A Montanha dos Sete Abutres - Ética Jornalística

11 views
Skip to first unread message

Laércio Góes

unread,
Oct 8, 2011, 11:14:35 AM10/8/11
to Legislação e Ética da Comunicação, laerc...@gmail.com

A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (1951)

Ace in the Hole
imagem imagem imagem

Ficha Técnica

Outros Títulos: El gran carnaval (Espanha)
L'asso nella manica (Itália)
Le gouffre aux chimères (França)
Pais: Estados Unidos
Gênero: Drama, Filme Noir
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, Walter Newman, Lesser Samuels
Produção: Billy Wilder
Música Original: Hugo Friedhofer
Fotografia: Charles Lang
Edição: Arthur P. Schmidt
Direção de Arte: Hal Pereira, A. Earl Hedrick
Figurino: Edith Head
Maquiagem: Wally Westmore
Efeitos Sonoros: Harold Lewis, Gene Garvin
Nota: 8.8
Filme Assistido em: 1952

Elenco

Kirk Douglas Charles 'Chuck' Tatum
Jan Sterling Lorraine Minosa
Robert Arthur Herbie Cook
Porter Hall Jacob Q. Boot
Frank Cady Sr. Federber
Richard Benedict Leo Minosa
Ray Teal Xerife Gus Kretzer
Lewis Martin McCardle
John Berkes Papa Minosa
Frances Dominguez Mama Minosa
Gene Evans Policial
Frank Jaquet Sam Smollett
Harry Harvey Dr. Hilton
Geraldine Hall Nellie Federber
Richard Gaines Nagel
Edith Evanson Srta. Deverich
Ken Christy Jessop
Francisco Day Fotógrafo
Lester Dorr Padre Diego
Charles Griffin Sr. Wendel
Frank Keith Bombeiro
Bert Moorhouse Josh Morgan
Bert Stevens Repórter

Prêmios

Festival Internacional de Veneza, Itália

Prêmio Internacional (Billy Wilder)

Indicações

Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood, EUA

Oscar de Melhor Roteiro Original

Festival Internacional de Veneza, Itália

Prêmio Leão de Ouro (Billy Wilder)

Videoclipes

70 anos de cinema 70 anos de cinema 70 anos de cinema 70 anos de cinema

Sinopse

Charles Tatum é um repórter que, após ser despedido de diversos empregos em grandes jornais do Leste, chega sem dinheiro à pequena cidade de Albuquerque, no Novo México. Ao passar defronte ao “Sun Bulletin”, ele decide entrar e pedir uma oportunidade ao Sr. Jacob Q. Boot, dono e editor-chefe desse pequeno jornal da cidade. Ao Sr. Boot, ele diz ser um repórter de US$250 semanais, mas termina concordando com apenas US$50 por semana oferecidos pelo editor.

Manter-se nesse jornal não é sua meta, que espera ansiosamente por um furo de reportagem que o recoloque na grande imprensa. Inescrupuloso e capaz de manipular, distorcer ou inventar fatos, ele está disposto a tudo para conseguir a grande matéria que o levará de volta à sua antiga posição.

Sentindo-se um tanto entediado e sem motivação, Tatum é enviado para cobrir uma caça às cascavéis em uma cidade vizinha, juntamente com o repórter fotográfico Herbie Cook. No meio do caminho, eles param para abastecer o carro, quando Tatum toma conhecimento que Leo Minosa, um jovem proprietário, acha-se preso em uma caverna onde fora procurar relíquias indígenas. Quando lhe é dito que a caverna acha-se localizada na sagrada Montanha dos Sete Abutres, o repórter sente que essa pode ser a grande chance que esperava, mas para isso precisa ter o controle da situação.

Ignorando as ordens do xerife, ele e Herbie vão até a caverna onde descobrem Leo preso numa estreita e instável fenda. Tatum acalma o apavorado Leo, tira uma foto dele e, ao retornar, telefona para Boot e lhe fala sobre o grande furo jornalístico. Assim, ele transforma o resgate de Leo em um assunto nacional, atraindo milhares de curiosos, cinegrafistas de noticiários e comentaristas de rádio, além de forçar Lorraine, a mulher de Leo, a se fazer passar por uma esposa arrasada. Na verdade ela ia abandonar o marido nesse trágico momento, mas Tatum a faz ver que ela pode ganhar um bom dinheiro na sua lanchonete quando as pessoas começarem a chegar para ver o que está ocorrendo.

No dia seguinte, quando o primeiro artigo é publicado no “Sun Bulletin”, o ponto comercial de Lorraine é invadido por um grande número de visitantes. Por outro lado, ao saber das condições de saúde de Leo, através do Dr. Hilton, Tatum propõe ao xerife Gus Kretzer que estenda a operação de resgate por uma semana, alegando que, agindo assim, os dois vão ganhar muito em publicidade.

