FW: VOCÊ É UM PROFISSIONAL ÉTICO?(REVISTA VOCÊ S/A)

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Mar 20, 2012, 9:49:17 PM3/20/12
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Subject: VOCÊ É UM PROFISSIONAL ÉTICO?(REVISTA VOCÊ S/A)
Date: Sat, 17 Mar 2012 18:41:11 -0300


 
“Vigie seus pensamentos, porque eles se tornarão palavras; Vigie suas palavras, porque elas se tornarão seus hábitos; Vigie seus hábitos, porque eles se tornarão seu caráter; Vigie seu caráter, porque ele será o seu destino”.
 
 
VOCÊ É  UM PROFISSIONAL ÉTICO?
 
 
Agir corretamente , hoje , não é só uma questão de consciência, mas um dos quesitos fundamentais para quem quer ter uma carreira longa, respeitada e sólida. Darlen Jacomino
 
Responda com sinceridade:
-          Seu colaborador ou colega teve uma idéia brilhante para um novo produto. Dias depois, você está sozinho , cara a cara com o diretor da empresa, falando sobre esse projeto. Ele acha a idéia excelente e pergunta quem é o autor. O que você responde?
-          Você sonha a anos em conhecer o Caribe com a família, mas nunca sobra dinheiro. Eis que um dos seus fornecedores oferece uma semana com tudo pago em Cancún, como prêmio por ser ótimo parceiro nos negócios. Você aceita?
-          Um relatório secreto do banco onde trabalha caiu em suas mãos. Ao ler o material, descobre que o valor das ações da empresa X poderá triplicar em pouco tempo em função de um novo projeto. O que você faz com a informação?
As situações acima parecem simples. Talvez, para a maioria de nós, suas respostas sejam obvias. Elas retratam , porém , cenas cotidianas nas empresas, fatos que podem ser vividos por qualquer um de nós. E nem sempre, na hora da decisão, escolhemos a saída ética: falar a verdade sobre o autor da idéia, recusar o passeio no Caribe e não comprar ações da empresa X. Nessas escolhas pequenas, aparentemente simples, muitas carreiras brilhantes podem ser jogadas fora. Hoje, mais do que nunca, a atitude dos profissionais em relação às questões éticas pode ser a diferença entre o seu sucesso e o seu fracasso. Basta um deslize, uma escorregada, e pronto. A imagem  do profissional ganha , no mercado, a mancha vermelha da desconfiança. Há, claro, deslizes que entram na categoria dos crimes. É o caso que envolve José Ignácio López, ex-diretor da Volkswagen. Ele foi acusado pela General Motors , sua antiga empregadora, de fraude e furto de documentos quando trocou de montadora pela outra. O caso ainda está em andamento nos tribunais dos Estados Unidos, mas López, que tinha uma carreira brilhante, caiu em desgraça no mercado mundial.
 
Atuar eticamente, entretanto, vai muito além de não roubar ou não fraudar a empresa. A ética nos negócios inclui desde o respeito com que os clientes são tratados de gestão do líder da equipe. Uma enquete realizada no site da VOCÊ s.a. em meados de junho revela que nem sempre as pessoas têm consciência do problema ético nos escritórios. Dos participantes, 43% já pediram ao garçom para aumentar a nota do almoço ou sabem de alguém que já fez isso. A metade dos votantes disse que já utilizou recursos da empresa para serviços particulares. Do total, 49% já mentiram –ou sabem de alguém que já mentiu- para um cliente, dizendo que o serviço ficaria pronto na data acertada, mesmo sabendo que não poderiam cumprir o prazo.
 
A importância da ética nas empresas cresceu a partir da década de 80, com a redução das hierarquias e a conseqüente autonomia dada às pessoas. Os chefes, verdadeiros xerifes até então, já não tinham tanto poder para controlar a atitude de todos, dizer o que era poder certo ou errado. Por outro lado, o corte nos organogramas deixou menos espaço para as promoções. A disputa por cargos cresceu e, com ela, o desejo de “passar  a perna nos colegas para conseguir sobressair a qualquer custo. Assim, nos últimos anos, os escritórios viraram um campo fértil para a desonestidade, a omissão , a má conduta e a mentira . No nosso dia-a-dia, os sete pecados capitais (ira, luxuria, inveja , gula , preguiça, soberba e avareza) servem como uma espécie de parâmetro para o bom ou mau comportamento em sociedade. No universo corporativo, a falta de ética poderia muito bem entrar nesta lista. A maioria de nós age com honestidade simplesmente porque quer dormir com a consciência tranqüila – ou, então, porque tem medo das conseqüências, que podem resultar em atos ilegais ou contrários à ética.
 
