Do capítulo 1 da primeira parte até ao capítulo 3 da segunda parte,
temos somente três personagens femininas. A Abigail (com fala mais
longa), uma senhora israelita (com fala em torno de cinco ou seis
linhas) e a Prisca (com fala de uma linha no cap.2 da segunda parte e
com outra fala pequena no cap.3 da segunda parte). O total de capítulos
do livro é 20 e já temos 13 resumidos e com personagens indicados.
Concordo que uma reunião via skype será bastante produtivo, pois há
pormenores que não são tão pormenores assim...
Penso quem, como não há um revisor e algumas palavras possam ser
substituídas por sinônimos para facilitar a compreensão, não deveríamos
iniciar qualquer gravação ainda. Mas este é o meu pensamento.
Que tal enumerar as falas para auxiliar na montagem final? E que tal
escrever entre parênteses o estado emocional da personagem em
determinada fala ou isto ficará por conta do estado emocional do ator ou
da atriz no momento da gravação? Ou cada um irá ler o livro para estudar
sua personagem?
Até,
Sonia
Abra�o.
Luciano.
Sonia Hoffmann escreveu:
> Ol�, pessoal!
>
> Do cap�tulo 1 da primeira parte at� ao cap�tulo 3 da segunda parte,
> temos somente tr�s personagens femininas. A Abigail (com fala mais
> longa), uma senhora israelita (com fala em torno de cinco ou seis
> linhas) e a Prisca (com fala de uma linha no cap.2 da segunda parte e
> com outra fala pequena no cap.3 da segunda parte). O total de cap�tulos
> do livro � 20 e j� temos 13 resumidos e com personagens indicados.
>
> Concordo que uma reuni�o via skype ser� bastante produtivo, pois h�
> pormenores que n�o s�o t�o pormenores assim...
>
> Penso quem, como n�o h� um revisor e algumas palavras possam ser
> substitu�das por sin�nimos para facilitar a compreens�o, n�o dever�amos
> iniciar qualquer grava��o ainda. Mas este � o meu pensamento.
>
> Que tal enumerar as falas para auxiliar na montagem final? E que tal
> escrever entre par�nteses o estado emocional da personagem em
> determinada fala ou isto ficar� por conta do estado emocional do ator ou
> da atriz no momento da grava��o? Ou cada um ir� ler o livro para estudar
> sua personagem?
>
> At�,
>
> Sonia
>
>
Abaixo, está o capítulo 1 da primeira parte já revisado e com alguns
sinônimos. Além disto, coloquei para cada personagem o número da fala
para facilitar a montagem após a gravação.
Será que isto te auxilia, Luciano?
Sonia
-----Mensagem original-----
De: Luciano Miler Sestari <luciano...@gmail.com>
Para: esp...@googlegroups.com
Data: Segunda, 09 de Agosto de 2010 14:20
Assunto: Re: 'es' personagens femininas
Oi Sonia,
seria mesmo interessante enumerar as falas e também indicar o estado
emocional da personagem, mesmo a pessoa lendo o livro ou as sínteses.
Quanto a gravações, concordo com vc, e digo também que as gravações
iniciais de teste que alguém queira ja ir fazendo, seria bom enviar não
pra mim como disse antes, mas pra lista afim de todos poderem opinar.
Como não estou ainda envolvido com o trabalho de edição sonora, caso
ninguém assuma essa tarefa, posso ajudar na questão da revisão do texto.
Não sei se terei muito jeito pra isso, mas qualquer coisa estou por aqui.
Abraço.
Luciano.
Sonia Hoffmann escreveu:
> Olá, pessoal!
>
> Do capítulo 1 da primeira parte até ao capítulo 3 da segunda parte,
> temos somente três personagens femininas. A Abigail (com fala mais
> longa), uma senhora israelita (com fala em torno de cinco ou seis
> linhas) e a Prisca (com fala de uma linha no cap.2 da segunda parte e
> com outra fala pequena no cap.3 da segunda parte). O total de capítulos
> do livro é 20 e já temos 13 resumidos e com personagens indicados.
>
> Concordo que uma reunião via skype será bastante produtivo, pois há
> pormenores que não são tão pormenores assim...
>
> Penso quem, como não há um revisor e algumas palavras possam ser
> substituídas por sinônimos para facilitar a compreensão, não deveríamos
> iniciar qualquer gravação ainda. Mas este é o meu pensamento.
>
> Que tal enumerar as falas para auxiliar na montagem final? E que tal
> escrever entre parênteses o estado emocional da personagem em
> determinada fala ou isto ficará por conta do estado emocional do ator ou
> da atriz no momento da gravação? Ou cada um irá ler o livro para estudar
> sua personagem?