Quando outros repórteres reclamam da posição privilegiada de Tatum, o xerife anuncia que não permitirá ninguém mais na caverna por razões de segurança. Lá, Leo diz a Tatum que espera que esse seu acidente ajude de alguma forma a salvar seu casamento. Ao retornar da caverna, Tatum esbarra em Boot, que descobrira sua esperteza e o condena pelo tipo não ético de fazer jornalismo.

Nagel, um editor de Nova York, telefona para Tatum e concorda em lhe pagar US$1000 por dia pela cobertura da história. Irrequieta, Lorraine pede a Tatum que a leve consigo para Nova York, e ele lhe responde com um beijo.

Dr. Hilton informa a Tatum que Leo desenvolveu uma pneumonia e que precisa ser resgatado o mais rapidamente possível. Já Leo, pede ao jornalista que lhe traga um padre. Na manhã seguinte, Leo, com dificuldades para respirar, pede a Tatum que entregue à Lorraine um presente que ele comprou para ela. Desesperado e furioso, o jornalista a encontra e a força a vestir o presente do marido, uma barata estola de peles. Ela reage, ele tenta estrangulá-la com a estola e ela o apunhá-la com sua tesoura. Embora sangrando, Tatum leva o padre até a caverna. Leo morre enquanto o padre faz suas orações.

Sentindo muitas dores e cheio de culpa, Tatum telefona para Nagel, a quem declara ter sido ele o responsável pela morte de Leo. De volta aos escritórios do “Sun Bulletin”, ele diz a Boot que o editor não vai poder mais contar com ele para nada, caindo, logo em seguida, morto.

imagem imagem imagem

Comentários

“A Montanha dos Sete Abutres” é mais um brilhante filme do grande mestre Billy Wilder, responsável por inúmeras pérolas do cinema, dentre as quais cito, como exemplos, “Farrapo Humano” (1945), “Crepúsculo dos Deuses” (1950) e “Pacto de Sangue” (1944). Tendo recebido, ao longo de sua carreira, 20 indicações ao Oscar e sido agraciado com 6 estatuetas como diretor e/ou roteirista, neste filme ele assina a produção, a direção, além de co-assinar o roteiro. Com um roteiro ambicioso, Wilder procura focar a manipulação de notícias por pessoas que só desejam explorar o sensacionalismo a custas do sofrimento humano.

A trilha sonora de Hugo Friedhofer encaixa-se perfeitamente com as ações, assim como ocorre com a fotografia de Charles Lang, que se acha em completa harmonia com a atmosfera decorrente do roteiro. A trama procura chamar atenção para o poderoso xerife corrupto, para a imprensa interessada apenas em vender notícias, para a vítima usada para outros interesses que não o seu resgate e para o povo completamente manipulado e com memória curta.

No elenco, Kirk Douglas nos brinda com uma brilhante atuação no papel do repórter sem escrúpulos. Jan Sterling, no papel de uma mulher obstinada e sexy, apresenta-nos um ótimo trabalho, assim como, os coadjuvantes Richard Benedict e Robert Arthur.

Enfim, “A Montanha dos Sete Abutres” é um filme imperdível.

CAA

http://www.65anosdecinema.pro.br/sobreosite.jsf?ixpg=2



MÍDIA E CINEMA
Notícias e abutres

Alexandre Gomes

Todo fazedor de jornais deve tributo ao Maligno. [La Fontaine]

Clássico do cinema americano, A montanha dos sete abutres (Ace in the hole), quase vale por um curso de Jornalismo, por apresentar reflexões tão atuais que mal se pode acreditar que tenha sido feito no início da década de 50 (1951). Assistir a este filme – como ler Ilusões perdidas, de Balzac – é essencial a quem se aventura no terreno a cada dia mais pantanoso do jornalismo.

A história do filme é relativamente simples. Um jornalista desempregado nos grandes centros por conduta questionável busca refúgio em pequeno jornal da província, em Albuquerque, no estado do Novo México. Após longo e tedioso ano ele finalmente encontra uma matéria que pode levá-lo de volta ao grande circuito: um homem preso em velhas ruínas indígenas, justamente na Montanha dos Sete Abutres que dá o título do filme em português – até mais adequado que o título original.

