
“Papai, onde vovó está agora, já que ela morreu”? A única resposta que consegui dar foi: “vovó agora está dentro de nós”.
Por Luciano Bezerra Gomes, médico sanitarista, professor do Departamento de Promoção da Saúde do Centro de Ciências Médicas da UFPB.
Neste texto, vou me afastar um pouco da linha editorial do blog e trazer outras dimensões que perpassam sua temática, mas que abrangem outra perspectiva. Falarei de uma experiência no setor saúde, mas de um modo muito pessoal e íntimo, que aqui vou compartilhar, para fins de registro e homenagem.
Desde o início de fevereiro, descobrimos um problema de saúde muito grave com minha mãe. Ela nasceu em 1950, uma mulher que toda a vida se dividiu entre o cuidado com os filhos e os trabalhos domésticos, durante dois turnos, e seu trabalho como professora da educação básica do estado da Paraíba, no outro turno (este, na maior parte dos anos, noturno).
Toda sua vida se passou na cidade de Cajazeiras, sertão da Paraíba, a cerca de 500 quilômetros da capital, João Pessoa, onde moro. E em uma visita rápida que a fiz uma semana antes do carnaval deste ano de 2011, ela se apresentava com queixa de uma gripe muito forte que a derrubara há alguns dias. Ao examiná-la, senti uma massa abdominal de consistência firme no epigástrio e perguntei há quanto tempo ela tinha aquilo; a resposta me assustou, quando ela disse que havia quase três anos que percebera o “caroço”, mas que nunca contou a ninguém porque não a incomodava, e nenhum dos médicos que ela buscou, por outros motivos, jamais a examinou em relação a problemas no abdome.
Imediatamente, solicitei uma ultrassonografia e, já em João Pessoa, quando recebi o resultado pelo telefone, disse para ela vir o mais rápido possível, sabendo que era para ficar uma boa temporada na minha casa. Após uma série de consultas e exames complementares, diagnosticamos uma câncer de fígado já com metástases, sem possibilidades de cura, e iniciamos o tratamento paliativo para tentar reduzir o avanço da doença e minimizar qualquer sintoma para ela.
Aqui, quero fazer uma primeira interrupção: esta sequência aparentemente bem linear que narrei acima, na verdade, foi um período de intensa mobilização, em que alguns aspectos quero aproveitar para refletir. A primeira é a constatação de que nosso sistema de saúde, que tem setores de excelência, em relação ao diagnóstico e tratamento de portadores de câncer, apresenta uma ineficiência brutal. Justamente em relação a uma doença em que o tempo de progressão é determinante, se eu não tivesse recorrido a amigos médicos que a atenderam gratuitamente em seus consultórios, ou se a família não tivesse juntado recursos financeiros de todos os filhos para pagar diretamente os diversos exames complementares que necessitavam ser feitos com urgência, a situação poderia ter sido muito pior do que encontramos. Infelizmente, nenhuma destas possibilidades está à disposição da maioria dos brasileiros que desenvolvem câncer e necessitam passar pelos fluxos e trâmites que devem estar levando a uma mortalidade e a sofrimentos mais do que o que a própria doença causaria.
O segundo aspecto é que, mesmo contando com a sensibilidade de pessoas das secretarias de saúde municipal e estadual, que tentavam ajudar, é cruel a lógica que fez com que tenhamos conseguido acesso a medicamentos para o tratamento paliativo de altíssimo custo e, por outro lado, quando outras necessidades também importantes eram demandadas, mesmo com um custo muito inferior, tínhamos muita dificuldade em relação à burocracia. É muito forte sentir a colonização da atenção aos portadores de determinadas doenças, que se apresenta na forma de políticas específicas na atenção especializada, por interesses do mercado, em especial da indústria farmacêutica.
