Verifiquei que apenas a Alécia e eu não estamos mais de ressaca das
festas de fim de ano - rsrsrsr.
Ontem, tivemos aula com uma professora bastante legal, o nome dela é
Gisele. Trata-se de uma profissional empenhada no que faz e que exige
bastante empenho de nós.
A princípio nosso web quest está definido com um trabalho acerca de um
conto e uma seminário que apresentaremos no dia 30/01.
O Conto que escolhemos foi : Pierre Menard,autor de quixote. Cujo
texto eu colocarei na íntegra no final dessa mensagem. As intruções
para o Web Quest, os textos que discutiremos em aula e os que usaremos
para o embasamento de nosso seminário, vou escanear na próxima terça
feira ( data em que estes textos estarão disponíveis na Faculdade)
para todos os alunos da sala.
Bem, espero que tenham tido um ótimo natal um promissor reveillon e
que esse ano seja melhor pra todos nós.
OBS: Ah , o churrasco na casa da Alécia, sábado que vem as 14hs, está
confirmado. Eu ficarei sem comer desde quinta, que é pra comer
bastante lá!!!rsrrsrsrs.
Pessoal, então é isso. Seminário dia 30 com entrega de trabalho
escrito. As aulas dela são bem legais, falta pouco pra chegarmos lá,
força sempre!!!.
Segue, conforme prometido, o conto que vamos trabalhar em nosso web
quest, inclusive com a elaboração de um seminário.
Pierre Menard,
autor do Quixote
( texto na íntegra)
A obra visível que deixou este romancista é de fácil e breve
enumeração. São, portanto, imperdoáveis as omissões e acréscimos
perpetrados por Madame Henri Bachelier num catálogo falacioso que
certo diário cuja tendência protestante não é segredo teve a
desconsideração de infligir aos seus deploráveis leitores — embora
estes sejam poucos e calvinistas, quando não mações e circuncisados.
Os amigos autênticos de Menard viram com alarme esse catálogo e também
com certa tristeza. Dir-se-ia que ainda ontem nos reunimos diante do
mármore final e no meio dos ciprestes infaustos e já o Erro tenta
deslustrar a sua Memória... Decididamente, é inevitável uma breve
rectificação.
Consta-me que é facílimo recusar a minha pobre autoridade. Espero, no
entanto, que não me proíbam de mencionar dois elevados testemunhos. A
baronesa de Bacourt (em cujos vendredis inesquecíveis tive a honra de
conhecer o chorado poeta) julgou por bem aprovar as linhas que se
seguem. A condessa de Bagnoregio, um dos espíritos mais finos do
principado do Mónaco (e agora de Pittsburgh, Pensilvânia, após o seu
recente casamento com o filantropo internacional Simon Kautzsch, tão
caluniado, ai!, pelas vítimas das suas desinteressadas manobras)
sacrificou «à veracidade e à morte» (tais são as suas palavras) a
senhoril reserva que a distingue e numa carta aberta publicada na
revista Luxe concede-me igualmente o seu beneplácito. Estas nobres
acções, creio eu, não são insuficientes.
Disse que a obra visível de Menard é facilmente enumerável. Examinado
com o maior cuidado o seu arquivo particular, verifiquei que consta
das peças seguintes:
a) Um soneto simbolista que apareceu duas vezes (com variantes) na
revista La conque (números de Março e Outubro de 1899).
b) Uma monografia sobre a possibilidade de construir um vocabulário
poético de conceitos que não sejam sinónimos ou perífrases de que se
forma a linguagem comum, «mas objectos ideais criados por
uma ,convenção e essencialmente destinados às necessidades
poéticas» (Nîmes, 1901).
c) Uma monografia sobre «certas conexões ou afinidades» do pensamento
de Descartes, de Leibniz e de John Wilkins (Nîmes, 1903).
d) Uma monografia sobre a Characteristica universalis de Leibniz
(Mines, 1904).
e) Um artigo técnico sobre a possibilidade de enriquecer o xadrez
eliminando um dos peões de torre. Menard propõe, recomenda, discute e
acaba por rejeitar esta inovação.