O drama humano, as circunstâncias reais ou inventadas pelo repórter para a trama e a abordagem sensacionalista logo chamam a atenção do público. Aos poucos o repórter envolve tudo no enredo da sua história, manipula o xerife para ter acesso exclusivo às ruínas, controla a mulher da vítima para que ela a contragosto desempenhe um papel teatral como semiviúva. Por fim, ele obriga o empreiteiro responsável pelo salvamento a adotar um método de resgate que demoraria uma semana, em vez de outro que libertaria a vítima em menos de 24 horas, pois precisa prolongar o espetáculo ao máximo. Quando estão próximos de serem salvos – o soterrado da caverna e o repórter do ostracismo provinciano – a vítima morre de pneumonia e acaba por provocar um surto de remorso no jornalismo.

Mas não só o enredo principal permite uma reflexão profunda sobre o jornalismo: a todo momento o protagonista dita suas máximas e conselhos sobre o ele considera notícia. Apesar de quase caricaturais, já que ele enuncia coisas que nem sempre são ditas, as reflexões dele revelam toda a ideologia da "penny press" americana. "Eu posso cuidar de grandes notícias e pequenas notícias, e se não houver notícias eu saio e mordo um cachorro" ("I can handle big news and little news. And if there’s no news, I’ll go out and bite a dog"), diz Charles Tatum ao pedir emprego no jornal de Albuquerque, brincando com a clássica definição do que é notícia.

Num dos trechos mais elucidativos da ideologia da "penny press" – quando Tatum discute durante uma viagem com o novato Herbie Cook o que é jornalismo e o que é notícia – o protagonista diz que os anos de faculdade de Cook foram inúteis, muito mais útil teria sido a experiência de Tatum como vendedor de jornais pelas esquinas de Nova Iorque. Desta experiência ele aprendeu o que é notícia – entendida como sendo aquilo que interessa ao público, que vende jornal.

A morte de centenas ou milhares de pessoas, prega Tatum, não tem o mesmo interesse que a morte de uma única pessoa. Neste evangelho do penny press a morte de milhares é apenas um número, enquanto a morte de uma única pessoa tem "interesse humano", faz com que as pessoas "tenham interesse em saber tudo sobre ele".

A necessidade da notícia de impacto – que vende – independe da verdade, tanto que o quadro com a frase "Diga a verdade" na redação do jornal de Albuquerque é constantemente ironizada por Tatum e, pressionado por temores de consciência, é com ela que ele tenta se reconciliar no final do filme. A "construção da notícia" também é enfocada por Tatum durante a viagem já mencionada. Ele e Herbie vão cobrir um festival de "caça a cascavel" e Tatum menospreza o evento, a despeito das centenas de serpentes. "Não preciso de centenas de cascavéis, dêem-me apenas umas 50 no Centro de Albuquerque", diz ele. O pânico causado pelas cascavéis caçadas pelas ruas da cidade seria amplificado quando uma única cobra ainda restasse, e este último réptil estaria guardado na gaveta de Tatum, escondida para que a história prosseguisse.

Quase não há inocentes na história brilhantemente dirigida por Billy Wilder, a despeito de ela ter sido um grande fracasso comercial. Tatum é quase tão vítima como o acidentado Leo Minosa. O público que acorre em massa ao local do acidente (que gerou um segundo título pelo qual o filme é conhecido, The big carnival), que acompanha com grande interesse por jornais e rádios a epopéia, é que fornece o leit-motiv da abordagem sensacionalista.

A mulher de Minosa, ansiosa por dinheiro e por sair ela também do buraco, o xerife ambicioso, que se submete à conspiração de Tatum para garantir sua reeleição, são apenas os atores mais evidentes de um enredo de oportunismo do qual só escapa a patética, quixotesca figura do pai de Leo, emblematicamente a única a ficar defronte das ruínas após Tatum anunciar a morte de Leo.

Se os jornalistas que acorrem em massa ao evento – como no caso real do soterramento de Floyd Collins em 1925, que inspirou o filme e inaugurou a "história de fundo humano" como produto da imprensa – protestam contra Tatum não é pela manipulação da notícia e da emoção dos leitores, mas sim porque ele conseguiu o monopólio do acesso a Leo com suas maquinações. Mesmo o aparentemente inocente Herbie demonstra-se encantado com as teorias de Tatum e ansioso por segui-lo na fama, deixando de lado seus princípios.

O fracasso do filme é facilmente explicável, afinal dificilmente ele seria bem visto pela imprensa que se veria retratada nele – e com isto compartilha o destino de seu contemporâneo Cidadão Kane. Retrata também o gosto da massa, dos consumidores de notícias ansiosos por uma desgraça que lhes traga alguma emoção à vida, e por isto certamente também não agradou.