O fato, porém, é que cada vez mais essa é uma qualidade fundamental para quem se preocupa em ter uma carreira longa, respeitada e sólida. Quem está sempre atento às implicações éticas de cada decisão consegue desistir de uma empresa pouco confiável antes de se queimar. Pode recusar um projeto que causaria danos a sua imagem futura. Por outro lado, as organizações, cada vez mais, estão adotando o saudável hábito de checar e rechecar o passado de todos os candidatos ao emprego. Resultado: quem tem a ficha limpa sempre terá as portas abertas nas melhores empresas do mercado.
 
UM CONJUNTO DE VALORES
 
Mas, afinal, o que é ser um profissional ético?
 
Ser ético nada mais é do que agir direito, proceder bem, sem prejudicar os outros. Ë ser altruísta, é estar tranqüilo com a consciência pessoal”, afirma o executivo  professor da USP Robert Henry Srour. Ser ético é, também, agir de acordo com os valores morais de uma determinada sociedade. Essas regras morais são resultado da própria cultura de uma comunidade. Elas variam de acordo com o tempo e sua localização no mapa. A regra ética é uma questão de atitude, de escolha. Já a regra jurídica não prescinde de convicção íntima – as leis têm de ser cumpridas independentemente da vontade das pessoas. Em alguns casos, no entanto, as questões éticas esbarram em princípios jurídicos. “Nessa situação, as pessoas devem recorrer às leis que regem a convivência em sociedade antes de tomar a decisão”, afirma Maria Cecília Arruda, professora de ética da Fundação Getúlio Vargas.
 
Além de ser individual, qualquer decisão ética tem por trás um conjunto de valores fundamentais. Muitas dessas virtudes nasceram no mundo antigo e continuam válidas até hoje. Eis algumas das principais:
 
1.       Ser honesto em qualquer situação. “A honestidade é a primeira virtude da vida nos negócios”, afirma Robert Solomon, professor da Universidade do Texas.
2.       Ter coragem para assumir as decisões. Mesmo que seja preciso ir contra a opinião da maioria.
3.       Ser tolerante e flexível. Muitas idéias aparentemente absurdas podem ser a solução para um problema. Mas para descobrir isso é preciso ouvir as pessoas ou avaliar a situação sem julgá-las antes.
4.       Ser íntegro . Significa agir de acordo com os seus princípios, mesmo nos momentos mais críticos.
5.       Ser humilde. Só assim a gente consegue ouvir o que os outros têm a dizer e reconhecer que o sucesso individual é resultado do trabalho da equipe.
 
Ninguém está dizendo que as melhores empresas do mercado resolveram contratar Madres Teresa de Calcutá ou Irmãs Dulce. Ou que deixaram de ter o lucro como objetivo. O fato é que várias organizações estão se convencendo de que, para o seu negócio sobreviver, terão de agir com muito mais atenção em relação à ética- de verdade, sem demagogia.
 
 
O INFERNO DE CADA UM
 
Não podemos ser inocentes e pensar que empresas são apenas entidades jurídicas. Empresas são formadas por pessoas e só existem por causa delas. Por trás de qualquer decisão, de qualquer erro ou imprudência estão seres de carne e osso. E são eles que vão viver as glórias ou o fracasso da organização. Por isso, quando falamos de empresa ética,. estamos falando de pessoas éticas. Uma política interna mal definida por um funcionário de qualquer nível pode atingir em cheio os  maiores patrimônios de uma empresa: a marca e a imagem.
 
Não são apenas funcionários e consumidores  que recriminam políticas antiéticas nas empresas. Os investidores também costumam fugir delas. Pegam seu dinheiro e aplicam em outro lugar. Um exemplo  disso é o episódio vivido recentemente pela Telefônica, a espanhola que comprou a Telesp, em São Paulo. Suas ações, na Espanha, caíram 5,5% em um dia, após denúncias de que seu presidente mundial, Juan Villalonga, teria usado informações privilegiadas em benefício próprio. Tudo começou no dia 2 de janeiro de 1998, quando Villalonga comprou opções de ações da Telefônica e as revendeu 13 dias depois. Seu lucro : 120.000 dólares. Justamente nesse período, descobriu-se depois, Villalonga estava negociando em segredo uma aliança com a norte-americana MCI WordCom. Quando o escândalo estourou, em meados de junho, a Telefônica divulgou comunicado oficial negando a acusação. Mas isso não impediu a reação negativa do mercado.
 