f) Uma monografia sobre a Ars magna generalis de Ramon Lull (Nîmes,
1906).
g) Uma tradução com prólogo e notas do Livro da Invenção Liberal e
Arte do Jogo de Xadrez de Ruy López de Segura (Paris, 1907).
h) Os rascunhos de uma monografia sobre a lógica simbólica de George
Boole.
i) Uma análise das leis métricas essenciais da prosa francesa,
ilustrada com exemplos de Saint-Simon (Revue des langues romanes,
Montpellier, Outubro de 1909).
j) Uma réplica a Luc Durtain (que negara a existência de tais leis)
ilustrada com exemplos de Luc Durtain (Revue des langues romanes,
Montpellier, Dezembro de 1909).
k) Uma tradução manuscrita da Aguja de navegar cultos de Quevedo,
intitulada La boussole des précieux.
l) Um prefácio ao catálogo da exposição de litografias de Carolus
Hourcade (Nîmes, 1914).
m) A obra Les problèmes d'un problème (Paris, 1917) que discute por
ordem cronológica as soluções do ilustre problema de Aquiles e da
tartaruga. Surgiram até agora duas edições deste livro; a segunda traz
como epígrafe o conselho de Leibniz «Ne craignez point, monsieur, la
tortue», e remodela os capítulos dedicados a Russell e a Descartes.
n) Uma obstinada análise dos «costumes sintácticos» de Toulet (N. R.
F., Março de 1921). Menard — recordo — declarou que censurar e louvar
são operações sentimentais que nada têm a ver com a crítica.
o) Uma transposição em alexandrinos do Cimetière marin de Paul Valéry
(N. R. F., Janeiro de 1928).
p) Uma invectiva contra Paul Valéry, nas Folhas para a Supressão da
Realidade de Jacques Reboul. (Esta invectiva, diga-se entre
parênteses, é o reverso exacto da sua verdadeira opinião sobre Valéry.
Este assim o entendeu e a amizade antiga entre os dois não correu
perigo).
q) Uma «definição» da condessa de Bagnoregio, no «vitorioso volume» —
a locução é de outro colaborador, Gabriele d'Annunzio — que anualmente
publica esta dama para rectificar os inevitáveis falseamentos do
jornalismo e apresentar «ao mundo e à Itália» uma autêntica imagem da
sua pessoa, tão exposta (pela própria razão da sua beleza e da sua
actuação) a interpretações erróneas ou apressadas.
r) Um ciclo de admiráveis sonetos para a baronesa de Bacourt (1934).
s) Uma lista manuscrita de versos que devem a sua eficácia à pontuação
[1].
Até aqui (sem outra omissão além de uns vagos sonetos de circunstância
para o hospitaleiro, ou ávido, álbum de Madame Henri Bachelier) a obra
visível de Menard, na sua ordem cronológica. Passo agora à outra: a
subterrânea, a interminavelmente heróica, a ímpar. E também — ai das
possibilidades do homem! — a inacabada. Esta obra, talvez a mais
significativa do nosso tempo, consta dos capítulos nono e trigésimo
oitavo da primeira parte do Dom Quixote e de um fragmento do capítulo
vinte e dois. Sei que esta afirmação parece um dislate; justificar
este «dislate» é o objectivo primordial desta nota[2].
Dois textos de valor desigual inspiraram a empresa. Um é aquele
fragmento filológico de Novalis — o que tem o número 2005 na edição de
Dresden — que esboça o tema da total identificação com um autor
determinado. Outro é um desses livros parasitários que situam Cristo
num bulevar, Hamlet na Cannebière ou Dom Quixote na Wall Street. Como
todo o homem de bom gosto, Menard abominava estes carnavais inúteis,
só aptos — dizia — para ocasionar o plebeu prazer do anacronismo ou (o
que é ainda pior) para nos encantar com a ideia primária de que todas
as épocas são iguais ou de que são diferentes. Mais interessante,
embora de execução contraditória e superficial, achava ele o famoso
propósito de Daudet: conjugar numa figura, que é o Tartarín, o
Engenhoso Fidalgo e o seu escudeiro... Quem insinuar que Menard
dedicou a sua vida a escrever um Quixote contemporâneo, calunia a sua
brilhante memória.
