9 Abigail cristã
Narrador:
Desde o martírio de Estevão, agravara-se em Jerusalém o movimento de perseguição a todos os discípulos ou simpatizantes do "Caminho". Como se fora tocado de verdadeira
alucinação, ao substituir Gamaliel nas funções religiosas mais importantes da Cidade, Saulo de Tarso deixava-se fascinar por sugestões de fanatismo cruel.
Obcecado pela idéia de resguardar o patrimônio farisaico, o moço tarsense entregava-se aos maiores desmandos e tiranias. Homens de bem foram expulsos da cidade
por meras suspeitas. Operários honestos e até mães de família eram interpelados em escandalosos processos públicos, que o perseguidor fazia questão de movimentar.
Iniciou-se um êxodo de grandes proporções, como Jerusalém de há muito não via. A cidade começou a despovoar-se de trabalhadores. O “Caminho” havia seduzido para
as suas doces consolações a alma do povo, cansada na incompreensão e no sacrifício. Livre das prestigiosas advertências de Gamaliel, que se retirara para o deserto,
e sem a carinhosa assistência de Abigail, que lhe facultava generosas inspirações, o futuro rabino parecia um louco, em cujo peito o coração estivesse ressequido.
Imputava o insucesso dos seus sonhos de mocidade àquele Cristo
que não conseguira entender. A seu ver, era ele, o carpinteiro anônimo, o causador dos seus fracassos em relação ao amor de Abigail.
Não mais voltara à casa de Zacarias, e, embora os amigos da estrada de Jope instassem por suas notícias, mantinha-se irredutível no
círculo do seu egoísmo sufocante. Experimentava imensa falta da ternura de Abigail, cuja lembrança nunca mais se lhe havia apartado da alma enrijecida e ansiosa.
Oito meses de lutas incessantes passaram sobre a morte de Estevão, quando o moço tarsense, capitulando ante a saudade e o amor que lhe dominavam a alma, resolveu
retornar à estrada de Jope, onde por certo reconquistaria o afeto de Abigail, de maneira a reorganizarem todos os projetos de um futuro ditoso.
Tomou o carro minúsculo com o coração opresso. Quantas hesitações não vencera para retornar à antiga situação, humilhando a vaidade de homem convencionalista
e inflexível! Refletia na melhor maneira de reaver a dedicação da mulher escolhida, sem humilhação
para sua vaidade. Contar-lhe-ia sua desesperação, diria das suas insônias, da continuidade do imenso amor que nenhuma circunstância conseguira destruir. Embora mantivesse
firme o propósito de omitir toda e qualquer alusão ao carpinteiro de Nazaré, falaria a Abigail do remorso por não lhe haver estendido mãos amigas no instante em
que todas as esperanças de sua alma feminina se haviam abalado, ante o imprevisto da morte dolorosa do irmão, em circunstâncias tão amargas. Esclareceria os detalhes
de seus sentimentos. Havia de referir-se à recordação indelével da sua prece angustiosa e ardente, quando Estevão penetrava os umbrais da morte.
Atraí-la-ia ao coração que jamais a esquecera, beijar-lhe-ia os cabelos, formularia novos projetos de amor e felicidade.
Mergulhado em tais pensamentos, atingiu a porta de entrada. O coração batia-lhe descompassado, quando Zacarias surgiu com grande
surpresa. Um abraço demorado assinalou o reencontro. Abigail foi objeto de sua primeira interrogação.
Zacarias:
- Pensei que algum de teus amigos já te houvesse levado a desagradável notícia. Abigail, há mais de quatro meses, adoeceu
dos pulmões e, para falar com franqueza, não temos qualquer esperança. Logo depois que voltou precipitadamente de Jerusalém,
esteve mais de um mês entre a vida e a morte. Em vão nos esforçamoS, eu e Ruth, para restituir-lhe o viço e as cores da juventude. A pobrezinha entrou
a definhar e, em pouco tempo, acamou-se abatida. Solicitei tua presença, com ansiedade, a fim de resolvermos o possível em seu benefício, mas não
apareceste. Parecia-me que um ambiente novo lhe proporcionaria o restabelecimento da saúde, mas, faltaram-me os recursos para uma iniciativa mais ampla, tal como
se impunha.
Saulo:
- Mas, Abigail fez alguma queixa a meu respeito?
Zacarias:
- De modo algum. Aliás, o regresso inesperado de Jerusalém, a enfermidade súbita e teu injustificável afastamento desta casa eram de molde a causar-nos
dúvidas e receios; mas logo se verificaram melhoras positivas, após o período mais agudo da febre, e ela nos tranqüilizou a respeito. Explicou a necessidade da tua
ausência, disse estar ciente dos teus muitos afazeres e encargos políticos; referiu-se com gratidão ao acolhimento que lhe dispensaram teus parentes e, quando Ruth,
para confortá-la, qualifica de ingrato o teu procedimento, Abigail é sempre a primeira a defender-te. Apesar do seu esforço para tranqüilizar-nos,
temos a impressão de que nossa filha adotiva se encontra dominada por desgostos profundos, que procura ocultar. Em vão procuramos sondar a causa de seus
íntimos padecimentos. O único motivo que alegava era justamente o da enfermidade, que começava a minar-lhe o organismo. Mais tarde estagiou uma semana,
por aqui, um pobre velho chamado Ananias. Deu-se então um fato estranho: Abigail encontrou-o em casa dos nossos rendeiros e, todas as tardes, detinha-se
a ouvi-lo horas a fio, manifestando daí para cá muita fortaleza espiritual. Ao despedir-se, o pobre mendigo deu-lhe como lembrança alguns pergaminhos com os ensinamentos
do famoso carpinteiro de Nazaré...
