Por que não faz sentido compor hoje no estilo antigo?

2 views
Skip to first unread message

felipe cardoso

unread,
Nov 28, 2010, 9:53:36 AM11/28/10
to filomusicos
Acho que entendi o por que dessa sagaz observação que o Alexandre fez
outro dia. Não faz sentido porque os estilos de época nascem de
circunstâncias locais e temporais, e nossas circunstâncias diferem das
circunstâncias de antigamente e de outros locais, portanto não faz
sentido usar hoje o que se usava antigamente ou se usar aqui o que se
usa em outro lugar, a não ser que as circunstâncias sejam as mesmas ou
semelhantes. Ora, o barroco, o romantismo, o atonalismo, e outros são
estilos de época, e todo estilo de época é uma tradição. Também são
tradições as leis, o idioma, o vestuário, a religião, e outros
semelhantes, e dito de maneira geral, todas as tradições nascem das
circunstâncias, não só os estilos de época. De fato, mudando as
circunstâncias, mudam as tradições, concorrentemente: isso ocorre com
as leis, com os idiomas, e também com os estilos de época e os demais.
Porém os teóricos distinguem por exemplo o romantismo alemão do
ingles, do francês, etc, mas estes diferentes romantismos são como que
dialetos do romantismo - fazendo uma analogia com os idiomas -, ainda
são tradições. Diga-se por fim que o conjunto de todas as tradições de
um povo é sua cultura: de fato, o idioma faz parte de uma cultura, as
leis, a religião, o vestuário, etc.

Em particular, no período romântico as obras tratavam de amor, e nessa
época novos ricos surgiram, os burgueses. E parece que o amor
acompanha a riqueza: um sinal disso é a expressão "mulher gosta de
dinheiro", que ouvimos por aí, até com certa grosseria. E é preciso se
educar para a riqueza, pois, como se diz, os novos ricos tem os mesmos
defeitos que os ricos, mas potencializados - como em relação ao
adultério. E de fato todas essas coisas tem a ver com as obras do
romantismo, que são a respeito disso, pois o romantismo nasce dessas
circunstâncias, coisa que o Antônio Cândido chama de "redução
estrutural". Algo semelhante ocorre com o modernismo na música, que
atravessou as grandes guerras e a grande crise, o que explica o
excesso de dissonância e tensão nas obras, que não encontramos nas
músicas da corte, como no classicismo de Mozart ou no barroco de
Lully.

Confesso que nas minhas aulas de literatura achava um saco estudar o
contexto da época em que surgiram as obras, e de fato alguns teóricos
não fazem a ligação corretamente entre o contexto e o estilo de época,
então eu ficava irritado, por achar que eles viajavam (nesse caso eu
estava em parte certo, em parte errado, hehe) e por não estar
estudando a literatura em si. Na música ocorre o mesmo que na
literatura, e uma música que não condiz com o mundo que vivemos não
faz sentido, nem é aceita como marcante e sinal de nossa época. Compor
diferentemente seria como usar chapéu, bigode, monóculo redondo,
fraque, camisa rendada, bengala e sapato antigo para ir passear na
areia da praia, hoje em dia. É até engraçado

S�rgio Luiz

unread,
Nov 29, 2010, 2:57:54 PM11/29/10
to filom...@googlegroups.com
Mas se a gente não temperar isso, tampouco faria sentido ouvir essas obras, já que as circunstâncias mudaram, a não ser que a música quando ouvida seja essencialmente diferente de quando é composta. Aquela teria salvo-conduto para atravessar o tempo, mas esta, não.

Seria injusto partir desse pressuposto. Numa hipótese extrema, duas obras barrocas iguais, uma composta no séc. XVII, a outra, no séc. XXI, seriam aquela boa, porque antiga, esta ruim, porque recente...

Sem poder concluir, sugiro contudo que se pense em por que, a um artista atual, por mais que queira, e por mais que seja versado num estilo antigo, seja impossível compor algo de mérito naquele estilo, algo que não soe artificial, pastiche. Questão que perpassa antes de tudo a formação e a sensibilidade do sujeito, e só contingencialmente o contexto histórico.