Voltando à situação, o que se deu nos meses seguintes foi uma tentativa intensa de superação da doença, com a ajuda importante de amigos que apoiaram nos mais diversos lugares, mas que encerrou na madrugada do último dia 05 de novembro. Após cerca de 36 horas de forte sedação durante uma internação grave, minha mãe executou seu último ato autônomo. Mesmo após tantas horas dormindo por efeito dos medicamentos, ela, que sempre se incomodou com qualquer coisa em seu nariz, acordou e tentou arrancar a sonda nasogástrica que havia sido colocada para alimentá-la. Como ela não conseguiu retirá-la na primeira tentativa, automaticamente corri para tentar recolocá-la e, na última vez em que ela me olhou, falou-me com uma convicção tão forte do que queria que, mesmo sem dizer uma palavra, entendi que ela me deu uma ordem explícita, e deixei que ela tirasse a sonda. Após esta última demonstração da potência da vida diante de qualquer coerção externa, deixei-a descansar e, algumas poucas horas depois, ela não conseguiu mais lutar e se foi.
Após passar a madrugada resolvendo os serviços funerários e deslocamento do seu corpo para sua cidade natal, onde além de meu pai esperavam irmãos e outros amigos e familiares, resolvi ir sozinho no carro, dirigindo os muitos quilômetros para ir me despedindo de minha mãe. Nas seis horas que consumiram o trajeto, fui fazendo um balanço dos encontros que a vida me proporcionou com ela.
Foi interessante ver algumas coisas que, na correria do cotidiano, acabamos não tendo muita clareza. A influência que temos na vida das pessoas mais próximas é imensa, mas, via de regra, não refletimos adequadamente sobre os modos como se dão estas relações. Consumidos por uma cultura racionalista e em que até os vínculos afetivos são colonizados por meros interesses econômicos, nos vemos envoltos em lógicas relacionais entre pais e filhos cada vez mais instrumentais.
Estamos tão ocupados em que nossos filhos e filhas se encaixem em uma maneira específica de viver na nossa sociedade que perdemos a oportunidade de um convívio mais centrado numa pedagogia baseada no afeto e no exemplo. E minha mãe, uma mulher simples, nascida na zona rural da região mais pobre de um dos estados mais pobres do país, envolta em relações sociais extremamente machistas, que estudou apenas até o ensino médio, tinha esta perspectiva pedagógica nas relações com os filhos e demais pessoas. Registro, a seguir, alguns exemplos que resgatei enquanto dirigia.
Desde a adolescência, tenho o interesse em me envolver com as lutas sociais de meu tempo, e desenvolvi o hábito de ler os autores que desenvolvem perspectivas libertárias no campo da esquerda, sejam comunistas, socialistas, anarquistas, entre outras perspectivas. Entretanto, mais do que qualquer texto filosófico, foi com minha mãe que aprendi a dividir com as pessoas o pouco que tivesse e a não ter apego a coisas materiais. Nunca em minha casa vi faltar um prato de comida (reforçado, diga-se de passagem) para quem precisasse, ou outros tipos de compartilhamento do que tivéssemos no dia com condição de dividir, mesmo em tempos em que a situação financeira só permitia garantir o básico para nós mesmos.
Embora esteja me esforçando para aprender a tocar violão e tenha o hábito de estudar a produção dos grandes cantores e compositores que admiro, foi com ela que aprendi a ter amor pela música. Seu toca discos sempre esteve ligado o dia todo, com Luiz Gonzaga, Nelson Gonçalves e Altemar Dutra embalando a casa. Percebi, na minha viagem sozinho para Cajazeiras, que a minha ansiedade, na adolescência, para correr para as lojas atrás do novo vinil da Legião Urbana se dava da mesma maneira que ela, que esperava a saída anual do disco de Roberto Carlos e passava o mês de dezembro a furar seu disco na agulha do aparelho de som.
Foi com ela que aprendi a amar as festas, em especial o carnaval e o São João. Aprendi que não é preciso se embriagar para aproveitar intensamente uma comemoração e para ser feliz; que o momento das refeições pode ser mais do que mera alimentação, devendo ser de diária confraternização; que para sermos nós mesmos, precisamos respeitar todas as pessoas, independente de sua condição social; que precisamos ver a beleza na simplicidade da vida, pois sua grandiosidade se apresenta nos detalhes.
Enfim, durante seis horas ao volante, foi que percebi porque precisava daquele tempo sozinho. Não era só para me despedir de minha mãe, mas para pensar como contaria do seu falecimento para minhas filhas, para quem a vovó sempre esteve bastante presente, principalmente nestes longos meses de seu adoecimento. E ao falar com elas, diante da pergunta: “papai, onde vovó está agora, já que ela morreu”? A única resposta que consegui dar foi: “vovó agora está dentro de nós”!