O que dá beleza à harmonia de uma música?

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felipe cardoso

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Dec 6, 2010, 12:15:34 PM12/6/10
to filomusicos
Pelo menos duas coisas: a métrica e a semelhança. Não achei palavra
melhor para "métrica", mas se assemelha ao sentido da palavra "medir"
ou "mensurar". Assim, duas coisas são mensuráveis entre si se são
divisíveis por uma unidade comum. É isso o que acontece nos intervalos
2/1, 3/2, 4/3, respectivamente oitava, quinta e quarta, pois todos
eles são divisíveis pela mesma unidade, 1. E os intervalos mais
consonantes são os mais facilmente mensuráveis entre si, que são os
que envolvem os menores números, pois estes possuem menos unidades. Já
a semelhança diz respeito às proporções idênticas entre duas coisas
distintas: A está para B assim como C está para D. A semelhança, pois,
difere do primeiro: a mesura é aritmética, as semelhanças são
geométricas. Que são coisas distintas fica claro também pelos
seguinte: uma reta dividida na proporção áurea não tem as suas duas
partes mensuráveis umas com as outras, nem essas partes são mensuradas
com o todo; no entanto há semelhança, pois a parte maior está para a
menor assim como o todo está para a parte maior. E a proporção áurea
dá beleza às figuras, e é uma beleza que não depende da mesura, mas
apenas da semelhança. Na harmonia, encontramos a semelhança nas
escalas e nos acordes. Assim, há dois tetracordes semelhantes nas
escalas, um na parte grave e outro na aguda da oitava, sejam esses
tetracordes conjuntos ou disjuntos. Os dois tetracordes são
semelhantes, pois as notas em cada um sao distintas, mas guardam a
mesma relação entre si para ambos os casos. Se são pois dois
tetracordes lídios, a escala é a lídia se os tetracordes são
disjuntos, ou o atual jonio; se são conjuntos resulta no hipolídio,
atual mixolídio. Se fossem dois tetracordes dóricos, o modo seria o
dórico se disjuntos, atual frígio, ou o hipodórico se conjuntos, atual
lócrio. E o mesmo com os demais modos. Também há semelhança nos
acordes de sétima e nona, maiores e menores, pois possuem dois acordes
conjuntos: no maior, dó, mi, sol é conjunto a sol, si, ré; no menor,
lá, dó, mi é conjunto a mi, sol, si. Se essas observações são
corretas, então tais escalas e acordes são belos por duas razões: uma
porque são proporcionais em suas partes aguda e grave, outra porque as
notas em cada parte são mensuráveis entre si. No entanto tais acordes
eram proibidos pelos contrapontistas antigos.

Talvez haja ainda outra razão para uma música ser bela, mesmo ainda
dentro da harmonia, pois também as modulações dão beleza às músicas.
Mas a modulação ocorre não só de uma escala para outra, mas também de
um acorde a outro, pois acordes e escalas são coisas análogas. Isso
fica evidente pelo seguinte: quando invertemos um acorde, pegamos sua
nota mais grave a inserimos uma oitava aguda, de modo que é outra
agora a nota mais grave. E fazendo isso sucessivamente encontraremos
as inversões do acorde: se possui tres notas distintas, há tres
inversoes, uma para cada nota no grave. Da mesma forma, se tomarmos
uma escala e a "invertemos" sucessivamente, encontraremos os modos que
ela possui. Da mesma forma, se uma escala possui sete notas distintas,
ela possuirá então sete modos, uma para cada nota no grave. Portanto,
se modulamos escalas, também modulamos acordes, no mesmo sentido da
palavra. E da mesma forma, podemos modular para uma escala distinta,
ou para a mesma escala: modulamos para mesma escala quando modulamos
de C para G, pois ambas as escalas são jonicas, mas uma é aguda e a
outra grave; modulamos para escalas distintas quando passamos de C
para Am ou de C para Cm. Talvez seja correto afirmar que a modulação
será bela se leva em conta a mesura e a proporção: pois é bela se
feita entre escalas e acordes semelhantes, como a modulação C para D,
apesar de esta ser contrária aos teóricos tradicionais (mas muito
comum em Tom Jobim, por exemplo, e em Villa-Lobos); ou a modulação é
bela também se o emparelhamento entre dois acordes ou duas escalas são
mensuráveis entre si, aos pares, nota a nota, da seguinte maneira: a
passagem de Dó, Mi, Sol para Mi, Sol, Si, é bela porque as respectivas
notas de ambos acordes fazem consonancias: Dó/Mi, ascendendo ou
descendendo, as segundas notas também são consonantes, Mi e Sol, e o
mesmo com as terceiras, Sol e Si. Notem que Si, do segundo acorde, é
dissonante com Dó, porém não são notas emparelhadas na passagem: Dó
passa para Sol, e quem passa para Si é Sol. Aristoxenus afirma isso
para as escalas, para os dois tetracordes, dizendo porque tetracordes
distintos numa mesma escala também podem resultar numa escala bela; e
por analogia também se afirma para os acordes, necessariamente. Porém
há a regra que devemos alternar consonancias e dissonancias, mas sua
finalidade é evitar a monotonia (e a monotonia tira beleza da música),
não é estritamente harmônica, pois também se aplica ao forte e fraco
(como naquela musica do Mozart, que o Thiago mostrou), ao ritmo, à
orquestração, à letra, etc. Mas há uma objeção a esse argumento: pois
também a mesura e a semelhança se aplicam ao ritmo, não só à
harmonia.

Então a variedade é outra causa para a beleza musical, pois a
monotonia, seu contrário, destroi a beleza. Repetir sempre a mesma
coisa afasta a atenção do ouvinte, e o afastamento da atenção é o que
causa o sono (que resulta na nobríssima pescada, normal no meio das
coisas monótonas, rs; o sono também vem em certas aulas ou leituras,
mas por que não as entendemos, e a razão é a mesma: ao não entender,
pois, nossa atenção se perde, e a perda de atenção gera o sono).

felipe cardoso

unread,
Dec 6, 2010, 12:35:24 PM12/6/10
to filomusicos
Ou talvez a monotonia nao destrua a beleza, apenas nos impede de
percebê-la
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