Não queria compor outro Quixote — o que é fácil —, mas «o» Quixote.
Não vale a pena acrescentar que nunca encarou a possibilidade de uma
transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. A sua
admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem — palavra
por palavra e linha por linha — com as de Miguel de Cervantes.
«O meu propósito é simplesmente espantoso», escreveu-me a 30 de
Setembro de 1934 de Bayonne. «O termo final de uma demonstração
teológica ou metafísica — o mundo exterior, Deus, a casualidade, as
for¬mas universais — não é menos anterior e comum que o meu divulgado
romance. A única diferença é que os filósofos publicam em agradáveis
volumes as fases intermédias do seu labor e eu resolvi que se
perdes¬sem.» Com efeito, não resta um só rascunho que testemunhe este
trabalho de anos.
O método inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem
o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os Mouros ou
contra o Turco, esquecer a história da Europa entre os anos de 1602 e
de 1918, ser Miguel de Cervantes. Pierre Menard estudou esse
procedimen¬to (sei que conseguiu um manejo bastante fiel do espanhol
do sécu¬lo XVII), mas rejeitou-o por fácil. Ou antes, por impossível!,
dirá o leitor. De acordo, mas a empresa era de antemão impossível, e
de todos os meios impossíveis para a levar a cabo este era o menos
interessante. Ser no século xx um romancista popular do século XVII
pareceu-lhe uma diminuição. Ser, de algum modo, Cervantes e chegar ao
Quixote pareceu¬-lhe menos árduo — por conseguinte, menos interessante
— do que con¬tinuar a ser Pierre Menard e chegar ao Quixote, através
das experiências de Pierre Menard. (Esta convicção, diga-se de
passagem, fê-lo excluir o prólogo autobiográfico da segunda parte do
Dom Quixote. Incluir este prólogo seria criar outra personagem —
Cervantes —, mas também si¬gnificaria apresentar o Quixote em função
dessa personagem e não de Menard. Este, naturalmente, recusou-se a
essa facilidade.) «A minha em¬presa não é difícil, no essencial», leio
noutro local da carta. «Bastar-me¬-ia ser imortal para a levar a
cabo.» Confessarei que costumo imaginar que ele a terminou e leio o
Quixote — todo o Quixote — como se o ti¬vesse pensado Menard? Uma
noite destas, ao folhear o capítulo XXVI — nunca tentado por ele —,
reconheci o estilo do nosso amigo e como que a sua voz nesta frase
excepcional: las ninfas de los rios, la dolorosa y húmida Eco. Esta
conjunção eficaz de um adjectivo moral e outro físico trouxe-me à
memória um verso de Shakespeare, que discutimos uma tarde:
Where a malignant and a turbaned Turk...
Porquê precisamente o Quixote?, dirá o nosso leitor. Esta
preferên¬cia, num espanhol, não teria sido inexplicável; mas é-o sem
dúvida num simbolista de Nîmes, devoto essencialmente de Poe, que
gerou Baudelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou
Edmond Teste. A carta já citada ilumina este ponto. «O Quixote»,
esclarece Menard, «interessa-me profundamente, mas não me parece, como
direi?, inevitá¬vel. Não posso imaginar o universo sem a interjeição
de Poe:
Ah, bear in mind this garden was enchanted!