O filme tem um final dramático, no qual transparece um fundo moral que quase empobrece a trama com uma alegoria melada. Mas é sobretudo um final otimista porque demonstra alguma esperança de uma renovação ética do jornalismo. Em resenha clássica, William Shriver disse que o filme é para o jornalismo impresso o que outro clássico, Rede de intrigas (Network), é para a TV, ainda que a comparação brilhante seja talvez imprecisa.

Rede de intrigas – outro filme essencial aos jornalistas – é apenas uma atualização do filme de Wilder para a década de 70. A grande diferença é que Network não comporta a mesma esperança no final, porque já demonstra a informação em adiantado estado de mercantilização, não mais fazendo sentido senão como produto de uma indústria cultural, feita não mais para informar, mas apenas para ser consumida.

Se em 1951 Tatum era um caso extremo, hoje ele seria a regra absoluta de um jornalismo que não é só industrial por adotar modernos processos de produção e disciplina fabril, mas também porque não produz informação, e sim mercadoria. Hoje já não haveria espaço para Mr. Boot – o editor do jornal de Albuquerque que orgulhosamente exibe o quadro "Tell the truth" e tenta conter os excessos de Tatum –, porque sua visão de que a informação é um meio para as pessoas viverem melhor e não um fim em si mesmo já não tem mais vez no jornalismo industrial moderno.

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd270620017.htm



'A Montanha dos Sete Abutres' sai em DVD

Filme de diretor de 'Quanto Mais Quente Melhor' critica o jornalismo sensacionalista

14 de junho de 2011 | 11h 02

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo - Agência Estado

Billy Wilder foi um cineasta perspicaz - por meio do humor (ele dirigiu comédias clássicas como "Quanto Mais Quente Melhor"), revelou o ridículo do ser humano. E, quando tratava um assunto a sério, também era implacável. É o que se nota em "A Montanha dos Sete Abutres", produção em preto e branco de 1951 que finalmente sai em DVD, depois de ser encontrado apenas em VHS: no dia 20, o disco será lançado pela Paramount e vendido, inicialmente, apenas pela Livraria Cultura.

Kirk Douglas representa o jornalismo antiético no longa - Reprodução
Reprodução
Kirk Douglas representa o jornalismo antiético no longa

Trata-se da primeira incursão de Wilder (1906-2002) contra a imprensa - ele voltaria, de forma mais cômica, em "A Primeira Página", de 1974, com sua dupla favorita, Jack Lemmon e Walter Matthau. "A Montanha", no entanto, representa um soco direto no jornalismo sensacionalista. Chuck Tatum (Kirk Douglas) é um repórter que, depois de ser mandado embora de um grande jornal, arruma emprego em outro, menor, de uma pequena cidade do Novo México. Lá, quase nada acontece e, quando seu editor lhe sugere escrever sobre o aumento na colheita de cereais da região, Tatum responde com uma máxima: "Boa notícia não é notícia".

Até que um fato muda completamente sua rotina: o acidente em uma mina deixa um homem preso (Richard Benedict). Inescrupuloso, Tatum vê no acontecimento uma oportunidade para se autopromover. Conseguindo a cumplicidade do xerife e da mulher da vítima, ele mantém o homem preso na caverna para que possa continuar a produzir a série de matérias. E também para que possa se vingar dos antigos patrões, que agora precisam dele para conseguir notícias.

A região ao redor da mina é ocupada por um enorme parque de diversões, tomado por curiosos que até se esquecem os motivos que os levaram lá - o fato justifica um dos títulos originais do filme, Big Carnival, o grande carnaval. Na verdade, entre os personagens, poucos se salvam. Lorraine, mulher do mineiro preso, por exemplo, interpretada por Jan Sterling, não se importa com ele, interessada apenas em deixar a pequena cidade e sua entediante rotina.

Inspirado em dois fatos reais, "A Montanha dos Sete Abutres" foi um tremendo fracasso comercial e de crítica. Na verdade, a sociedade da época não estava preparada para uma crítica tão contundente e somente com o tempo suas qualidades foram reconhecidas, a ponto de ser incluído, em 2008, na lista dos 500 maiores filmes da história.


A Montanha dos Sete Abutres
Direção: Billy Wider
Lançamento: Paramount, R$ 29,90 (a partir de 20/6)

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,a-montanha-dos-sete-abutres-sai-em-dvd,732133,0.htm

Laércio Góes

unread,
May 14, 2013, 6:45:49 PM5/14/13
to Turma de Jornalismo UNIME 2011, unime.jorna...@hotmail.com, laerc...@gmail.com, Legislação e Ética da Comunicação
--
Laércio Torres de Góes
Site: www.laerciogoes.com.br
Twitter: @laerciogoes
Facebook: https://www.facebook.com/laerciogoes
Reply all
Reply to author
Forward
0 new messages