Saulo:
- Do carpinteiro? E depois?
Zacarias:
- Tornou-se dedicada leitora do chamado Evangelho dos galileus. Consideramos a conveniência de afastá-la de semelhante novidade espiritual, mas Ruth ponderou
ser essa, agora, a sua única distração. Com efeito, desde que começou a falar no discutido Jesus Nazareno, observamos que Abigail se enchera de profundas consolações.
E o fato é que não mais a vimos chorar, embora se lhe não apagasse do semblante abatido a dolorosa expressão de amargura e melancolia. Sua conversação, daí por diante,
parece haver adquirido inspirações diferentes. A dor transformou-se-lhe em confortadora expressão de alegria íntima. E fala a teu respeito com um amor
cada vez mais puro. Dá impressão de haver descoberto nos misteriosos escaninhos da alma, a energia de uma vida nova. E, contudo, a mudança não alterou a marcha da
enfermidade que a devora devagarinho. Dia a dia, vemo-la inclinar-se para o túmulo, como flor que tomba do hastil ao sopro do vento forte.
Narrador:
Saulo experimentava indisfarçável angústia. Penosa emoção revolvia-lhe a alma generosa e sensível. Como definir-se? Esmagavam-lhe o espírito amargurosas interrogações.
Quem era, afinal, aquele Jesus que o topava em toda parte? O interesse de Abigail pelo Evangelho perseguido revelava a vitória do carpinteiro nazareno a contrastar
os próprios sonhos da sua mocidade.
Saulo:
- Mas, Zacarias por que não impediste semelhante contacto? Esses velhos feiticeiros percorrem as estradas disseminando
a confusão. Surpreende-me essa condescendência, porqüanto nossa fidelidade à Lei não admite, ou, pelo menos, nunca deverá admitir transigências.
Zacarias:
- Antes de tudo, importa considerar que pedi em vão o socorro da tua presença, para orientar-me. E, além do mais, quem teria coragem de sonegar o remédio
ao doente amado?
Desde que lhe vi a resignação santificada, fiz o propósito de não me referir aos seus novos pontos de vista em matéria de crença religiosa.
Vem comigo, verás com os próprios olhos!...
Narrador:
O rapaz seguiu-lhe os passos, cambaleando. As idéias baralhavam-Se-lhe no cérebro dolorido. Aquelas notícias inesperadas envenenavam-lhe o coração.
Reclinada no leito, assistida pela afeição maternal de Ruth, a moça de Corinto estampava no rosto um profundo abatimento. Muito magra, a epiderme adquirira a
cor do marfim, mas o olhar lúcido denotava absoluta calma espiritual. Carinhosa serenidade estampava-se-lhe na fisionomia entristecida. De vez em quando, renovava-se
a dispnéia com prolongada aflição, voltando-se então para a janela aberta, como se dali esperasse remédio ao seu cansaço, através das brisas frescas que chegavam
do seio generoso da Natureza.
Ao vê-la, Saulo não dissimulou o seu espanto. A jovem, por sua vez, recebendo a jubilosa surpresa, tomou-se de sincera e transbordante alegria.
Saudações afetuosas se trocaram entre ambos, enquanto os olhos traduziam a saudade angustiosa com que haviam esperado aquele momento. O futuro rabino acariciou-lhe
as mãos mimosas, que pareciam agora modeladas em cera translúcida. Falaram da esperança que os alentara, constante, antes do reencontro. Notando que eles desejavam
ficar sós, para confidenciar mais à vontade, Zacarias e Ruth retiraram-se discretamente.
Saulo:
- Abigail! abdiquei o meu orgulho e a minha vaidade de homem público para vir até aqui, perguntar se me perdoaste, se me não esqueceste!
- Esquecer-te? Por mais rude e longa que seja a estação de sol ardente, a folha do deserto não poderá esquecer a chuva
benéfica que lhe deu vida. Não me fales, igualmente, em perdão, pois acaso poderá alguém perdoar-se a si mesmo?
E nós, Saulo, pertencemo-nos um ao outro para a eternidade. Não me disseste, muitas vezes, que eu era o coração do teu cérebro?
Saulo:
- Por que dizes que "eras o coração", se ainda és e sê-lo-ás para sempre? Deus abençoará nossas esperanças. Realizaremos nosso ideal. Voltei para levar-te comigo.
Teremos um lar, serás nele a rainha!...
Abigail:
- Desconfio, Saulo, que os lares da Terra não foram feitos para nós!... Deus sabe quanto desejei, ardentemente, ser a mãe carinhosa de teus filhos; como
conservei o ideal acima de todas as circunstâncias, para aformosear tua existência com o meu carinho! Desde menina, em Corinto, vi mulheres que desbaratavam os tesouros
do Céu, simbolizados no amor do esposo e dos filhinhos; e pensei que o Senhor me concederia o mesmo patrimônio de esperanças divinas, pois aguardava as bênçãos do
santuário doméstico para glorificá-lo de todo o coração. Para exaltá-lo, idealizei a vida do homem amado, que me auxiliaria a erguer o altar da prole; e, assim que
me chegaste, organizei vastos planos de uma vida santa e venturosa, na qual pudéssemos honrar a Deus.
