur Faustroll, Pataphysique”, acabado em 1898 e publicado 4 anos depois da morte de Alfred Jarry, em 1911.

[3] POPPER, Karl. “La lógica de la Investigación Científica”, Ed. Tecnos, Madrid, 1982. A tese central de Karl Popper é o refutacionismo, uma postura mediante a qual este pensador busca estabelecer uma demarcação entre o que é ciência e o que não o é: são científicos aqueles enunciados que podem ser refutados. Contrapondo ao intento de confirmar as próprias teorias a intenção de refutá-las, deduz sua teoria que o que define o caráter científico de uma teoria é sua contrastabilidade, e o que define esta é a refutabilidade, e que uma teoria é cientifica e significativa só se é em princípio incompatível com alguns fenômenos observáveis. A falsabilidade de uma hipótese implica mais que uma mudança terminológica frente à verificabilidade indutivista: implica que toda conjectura se mantém sempre em conjectura, ainda que esteja corroborada, pois não pode ser necessariamente falsificada nem necessariamente corroborada. A fundamentação da refutabilidade como critério leva ao desenvolvimento de uma nova concepção de ciência e de teoria científica.

[4] DELEUZE, Gilles. Crítica y clínica. Traduzido por Thomas Kauf, Editorial Anagrama, Barcelona, 1996, pp. 128-139. Titulo original: “Critique et clinique”, Les Éditions de Minuit, Paris, 1993.

[5] JARRY, Alfred. Faustroll, II, 8,Plêiade II, p. 668 (Feitos e ditos do Dr. Faustroll. Patafísico, Mandrágora, 1975).

[6] HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo, FCE, 1993, parágrafo 7 (“A ontologia só é possível como fenomenologia”, mas Martin Heidegger reivindica em maior medida aos gregos que Husserl).

[7] HEIDEGGER, Martin. Questões IV, “Tempo e Ser”, Gallimard: “sem circunspecção pela metafísica”, nem sequer “intenção de superá-la”.

[8] “A Paixão considerada como uma corrida em encosta”, La Chandelle Verte, (Plêiade II, pp. 420-422) (La Candela Verde, Felmar, 1977).

[9] A construção “prática”, que expõe o conjunto da teoria do tempo de Jarry: trata-se de um texto obscuro e muito formoso, que deve relacionar-se tanto com Bergson quanto com Heidegger.

[10] Thomas de Quincey (Manchester, Reino Unido, 1785-Edimburgo, 1859). Escritor, ensaísta e crítico britânico. Possuidor de um humor cáustico, importante sobretudo graças à sua corrosiva obra Do assassinato considerado como uma das belas artes (1829).

 

 

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