ou sem o Bateau ivre ou o Ancient Mariner, mas sei-me capaz de
imagi¬ná-lo sem o Quixote. (Falo naturalmente da minha capacidade
pessoal, não da ressonância histórica das obras.) O Quixote é um livro
contin¬gente, o Quixote é desnecessário. Posso premeditar a sua
escrita, posso escrevê-lo, sem incorrer numa tautologia. Aos doze ou
treze anos li-o, talvez integralmente. Depois reli com atenção alguns
capítulos, os que não irei tentar por agora. Estudei igualmente os
entremezes, as comédias, A Galateia, as Novelas Exemplares, os
trabalhos sem dúvida laboriosos de Persiles e Segismunda e a Viagem do
Parnaso... A minha lembrança geral do Quixote, simplificada pelo
esquecimento e pela indiferença, pode muito bem equivaler à imprecisa
imagem anterior de um livro não escrito. Postulada esta imagem (que
ninguém em boa-fé me pode negar) é indiscutível que o meu problema é
muito mais difícil que o de Cervan¬tes. O meu complacente precursor
não recusou a colaboração do acaso: ia compondo a obra imortal um
pouco à la diable, levado por inércias da linguagem e da invenção. Eu
contraí o misterioso dever de reconstruir li¬teralmente a sua obra
espontânea. O meu solitário jogo é governado por duas leis polares. A
primeira permite-me experimentar variantes de tipo formal ou
psicológico; a segunda obriga-me a sacrificá-las ao texto "ori¬ginal"
e a raciocinar de um modo irrefutável essa anulação... A estes
en¬traves artificiais tem de se juntar outro, congénito. Compor o
Quixote nos princípios do século XVII era uma empresa razoável,
necessária, por¬ventura até fatal; nos princípios do xx, é quase
impossível. Não foi em vão que transcorreram trezentos anos,
carregados de complexíssimos factos. Entre os quais, para mencionar um
único: o próprio Quixote.»
Apesar destes três obstáculos, o fragmentário Quixote de Menard é mais
subtil que o de Cervantes. Este, de um modo grosseiro, opõe às
fic¬ções cavaleirescas a pobre realidade provinciana do seu país;
Menard es¬colhe como «realidade» a terra de Carmen durante o século de
Lepanto e de Lope. Que espanholadas não teria aconselhado essa opção a
Mauri¬ce Barrès ou do doutor Rodríguez Larreta! Menard, com toda a
naturali¬dade, evita-as. Na sua obra não há nem ciganadas, nem
conquistadores, nem místicos, nem Filipe II, nem autos-de-fé.
Desatende ou proscreve a cor local. Este desdém indica um sentido novo
do romance histórico. Este desdém condena Salambo, inapelavelmente.
Não menos assombroso é considerar capítulos isolados. Por exem¬plo,
consideremos o XXXVIII da primeira parte, «que trata do curioso
discurso que fez Dom Quixote das armas e das letras». É sabido que Dom
Quixote (tal como Quevedo na passagem análoga, e posterior, de La hora
de todos) falha o pleito contra as letras e a favor das armas.
Cer¬vantes era um velho militar: a sua falha explica-se. Mas que o Dom
Qui¬xote de Pierre Menard — homem contemporâneo de La trahison des
clercs e de Bertrand Russell — reincida nesses nebulosos sofismas!
Ma¬dame Bachelier viu nelas uma admirável e típica subordinação do
autor à psicologia do herói; outros (nada perspicazmente) uma
transcrição do Quixote; a baronesa de Bacourt, a influência de
Nietzsche. A esta tercei¬ra interpretação (que julgo irrefutável) não
sei se me atreverei a acrescen¬tar uma quarta, que condiz muito bem
com a quase divina modéstia de Pierre Menard: o seu hábito resignado
ou heróico de propagar ideias que eram o rigoroso reverso das
preferidas por ele. (Relembremos outra vez a sua diatribe contra Paul
Valéry na efémera folhinha super-realista de Jacques Reboul.) O texto
de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é
quase infinitamente mais rico. (Mais ambí¬guo, dirão os seus
detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.)
É uma revelação cotejar o Dom Quixote de Menard com o de Cer¬vantes.
Este, por exemplo, escreveu (Dom Quixote, primeira parte, nono
capítulo):
«... la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito
de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente,
advertencia de lo por venir[3].»
Redigida no século XVII, redigida pelo «engenho leigo» Cervantes,
es¬ta enumeração é um simples elogio retórico da História. Menard, em
contrapartida, escreve:
«... la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito
de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente,
advertencia de lo por venir.»