Mas o Céu retirou-me as possibilidades de semelhante ventura na Terra. Nos meus primeiros dias de solidão, visitava os lugares ermos,
como a procurar-te, requisitando o socorro do teu afeto. Os pessegueiros de nossa predileção pareciam dizer que nunca mais voltarias; a noite amiga aconselhava-me
a esquecer; o luar, que me ensinaste a bem-querer, agravava as minhas recordações e amortecia as minhas esperanças. Da peregrinação de cada noite, voltava com lágrimas
nos olhos, filhas do desespero do coração. Embalde procurava tua palavra confortadora. Sentia-me profundamente só. Para lembrar e seguir tuas advertências, recordava
que me chamaste a atenção, à última vez que nos encontramos, para a amizade de Zacarias e de Ruth. É verdade que não tenho outros amigos mais fiéis e generosos que
eles; entretanto, não lhes poderia ser mais pesada na vida, além do que sou. Evitei, então, confiar-lhes minhas angústias. Nos primeiros meses da tua ausência, amarguei
sem consolo a minha grande desdita. Foi quando surgiu aqui um velhinho respeitável, chamado Ananias, que me deu a conhecer as luzes sagradas da nova revelação. Conheci
a história do Cristo, o Filho de Deus Vivo; devorei o seu Evangelho de redenção, edifiquei-me nos seus exemplos. Desde essa hora, compreendi-te melhor, conhecendo
a minha própria situação.
Narrador:
Súbito acesso de tosse cortou-lhe a narrativa.
As palavras da noiva caíam-lhe no coração como gotas de fel. Nunca experimentara dor moral tão aguda. Verificando a sinceridade natural, o carinho doce daquelas
confissões, sentia-se pungido de acerbos remorsos. Como pudera abandonar, assim, a escolhida de sua alma, olvidando-lhe a fidelidade e o amor? Onde encontrara tamanha
dureza de espírito para esquecer deveres tão sagrados? Agora, vinha encontrá-la exânine, desiludida de realizar na Terra os sonhos da juventude. Além de tudo, o
carpinteiro odiado parecia tomar-lhe o lugar no coração da noiva adorada. Naquele momento, não experimentava apenas o desejo de lhe arrasar a doutrina e os adeptos,
mas sentia ciúmes dele na alma caprichosa. De que poderes podia dispor o nazareno obscuro e martirizado na cruz, para conquistar os sentimentos mais puros da noiva
carinhosa?
Saulo:
- Abigail, abandona as idéias tristes que poderiam envenenar os sonhos de nossa mocidade. Não te entregues a ilusões. Renovemos nossas esperanças.
Breve estarás restabelecida. Sei que me perdoaste a morte de teu irmão, e minha família te receberá em Tarso com júbilos sinceros! Seremos felizes, muito felizes!...
Abigail:
- Francamente, querido, eu também desejaria reviver!... Ser tua, entretecer teus sonhos de juventude, inventar estrelas para o céu da tua existência; tudo
isso constitui meu ideal de mulher!... Ah! se pudesse, buscaria os teus parentes com amor, haveria de conquistá-los para o meu coração, ao preço de um grande afeto;
mas, pressinto que os planos de Deus são diferentes, no que concerne aos nossos destinos. Jesus chamou-me para a sua família espiritual...
Saulo:
- Ai de mim! em toda parte, topo expressões do carpinteiro de Nazaré! Que flagelo! Não repitas semelhante coisa.
Deus não seria justo se te seqüestrasse ao meu afeto. -Quem poderia, então, como esse Cristo, interpor-se aos nossos votos?
Abigail:
- Saulo, de que nos valeria a desesperação? Não será melhor inclinarmo-nos com paciência aos sagrados desígnios? Não alimentemos dúvidas prejudiciais.
Este leito é de meditação e de morte, O sangue, várias vezes, já me golfou prenunciando o fim. Mas nós cremos em Deus e sabemos que esse fim é apenas corporal. Nossa
alma não morrerá, amar-nos-emos eternamente...
Saulo:
- Não concordo, essas presunções são fruto de ensinamentos absurdos, quais os desse fanático nazareno que morreu
na cruz, entre a humilhação e a covardia. Nunca assim foste, melancólica e desalentada; somente os sortilégios galileus podiam convencer-te de tais absurdos funestos.
Mas, procura raciocinar por ti mesma! Que te deu o crucificado senão tristeza e desolação?
Abigail:
- Enganas-te, Saulo! Não me sinto desanimada, embora convicta da impossibilidade de minha ventura terrena. Jesus não foi um mestre vulgar de sortilégios,
foi o Messias dispensador de consolação e vida. Sua influência renovou-me as forças, saturou-me de bom ânimo e verdadeira compreensão dos desígnios supremos. Seu
Evangelho de perdão e amor é o tesouro divino dos sofredores e deserdados do mundo.
Saulo:
- Sempre o mesmo refrão — disse confuso — invariavelmente, a afirmativa de ter vindo para os infelizes, para os doentes e infortunados. Mas, as tribos
de Israel não se compõem apenas de criaturas dessa espécie. E os homens valorosos do povo escolhido? E as famílias de tradições respeitáveis? Estariam fora da influência
do Salvador?
Abigaail:
- Tenho lido os ensinamentos de Jesus e suponho compreender as tuas objeções. O Cristo, cumprindo a sagrada palavra dos
profetas, revela-nos que a vida é um conjunto de nobres preocupações da alma, a fim de que marchemos para Deus pelos caminhos retos. Não podemos conceber o Criador
como juiz ocioso e isolado, senão como Pai desvelado no benefício de seus filhos. Os homens valorosos a que te referes, os forros de enfermidades e sofrimentos,
na posse das bênçãos reais de Deus, deviam ser filhos laboriosos, preocupados com o rendimento da tarefa que foram chamados a cumprir, a prol da felicidade de seus
irmãos. Mas, no mundo, temos contra nossas tendências superiores o inimigo que se instala em nosso próprio coração. O egoísmo ataca a saúde, o ciúme prejudica
o mandato divino, como a ferrugem e a traça que inutilizam nossas vestes e instrumentos, quando nos descuidamos. São poucos os que se recordam da proteção divina,
nos dias alegres da fartura, como raríssimos os que trabalham à revelia do aguilhão. Isso demonstra que o Cristo é um roteiro para todos, constituindo-se em consolo
para os que choram e orientação para as almas criteriosas, chamadas por Deus a contribuir nas santas preocupações do bem.