>
> Até,
>
> Sonia
>
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Sonia
Paulo e Estevão
1 Corações flagelados
Narrador (1): A manhã enfeitava-se de alegria e sol, mas as ruas
centrais de Corinto estavam quase desertas. A cidade, reedificada por
Júlio César, era a mais bela jóia da velha Acaia, servindo de capital à
formosa província,sendo núcleo de convergência de todos os aventureiros
do Oriente e do Ocidente. Corinto tornara-se famosa pelas tradições de
libertinagem da grande maioria dos seus habitantes. Os romanos lá
encontravam campo largo para suas paixões, entregando-se,
desvairadamente, ao venenoso perfume desse jardim de flores exóticas. Ao
lado dos aspectos soberbos e das pedrarias brilhantes, o pântano das
misérias morais exalava nauseante bafio. A tragédia foi sempre o preço
doloroso dos prazeres fáceis.
No ano de 34, a cidade em peso fora atormentada por violenta revolta dos
escravos oprimidos. Crimes tenebrosos foram perpetrados na sombra,
exigindo severas devassas. Eis por que, nessa manhã radiosa e alegre, os
edifícios residenciais e as lojas do comércio apresentavam-se envolvidos
em profundo silêncio, semicerrados e tristes. Os transeuntes eram raros,
com exceção de vários magotes de soldados, que cruzavam as esquinas
despreocupados e satisfeitos, como quem se entregava, de bom grado, ao
sabor das novidades. Há alguns dias, um chefe romano, cujo nome se fazia
acompanhar de sombrias tradições, fora recebido pela Corte Provincial,
ali desempenhando as elevadas fünções de legado de César, cercado de
grande número de agentes políticos e militares e estabelecendo o terror
entre todas as classes, com os seus processos infamantes. Licínio
Minúcio chegara ao poder, mobilizando todos os recursos da intriga e da
calúnia. Conseguindo voltar a Corinto, onde estacionara anos antes, sem
maior autoridade, tudo ousava agora, por aumentar seus cabedais, fruto
de avareza insaciável e sem escrúpulos. Realizava arbitrárias
expropriações, a pretexto de garantir a ordem pública em benefício do
poderoso Império, que a sua autoridade representava.
Numerosas famílias de origem judaica foram escolhidas como vítimas preferenciais da nefanda extorsão.
Por toda parte começavam a chorar os oprimidos; entretanto, quem ousaria o recurso das reclamações públicas e oficiais? A escravidão esperava sempre os que se
entregassem a qualquer impulso de liberdade contra as expressões da tirania romana. E não era só a figura desprezível do odioso funcionário que constituía para a
cidade uma angustiosa e permanente ameaça. Seus partidários espalhavam-se em vários pontos das vias públicas, provocando cenas insuportáveis, características de
uma
perversidade inconsciente.
Jochedeb, de origem israelita, pai de Jeziel e Abigail, foi uma das pessoas que sofreu os escárnios não apenas dos militares patrícios, mas
também, anos atrás, de Licínio Minúcio pela redução de sua grande fortuna pessoal, passando por uma prisão injusta, resultante de falsas
acusações, que lhe valeram uma viuvez, pesados dissabores e terríveis confiscos.
O movimento na feira não era intenso como o habitual, entretanto, havia certa concorrência de compradores, mormente de libertos e pequenos
proprietários, que afluiam das estradas de Cencréia.
Luxuosa liteira parou no centro da praça e dela saltou um oficial patrício, desdobrando largo pergaminho.
Ao sinal de silêncio, que fizera emudecer todas as vozes, a palavra da estranha personagem vibrou forte na leitura fiel da ordem judicial que trazia:
Oficial (2):
"Licínio Minúcio, questor do Império e legado de César, encarregado de abrir nesta província a necessária devassa para restabelecimento da ordem em toda a Acata,
convida a todos os habitantes de Corinto que se considerarem prejudicados em seus interesses pessoais, ou que se encontrarem necessitados de amparo legal, a comparecerem
amanhã, ao meio-dia, no palácio provincial, junto ao templo de Vênus Pandemos, a fim de exporem suas queixas e reclamações, que serão plenamente atendidas pelas
autoridades competentes."
