mas quais são esses acordes que não comprometem a imitação? São os
acordes formados pelos intervalos que imitam o que desejamos, e
podemos demonstrar isso observando os acordes que os teóricos do
contraponto permitem: são cinco, o maior, o menor, suas primeiras
inversões (mas não as segundas), e o diminuto na primeira inversão. O
que há de comum em todos esses acordes é que todos usam apenas os
seguintes intervalos com a tônica: terças, sextas, quinta e oitava,
que são intervalos mais cristãos. De fato, esses são os intervalos
mais próprios para o tema religioso, porém envolvem contrários: a
terça maior e a menor imitam a alegria e a tristeza, a sexta maior e a
menor imitam a amizade e a inimizade, respectivamente; a quinta imita
a admiração e a oitava é o intervalo mais consonante. Isso explica
porque as segundas inversões dos acordes maiores eram proibidos: pois
neles o intervalo de quarta é feito com a tônica, mas a quarta inspira
coragem, que não é exatamente cristão; explica também porque o
diminuto é aceito apenas na primeira inversão, pois apenas neste não
há o trítono com a tônica, mas as notas fazem com ela a terça menor e
a sexta maior, ambos intervalos cristãos. E os demais intervalos eram
proibidos. Mas há objeção: os teóricos não permitiam ou recomendavam o
acorde de quinta e de sexta, como Dó, Sol, Lá, embora tal acorde
contenha apenas os intervalos cristãos, com a tônica. Há outro ponto,
mas que talvez não seja exatamente uma objeção: a sexta menor imita a
inimizade, que é contrária ao pensamento cristão, da caridade e do
amor ao próximo; porém esse inervalo parece ser adequado para criar
tensão na música, a ser resolvida na cadência: de fato, recomendava-se
que o penultimo acorde da cadência fosse de sexta, além do que os
teóricos mais tradicionais proibiam o salto da sexta menor
descendente. Por outro lado, a sexta menor fica bem para indicar algo
misterioso, como no começo de Magnum Misterium, de Palestrina, onde a
voz canta sozinha esse intervalo, juntamente com a quinta, e o
mistério é conforme o cristianismo, e as religiòes em geral, devido à
fé, na santíssima trindade e nos milagres, no caso do cristianismo.
Seria pois trabalhoso enumerar tudo aquilo que esses intervalos
imitam: a quarta, pois, imita a voz corajosa, mas também uma cigarra
cantando, em ritmo troqueu (que forma um compasso ternário). Mas
poderia haver um dicionário dessas coisas, seria interessante,
inclusive. Nos intervalos cristãos têm ainda o da tristeza, que talvez
não devesse ser cristã, mas esta parece ser mais aceita, dada a vida
de sacrifício que os cristãos levam e pregam, ou porque esse intervalo
contém certa sobriedade. No entanto, ainda assim, a terça pode servir
para criar a mesma tensõo que pode ocorrer entre as sextas.
Portanto, esses intervalos são os que melhor imitam o que queremos
imitar, mas também os que imitam seus contrários, pensando na tensão e
resolução da cadência, que são coisas belas: nesse caso, a terça menor
poderia ser dissonante,e a sexta menor. E essa tensão dos contrários é
bela, e a encontramos não só na música, mas também na poesia, como em
Camões: " [Jacob] começa de servir outros sete [anos, a Labão],/
dizendo: Mais serviria, se não fora / para tão longo amor tão curta a
vida" [Jacob serve pois o serviço era condição para casar-se com
Raquel, filha de Labão]
> > clareza é preferível à obscuridade.- Hide quoted text -
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