A história, mãe da verdade: a ideia é espantosa. Menard,
contem¬porâneo de William James, não define a história como uma
investigação da realidade, mas sim como a sua origem. A verdade
histórica, para ele, não é o que aconteceu; é o que julgamos que
aconteceu. As cláusulas fi¬nais — «exemplo e aviso do presente,
advertência do porvir» — são desafrontadamente pragmáticas.
Também é vivo o contraste dos estilos. O estilo arcaizante de Menard —
estrangeiro mesmo — sofre de uma certa afectação. Não sucede o mesmo
com o do precursor, que maneja com desenvoltura o espanhol corrente da
sua época.
Não há exercício intelectual que por fim não seja inútil. Uma
doutri¬na filosófica ao princípio é uma descrição verosímil do
universo; passam os anos e é um simples capítulo — quando não um
parágrafo ou um no¬me — da história da filosofia. Na literatura, esta
capacidade final é ainda mais notória. O Quixote — disse-me Menard —
foi acima de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes
patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A
glória é uma incompreensão, e quiçá a pior.
Nada têm de novo estas comprovações niilistas; o singular é a deci¬são
que delas fez derivar Pierre Menard. Resolveu adiantar-se à vacuida¬de
que aguarda todas as fadigas do homem; lançou-se numa empresa
complexíssima e de antemão fútil. Dedicou os seus escrúpulos e
vigílias a repetir num idioma alheio um livro preexistente.
Multiplicou os rascu¬nhos; corrigiu tenazmente e rasgou milhares de
páginas manuscritas[4]. Não permitiu que fossem analisadas por ninguém
e cuidou para que não lhe sobrevivessem. Em vão procurei reconstituí-
las.
Reflecti que é lícito ver no Quixote «final» uma espécie de
palimpses¬to, em que deverão transparecer os vestígios — ténues, mas
não indeci¬fráveis — da «prévia» escrita do nosso amigo. Infelizmente,
só um se¬gundo Pierre Menard, invertendo o trabalho do anterior,
poderia vir a exumar e ressuscitar essas Tróias...
«Pensar, analisar, inventar (escreveu-me também) não são actos
anómalos, são a normal respiração da inteligência. Glorificar o
ocasional cumprimento dessa função, entesourar antigos e alheios
pensamentos, recordar com ingénua estupefacção o que o doctor
universalis pensou, é confessar a nossa fraqueza de espírito ou a
nossa barbárie. Todo o homem tem de ser capaz de todas as ideias e
entendo que no porvir o será.»
Menard (porventura sem querer) enriqueceu por meio de uma técnica nova
a arte estagnada e rudimentar da leitura: a técnica do anacronismo
deliberado e das atribuições erróneas. Esta técnica de aplicação
infinita insta-nos a percorrer a Odisseia como se fosse posterior à
Eneida e o li¬vro Le jardin du Centaure de Madame Henri Bachelier como
se fosse de Madame Henri Bachelier. Esta técnica povoa de aventura os
livros mais calmosos. Atribuir a Louis Ferdinand Céline ou a James
Joyce A Imita¬ção de Cristo, não é uma suficiente renovação desses
ténues avisos espiri¬tuais?
Nîmes, 1939.
________________________________________
[1] Madame Henri Bachelier enumera igualmente uma versão literal da
versão literal que fez Quevedo da Introduction à la vie dévote de São
Francisco de Sales. Na biblioteca de Pierre Menard não há vestígios de
tal obra. Deve tratar-se de uma piada do nosso amigo, mal ouvida.
[2] Tive também o propósito secundário de esboçar o retrato de Pierre
Menard. Porém, como posso ousar competir com as páginas áureas que me
dizem que prepara a baronesa de Bacoun ou com o lápis delicado e
pontual de Carolus Hourcade?
[3] «…a verdade, cuja mãe é a história, émula do tempo, depósito das
acções, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente,
advertência do porvir».
[4] Lembro-me dos seus cadernos quadriculados, das sua negras rasuras,
dos seus peculiares símbolos tipográficos e da sua letra de insecto.
Ao pôr do Sol gostava de sair a passear pelos redores de Nîmes;
costumava levar consigo um caderno e fazer uma alegre fogueira.
Abraços a todos e até mais.
Ari SM Campos