Narrador (3):
Entre os circunstantes, surgiram logo opiniões e comentários. Os queixosos não tinham conta. O legado e seus prepostos logo de
começo se apossaram de pequenos patrimônios territoriais da maioria das famílias mais humildes, cujos recursos financeiros não davam para
custear processos no foro provincial. Daí, a onda de esperanças que avassalava o coração de muitos e a opinião pessimista de outros, que não
enxergavam no édito senão nova cilada, para obrigar os reclamantes a pagarem muito caro as suas legítimas reivindicações.
Jochedeb ouviu a comunicação oficial, colocando-se imediatamente entre os que se julgavam com direito a esperar legítima indenização pelos
prejuízos sofridos noutros tempos. Animado das melhores esperanças, desandou para casa, escolhendo caminho
mais longo de modo a evitar o encontro com grupos de militares romanos. Não havia caminhado muito, quando defrontou um grupo de tribunos. O
velho israelita considerou:
Jochedeb (4):
"Deverei saudá-los, ou passar mudo e reverente?
Narrador (5):
Preocupado em evitar pugilato, inclinou-se profundamente qual mísero escravo e murmurou, tímido:
Jochedeb (6):
"Salve, valorosos tribunos de César!"
Soldado (7):
Que é isso? Um judeu a dirigir-se impunemente aos patrícios? Chegou a tanto a condenável tolerância da autoridade provincial? Façamos justiça por nossas próprias
mãos.
Narrador (8):
Bofetadas estalaram no rosto dorido do infeliz, que necessitava concentrar todas as energias na vontade para não se atirar, de qualquer modo, a uma reação
desesperada. Sem uma palavra de justificação, submeteu-se ao castigo cruel. Seu coração precipite, parecia rebentar de angústia no peito envelhecido;
todavia, o olhar refletia a intensa revolta que lhe ia na alma opressa.
Soldado (9):
Safa-te, insolente!
Narrador (10):
Sustentando, a custo, o cesto que lhe pendia dos braços trêmulos, Jochedeb avançou cambaleante, sufocando a explosão do seu extremo desespero.
Simultaneamente, os símbolos da fé modificavam-lhe as disposições espirituais, e sentia no íntimo a palavra antiga da Lei: - "Não matarás". No entanto, os ensinamentos
divinos, a seu ver, na voz dos profetas, aconselhavam o revide - "olho por olho, dente por dente". Seu espírito guardava a intenção da represália como remédio às
reparações a que se julgava com direito; mas as forças físicas já não eram compatíveis com os requisitos da reação.
Profundamente humilhado e presa de angustiosos pensamentos, buscou recolher-se ao lar, onde se aconselharia com os filhos muito amados. Sua
modesta vivenda não era longe e, ainda a distância, acabrunhado, entreviu o singelo e pequenino teto. Enveredou na trilha que terminava na cancelinha
tosca, quase afogada pelas roseiras de sua filha Abigail. Uma voz clara e amiga chegava de longe aos seus ouvidos. Àquela hora, Jeziel arava a terra,
preparando-a para as primeiras semeaduras. A voz do filho parecia casar-se à alegria do sol. Ainda não transpusera o cercado rústico da
vivenda humilde, quando uma voz cariciosa lhe gritava assustadiça e veemente:
Abigail (11):
Pai! Pai! que sangue é esse?
Narrador (12):
Abigail, na candidez dos seus dezoito anos, era um gracioso resumo de todos os encantos das mulheres da sua raça.
Seus olhos profundamente negros pareciam falar dos mais elevados mistérios do amor e da vida.
Jochedeb (13):
Filhinha, minha querida filha!
Narrador (14):
Jeziel foi chamado a inteirar-se do acontecido. O jovem acorreu solícito e pressuroso. Abraçado ao pai, ouviu-lhe o desabafo amargo, palavra por
palavra. No vigor da juventude, não se lhe poderia dar mais de vinte e cinco anos; mas o comedimento dos gestos e a gravidade com que se
exprimia, deixavam entrever um espírito nobre, ponderado e servido por uma consciência cristalina.
Jeziel (15):
"Coragem, pai! nosso Deus é de justiça e sabedoria. Confiemos na sua proteção!"
Jochedeb (16):
"Filho, Jeová é cheio de justiça, mas os filhos de Israel, como escolhidos, precisam igualmente exercê-la.
Poderíamos ser justos, esquecendo afrontas? Não poderei descansar, sem o repouso da consçiência pela obrigação cumprida. Tenho necessidade de assinalar os erros
de que fui vítima, no presente e no passado, e amanhã irei ao legado ajustar minhas contas.
Jeziel (17):
"Ireis, porventura, à presença do questor Licínio, esperando providências legais? E os antecedentes, meu pai? Pois não foi esse mesmo patrício quem vos
despojou de grande patrimônio territorial, atirando-vos ao cárcere? Não vedes que ele tem nas mãos as forças da iniqüidade? Não será de temer novas investidas com
o fim de extorquir o pouco que nos resta?"