Narrador:
Saulo estava impressionado com aquela clareza de raciocínio. Mas a conversação exigira da enferma maior esforço e conseqüente fadiga. A respiração tornara-se
difícil, e não tardou que o sangue lhe borbotasse do peito em prolongada hemoptise. Aquele sofrimento, adornado de ternura e humildade, comovia e exasperava profundamente
o noivo. Compreendeu que seria impiedoso atacar perante a noiva aquele Jesus que lhe cumpria perseguir até ao fim. Não queria crer que a sua Abigail estivesse nas
vésperas da morte. Preferia encarar o futuro com otimismo. Restabelecida, fá-la-ia voltar aos seus antigos pontos de vista. Não toleraria a intromissão do Cristo
no santuário doméstico. No esforço introspectivo, entretanto, concluiu que precisava dar uma trégua aos seus pensamentos antagônicos, para cogitar dos problemas
essenciais da sua própria tranqüilidade. A jovem enferma, após a crise que durara minutos longos e tristes, tinha os grandes olhos serenos e lúcidos. Contemplando-a
naquela doce atitude de suprema resignação, Saulo de Tarso experimentou enternecedoras comoções íntimas. Seu temperamento arrebatado entregava-se facilmente às impressões
extremadas.
Aproximando-se mais da noiva amada, tinha os olhos úmidos. Desejou acariciá-la como se o fizesse a uma criança.
Saulo:
- Abigail, não falemos mais de idéias religiosas. Perdoa-me! Recordemos nosso porvir de flores, esqueçamos tudo para consolidar
as melhores esperanças. Precisas repousar,
não te preocupes por minha causa. Dar-te-ei de minhas próprias forças. Breve estarás restabelecida.
oltarei a ver-te todas as noites que possa afastar-me de Jerusalém, e logo que puderes voltaremos a ver o luar, lá no jardim, para que a Natureza abençoe
os nossos sonhos, sob as vistas de Deus.
Abigail:
- Sim, Saulo, Jesus nos concederá o melhor. De qualquer modo, no entanto, estarás no meu coração, sempre, sempre...
Saulo:
- Abigail, antes de partir, quisera saber francamente se me desculpaste pela morte de Estevão. Nunca mais pude falar-te das
contingências que me levaram a tão triste desfecho; no entanto, estou convicto de que tua bondade olvidou minha falta.
Abigail:
- Por que te recordas disso? Minhalma está agora tranqüila. Jeziel está com o Cristo e morreu
legando-te um pensamento amistoso. Que poderia eu reclamar de minha parte, se Deus tem sido tão misericordioso para comigo? Ainda agora, estou agradecendo ao Pai
justo, de todo o coração, a dádiva da tua presença nesta casa. Há muito vinha pedindo ao Céu não me deixasse morrer sem te rever e ouvir..
Narrador:
Saulo calculou a extensão daquela generosidade espontânea e teve os olhos úmidos. Despediu-se. A noite fresca estava repleta de sugestões para o seu espírito.
Nunca meditara nos insondáveis desígnios do Eterno, como naquele momento em que recebera tão profundas lições de humildade e amor, da mulher amada. Experimentava
na alma opressa o embate de duas forças antagônicas, que lutavam entre si para a posse do seu coração generoso e impulsivo.
Não compreendia Deus senão como um senhor poderoso e inflexível. À sua vontade soberana, dobrar-se-iam todas as preocupações humanas. Mas começava a perquirir
o motivo de suas dolorosas inquietudes. Por que não encontrava, em parte alguma, a paz anelada ardentemente? E, todavia, aquela gente miserável do “Caminho” entregava-se
às algemas do cárcere, sorridente e tranqüila. Homens enfermos e valetudinários, isentos de qualquer esperança do mundo, suportavam-lhe as perseguições com louvores
no coração. O próprio Estevão, cuja morte lhe servira de exemplo inesquecível, abençoara-o pelos sofrimentos recebidos por amor ao carpinteiro de Nazaré. Aquelas
criaturas desamparadas gozavam de uma tranqüilidade que ele desconhecia, O quadro da noiva doente não lhe saía dos olhos. Abigail era sensível e afetuosa, mas lembrava
sua ansiedade feminina, a intensidade de suas preocupações de mulher, quando, eventualmente, não conseguia comparecer com pontualidade no adorável recanto da estrada
de Jope. Aquele Jesus desconhecido proporcionara-lhe forças ao coração. Se era inconteste que a enfermidade lhe extinguia a vida aos poucos, também evidente era
o rejuvenescimento das suas energias espirituais. A noiva falara-lhe como que tocada de novas inspirações; aqueles olhos pareciam contemplar interiormente a paisagem
de outros mundos.
Essas reflexões não lhe deram ensejo à admiração da Natureza. Reentrando em Jerusalém, guardou a impressão de que despertava de um sonho. À sua frente desenhavam-se
as linhas majestosas do grande santuário. O orgulho de raça falava-lhe mais forte ao espírito.
