As síndromes epilépticas são afecções do sistema nervoso central,
sendo caracterizadas por crises recorrentes e espontâneas, decorrentes
de descargas anormais e desordenadas de células nervosas. A
investigação científica moderna sobre o tema consolidou-se durante a
década de 1930, após o desenvolvimento do registro
eletroencefalográfico (EEG) por Hans Berger (Delgado-Escueta e cols.,
1986). Nos anos que se seguiram, os registros EEG realizados por
muitos cientistas, dentre eles o próprio Berger, Lennox, Gibbs,
Penfield, Jasper e outros, confirmaram a natureza das crises
epilépticas como uma atividade paroxística e anormal dos neurônios,
como havia afirmado John Hughlings Jackson 70 anos antes.
Apesar da utilização do método científico para a elucidação deste
fenômeno e dos importantes avanços na área, obtidos nos últimos 30
anos, aproximadamente 50 milhões de pessoas no mundo têm epilepsia
refratária aos atuais tratamentos medicamentosos (Porter e Rogawski,
1992). A importância médica desta patologia acentua-se ainda mais pelo
fato de que ela tende a durar por toda a vida, podendo acarretar
profundas conseqüências psicopatológicas. Além disso, sua relevância
humana é grande em função de preconceito contra o paciente com
epilepsia e das repercussões econômicas, sociais e legais decorrentes
deste preconceito.
Em uma tentativa de melhorar os conhecimentos acerca da epilepsia no
ser humano, as pesquisas passaram também a se desenvolver em animais
de laboratório. A relevância de um modelo experimental é determinada
pelo grau em que o modelo serve como testemunha do fenômeno natural.
Apesar do freqüente aparecimento de diferentes modelos experimentais,
poucos são aqueles que resistem a um exame rigoroso e à prova do
tempo. Isso é esperado, pois o modelo experimental não passa de um
modelo, que mimetiza algumas das características desta ou daquela
forma de epilepsia.
Com o passar do tempo, os modelos que mais se assemelham com a
patologia humana ou que guardam estreitas relações com esta
permanecerão, em detrimento dos demais. Nesse sentido, torna-se
fundamental a diversificação dos modelos experimentais gerando
distintos pontos de vista e permitindo uma compreensão mais holística
dos fenômenos que caracterizam as epilepsias. Finalmente, para que um
modelo experimental seja classificado como um modelo de epilepsia ele
deve preencher os seguintes requisitos: demonstrar a presença de
atividade epileptiforme nos registros eletroencefalográficos e
clinicamente apresentar uma atividade semelhante àquelas observadas
durante uma crise epiléptica.
A classificação dos modelos experimentais de epilepsias transformou-se
drasticamente nos últimos 30 anos. Um dos catalisadores dessa mudança
certamente foi o rápido desenvolvimento da genética molecular, que
modificou a visão científica a respeito das relações entre meio
ambiente e código genético.
Anteriormente, os modelos foram classificados como: genéticos, onde o
aparecimento das crises epilépticas espontâneas ou induzidas estava
relacionado com aspectos associados à formação e ao desenvolvimento do
sistema nervoso; e não genéticos, onde as crises epilépticas eram
desencadeadas através da estimulação química ou elétrica do sistema
nervoso em animais "normais" (Jasper e cols., 1969; Púrpura e cols.,
1972; Mello e cols., 1986). O objetivo dessa classificação era
correlacionar os diferentes modelos com os distintos tipos de
epilepsias existentes.
Nesta época, esses modelos experimentais serviram decisivamente como
screening farmacológico de drogas antiepilépticas. O principal
objetivo dos pesquisadores de então estava centrado na contenção das
crises convulsivas, ou seja em um tratamento sintomático mas não
necessariamente curativo. Esses modelos alcançaram grande relevância
principalmente na década de 1960, quando muitas drogas antiepilépticas
foram desenvolvidas (White, 1997). Paralelamente, esses modelos
contribuíram substancialmente com informações a respeito dos
mecanismos envolvidos na gênese e manutenção das crises.
A partir das décadas de 1970 e 1980, com o aparecimento de modelos
experimentais crônicos induzidos, sendo o principal destes o modelo do
abrasamento, os estudos das drogas antiepilépticas se voltaram para a
identificação de agentes capazes de prevenir a epileptogênese e/ou
diminuir os déficits comportamentais de longa duração decorrentes das
crises. No entanto, as grandes restrições de parte dos clínicos em
relação à real validade deste modelo para as epilepsias humanas,
resultaram em um enorme retardo na incorporação da porção "aplicada"
dos dados obtidos com o modelo do abrasamento.
Nas décadas de 1980 e 1990, dois outros modelos foram extensamente
utilizados: o modelo da pilocarpina e o modelo do ácido caínico
(Turski e cols., 1983; Ben-Ari e cols., 1979; Leite e cols., 2002).
Ambos os modelos replicam características fenomenológicas das
epilepsias humanas do lobo temporal (Ben-Ari, 1985; Turski e cols.,
1989). Assim, a administração local ou sistêmica desses compostos
resulta em um padrão de crise límbica duradoura bastante
característica (status epilepticus), que após um período conhecido
como silencioso (de 3 a 14 dias), leva o animal a apresentar crises
espontâneas e recorrentes (Turski e cols., 1983). A lesão cerebral
induzida pelo status epilepticus nesses modelos pode ser considerada
como equivalente a um evento epileptogênico (ou seja, capaz de gerar
epilepsia) no ser humano, como por exemplo uma convulsão febril
(Mathern e cols., 1996).
Atualmente, apesar de não havermos ainda ultrapassado o desafio de 20
anos atrás, muitos grupos de pesquisa estão buscando terapias
farmacológicas capazes de reverter o quadro epiléptico já instalado,
principalmente através do redirecionamento das alterações plásticas
decorrentes do estado epiléptico. Em um outro nível busca-se também a
ação profilática sobre aquelas epilepsias que podem ser previstas com
um elevado grau de certeza, como por exemplo as epilepsias que sucedem
um trauma cranio-encefálico grave. A tabela abaixo resume alguns
modelos experimentais e suas respectivas alocações dentro da
classificação das epilepsias no homem.
Link para visualizar tabela contendo os principias modelos
experimentais para o estudo da epilepsia:
http://www.comciencia.br/reportagens/epilepsia/ep24.htm
Fonte:
http://www.comciencia.br/reportagens/epilepsia/ep24.htm