Jochedeb (18):
"Como sabes, tenho contas velhas e novas a acertar, e, amanhã, de conformidade com o édito, aproveitarei o ensejo que o Governo provincial nos faculta."
Jeziel (19):
"Meu pai, suplico-vos, não lanceis mão desses recursos!"
Jochedeb (20):
"- E as perseguições? e esse turbilhãO incessante de desonras em torno dos homens de nossa raça? Não haverá um paradeiro
nesse caminho de infinitas angústias? Assistiremos, indefesos, ao enxovalho de tudo que possuimos de mais sagrado? Tenho o coração revoltado com esses crimes odiosos,
que nos atingem impunemente..."
Jeziel (21):
"Essas torturas, entretanto, não são novas. Há muitos séculos, os faraós do Egito levaram tão longe a crueldade para com os nossos ascendentes, que os meninos
de nossa raça eram trucidados logo ao nascer. Antíoco Epifânio, na Síria, mandou degolar mulheres e crianças, no recesso mesmo dos nossos lares. Em Roma, de tempos
a tempos, todos os israelitas sofrem vexames e confiscos, perseguição e morte. Mas, certamente, meu pai, Deus permite que assim aconteça para que Israel reconheça,
nos sofrimentos mais atrozes, a sua missão divina."
Jochedeb (22):
"Sim, tudo isso é verdade, mas a justiça reta deve ser cumprida, ceitil por ceitil, e nada poderá demover-me."
Jeziel (23):
"Então, ireis reclamar, amanhã, perante o legado?"
Jochedeb (24):
"Sim!"
Narrador (25):
Nesse momento, o olhar do jovem demorou na velha mesa onde repousava a coleção dos Escritos Sagrados da família.
Jeziel (26):
"Pai, não tenho o direito de exortar-vos, mas vejamos o que nos suscita a palavra de Deus a respeito do que pensais neste momento."
Narrador (27):
E abrindo os textos ao acaso, conforme o costume da época, a fim de conhecer a sugestão que lhes pudessem facultar as sagradas letras, leu na parte dos Provérbios:
"Filho meu, não rejeites o corretivo do Senhor, nem te enojes de sua repreensão; porque Deus repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho
a quem quer bem".
O velho israelita abriu os olhos espantados, revelando a estupefação que a mensagem indireta lhe causava; e como Jeziel o fixasse longamente, demonstrando
ansioso interesse por conhecer-lhe a atitude íntima, em face da sugestão dos pergaminhos sagrados, acentuou:
Jochedeb (28):
"Recebo a advertência dos Escritos, meu filho, mas não me conformo com a injustiça e, segundo tenho resolvido, levarei minha queixa às autoridades competentes."
Jeziel (29):
"Que Deus nos proteja!..."
Narrador (30):
No dia seguinte, avolumava-se compacta multidão junto ao templo da Vênus popular. Jochedeb atravessou a praça, sem se
deter para fixar qualquer detalhe da multidão que o rodeava e penetrou no recinto, onde Licínio Minúcio, cercado de muitos auxiliares e
soldados, expedia numerosas ordens. Os que se atreveram à queixa pública excediam tão-somente de uma centena e, depois de prestarem declarações
individuais, sob o olhar agudo do legado, eram um por um conduzidos para a solução isolada do assunto que lhes dizia respeito.
Chegada a sua vez, o velho israelita expôs suas reclamações particulares, atinentes às indébitas expropriações do passado e aos
insultos de que fora vítima na véspera, enquanto o orgulhoso patrício lhe anotava as menores palavras e atitudes, do alto de sua cátedra, como
quem já conhecia, de longo tempo, a personagem em causa. Conduzido novamente ao interior, Jochedeb esperou, como os demais, a solução dos
seus pedidos de reparação à Justiça; mas aos poucos, enquanto outros eram convocados nominalmente ao acerto das contas com o Governo
provincial, reparava que o antigo casarão se envolvia em grande silêncio, percebendo que sua vez, possivelmente, fora adiada por
circunstâncias que não podia presumir.
Solicitado nominalmente a dirigir-se ao juiz, ouviu, grandemente surpreendido, a sentença negativa, lida por um oficial que desempenhava as atribuições de secretário
daquela alçada.