Não é preciso ser uma companhia de capital aberto para que decisões erradas tomadas por altos diretores  façam rombos no caixa da empresa. De acordo com dados divulgados pela imprensa , a Schering do Brasil teve um prejuízo de cerca de 18 milhões de reais – sem contar o custo da imagem- porque seus diretores foram omissos no episódio da pílula anticoncepcional falsa , em 1998. Embora o laboratório nada tivesse falsificado, a empresa foi displicente no controle do descarte de comprimidos produzidos sem princípio ativo. E quando soube que o remédio falso estava sendo vendido em farmácias, foi lenta para alertar a opinião pública sobre o fato.  Os diretores da empresa levaram 15 dias, depois de receberem a denúncia de uma senhora grávida, para notificar a Vigilância Sanitária. E só o fizeram no dia em que a notícia foi ao ar pelo Jornal Nacional, da Rede Globo. De vítima de roubo, ela passou a ser considerada uma empresa que não respeita seus consumidores. O advogado da Schering do Brasil, Cid Filho, disse a VOCÊ s.a. que os 15 dias eram o prazo necessário para fazer os testes e checar se os comprimidos eram realmente falsos. Na sua opinião, a empresa não foi omissa.
 
O que aconteceu com os profissionais que tomaram decisões duvidosas durante o episódio? A empresa manteve todos em seus cargos?  E o mercado , o que pensa sobre eles? “Quando recebemos um currículo de alguém que esteve numa situação delicada, somos muito mais rigorosos”, diz Laís Passarelli , headhunter em São Paulo, com atuação  nas maiores empresas do país. “Se o executivo estava ligado à área de atendimento ao consumidor da Schering, por exemplo, fica muito difícil separar a imagem do profissional do que aconteceu  na empresa”.
 
A ESTRATÉGIA DA  PREVENÇÃO
 
Para saber se uma empresa é ou não ética, não basta observar seu comportamento na hora da crise. Ao contrário, é preciso verificar a maneira como ela se planeja e cria soluções para evitar deslizes e escorregadelas. A prevenção é a palavra de ordem em qualquer empresa que valorize a ética nos seus negócios e no ambiente de trabalho. Regras claras  de condução dos negócios e de relacionamento em equipe, além  de campanhas para discutir os limites éticos, são fundamentais. O organograma deve ser montado de maneira a evitar que as pessoas tomem decisões sozinhas. Os líderes da organização devem ser os primeiros a dar o exemplo.
 
Entre as empresas veteranas em políticas que regem o comportamento ético está o laboratório Merck Sharp & Dohme. A empresa tem um sistema aberto de comunicação que estimula a pessoa  a consultar seu superior ou colega para tirar dúvidas, reclamar ou denunciar irregularidades éticas. Se não quiser se identificar, pode usar uma linha telefônica confidencial. O programa gera frutos incalculáveis para a imagem e a credibilidade da empresa. Recentemente, Isabel Cristina Silva, gerente de atendimento ao cliente do Merck, recebeu um telefonema da mãe de um doente com AIDS. Seu filho estava há 3 dias sem tomar o remédio fabricado pelo Merck por problemas no abastecimento em São Paulo. Era um caso grave . Isabel decidiu, então, mandar uma pessoa da sua equipe leva o remédio  á casa do paciente.
 
Como funcionária, Isabel não tinha nenhuma obrigação de enviar o remédio para o cliente. Mas a ética é parte de seu dia-a-dia. Além da meta profissional, que é tratar bem nossos consumidores, há uma satisfação pessoal imensa em poder ajudar o outro”, diz Isabel. Para profissionais como ela, o importante é trabalhar numa empresa que valoriza a solidariedade, a participação e o comprometimento dos funcionários. É de organizações assim que as pessoas têm orgulho de fazer parte. É nelas que os acidentes costumam acontecer com muito menos freqüência. O motivo é claro: elas estão bem mais atentas, preparadas para reagir com rapidez.
 
 
Sejamos francos: ética gera questões extremamente delicadas e, na maioria das vezes, de foro intimo. Não existe uma receita universal, pronta e completamente eficaz para pessoa, de consciência para consciência. “Cada um tem os seus limites, impostos por suas crenças e pelas leis, e deve segui-los” afirma o headhunter Alfredo José Assunção, presidente e sócio da Fesa, empresa de recrutamento de executivos de São Paulo.
 
