Os Jones são a família que todo mundo quer ser - ricos, bonitos,
elegantes. Suas festas são sempre as melhores e todo mundo quer ser como
eles. Mas tem alguma história estranha por trás de tanta perfeição.
20/12/2010
Família perfeita é os Jones. Gente bonita, elegante, educada, sempre
vestida impecavelmente, pilotando os melhores carros, morando numa
mansão decorada com tudo do bom e melhor. Comida, inclusive a das
festas? Manjar dos deuses. Ninguém consegue ser melhor. E essa é mesmo a
idéia.
Tudo é tão perfeito só por um motivo – os Jones não são uma
família de verdade. Eles são escolhidos a dedo para compor uma unidade
familiar, que se instala numa vizinhança bem de vida (neste caso, um
rendimento anual de pelo menos US$ 100.000,00). O objetivo é um só – os
Jones são vendedores profissionais, que alavancam a venda dos
lançamentos de produtos caros e chiques entre os vizinhos. A boa vida
deles vem daí, porque eles ganham para isso.
A atual composição da falsa família é Kate (Demi Moore), que é a chefe
da unidade; Steve (David Duchovny), ex-vendedor de carros
recém-contratado; e os “filhos”, Jenn (Amber Head) e Mick (Ben
Hollingsworth). Eles são o sonho de consumo de qualquer vizinho – não só
pela aparência impecável como pela gentileza com que se tratam 24 horas
por dia. Alguém devia desconfiar de alguma coisa.
Mas não desconfia. Os Jones são apenas o objeto do desejo de nove entre
dez de todas as pessoas que os rodeiam. Todo mundo quer ser como eles e
ter o que eles têm. Ninguém vê que, entre quatro paredes, eles discutem
suas metas e se evitam nos dias de folga. Muito menos que um casal
aparentemente tão apaixonado quanto Kate e Steve mora em quartos
separados. Com todo conforto, é claro, porque eles são os primeiros a
testar os artigos que vendem. E, como prêmio de desempenho, até ganham
alguns fora do alcance dos comuns mortais, como um carro esporte último
tipo.
Como toda vida perfeita, esta também tem uma contra-indicação. Quem faz
parte da empreitada não tem direito à expressão dos próprios
sentimentos. Assim, a vida amorosa fica bem prejudicada. Steve, por
exemplo, tem uma queda por Kate – mas ela dá chance? Os dois mais
jovens, Jenn e Mick, se arriscam mais, porque procuram satisfação fora
de “casa” – o que traz o risco de a máscara cair. Até onde um teatro
desses pode ir?
Há também o problema ético – um casal de vizinhos, Larry (Gary Cole) e
Summer (Glenne Headly), é o mais entusiasta da competição para ter tudo o
que os Jones têm. Mas eles vivem no mundo real, em que a crise
econômica bate à parte e o endividamento tem limites.
Se explorasse melhor estas contradições, o filme de Derrick Borte, que
tem um passado na publicidade, poderia render muito mais. Até do ponto
de vista do humor. Se não vai tão longe, a culpa é particularmente do
roteiro (do próprio Borte, a partir de um argumento de Randy T. Dinzler)
e da direção, pouco inspirada, e que se contenta com colocar o bom
elenco em pouco mais do que no piloto automático.
A sufocante competitividade insana e a ilusão de uma vida familiar
perfeita dentro do consumismo já renderam, aliás, retratos bem mais
aguçados – como o inesquecível
Edward Mãos de Tesoura (1990), de Tim Burton, e até o recente
Mulheres Perfeitas (2004), de Frank Oz, para ficar em poucos.
Neusa Barbosa
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