Oficial (33):
O legado imperial, em nome de César, resolve ordenar o confisco da suposta propriedade de Jochedeb ben Jared, concedendo-lhe três dias para desocupar
as terras que ocupa indebitamente, visto pertencerem, com fundamento legal, ao questor Licinio Minúcio, habilitado a provar, a qualquer tempo, seus direitos de propriedade.
Narrador (34):
A decisão inesperada causou intensa comoção ao velho israelita. Nem saberia definir a angustiosa
surpresa. Não confiara na Justiça e não estava à procura de sua ação reparadora? Queria gritar o seu ódio, manifestar suas pungentes desilusões; mas a língua estava
como que petrificada na boca retraída e trêmula. Após um minuto de profunda ansiedade, fixou no alto a figura detestada do antigo patrício, que lhe causava, agora,
a derradeira ruína, e, envolvendo-o na vibração colérica da alma revoltada e sofredora, encontrou energias para dizer:
Jochedeb (35):
Ó ilustríssimo questor, onde está a eqüidade das vossas sentenças? Venho até aqui implorando a intervenção da Justiça e me retribuís a confiança com mais uma
extorsão que me aniquilará a existência? No passado, sofri a desapropriação descabida de todos os meus bens territoriais, conservando com enormes sacrifícios a chácara
humilde, onde pretendo esperar a morte!... Será crivel que vós, dono de opulentos latifúndios, não sintais remorso? Era subtrair ao mísero velho a derradeira côdea
de pão?
Licínio Minúcio (36):
Ponha-se na rua; e que ninguém discuta as decisões imperiais!
Jochedeb (37):
Não discutir? Não poderei altear a voz amaldiçoando a memória dos
criminosos romanos que me espoliaram? Onde colocareis vossas mãos, envenenadas com o sangue das vítimas
e as lágrimas das viúvas e dos órfãos esbulhados, quando soar a hora do julgamento no Tribunal de Deus?...
Narrador (38):
Rrecordando subitamente o lar povoado pela ternura dos filhos amorosos,
Jochedeb modificou a atitude mental, sensibilizado nas fibras recônditas do ser. Prostrando-se,
de joelhos, em convulsivo pranto, exclamou comovedora-mente:
Jochedeb (39):
Tende piedade de mim, Ilustríssimo!... Poupai-me a vivenda modesta, onde, acima de tudo, sou pai... Meus filhos esperam-me com o beijo da sua afeição
sincera e desvelada!... Tenho dois filhos que são duas esperanças do coração. Poupai-me, por Deus! Prometo conformar-me com esse pouco, nunca mais reclamarei!...
Licínio Minúcio (40):
Espártaco, para que esse judeu impertinente se afaste do recinto, com as suas lamentações, dez bastonadas
e tenha cuidado em não lhe cortar o rosto, para que o sangue não escandalize os transeuntes.
Narrador (41):
De joelhos, o pobre Jochedeb suportou o castigo e, terminada a prova, levantou-se, cambaleante, alcançando a praça ensolarada, sob as risotas disfarçadas de quantos
haviam presenciado o vil espetáculo. Nunca, em sua vida, experimentara tão intenso desespero como naquela hora. Quereria chorar e tinha os olhos frios e secos,
lamentar a desdita imensa e os lábios estavam petrificados de revolta e dor. Parecia um sonâmbulo vagando inconsciente entre as viaturas e os transeuntes que se
aglomeravam na praça enorme.
De súbito, apesar dos tormentos que lhe perturbavam a alma exausta, recordou novamente os filhos queridos, sentindo, por antecipação, a profunda amargura que
a notícia da sentença lhes causaria ao espírito sensível e afetuoso. A lembrança da ternura de Jeziel enternecia-lhe o peito galvanizado no sofrimento. Teve a impressão
de vê-lo ainda a seus pés, suplicando desistisse de qualquer reclamação e, aos ouvidos, ecoava-lhe agora, com mais intensidade, a exortação dos Escritos: - "Filho
meu, não rejeites a repreensão do Senhor!"
Mas, ao mesmo tempo, idéias destruidoras invadiam-lhe o cérebro cansado e dolorido. A Lei sagrada estava cheia de símbolos de justiça. E, para ele, impunha-se
como dever soberano providenciar a reparação que lhe parecia conveniente. Agora, em desolação suprema, regressava ao lar, despojado de tudo que possuía de mais humilde
e mais simples, e já no fim da vida! Como lhe viria o pão de amanhã? Sem elementos de trabalho e sem teto, via-se constrangido a peregrinar em situação parasitária,
ao lado da juventude dos filhos.
Dominado por acerbos pensamentos, aproximou-se do sítio bem-amado.
