Algumas observaçoes sobre musica, discurso e o universal

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felipe cardoso

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Dec 11, 2010, 6:09:56 PM12/11/10
to filomusicos
As músicas se assemelham aos discursos, quanto às frases e suas
partes: no discurso, algumas palavras isoladamente possuem significado
próprio, mas outras não comunicam nada por si, como os artigos, as
preposicões, conjuncoes, embora contribuam para o significado total da
frase. Logo, a frase como um todo possui um significado preciso,
enquanto as palavras podem mudar de significado a depender de outras
ao seu redor: assim, dizer apenas "guarda" é diferente de dizer
"guarda-chuva", e o significado do todo é distinto em cada caso. Na
música parece ocorrer algo semelhante: embora os acordes isoladamente
possam sinalizar alguma coisa - pois imitam algo -, a harmonia também
possui um singificado no todo, na frase musical. Mas as imitaçoes
artísticas e os discursos diferem, pois qualquer pessoa do mundo é
capaz de entender que certa estátua imita um homem, pela inerente
semelhança da imitaçao ao objeto imitado, porém nem todas as pessoas
entendem o significado de uma palavra (embora existam as onomatopéias,
como "trovão" e "trote", que imitam pelo "tr", mas especificamente
nestes casos de forma ambígua). E isso se verifica também naquela
pesquisa onde musicas ocidentais eram mostradas a certo povo alheio a
nossa cultura, e os estrangeiros acertavam quais coisas eram imitadas,
alegria, tristeza, etc., pesquisa postada há um tempo pelo Thiago. Num
outro sentido, porém, a música não é universal, se entendemos que cada
povo imita as coisas à sua maneira, com seus instrumentos próprios e
conforme suas tradiçoes, e essas coisas são particulares a eles, não
universais. Assim ocorreu com o modo Dórico antigo, pois imita a
virtude, própria do povo dórico; o modo Lídio antigo recebeu esse nome
por se assemelhar ao caráter do povo Lídio, distinto do dórico, e
analogamente aos outros modos. Além disso cada povo possui seus
estilos próprios de música (me refiro ao samba, ao choro, à valsa, aos
nomoi, etc.), com afinacoes proprias, escalas, etc., e essas coisas
são tradiçoes particulares.

felipe cardoso

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Dec 12, 2010, 1:32:04 PM12/12/10
to filomusicos
se a clareza é uma qualidade do discurso, também nao é das imitacoes? Beethoven diz mais ou menos assim: que a boa musica é aquela que passa ao ouvinte exatamente aquilo que o compositor sente ao escrevê-la. No entanto, será que o compositor compõe na tentativa e erro, ou será que há alguns princípios que pode os auxiliar? De fato há alguns principios recomendados por alguns teóricos, como os seguintes: "evitar quintas e oitavas paralelas", "alternar consonancias e dissonancias", "terminar frases com cadências", "começar e terminar na mesma nota", e outros. Porém isso sao regras, e as regras sao uma espécie de principios, semelhantes às regras da gramática: de fato, uma gramatica lista regras para um único idioma, nao para todos, assim como esses livros teóricos, que também listam regras para um único estilo, nao para todos. Fux, por exemplo, em Gradus ad parnassum ensina o estilo de Palestrina, ou o estilo sublime e religioso. Porém esse estilo nao convém para inspirar o medo: de fato, nele se proibe o tritono e as oitavas paralelas, que imitam o medo, embora sejam necessarias a certas musicas, como com Beethoven, que usa oitavas paralelas no inicio da quinta sinfonia, talvez sua melhor sinfonia, e com Shoenberg, que usa o tritono na medonha Pierrot lunaire. Também Wagner nao segue essas regras de fux, pois suas cenas pedem outros tipos de musica, e Tom jobim tambem nao as segue, em seus acordes de nona e setima, que sao proibidos para o estilo religioso, mas adequados a musicas romanticas. Porém, apesar dessa variedade, é de se perguntar se há certos princípios que se aplicam a todos os estilos: pois se não há, entao a musica nao exige tecnica alguma, mas sensibilidade apenas; mas se há, quais são? sao seus principios aritméticos e geométricos? talvez sim, mas nao parece ser so isso, pois a aritmetica por si nao diz qual proporcao é consonante e qual nao, qual harmonia ou ritmo é belo, qual nao. E embora imitemos coisas belas ou feias, a imitacao deve ser bela, nao? Tome-se como exemplo o seguinte: o escultor Policletos escreveu uma obra listando as proporcoes do corpo humano, nao as reais, mas as que os escultores devem usar para tornar a escultura mais harmonica como um todo, naturalmente proporcoes aproximadas as do corpo. Essa obra se perdeu, infelizmente, mas algumas de suas esculturas sobreviveram. Algo análogo deve acontecer com a música, nao? a musica pois deve ser bela por si, imitando coisas belas ou feias, ou isso é um detalhe menor, o que justifica a nao sobrevivencia desta obra de Policletos? A clareza é a mais importante qualidade das musicas?

felipe cardoso

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Dec 12, 2010, 1:42:37 PM12/12/10
to filomusicos
ops, a analogia entre gramatica e o livro teórico de Fux nao foi perfeita: nossas gramaticas prescrevem regras para o estilo formal do portugues, pois existem outros, o informal, o poético, etc., assim como o livro de Fux prescreve regras apenas para o estilo sublime ou religioso
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