O que fazer para andar com um pouco mais de segurança nesse terreno nebuloso? Eis algumas estratégias que podem ajudá-lo.
 
1.       Saiba exatamente quais  são os seus limites éticos. Reflita sobre as questões apontadas  no início do texto, por exemplo, Será que você vai se sentir confortável com as respostas? Não ficaria embaraçado ao contá-las a sua família, amigos e colegas de trabalho? Não faça nada que você não possa assumir em público.
2.       Avalie detalhadamente os valores da sua empresa. Verifique se eles combinam com os seus. Se sim, ótimo. Você está no lugar certo. Se não, as saídas são poucas: ou você muda as regras ou cai fora.
3.       Trabalhe sempre com base em fatos. Caso contrário, sua avaliação pode ser facilmente derrubada. Não julgue baseando-se em suposições.
4.       Avalie os riscos de cada decisão que tomar. Meça cuidadosamente as conseqüências do seu ato em relação a todos os envolvidos.
5.       Saiba que , mesmo ao optar pela solução mais ética, poderá se envolver em situações delicadas. Um ex-diretor de RH de uma multinacional argentina no Brasil lembra que chegou a ser ameaçado de morte quando iniciou uma investigação sobre desvio de verbas dentro da empresa.
6.       Ser ético significa, muitas vezes, perder dinheiro, status, benefícios. O que fazer com os presentes de Natal? Em muitas empresas, há um limite de valor para os brindes. Uma caneta, tudo bem. Mas e se ela for Montblanc? Essa situação não é nada fácil de administrar, principalmente para nós, brasileiros, que fomos criados sob ética da Lei de Gérson, do jeitinho, da vantagem acima de tudo. “Socialmente, aprendemos que é preciso fazer o correto , mas na informalidade  impera a idéia de que não há nada de errado em levar vantagem”, afirma Srour, da USP. “Há  corruptos em outros lugares do mundo, mas no Brasil pequenos delitos são apoiados e até elogiados por amigos e pela família. Isso ocorre em função da duplicidade moral típica da cultura brasileira.”
 
 
Os dilemas gerados pelo tipo de produto que a companhia produz não são novos. Os profissionais que trabalham em empresas de cigarro, bebidas alcóolicas ou armas os enfrentam há muito mais tempo. Não são raros os casos em que executivos recusam ótimas propostas financeiras porque não se sentem confortáveis com o tipo de produto feito pela empresa. “Eu estaria ultrapassando meu limite ético”, diz um executivo que esteve numa situação dessas e prefere manter o anonimato.
 
Voltemos ao início . Agir eticamente dentro (ou fora) da empresa sempre foi e será uma decisão pessoal. Uma vez que você tenha despertado para o assunto, mais e mais ele tende a ser considerado nas decisões , num processo permanente, sem fim. É claro que sempre estamos sujeitos a deslizes e equívocos. Nunca se esqueça, porém, de que esse costuma ser um caminho sem volta. Para o bem ou para o mal.
 
 
 
 
“Vigie seus pensamentos, porque eles se tonarão palavras; Vigie suas palavras, porque elas se tornarão seus hábitos; Vigie seus hábitos, porque eles se tornarão seu caráter; Vigie seu caráter, porque ele será o seu destino”
 
 
Pesquisa feita no site vocesa.com.br  com 11.955 votos apurados:
 
·         Mais de 70% dos participantes disseram que às vezes pegam a caneta Bic do colega, mas devolvem quando percebem que ela não é sua.
·         Quatro em cada cinco votantes disseram que não demitiriam um(a)funcionário(a) talentoso(a) por medo de que ele(a) tomasse seu lugar.
·         Quase a metade dos participantes respondeu que já disse- ou sabe de alguém que disse – ao cliente que o serviço ficaria pronto na data acertada, mesmo sabendo que não poderia cumprir o prazo.
·         Pouco mais da metade dos votantes assumiu que já faltou ao trabalho e disse ao chefe que estava doente.
·         Um em cada cinco participantes disse que “roubaria” a idéia de um subordinado.
·         Quatro em cada dez participantes disseram que já pediram ao garçom para aumentar o valor da nota do almoço ou conhecem alguém que já fez isso.
·         Praticamente 40% dos votantes afirmaram que dão risada (ou sabem de alguém que fez isso) das piadas do chefe mesmo quando elas não são engraçadas.
 “Difícil não é fazer o que é certo, é descobrir o que é certo fazer” Robert Henry Srour
 
“No final das contas, sua atitude determina sua altitude” ditado popular
 
VOCÊ s.a./JULHO 2000
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