Jochedeb avançou no terreno, que era propriedade sua, e, angustiado pela perspectiva de abandoná-lo para sempre, deu ensejo a que
terríveis tentações lhe desvairassem a mente. As terras de Licínio não se limitavam com a chácara? Afastando-se do caminho que o levava ao
ambiente doméstico, penetrou nos matagais próximos e, depois de alguns passos, demorou o olhar na linha de demarcação, entre ele e o seu
verdugo. As pastagens do outro lado não pareciam bem cuidadas. A falta de melhor distribuição da água comum, certa secura geral fazia-se sentir
asperamente. Apenas algumas árvores, isoladas, amenizavam a paisagem com a sua sombra, refrescando a região abandonada, entre espinheiros e
parasitas que sufocavam as ervas úteis. Obcecado pela idéia de reparação e vingança, o velho israelita
deliberou incendiar as pastagens próximas. Não consultaria os filhos, que, possivelmente, dobrariam o seu espírito, inclinados à tolerância e
à benignidade. Jochedeb recuou alguns passos e, recorrendo ao material de serviço ali guardado nas proximidades, fez o fogo com que acendeu um
feixe de ervas ressequidas. O rastilho comunicou-se, célere, e em rápidos minutos o incêndio das pastagens propagava-se com a velocidade
do relâmpago.
Terminada a tarefa, sob a penosa impressão dos ossos doloridos, regressou cambaleante ao lar, onde Abigail o inquiriu, inutilmente, dos
motivos de tão profundo abatimento. Jochedeb deitou-se à espera do filho; mas, dentro em pouco, um ruído ensurdecedor ecoava-lhe aos
ouvidos. Não longe da chácara, o fogo destruía árvores, reduzindo pastos verdes e pequenas benfeitorias a punhados de cinzas. Aqui e acolá, o
alarido dos trabalhadores do campo, em espantosa correria por salvar da destruição a residência campestre do poderoso patrício, ou procurando
insular a serpente de fogo que lambia a terra em todas as direções, aproximando-Se dos pomares vizinhos. Ao fim da tarde, o incêndio fora
dominado, depois de ingentes esforços.
Debalde o velho judeu enviara mensagens à procura do filho. Desejava falar a Jeziel das suas necessidades e da situação tormentosa em que se
encontravam novamente, ansioso por descansar a mente atormentada nas palavras dulcificantes da sua ternura filial. Entretanto, somente à
noite, com as vestes chamuscadas e as mãos ligeiramente feridas, o jovem entrou em casa. Abigail não se surpreendeu com o seu aspecto, entendendo
que o irmão não deixara de auxiliar os companheiros de trabalho da vizinhança, nas ocorrências da tarde, preparando-lhe aos pés cansados e
às mãos doloridas o banho de água aromatizada; mas, tão logo o viu e notou as mãos feridas, foi com espanto que Jochedeb exclamou:
Jochedeb (42):
Onde estiveste, filho meu?
Narrador (43):
Jeziel falou da cooperação espontânea no salvamento da propriedade vizinha e, à medida que relatava os tristes sucessos do dia, o pai deixava trair a própria
angústia nas fácies sombrias, em que se estereotipavam os traços rudes da revolta que lhe devorava o coração. Ao cabo de alguns minutos, erguendo a voz desalentada,
falou com profunda emoção:
Jochedeb (44):
Meus filhos, custa dizer-lhes, mas fomos espoliados na derradeira migalha que nos resta... Reprovando minha reclamação sincera e justa, o legado de
César determinou o seqüestro do nosso próprio lar. A iníqua sentença é o passaporte da nossa ruína total. Pelas suas disposições, somos obrigados a abandonar a chácara
em três dias! - Tudo perdido!... Por que fui assim desamparado, meu Deus? Onde a liberdade do vosso povo fiel, se, em toda parte, nos exterminam e perseguem
sem piedade?
Jeziel (45):
Meu pai, por que vos atemorizardes? Deus nunca é avaro de misericórdia. Os Escritos Sagrados nos ensinam que Ele, antes de tudo, é o Pai desvelado de todos
os vencidos da Terra! Essas derrotas chegam e passam. Tendes os meus braços e o cuidado afetuoso de Abigail. Por que lastimar, se amanhã mesmo, com o socorro divino,
poderemos sair desta casa, para buscar outra em qualquer parte, a fim de nos consagrarmos ao trabalho honesto? Deus não guiou o nosso povo expulso do lar, através
do oceano e do deserto? Por que negaria, então, seu apoio a nós que tanto o amamos neste mundo? Ele é a nossa bússola e a nossa casa.
