por que na música a simplicidade é preferível, como defendem alguns?

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felipe cardoso

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Dec 20, 2010, 2:05:42 PM12/20/10
to filomusicos
Se o acorde maior com sétima aumentada é o mais romantico, como C7+, e
o acorde diminuto o mais trágico, como Cm7(5-), e também em geral,
cada acorde imita melhor certa coisa, então por que nas músicas não
sao usados apenas um tipo de acorde, em vez de vários? por exemplo, as
musicas romanticas deveriam usar apenas o acorde maior com sétima
aumentada, já que esse é o mais romântico, nao? No entanto, o que se
recomenda entre os teóricos é a variacao dos acordes, e essa é a
prática comum entre os eruditos, embora musicas mais simples nao
tenham tanta variacao, mas são o gosto da maioria.

Uma analogia talvez ajude nesse ponto: se nos colocamos de frente a
uma pista - com os carros passando da esquerda pra direita ou da
direita pra esquerda -, entao olhando pra frente talvez nao
reconheçamos qual o carro que passou ali, dependendo de sua
velocidade, embora possamos perceber imprecisamente a cor, o tamanho e
talvez outras coisas. Na música, ocorre algo similar: certamente cada
acorde imita algo, mais propriamente, mas também nas músicas variadas
os diferentes acordes mudam rapidamente, a ponto de nao sermos capazes
de perceber o que é imitado a cada vez. De fato, essas músicas parecem
amorfas, a ponto de nao sabermos dizer ao certo o que ela expressa,
exatamente.

Porém isso nao acontece com músicas mais simples, ou nas que possuem
um mesmo acorde ou semelhante, embora possam ser monótonas, se muito
longas. Um exemplo é Eu te amo, do tom, com os acordes maiores, pois
nas estrofes descendem semi-tons, ora com a sétima maior, ora com a
sétima menor, alternadamente. No entanto essa musica tem alguma coisa
que nao combina com a letra: além de outras coisas, a musica sem a
letra inspira pena também (pela sétima menor dos acordes), mas a letra
nao tem nada que inspire pena: porque nao dá pra ter pena de quem
comete erros querendo cometê-los, como na letra. Pra conferir, a
seguir um link:

http://www.youtube.com/watch?v=-gVRRjSI4M0&feature=related

Mas essa variacao pode ser adequada à imitacao, assim como manter o
mesmo tipo de acorde, dependendo do objeto imitado: se um sentimento,
pois, é muito intenso, um individuo nao consegue se livrar dele, e
perdura por longo tempo; assim, uma musica que nao varie o tipo do
acorde é a dequada ao sentimento intenso. Por outro lado,
cotidianamente percebemos os objetos de maneira rápida e passageira,
nos comovendo pouco também. Sendo isso correto, entao dos dois casos é
preferível imitar sentimentos intensos, para comover melhor, e assim é
preferível nao variar o tipo dos acordes, pois a música nos comoverá
melhor e por mais tempo, e principalmente porque o objeto imitado será
mais claro ao ouvinte. Portanto, se isso tudo é correto e suficiente,
entao a simplicidade na música é de fato preferível, como defendem
alguns, e a maioria das pessoas também a prefere, intuitivamente.
Chegamos também à mesma constatação se comparamos a harmonia e o
ritmo: é preferível pois um ritmo uniforme, como o das musicas
populares e as com compasso regular; por analogia, a harmonia uniforme
é também preferível.

Portanto, a simplicidade é preferível porque dá clareza à música, e a
clareza é preferível à obscuridade.

felipe cardoso

unread,
Dec 20, 2010, 2:45:09 PM12/20/10
to filomusicos
mas parece que essas afirmacoes nao sao suficientes, e falta algo,
algo considerável: porque as musicas mais belas variam os acordes,
como Aria na quarta corda, de Bach, ou Jesus Alegria dos Homens. A
variacao dos acordes impede a monotonia, e portanto deve ser algo
desejável; mas pode-se manter o mesmo acorde e variar as notas a cada
vez, como ocorre em Eu te amo, do tom, dito em geral, porque nenhuma
nota coincide entre acordes iguais que distam um semi-tom. Porém, se
de fato nos acordes que variam rapidamente nao percebemos o que é
imitado por eles, entao a variacao deve ser usada com vistas em evitar
a monotonia. Parece fazer sentido: os acordes mais longos, o primeiro
e o ultimo sao os mais evidentes ao ouvinte, e devem ser de acordo com
a imitacao (nao necessariamente precisam ser o mesmo acorde, maior ou
menor, por exemplo, nem estarem todos na mesma altura: precisam sim
estar conforme ao imitado, que por sua vez pode variar durante a
música); porém os acordes mais rápidos e intermediários convém que
variem, desde que nao destoem muito dos principais, para nao
comprometer a imitacao. De fato é isso que ocorre nos contrapontos,
como nas fugas: recomenda-se pois que as musicas comecem e terminem no
mesmo tom. Sendo essas consideracoes corretas, entao fica demonstrado
o porquê dessas regras contrapontísticas: existem para evitar a
monotonia, mas sem comprometer a imitacao.