Era impossível conferir superioridade aos homens do "Caminho". Bastou a visão do Templo para que encontrasse em si mesmo os esclarecimentos que desejava. A seu
ver, a serenidade dos discípulos do Cristo provinha, naturalmente, da ignorância que lhes era apanágio. Geralmente, os que se afeiçoavam aos galileus eram, apenas,
criaturas que o mundo desclassificara pela decadência física, pela educação falha, pelo supremo abandono. O homem de responsabilidade, por certo, não poderia encontrar
a paz a preço tão vil. Figurarase-lhe haver resolvido o problema. Continuaria a luta. Contava com o breve restabelecimento da noiva; logo que possível desposaria
Abigail e, com fácilidade, dissuadi-la-ia dos fantasiosos quão perigosos engodos daqueles ensinamentos condenados. Do âmbito do seu lar, feliz, prosseguiria na perseguição
de quantos esquecessem a Lei, trocando-a por outros princípios.
Esses raciocínios lhe acalmaram, de certo modo, as inquietações.
Mas, no dia seguinte, manhã alta, um mensageiro de Zacarias golpeava-lhe a alma com uma notícia grave:
Abigail piorara, estava agonizante!
Incontinenti, tomou o caminho de Jope, ansioso de arrebatar a bem-amada ao perigo iminente.
Ruth e o marido estavam desolados. Desde a madrugada, a enferma caíra em penosa prostração. Os vômitos de sangue sucediam-se ininterruptos. Dir-se-ia que só
esperava a visita do noivo para morrer. Saulo escutou-os, lívido como cera. Mudo, dirigiu-se para o quarto, onde o ar fresco penetrava embalsamado, trazendo a mensagem
das flores do pomar e do jardim, que pareciam enviar despedidas às mãos delicadas e carinhosas que lhes haviam dado a vida.
Abigail recebeu-o com um raio de infinita alegria nos olhos translúcidos. O tom de marfim do semblante abatido acentuara-se rapidamente. O peito arfava-lhe precípite,
o coração batia sem ritmo. Sua expressão geral evidenciava a derradeira agonia. Saulo aproximou-se angustiado. Pela primeira vez na vida, sentia-se trémulo diante
do irremediável. Aquele olhar, aquela palidez de mármore, aquela aflição tocada de angústia. anunciavam-lhe o desenlace.
Depois de inquiri-la, quanto à razão daquele abatimento inesperado, tomou-lhe as mãos flácidas, banhadas do suor frio dos moribundos.
Saulo:
- Como foi isso, Abigail? ainda ontem, deixei-te tão esperançado... Pedi sinceramente a Deus te curasse para mim!...
Extremamente sensibilizados, Zacarias e sua mulher afastaram-se.
Narrador:
Vendo que a noiva tinha imensa dificuldade em expor as últimas idéias, Saulo ajoelhou-se a seu lado, cobriu-lhe as mãos de beijos ardentes. A agonia dolorosa
parecia-lhe o sofrimento injustificável, que o céu houvera enviado a um anjo. Ele, que trazia o espírito ressecado pela hermenêutica das leis humanas, sentiu que
chorava intensamente pela primeira vez. Lendo-lhe a sensibilidade através das lágrimas que lhe desciam silenciosamente dos olhos, Abigail esboçou um gesto de carinho
com dificuldade infinita. Conhecia Saulo e comprovara-lhe a rigidez do caráter. Aquele pranto revelava o calvário íntimo do bem-amado, mas demonstrava, igualmente,
o alvorecer de uma vida nova para o seu espírito.
Abigail:
- Não chores, Saulo, a morte não é o fim de tudo...
Saulo:
- Quero-te comigo em toda a vida.
Abigail:
- E, contudo, é preciso morrer para vivermos verdadeiramente. Jesus nos ensinou
que a semente caindo na terra fica só, mas se morrer dá muitos frutos!... Não te rebeles contra os desígnios supremos que me arrebatam do teu convívio material!
Se nos uníssemos pelo matrimônio, talvez tivéssemos muitas alegrias; teríamos um lar com os nossos filhos; mas destruindo nossas esperanças de uma felicidade passageira
na Terra, Deus nos multiplica os sonhos generosos... Enquanto esperarmos a união indissolúvel, auxiliar-te-ei de onde estiver e te consagrarás ao Eterno, em esforços
sublimes e redentores...
Saulo:
- Quem te deu semelhantes idéias?
Abigail:
- Esta noite, depois que partiste, senti que alguém se aproximava enchendo o quarto de luz... Era Jeziel que vinha ver-me... Ao avistá-lo, lembrei-me de Jesus
no inefável mistério da sua ressurreição. Anunciou-me que Deus santificava os nossos propósitos de ventura, mas que eu seria levada ainda hoje à vida espiritual.
Ensinou-me a quebrar o egoísmo de minhalma, encheu-me de bom ânimo e trouxe-me a grata nova de que Jesus ama-te muito, tem esperanças em ti!... Refleti, então, que
seria útil entregar-me jubilosa às mãos da morte, pois, quem sabe, se ficasse no mundo não iria perturbar a missão que o Salvador te destinou... Jeziel afirmou que
nós te ajudaremos de um plano mais alto! Por que, então, deixarei de ser tua companheira?... Seguirei teus passos no caminho, levar-te-ei onde se encontrem nossos
irmãos do mundo, em abandono, auxiliarei teus raciocínios a descobrir sempre a verdade!... Ainda não aceitaste o Evangelho, mas Jesus é bom e terá algum meio de
nos unir os pensamentos na verdadeira compreensão!...
Saulo:
- Abigail! Abigail!
Abigail:
— Jeziel já veio ... buscar-me...
Narrador:
Instintivamente, Saulo compreendeu que era chegado o momento fatal. Em vão chamou pela moribunda, cujos olhos se empanavam; debalde lhe beijou as mãos geladas,
agora cobertas de um palor de neve translúcida. Como louco, gritou por Zacarias e Ruth. Esta, soluçante, desfeita em pranto, abraçou-se a Abigail que, desde a morte
do filho, resumia todo o seu tesouro maternal.
