Assunto: Francisco Louçã... no seu melhor
> > - Eu não diria bonita, pois trata-se de um conceito adoptado
pelas
> > classes
> > dominantes para classificar animais humanos dentro de padrões de
beleza
> > culturalmente preestabelecidos.
> > - Isso que dizer que sou feia?
> > - Cosmeticamente diferente é o termo mais adequado.
> > - Mas, tu ainda me amas?
> > - O amor é um sentimento inventado pela burguesia com intuito de
> > subjugar
> > os indivíduos a um único modo de pensar a sociedade, tirando-lhes
a
> > razão e
> > o senso crítico.
> > - E depois?
> > - Depois, nutro por ti um sentimento de co-participação em
interesses
> > de
> > ordem habitacional, económica e sexual.
> > - O quê? Quer dizer que tu só me queres como mulher-a-dias e
> > prostituta?
> > - Não se diz mulher-a-dias e sim higienizadora ambiental. E
tratar
> > parceiras
> > sexuais alugadas como prostitutas não é politicamente correcto.
> > - Tu deves estar louco.
> > - Emocionalmente fora do padrão.
> > - Bem me avisaram que eras um chato.
> > - Chato não, pessoa interessante de maneira diferente.
> > - Como fui cega...
> > - Desprovida de capacidade visual é mais correcto.
> > - Não sei por que casei contigo!
> > - Desconheces o motivo que te levou a submeteres-te a uma
> > institucionalização oficializante do relacionamento de
co-habitação
> > entre
> > duas pessoas de sexo não coincidente.
> > - Idiota!
> > - Pessoa com ideia fixa.
> > - Para mim chega! Vou procurar um amante que me queira.
> > - Não precisas de recorrer a este tipo de relacionamento com
padrão
não
> > convencional, nós ainda podemos partilhar de uma coexistência
saudável
> > como duas pessoas com referências diferenciadas da cultura
dominante.
> > - Prefiro viver com um lavador de carros a continuar contigo!
> > - A tua preferência em manter uma co-habitação de carácter
afectivo
com
> > um especialista em aparência de veículos, não te dá o direito de
> > comparar
> > opções de meio de sobrevivência alternativo com o meu
comportamento
que
> > se
> > diferencia dos dogmas do status-quo.
> > - Ah, por que é que não podes ser uma pessoa normal?
> > - A normalidade é uma convenção imposta.
> > - Chega, não aguento mais! Quero ver-te morto.
> > - O que tu desejas é transformar-me num indivíduo
metabolicamente
> > inviável.
> >
> > Ela pega no revólver que o criado mudo está segurando, ou
melhor:
> > Ela pega o revólver que o auxiliar doméstico oralmente
prejudicado
> detém
> > e
> > atira no peito do marido. Ao vê-lo caído no chão, todo
ensanguentado,
> > ela abraça-o.
> > - Perdão, querido, eu sou uma burra!
> > No último suspiro, ele corrige:
> > - Pessoa com um enquadramento lógico muito particular.