Disso decorre também outro ponto: que a palavra consonância possui
dois sentidos, mas por organizacao vou colocar isso em outra
discussao, belê?

felipe cardoso

unread,
Dec 23, 2010, 9:56:22 AM12/23/10
to filomusicos
mas quais são esses acordes que não comprometem a imitação? São os
acordes formados pelos intervalos que imitam o que desejamos, e
podemos demonstrar isso observando os acordes que os teóricos do
contraponto permitem: são cinco, o maior, o menor, suas primeiras
inversões (mas não as segundas), e o diminuto na primeira inversão. O
que há de comum em todos esses acordes é que todos usam apenas os
seguintes intervalos com a tônica: terças, sextas, quinta e oitava,
que são intervalos mais cristãos. De fato, esses são os intervalos
mais próprios para o tema religioso, porém envolvem contrários: a
terça maior e a menor imitam a alegria e a tristeza, a sexta maior e a
menor imitam a amizade e a inimizade, respectivamente; a quinta imita
a admiração e a oitava é o intervalo mais consonante. Isso explica
porque as segundas inversões dos acordes maiores eram proibidos: pois
neles o intervalo de quarta é feito com a tônica, mas a quarta inspira
coragem, que não é exatamente cristão; explica também porque o
diminuto é aceito apenas na primeira inversão, pois apenas neste não
há o trítono com a tônica, mas as notas fazem com ela a terça menor e
a sexta maior, ambos intervalos cristãos. E os demais intervalos eram
proibidos. Mas há objeção: os teóricos não permitiam ou recomendavam o
acorde de quinta e de sexta, como Dó, Sol, Lá, embora tal acorde
contenha apenas os intervalos cristãos, com a tônica. Há outro ponto,
mas que talvez não seja exatamente uma objeção: a sexta menor imita a
inimizade, que é contrária ao pensamento cristão, da caridade e do
amor ao próximo; porém esse inervalo parece ser adequado para criar
tensão na música, a ser resolvida na cadência: de fato, recomendava-se
que o penultimo acorde da cadência fosse de sexta, além do que os
teóricos mais tradicionais proibiam o salto da sexta menor
descendente. Por outro lado, a sexta menor fica bem para indicar algo
misterioso, como no começo de Magnum Misterium, de Palestrina, onde a
voz canta sozinha esse intervalo, juntamente com a quinta, e o
mistério é conforme o cristianismo, e as religiòes em geral, devido à
fé, na santíssima trindade e nos milagres, no caso do cristianismo.
Seria pois trabalhoso enumerar tudo aquilo que esses intervalos
imitam: a quarta, pois, imita a voz corajosa, mas também uma cigarra
cantando, em ritmo troqueu (que forma um compasso ternário). Mas
poderia haver um dicionário dessas coisas, seria interessante,
inclusive. Nos intervalos cristãos têm ainda o da tristeza, que talvez
não devesse ser cristã, mas esta parece ser mais aceita, dada a vida
de sacrifício que os cristãos levam e pregam, ou porque esse intervalo
contém certa sobriedade. No entanto, ainda assim, a terça pode servir
para criar a mesma tensõo que pode ocorrer entre as sextas.

Portanto, esses intervalos são os que melhor imitam o que queremos
imitar, mas também os que imitam seus contrários, pensando na tensão e
resolução da cadência, que são coisas belas: nesse caso, a terça menor
poderia ser dissonante,e a sexta menor. E essa tensão dos contrários é
bela, e a encontramos não só na música, mas também na poesia, como em
Camões: " [Jacob] começa de servir outros sete [anos, a Labão],/
dizendo: Mais serviria, se não fora / para tão longo amor tão curta a
vida" [Jacob serve pois o serviço era condição para casar-se com
Raquel, filha de Labão]
> > clareza é preferível à obscuridade.- Hide quoted text -
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