A agonizante fixou o olhar, respectivamente, em cada um, como a evidenciar amoroso agradecimento. Depois... uma só lágrima silenciosa foi o seu último adeus.
Do jardim próximo chegavam perfumes brandos; o céu crepuscular tonalizava-se de nuvens aurifulgentes, enquanto os pássaros em recolhida cruzavam os ares alegremente...
Pesada amargura abatera-se sobre a mansão da estrada de Jope. Alara-se ao céu a filha dileta, a noiva amada, a amiga carinhosa das flores e dos passarinhos.
Saulo de Tarso ali se deixou ficar mudo, estarrecido enquanto Ruth, lavada em lágrimas, cobria de rosas a morta adorada, que parecia dormir.
10 No caminho de Damasco
Narrador:
Durante três dias, Saulo deixou-se ficar em companhia dos amigos generosos, recordando a noiva inesquecível.
Como triste consolo ao coração desesperado, buscava inteirar-se das preocupações da morta
nos últimos tempos e, de olhos úmidos, ouvia as referências carinhosas de Ruth a tudo que se relacionava com ela. Acusava a si próprio de não haver chegado
mais cedo para arrebatá-la à enfermidade dolorosa. Pensamentos amargos o atormentavam, tomado de angustioso arrependimento.
Com a rigidez das suas paixões, aniquilara todas as possibilidades de ventura. Com o rigorismo da sua perseguição implacável, Estevão encontrara o
suplício terrível; com o orgulho inflexível do coração, atirara com a noiva ao antro indevassável do túmulo.
Entretanto, não podia esquecer que devia todas as coincidências penosas àquele Cristo crucificado, que não pudera compreender. Por que topava, em tudo, traços
do carpinteiro humilde de Nazaré, que seu espírito voluntarioso detestava? Desde a primeira controvérsia na igreja do "Caminho", nunca mais conseguira passar um
dia sem encontrá-lo na fisionomia de algum transeunte, na admoestação dos amigos, na documentação oficial das suas diligências punitivas, na boca dos míseros prisioneiros.
Estevão expirara falando nele com amor e júbilo; Abigail nos últimos instantes consolava-se em recordá-lo e o exortava a segui-lo. Por todo esse acervo de considerações
que se lhe represavam na mente exausta, Saulo de Tarso galvanizara o ódio pessoal ao Messias escarnecido. Agora que se encontrava só, inteiramente liberto de preocupações
particulares, de natureza afetiva, buscaria concentrar esforços na punição e corretivo de quantos encontrasse transviados da Lei. Julgando-se prejudicado pela difusão
do Evangelho, renovaria os processos da perseguição infamante. Sem outras esperanças, sem novos ideais, já que lhe faltavam os fundamentos para constituir um lar,
entregar-se-ia de corpo e alma à defesa da Lei de Moisés, preservando a fé e a tranqüilidade dos compatrícios.
Na véspera do seu regresso a Jerusalém, vamos encontrar o jovem doutor em conversa particular com Zacarias, que procurava ouvi-lo atentamente.
Saulo:
- Afinal de contas, quem será esse velho que conseguiu fascinar Abigail, a ponto de ela abraçar as doutrinas
estranhas do Nazareno?
Zacarias:
- Ora, é um desses miseráveis eremitas que se entregam comumente a longas meditações no deserto. Zelando o patrimônio
espiritual da pupila que Deus me confiou, indaguei da sua origem e das atividades de sua vida, chegando a saber que se trata de um homem honesto, apesar de extremamente
pobre.
Saulo:
- Seja como for, ainda não pude compreender os motivos da tua tolerância. Como não te insurgiste contra o inovador?
Tenho a impressão de que as idéias tristes e absurdas dos adeptos do "Caminho" contribuíram, de modo decisivo, para a moléstia que vitimou a nossa pobre Abigail.
Zacarias:
- Ponderei tudo isso, mas a atitude mental da querida morta revestiu-se de imensa consolação, depois do contacto com esse anacoreta honesto e humilde. Ananias
tratou-a sempre com profundo respeito, atendeu-a sempre alegre, não exigiu qualquer recompensa, e assim procedeu com os próprios empregados, revelando uma bondade
sem limites. Seria, então, lícito impugnar, desprezar benefícios? É verdade que, na esfera de minha compreensão, não poderei aceitar outras idéias além das que nos
foram ensinadas por nossos avós, respeitáveis e generosos; mas não me julguei com o direito de subtrair aos outros o objeto de suas consolações mais preciosas. Tua
ausência, ao demais, colocou-me em situação difícil. Abigail fizera da tua pessoa o centro de todos os seus interesses afetivos. Sem compreender as razões que te
levaram a desaparecer de nossa casa, compadeci-me da sua amargura íntima, a traduzir-se em tristeza inalterável. A pobrezinha não conseguia ocultar suas mágoas aos
nossos olhos amorosos. O encontro de um remédio era providencial. Desde a intervenção de Ananias, Abigail transformou-se, parecia converter toda a angústia em esperanças
de uma vida melhor. Embora doente, recebia os mendigos que lhe vinham falar desse Jesus que, também, não consigo compreender. Eram amigos da vizinhança, gente simples,
com quem ela parecia alegrar-se. Observando o mal irremediável que a consumia, eu e Ruth acompanhávamos tudo isso enternecidamente. Como não proceder assim, se estava
em jogo a paz espiritual de uma filha dileta, nos derradeiros dias da sua vida? Épossível que ainda não consigas entender o sentido da minha conduta, neste particular,
mas em sã consciência estou justificado, porqüanto sei que cumpri meu dever, não lhe embargando os recursos que julgou necessários à sua consolação.
