se a clareza é uma qualidade do discurso, também nao é das imitacoes? Beethoven diz mais ou menos assim: que a boa musica é aquela que passa ao ouvinte exatamente aquilo que o compositor sente ao escrevê-la. No entanto, será que o compositor compõe na tentativa e erro, ou será que há alguns princípios que pode os auxiliar? De fato há alguns principios recomendados por alguns teóricos, como os seguintes: "evitar quintas e oitavas paralelas", "alternar consonancias e dissonancias", "terminar frases com cadências", "começar e terminar na mesma nota", e outros. Porém isso sao regras, e as regras sao uma espécie de principios, semelhantes às regras da gramática: de fato, uma gramatica lista regras para um único idioma, nao para todos, assim como esses livros teóricos, que também listam regras para um único estilo, nao para todos. Fux, por exemplo, em Gradus ad parnassum ensina o estilo de Palestrina, ou o estilo sublime e religioso. Porém esse estilo nao convém para inspirar o medo: de fato, nele se proibe o tritono e as oitavas paralelas, que imitam o medo, embora sejam necessarias a certas musicas, como com Beethoven, que usa oitavas paralelas no inicio da quinta sinfonia, talvez sua melhor sinfonia, e com Shoenberg, que usa o tritono na medonha Pierrot lunaire. Também Wagner nao segue essas regras de fux, pois suas cenas pedem outros tipos de musica, e Tom jobim tambem nao as segue, em seus acordes de nona e setima, que sao proibidos para o estilo religioso, mas adequados a musicas romanticas. Porém, apesar dessa variedade, é de se perguntar se há certos princípios que se aplicam a todos os estilos: pois se não há, entao a musica nao exige tecnica alguma, mas sensibilidade apenas; mas se há, quais são? sao seus principios aritméticos e geométricos? talvez sim, mas nao parece ser so isso, pois a aritmetica por si nao diz qual proporcao é consonante e qual nao, qual harmonia ou ritmo é belo, qual nao. E embora imitemos coisas belas ou feias, a imitacao deve ser bela, nao? Tome-se como exemplo o seguinte: o escultor Policletos escreveu uma obra listando as proporcoes do corpo humano, nao as reais, mas as que os escultores devem usar para tornar a escultura mais harmonica como um todo, naturalmente proporcoes aproximadas as do corpo. Essa obra se perdeu, infelizmente, mas algumas de suas esculturas sobreviveram. Algo análogo deve acontecer com a música, nao? a musica pois deve ser bela por si, imitando coisas belas ou feias, ou isso é um detalhe menor, o que justifica a nao sobrevivencia desta obra de Policletos? A clareza é a mais importante qualidade das musicas?