Não choreis meu pai, contai conosco! Amanhã, eu próprio providenciarei a nossa retirada, como se faz preciso.
Jochedeb (46):
Mas não é tudo, meu filho!...
Narrador (47):
Pausadamente, Jochedeb pintou o quadro de suas angústias reprimidas, da sua cólera justa, que culminara com a decisão de atear fogo à propriedade do verdugo
execrando. Os filhos ouviam-no espantados, entremostrando a dor sincera que a conduta paterna lhes causava.
Jeziel (48):
Meu pai, meu pai, por que levantastes o braço vingador? por que não esperastes a ação da justiça divina?...
Jochedeb (49):
Está escrito nos mandamentos: - "não furtarás"; e, fazendo o que fiz, procurei retificar um desvio da Lei, porqüanto fomos espoliados de tudo que constituía
o nosso humilde patrimônio.
Jeziel (50):
Acima de todas as determinações, porém, meu pai, Deus mandou gravar o ensinamento do amor, recomendando que o amássemos sobre todas as
coisas, de todo o coração e todo o entendimento.
Jochedeb (51):
Amo o Altíssimo, mas não posso amar o romano cruel - suspirou Jochedeb, amargurado.
Jeziel (52):
Mas, como revelarmos dedicação ao Todo-Poderoso que está nos Céus, destruindo suas obras? No caso do incêndio,
não temos só a considerar o nosso testemunho de desconfiança para com a justiça de Deus, mas os campos que nos fornecem agasalho e pão sofreram com a nossa atitude
e os dois melhores servos de Licínio Minúcio, Caio e Rufílio, foram feridos de morte quando tentavam salvar as termas prediletas do amo, numa luta inútil para livrá-las
do fogo que as destruiu; ambos, apesar de escravos, têm sido nossos melhores amigos. As árvores frutíferas e os canteiros de legumes de nossa propriedade devem quase
tudo a eles, não só no concernente às sementes vindas de Roma, mas também no esforço e cooperação com o meu trabalho. Não seria justo honrarmos sua amizade, dedicada
e diligente, evitando-lhes a punição e os sofrimentos injustos?
Nós que estávamos em paz, nas derrotas do mundo, porque trazíamos a consciência pura, precisamos resolver, agora, em face do que nos advirá em represálias.
Quando dava o meu esforço contra o fogo, observei que muitos afeiçoados de Minúcio me contemplavam com indisfarçável desconfiança. A esta hora, já ele terá regressado
dos serviços da Corte Provincial. Precisamos encomendar-nos ao amor e à complacência de Deus, pois não ignoramos os tormentos reservados pelos romanos a todos os
que lhes desrespeitam as determinações.
Narrador (53):
Penosa nuvem de tristeza mergulhara os três em sombrias preocupações. No velho observava-se uma ansiedade terrível, que se misturava à dor do remorso pungente
e, em ambos os jovens, notava-se, no olhar, inexcedível amargura, angustiosa e intraduzível.
Jeziel tomou de sobre a mesa os velhos pergaminhos sagrados.
Jeziel (54):
Abigail, vamos recitar o Salmo que nos foi ensinado pela mamãe para as horas difíceis.
Narrador (55):
Ambos se ajoelharam e suas vozes comovidas, como a de pássaros torturados, cantavam baixinho uma das formosas orações de David, que haviam aprendido no colo maternal:
"O Senhor é o meu Pastor,
Nada me faltará.
Deitar-me faz em verdes pastos,
Guia-me mansamente
A águas mui tranqüilas,
Refrigera minhalma,
Guia-me nas veredas da justiça
Por amor do seu nome.
Ainda que eu andasse
Pelo vale das sombras da morte,
Não temeria mal algum,
Porque Tu estás comigo...
A Tua vara e o Teu cajado me consolam.
Prepara-me o banquete do amor
Na presença dos meus inimigos,
Unges de perfume a minha cabeça,
O meu cálice transborda de júbilo!...
Certamente,
A bondade e a misericórdia
Seguirão todos os dias de minha vida
E habitarei na Casa do Senhor
Por longos dias..." (1)
O velho jochedeb acompanhava o cântico dolorido, sentindo-se opresso de amargosas emoções. Começava a compreender que todos os sofrimentos enviados por
Deus sãO proveitosos e justos. e que todos os males procurados pelaS mãos do homem trazem, invariavelmente, torturas infernais à consciência invigilante O cântico
abafado dos filhos enchia-lhe o coração de tristezas pungentes. Lembrava, agora, a companheira querida que Deus havia chamado à vida espiritual. Quantas vezes, acalentar-lhe
ela o espírito atormentado com aqueles versos inesquecíveis do profeta? Bastava que sua observação amiga e fiel se fizesse ouvir para que o sentido da obediência
e da justiça lhe falasse mais alto ao coração.