Narrador:
Saulo ouvia-o admirado. A serenidade e a ponderação de Zacarias infirmavam-lhe os estos mais fortes de reprimenda e severidade. As acusações veladas ao seu afastamento
da noiva, sem motivo justificado, penetravam-lhe o coração com pruridos de remorso pungente.
Saulo:
- Sim, reconsidero melhor as razões que te induziram a suportar tudo isso, mas, não quero, não posso e não devo exonerar-me do
compromisso que assumi em desafronta da Lei.
Zacarias:
- Mas, a que compromisso te referes?
Saulo:
- Quero dizer que preciso encontrar Ananias, a fim de castigá-lo devidamente.
Zacarias:
- Que é isso, Saulo? Abigail acaba de baixar ao sepulcro; seu espírito, de compleição sensibilíssima
e afetuosa, sofreu profundamente por motivos que ignoramos e que talvez conheças; o conforto único que ela encontrou foi, justamente, a amizade paternal desse velhinho
bom e honesto; e queres puni-lo pelo bem que nos fez e à criatura inesquecível?
Saulo:
- Mas é a defesa da Lei de Moisés que está em jogo.
Zacarias:
- Entretanto, revistando os textos sagrados, não encontrei qualquer dispositivo que autorize a castigar os benfeitores.
Saulo:
- Mas uma coisa é estudar a Lei e outra é defender a Lei. Na tarefa superior em que me encontro, sou obrigado a examinar se o bem não oculta o mal que
condenamos. Aí reside a nossa divergência. Tenho de punir os transviados, como necessitas podar as árvores da tua chácara.
Narrador:
Fez-se prolongado silêncio. Absortos em profunda meditação, separados mental e intimamente, foi Saulo quem retomou a palavra perguntando:
Saulo:
- Desde quando Ananias se ausentou destas paragens?
Zacarias:
- Há mais de dois meses.
Saulo:
- E chegaste a conhecer o rumo que tomou?
Zacarias:
- Abigail disse-me que ele fora chamado a Jerusalém, a fim de confortar os doentes dos bairros pobres, dada a situação difícil que por lá se criara com a perseguição.
Saulo:
- Pois a sua nefasta influência será igualmente jugulada pelas forças da nossa vigilância.
Regressando à cidade, amanhã, como pretendo, procurarei localizar-lhe o paradeiro.
Ananias não dementará outras cabeças! Jamais chegou a pensar na reação que provocou em minhalma, embora não nos conheçamos pessoalmente.
Zacarias:
- Na simplicidade da minha vida rural não posso atinar com a razão das lutas religiosas de Jerusalém; mas, enfim, trata-se de problemas inerentes aos teus
misteres profissionais e não devo intrometer-me nas providências que mais convenham.
Narrador:
Saulo deixou-se ficar longo tempo pensativo, para, em seguida, imprimir novos rumos à conversação. No dia seguinte, muito consternado, regressou àcidade.
A ninguém revelou a grande amargura que lhe ia na alma. Fechando-se em mutismo absoluto, retomou as funções religiosas, de semblante carregado.
Ao sol claro da manhã alta, vamos encontrá-lo no Sinédrio, interrogando um auxiliar de serviço, com vivacidade:
Saulo:
- Isaac, cumpriste minhas ordens para os informes desejados?
Isaac:
- Sim, senhor, encontrei entre os prisioneiros um rapaz que conhece o velho Ananias.
Saulo:
- Muito bem, e onde mora o tal Ananias?
Isaac:
- Ah! lá isso ele não quis dizer, apesar do muito que insisti. Alegou que não sabia.
Saulo:
- Entretanto, é possível que esteja mentindo. Esses homens são capazes de tudo. Providencia, já, para que ele aqui compareça
quanto antes. Saberei como arrancar-lhe a verdade.
Narrador:
Como quem já lhe conhecia as decisões irrevogáveis. Isaac obedeceu com humildade. Daí a uma hora mais ou menos, dois soldados penetravam no gabinete, acompanhando
um rapaz de fisionomia miserável. Sem trair qualquer comoção, Saulo de Tarso mandou que se recolhessem à sala de punições, onde iria ter com o prisioneiro dentro
de alguns minutos. Terminada a escrituração de alguns papiros, dirigiu-se, resoluto, ao salão dos castigos. Alinhavam-se, ali, todos os instrumentos odiosos e
execráveis das perseguições político-religiosas, que envenenavam Jerusalém nos embates da época.
Depois de sentar-se enfaticamente, o moço de Tarso inquiriu o mísero encarcerado com aspereza:
Saulo:
- Teu nome?
Matatias:
- Matatias Johanan.
Saulo:
- Conheces o velho Ananias, pregador ambulante da igreja do "Caminho"?
Matatias:
- Sim, senhor.
Saulo:
- Desde quando?
Matatias:
- Conheci-o nas vésperas de minha prisão, que se verificou há um mês.
Saulo:
- E onde reside esse adepto do carpinteiro?
Matatias:
- Isso não sei. Quando o conheci, morava num bairro pobre de Jerusalém, onde ensinava o Evangelho. Mas Ananias não tinha
pouso certo. Veio de Jope, estacionando em diversas aldeias, onde pregava as verdades de Jesus-Cristo. Aqui, vivia de bairro em bairro, no seu piedoso mister.
Saulo:
- Achas que podes mentir a um doutor da Lei?
Matatias:
- Senhor, eu juro...
Saulo:
- Júlio, não temos tempo a perder. Necessito da informação necessária. Aplica-lhe o tormento das unhas. Acredito que, por esse processo, não se animará
a prosseguir na dissimulação da verdade.
Matatias:
- Por piedade!... Confessarei tudo, direi onde ele está!... Tende compaixão de mim!...