2010/11/28 felipe cardoso <sal...@gmail.com>

felipe cardoso

unread,
Nov 30, 2010, 8:40:24 AM11/30/10
to filom...@googlegroups.com
É, esse por que apontei nao faz muito sentido: também não explica os gênios, pois os gênios e os tolos em cada arte e saber nascem no mesmo contexto, as vezes frequentam as mesmas escolas, mas um é superior ao outro. O contexto é mesmo contingencial, é algo distante, na esteira do que voce diz, diria que a causa de uma obra é a técnica do artista, seja ela intuitiva ou consciente. Assim, se a técnica é boa e bem aplicada, a obra também será boa. Se é isso mesmo, então a técnica independe do tempo e das circunstâncias, a não ser de forma contingencial, pois certamente há aquelas obras que são superiores e as inferiores em cada tempo, embora de tempos em tempos os artistas prefiram usar certas técnicas em vez de outras, surgindo assim os estilos de época. Se isso é verdade, então deve haver escolas superiores e outras inferiores, no que diz respeito à técnica. Acho que a arte de Palestrina é uma das mais superiores, e os compositores que o seguem, de uma forma ou outra são também superiores. Bach é um desses seguidores, sua música é a de Palestrina com ornamentos - é o de palestrina com apojaturas, deslocamentos, etc., com mais instrumentos, um trato ritmico próprio, em muitas outras formas musicais, não centrado tanto nas fugas, por exemplo, enfim, mais rica. Um sinal dessa superioridade é que a música de Palestrina só aceita letras religiosas, pois somente elas tratam das coisas mais elevadas. Das obras mais inferiores faltam exemplos conhecidos, hehe, porque essa gente sequer é reconhecida por causa delas, a não ser por outro motivo alheio. Mas quem começa a compor a pouco tempo é um exemplo disso, pois suas obras são tão ruins quanto uma música tocada por um pianista inexperiente, embora ambos possam discordar de sua inferioridade, hehe. Mas todos que se tornaram grandes foram antes pequenos, não poderia ser de outra forma.
 
Voce disse que um artista atual não pode compor bem num estilo antigo, mas tem o caso de Bach: ele foi o maior compositor barroco, mas, quando compunha, o barroco já era antigo e seus contemporaneos já compunham em outro estilo. No entanto esse caso não contradiz o que voce diz sobre isso, antes confirma: "Questão que perpassa antes de tudo a formação e a sensibilidade do sujeito, e só contingencialmente o contexto histórico"
 

felipe cardoso

unread,
Nov 30, 2010, 8:42:38 AM11/30/10
to filom...@googlegroups.com
Dane-se então Antonio Cândido e o povo do contexto histórico! hehe 

S�rgio Luiz

unread,
Nov 30, 2010, 9:17:16 AM11/30/10
to filom...@googlegroups.com
Sim, tem o exemplo do Bach... quando disse "impossível", na verdade quis dizer, "precisa ser um Bach ou algo do tipo", o que no fim das contas é a mesma coisa!

