A CRISE HÍDRICA NO BRASIL: visão de um geógrafo amador.
Quase todas as bacias hidrográficas brasileiras nascem no Planalto Central e, há anos, os pequenos produtores rurais à jusante das cabeceiras dos rios que alimentam essas bacias denunciam a diminuição da água de superfície e dos lençóis freáticos. O aumento da produção do primeiro setor, quase exclusivamente voltado para atender as demandas internacionais, tem grande responsabilidade na escassez de água, embora os meios de comunicação oficiais - como forma de fazer terrorismo e dominar pelo medo - responsabilizem o consumo residencial pela crise em curso.
Ontem, um certo jornal, denunciava que são cera de 200 mil dos quase 700 mil moradores, os responsáveis pela crise, pois lançam seus rejeitos na represa Billings, em São Paulo. Com isso, escamoteiam que muitos dos que hoje ali vivem, e sem as mínimas condições de saneamento, foram de outros lugares expulsos, seja pela especulação imobiliária, seja pelo estado e seus urbanistas. Recentemente a realização da Copa produziu efeito semelhante em relação às vidas de mais de 250 mil brasileiros, retirando-os de seus antigos domicílios.
Muitos daqueles moradores do entorno da Billings ou da Guarapiranga viviam onde hoje está a avenida Água Espraiada ou onde está a nova sede da Rede Globo de televisão. Foram expulsos para periferias cada vez mais longe, coincidindo com mananciais tipo a Guarapiranga ou a Billings. Há uma tese de doutoramento sobre essa questão, e que faz corrosiva crítica ao urbanismo, defendida no final da década de 1990, pelo geógrafo Sérgio Martins, intitulada "Nos confins da metrópole: o urbano às margens da represa de Guarapiranga". A leitura recomendo.
De outro lado, há que se considerar que a matriz energética brasileira e mundial, altamente poluente, precisa ser radicalmente substituída. As hidroelétricas, para além dos fortes impactos sociais e culturais nas vidas das pessoas, cada vez menos produzirão energia. Basta considerar o aumento do assoreamento dos leitos causados pelo tipo de desmatamento e pela ocupação humana das margens de lagos como a Guarapiranga. Muitas hidroelétricas foram criadas durante a ditadura militar. Onde antes se tinha lagos com profundidade de até 40 metros, em alguns casos, quarenta anos depois, o que se encontra são espelhos d´água que não nos alcançam os joelhos.
O medo é uma forma de dominação. E querem nos dominar através daí, impondo-nos o medo de ficarmos sem água. Aumentarão impostos. Continuarão a exportar gêneros agrícolas e pecuários, e junto trilhões de litros d´água, mesmo que isso mate indígenas, camponeses, e as gentes das periferias dos grandes centros urbanos.