Como se confundir com os modos gregos

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felipe cardoso

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Oct 9, 2010, 7:21:05 PM10/9/10
to filomusicos
Na idade média trocaram os nomes dos modos gregos, e até hoje confunde
qualquer um que tente entender por que. Mas, que alegria, encontrei um
raciocinio que explica esses nomes trocados, raciocínio que resulta
exatamente nos nomes modernos para os modos. Nao sei se os medievais
fizeram exatamente isso, ou de uma vez, mas fazendo como é indicado dá
certo, e parece ser plausível. Dito em resumo, portanto, basta seguir
a dedução dos modos segundo Ptolomeu, mas em vez de usar a escala
imutável antiga como base, usamos a contrária dela, a nossa, e em vez
de proceder ascendentemente para encontrar os modos, procedemos
descendentemente. O resultado é o nome dos modos trocados. Ptolomeu
explica detalhadamente a criação dos modos no livro II de sua
Harmonia, proposições 9, 10 e 11, para quem quiser conferir.

Primeiramente, em relação aos modos antigos, Ptolomeu os deduziu
assim: primeiro determina que só há sete modos, e enumera a ordem
deles, do agudo ao grave: mixolídio, lídio, frígio, dórico, hipolídio,
hipofrígio e hipodórico. Essa ordem também é deduzida por ele, mas é
irrelevante para nós aqui (acredito). Por outro lado, tomamos uma
escala imutável de oito notas, de forma que cada modo desses listados
se iniciará com cada uma das notas da escala, sendo o oitavo modo
igual ao primeiro, exatamente como ocorre modernamente, havendo pois
sete modos, apesar de oito notas na escala imutável. Porém, a escala
imutável deles não é a mesma da nossa, mas a contrária da nossa (a que
tem os mesmos intervalos mas na ordem contrária). A nossa escala
imutável, pois, é a de Dó, ou modo Jonico: dó, ré, mi, fá, sol, lá,
si, dó; a deles porém é a do modo contrário, que é o atual frígio e
antigo Dório: mi, fá, sol, lá, si, dó, ré, mi. E é a contrária da
nossa pois a nossa escala é construida ascendentemente, a deles
descendentemente, e embora sigam o mesmo processo de criação,
possuirão os intervalos na ordem contrária (comentei isso em outro
lugar, com mais detalhes). Logo, isso já seria suficiente para trocar
os nomes dos modos na construção, mas nao é só isso, há ainda outra
diferenciação. Assim, Ptolomeu afirma que o mixolídio - o antigo - tem
no seu sétimo grau o quarto grau da escala imutável (mas esse sétimo
grau era chamado antigamente de "paranete diezeugmenon", e o quarto
grau de "mese", para quem quiser conferir no texto). Logo, como o
quarto grau da escala imutável antiga corresponde a nota lá (mi, fá,
sol, LÁ), o mixolídio terá no sétimo grau a nota lá, e si será a nota
do grau seguinte, o oitavo, e portanto o primeiro grau do mixolídio
será também si, pois está uma oitava abaixo do oitavo grau. Daqui pois
seguem todos os outros modos antigos, na ordem indicada por Ptolomeu
(mixolídio, lídio, frígio, dórico, hipolídio, hipofrígio e
hipodórico), onde cada modo iniciará com a nota seguinte da escala
imutável, ascendentemente, da seguinte maneira: se o mixolídio começa
em si, o lídio começa em dó, o frígio em ré, o dório em mi, o
hipolídio em fá, o hipofrígio em sol e o hipodórico em lá. Assim
portanto encontramos os sete modos antigos, e em quais notas eles
iniciam.

Porém nossos modos não são conseguidos ascendendo a cada modo na nota
inicial, mas descendendo, e a nossa escala imutável não inicia em mi,
mas em dó; porém a ordem dos modos se mantém a mesma da indicada por
Ptolomeu (mixolídio, lídio, frígio, dórico, etc., do agudo para o
grave). Passo a passo, entao, a construção moderna fica assim:
seguindo ainda Ptolomeu, o quarto grau da escala imutável deverá
aparecer no sétimo grau do modo mixolídio, e como fá é o quarto grau
da nossa escala imutável (dó, ré, mi, FÁ), então o mixolídio terá fá
no seu sétimo grau, e o grau seguinte será sol, o oitavo grau, e sol
também será o primeiro grau desse modo. E daqui seguem todos os outros
modos, semelhantemente aos antigos, mas agora descendentemente, e
assim encontraremos exatamente os modos modernos: sendo pois o
mixolídio o primeiro modo, que inicia em sol, o lídio então inicia em
fá, o frígio em mi, o dórico em ré, o hipolídio em dó, o hipofrígio em
si e o hipodórico em lá. Nós porém chamamos esse hipolídio de Jonico,
o hipofrígio de Lócrio e o Hipodórico de Eólico. Fazendo isso
encontramos pois os modos modernos, seus nomes divergentes dos
antigos, e em quais notas eles iniciam.

Portanto, o mixolídio antigo é o atual Lócrio (muito usado por Safo,
segundo dizem), o antigo Lídio é o atual Jonico, o antigo Frígio é o
atual Dórico, o antigo Dórico é o atual Frígio, o antigo Hipolídio o
atual Lídio, o antigo Hipofrígio o atual Mixolídio, e o antigo
Hipodórico é o atual Eólico.

Bom, tentei ser o mais claro possível; talvez tenha sido esse o
procedimento dos medievais, tendo ocorrido essa dedução de uma vez ou
tendo um erro se acumulado a outro com o tempo. Ou, enfim, há ainda
outra explicação
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