2010/11/30 felipe cardoso <sal...@gmail.com>

felipe cardoso

unread,
Nov 30, 2010, 7:32:56 PM11/30/10
to filom...@googlegroups.com
Belê. Mas apesar de o contexto nao interferir diretamente na obra literária, parece que ele tem alguma relação com as obras de arte, mas não parece simples dizer qual. Talvez o seguinte caso da literatura permita fazer uma analogia com a música, e deixar essa relação menos obscura. É o seguinte: a obra "O filho eterno" de Cristovão Tezza ganhou o prêmio Jabuti concorrendo a melhor romance, mas alguns disseram que nao deveria concorrer na categoria romance, mas como autobiografia, porque fala da história do próprio Tezza na sua relação com seu filho Down. No entanto a história é narrada, e o narrador se refere ao personagem "Tezza" em terceira pessoa, como se fosse outra pessoa. A dúvida é se esta obra é de ficção ou de História, apesar do narrador (afinal, como se diz, a história é feita por milhares de biografias). Mas a mesma coisa ocorre em outras obras, quando por exemplo Machado de Assis se refere ao bairro da Glória, no Rio de Janeiro, ou quando José de Alencar comenta os costumes da época, como ir ao teatro, e o que acontece por lá, como as pessoas se vestem, etc. Que relação é essa? parece haver um misto de jornalismo com literatura. Talvez seja o mesmo caso de Shakespeare, quando usa o nome de pessoas reais em suas obras, embora pessoas já mortas, como os Henriques, Marco Antonio e Cleópatra. Ou esses nomes servem para fazer as histórias parecerem reais, dando mais credibilidade a elas? Porém o próprio Shakespeare lia muito os historiadores, como Saxo Gramático, por exemplo, e tirava muita coisa deles. Na música algo análogo ocorre quando Villa Lobos imita os sons de uma floresta, ou de um trem, embora não saibamos ao certo qual floresta é esta, ou qual trem é este, mas sabemos apenas genericamente que se trata de uma floresta e trem. Talvez seja essa a relação: as artes imitam coisas do contexto local e da época, porque são de mais fácil visualização e parecem mais reais. Assim, o personagem no livro do Tezza não é uma pessoa - de fato, sequer tem corpo físico -, mas é a imitação de uma pessoa, de um homem particular, no caso o autor. O mesmo acontece com o Marco Antonio e o Henrique VI de Shakespeare, e com os sentimentos que as músicas inspiram: pois os compositores imitam pela harmonia e pelo ritmo os sentimentos que sentem enquanto compõem, ou imitam "de observação", vendo ou imaginando essas coisas em outro, como que compondo para uma ópera. As descrições de um lugar, portanto, são também imitações: são como uma pintura desse mesmo lugar, uma imitação dele, não o próprio lugar. Mas a pintura imita pelas cores e figuras, as descrições imitam por palavras. Portanto, não é só o contexto da época que é imitado, pois existem obras que se passam em tempos antigos, e retratam costumes e pessoas que já não existem, como fez Shakespeare e muitos outros. Há ainda as obras que se passam no futuro, ou em um mundo fantástico, como no Inferno ou no Paraíso, ou com o barqueiro Caronte, com monstros, etc., mas nada disso existe no contexto social. Se é isso mesmo, então é perda de tempo estudar o contexto histórico das obras, não? É inútil, enquanto arte, pois não diz respeito à técnica, propriamente. Querer conhecer a sociedade a partir de uma obra literária seria tão inútil quanto querer conhecer a catedral de Notre Dame a partir das pinturas de Monet - nas diferentes fases do dia -, ou querer conhecer uma floresta a partir da música do Villa. Porém as vezes as obras de arte são a única fonte de conhecimento do que já não existe, como as pinturas ou bustos, mas isso tem valor apenas histórico ou arqueológico, não artístico, em si. Além disso, as obras podem imitar coisas genéricas, não apenas particulares, como o trenzinho do Villa-Lobos.
 

felipe cardoso

unread,
Dec 2, 2010, 2:23:34 PM12/2/10
to filom...@googlegroups.com
Ari aponta uma diferença entre a história e as artes: a história tem compromisso com a verdade, as artes não. Assim, um escultor pode esculpir uma estátua de como Zeus seria na forma humana, ou um pintor renascentista pintar como seria Jesus, já que nenhum dos dois viu efetivamente seus objetos, em particular.
 
Mas, embora tenham sido explicitados os erros acima, quanto à causa das obras de arte e a qualidade, a dúvida ainda permanece: por que não faz sentido compor hoje da maneira antiga?  

Talvez a razão seja posterior à própria obra. Confesso que tenho certa vergonha em ouvir alto no carro algumas músicas que gosto, embora não sinta vergonha de certas músicas que não gosto. Talvez nesse caso a música seja como a roupa que usamos, devemos usar uma que todos usam ou a maioria (ou seja, a que está mais ou menos na moda, não uma muito extravagante), e com a música deve acontecer o mesmo. Devemos então nos "vestir" com a música que a maioria escuta, embora nem sempre seja a melhor (quase nunca é, ao que parece). Talvez por isso se diga "é preferível parecer correto do que realmente ser correto", e o correto é o que é conforme ao usual.
 
Se for isso, talvez seja possível conciliar as duas coisas. Tom Jobim dizia: "se voce é um compositor ruim, faça música brasileira; se você é um compositor mediano, faça música brasileira; mas se você é um gênio da composição, então faça música brasileira", hehe. E de fato, ele tornou o samba e o choro mais refinado, com harmonias que não haviam antes, mas que preservam de certa forma o estilo. E o samba e o choro eram populares - embora hoje o choro não seja mais, só quem ouve é uma minoria. Algo parecido fizeram outros compostores eruditos modernos, como o Villa e Guerra Peixe, que também compuseram ém estilos populares. Mas também outros compositores de tradição clássica fizeram o mesmo: Bach e Mozart tomaram modas populares e trabalharam em cima. Bach usou não só melodias populares, mas também compôs no estilo popular, inclusive danças, como o minueto, a gavota, etc.
 
Reply all
Reply to author
Forward
0 new messages