Belê. Mas apesar de o contexto nao interferir diretamente na obra literária, parece que ele tem alguma relação com as obras de arte, mas não parece simples dizer qual. Talvez o seguinte caso da literatura permita fazer uma analogia com a música, e deixar essa relação menos obscura. É o seguinte: a obra "O filho eterno" de Cristovão Tezza ganhou o prêmio Jabuti concorrendo a melhor romance, mas alguns disseram que nao deveria concorrer na categoria romance, mas como autobiografia, porque fala da história do próprio Tezza na sua relação com seu filho Down. No entanto a história é narrada, e o narrador se refere ao personagem "Tezza" em terceira pessoa, como se fosse outra pessoa. A dúvida é se esta obra é de ficção ou de História, apesar do narrador (afinal, como se diz, a história é feita por milhares de biografias). Mas a mesma coisa ocorre em outras obras, quando por exemplo Machado de Assis se refere ao bairro da Glória, no Rio de Janeiro, ou quando José de Alencar comenta os costumes da época, como ir ao teatro, e o que acontece por lá, como as pessoas se vestem, etc. Que relação é essa? parece haver um misto de jornalismo com literatura. Talvez seja o mesmo caso de Shakespeare, quando usa o nome de pessoas reais em suas obras, embora pessoas já mortas, como os Henriques, Marco Antonio e Cleópatra. Ou esses nomes servem para fazer as histórias parecerem reais, dando mais credibilidade a elas? Porém o próprio Shakespeare lia muito os historiadores, como Saxo Gramático, por exemplo, e tirava muita coisa deles. Na música algo análogo ocorre quando Villa Lobos imita os sons de uma floresta, ou de um trem, embora não saibamos ao certo qual floresta é esta, ou qual trem é este, mas sabemos apenas genericamente que se trata de uma floresta e trem. Talvez seja essa a relação: as artes imitam coisas do contexto local e da época, porque são de mais fácil visualização e parecem mais reais. Assim, o personagem no livro do Tezza não é uma pessoa - de fato, sequer tem corpo físico -, mas é a imitação de uma pessoa, de um homem particular, no caso o autor. O mesmo acontece com o Marco Antonio e o Henrique VI de Shakespeare, e com os sentimentos que as músicas inspiram: pois os compositores imitam pela harmonia e pelo ritmo os sentimentos que sentem enquanto compõem, ou imitam "de observação", vendo ou imaginando essas coisas em outro, como que compondo para uma ópera. As descrições de um lugar, portanto, são também imitações: são como uma pintura desse mesmo lugar, uma imitação dele, não o próprio lugar. Mas a pintura imita pelas cores e figuras, as descrições imitam por palavras. Portanto, não é só o contexto da época que é imitado, pois existem obras que se passam em tempos antigos, e retratam costumes e pessoas que já não existem, como fez Shakespeare e muitos outros. Há ainda as obras que se passam no futuro, ou em um mundo fantástico, como no Inferno ou no Paraíso, ou com o barqueiro Caronte, com monstros, etc., mas nada disso existe no contexto social. Se é isso mesmo, então é perda de tempo estudar o contexto histórico das obras, não? É inútil, enquanto arte, pois não diz respeito à técnica, propriamente. Querer conhecer a sociedade a partir de uma obra literária seria tão inútil quanto querer conhecer a catedral de Notre Dame a partir das pinturas de Monet - nas diferentes fases do dia -, ou querer conhecer uma floresta a partir da música do Villa. Porém as vezes as obras de arte são a única fonte de conhecimento do que já não existe, como as pinturas ou bustos, mas isso tem valor apenas histórico ou arqueológico, não artístico, em si. Além disso, as obras podem imitar coisas genéricas, não apenas particulares, como o trenzinho do Villa-Lobos.