Ao ritmo da harmOnia caridOSa e triste, que apresentava acento singular na voz dos filhos idolatrados, Jochedeb chorou longamente.
Nesse instante abriu-se a porta e um pequenino servidor das vizinhanças anunciou com grande assombro a lhe transparecer nos olhos:
Servidor (56):
Senhores, o soldado Zenas e mais alguns companheiros chamam-vos à porta.
Jeziel (57):
Deus nos protegerá.
Narrador (58):
Daí a instantes, o mensageiro que chefiava a pequena escolta leu o mandado de prisão de toda a família. A ordem era categórica e irrevogável. Os acusados deveriam
ser recolhidos imediatamente ao cárcere, a fim de que se lhes esclarecesse a situação no dia seguinte.
Abraçado aos dois filhos, o pobre israelita marchou à frente da escolta, que os observava sem piedade.
Jochedeb contemplou os canteiros de flores e as árvores bem-amadas junto da casinha singela onde tecera todos os sonhos e esperanças da sua vida. Singular emoção
dominou-lhe o espírito cansado. Uma torrente de lágrimas fluía-lhe dos olhos e, transpondo a cancela florida, falou em voz alta, olhando o céu claro, agora recamado
pelos astros da noite:
Jochedeb (59):
Senhor! compadece-te do nosso amargurado destino!...
Narrador (60):
Jeziel apertou-lhe docemente a mão encarquilhada, como a lhe pedir resignação e calma, e o grupo marchou silenciosamente à luz das estrelas.
Abra�o.
Luciano.
Sonia Hoffmann escreveu:
> Luciano e demais companheiros,
>
> Abaixo, est� o cap�tulo 1 da primeira parte j� revisado e com alguns
> sin�nimos. Al�m disto, coloquei para cada personagem o n�mero da fala
> para facilitar a montagem ap�s a grava��o.
>
> Ser� que isto te auxilia, Luciano?
>
> Sonia
>
> -----Mensagem original-----
> De: Luciano Miler Sestari <luciano...@gmail.com>
> Para: esp...@googlegroups.com
> Data: Segunda, 09 de Agosto de 2010 14:20
> Assunto: Re: 'es' personagens femininas
>
> Oi Sonia,
> seria mesmo interessante enumerar as falas e tamb�m indicar o estado
> emocional da personagem, mesmo a pessoa lendo o livro ou as s�nteses.
> Quanto a grava��es, concordo com vc, e digo tamb�m que as grava��es
> iniciais de teste que algu�m queira ja ir fazendo, seria bom enviar n�o
> pra mim como disse antes, mas pra lista afim de todos poderem opinar.
> Como n�o estou ainda envolvido com o trabalho de edi��o sonora, caso
> ningu�m assuma essa tarefa, posso ajudar na quest�o da revis�o do texto.
> N�o sei se terei muito jeito pra isso, mas qualquer coisa estou por aqui.
>
> Abra�o.
>
> Luciano.
>
> Sonia Hoffmann escreveu:
>
>> Ol�, pessoal!
>>
>> Do cap�tulo 1 da primeira parte at� ao cap�tulo 3 da segunda parte,
>> temos somente tr�s personagens femininas. A Abigail (com fala mais
>> longa), uma senhora israelita (com fala em torno de cinco ou seis
>> linhas) e a Prisca (com fala de uma linha no cap.2 da segunda parte e
>> com outra fala pequena no cap.3 da segunda parte). O total de cap�tulos
>> do livro � 20 e j� temos 13 resumidos e com personagens indicados.
>>
>> Concordo que uma reuni�o via skype ser� bastante produtivo, pois h�
>> pormenores que n�o s�o t�o pormenores assim...
>>
>> Penso quem, como n�o h� um revisor e algumas palavras possam ser
>> substitu�das por sin�nimos para facilitar a compreens�o, n�o dever�amos
>> iniciar qualquer grava��o ainda. Mas este � o meu pensamento.
>>
>> Que tal enumerar as falas para auxiliar na montagem final? E que tal
>> escrever entre par�nteses o estado emocional da personagem em
>> determinada fala ou isto ficar� por conta do estado emocional do ator ou
>> da atriz no momento da grava��o? Ou cada um ir� ler o livro para estudar
>> sua personagem?
>>
>> At�,
>>
>> Sonia
>>
>>
>>
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