Senhor, Ananias não se encontra mais em Jerusalém. Em nossa última reunião, três dias antes de cairmos no cárcere,
o velho discípulo do Evangelho se despediu, afirmando que ia fixar-se em Damasco.
Narrador:
Aquela voz lamentosa era um eco de profundas amarguras a se represarem num coração moço, mas repleto de penosas desilusões da vida. Saulo, entretanto, parecia
não ter olhos de ver sofrimentos tão comovedores.
Saulo:
- É tudo quanto sabes?
Matatias:
- Juro.
Narrador:
Diante daquela afirmação categórica, transparente no olhar sincero e na inflexão da voz comovente e triste, o doutor da Lei deu-se por satisfeito, mandando recolher
o prisioneiro ao calabouço.
Daí a dois dias, o moço tarsense convocava uma reunião no Sinédrio. Os colegas acorreram ao chamado, sem exceção.
Saulo:
- Amigos, há tempos nos reunimos para examinar o caráter da luta religiosa que se criara em Jerusalém com as atividades dos asseclas do
carpinteiro de Nazaré. Felizmente, nossa intervenção chegou a tempo de evitar grandes males, dada a argúcia dos falsos taumaturgos exportados da Galiléia. Á custa
de grandes esforços, a atmosfera desanuviou-se. É verdade que os cárceres da cidade transbordam, mas a medida se justifica, porqüanto é indispensável reprimir o
instinto revolucionário das massas ignorantes.
A chamada igreja do "Caminho" restringiu suas atividades àassistência aos enfermos desamparados. Nossos bairros mais humildes estão em paz. Voltou a serenidade
aos nossos afazeres no Templo. Entretanto, não se pode afirmar o mesmo quanto às cidades vizinhas.
Minhas consultas às autoridades religiosas de Jope e Cesaréia dão a conhecer os distúrbios que os adeptos do Cristo vêm provocando, acintosamente, com prejuízo
sério para a ordem pública. Não somente nesses núcleos precisamos desenvolver a obra saneadora, mas, ainda agora, chegam-me notícias alarmantes de Damasco, a requererem
providências imediatas.
Localizam-se ali perigosos elementos. Um velho, chamado Ananias, lá está perturbando a vida de quantos necessitam de paz nas sinagogas. Não é justo que o mais
alto tribunal da raça se desinteresse das coletividades israelitas noutros setores. Proponho, então, estendermos o benefício dessa campanha a outras cidades. Para
esse fim, ofereço todos os meus préstimos pessoais, sem ônus para a casa a que servimos. Bastar-me-á, tão-só, o necessário documento de habilitação, a fim de acionar
todos os recursos que me pareçam acertados, inclusive o da própria pena de morte, quando a julgue necessária e oportuna.
Narrador:
A proposta de Saulo foi recebida com demonstrações de simpatia. Houve mesmo quem chegasse a propor um voto especial de louvor ao seu zelo vigilante, com aplausos
unânimes da reduzida assembléia. Faltava ao cenáculo a ponderação de um Gamaliel, e o sumo-sacerdote, compelido pela aprovação geral, não hesitou em conceder as
cartas indispensáveis, com ampla autorização para agir discricionariamente. Os presentes abraçaram o jovem rabino com muitos encômios ao seu espírito arguto e enérgico.
Francamente, aquela mentalidade moça e vigorosa constituía auspicioso penhor de um futuro maior, com a emancipação política de Israel. Alvo das referências lisonjeiras
e estimuladoras dos amigos, Saulo de Tarso aguçava o orgulho de sua raça, esperançoso nos dias do porvir. Verdade é que sofria amargamente com a derrocada dos sonhos
da juventude, mas empregaria a soledade da existência nas lutas que reputava sagradas, ao serviço de Deus.
De posse das cartas de habilitação para agir convenientemente, em cooperação com as Sinagogas de Damasco, aceitou a companhia de três varões respeitáveis, que
se ofereceram a acompanhá-lo na qualidade de servidores muito amigos.
Ao fim de três dias, a pequena caravana se deslocou de Jerusalém para a extensa planície da Síria.
Na véspera da chegada, quase a termo da viagem difícil e penosa, o moço tarsense sentia agravarem-se as recordações amargas que lhe assomavam constantes. Forças
secretas impunham-lhe profundas interrogações. Passava em revista os primeiros sonhos da juventude. Sua alma desdobrava-se em perguntas atrozes. Desde a adolescência
que encarecia a paz interior: tinha sede de estabilidade para realizar a sua carreira. Onde encontrar aquela serenidade, que, tão cedo, fora objeto das suas cogitações
mais íntimas? Os mestres de Israel preconizavam, para isso, a observância integral da Lei. Mais que tudo, havia ele guardado os seus princípios. Desde os impulsos
iniciais da juventude, abominava o pecado. Consagrara-se ao ideal de servir a Deus com todas as suas forças. Não hesitara na execução de tudo que considerava dever,
ante as ações mais violentas e rudes. Se era incontestável que tinha inúmeros admiradores e amigos, tinha igualmente poderosos adversários, graças ao seu caráter
inflexível no cumprimento das obrigações que considerava sagradas. Onde, então, a paz espiritual que tanto almejava nos esforços comuns? Por mais energias que despendesse,
via-se como um laboratório de inquietações dolorosas e profundas. Sua vida assinalava-se por idéias poderosas, mas, no seu íntimo, lutava com antagonismos irreconciliáveis.
As noções da Lei de Moisés pareciam não lhe bastar à sede devoradora. Os enigmas do destino empolgavam-lhe a mente. O mistério da dor e dos destinos diferenciais
crivava-o de enigmas insolúveis e sombrias interrogações. Entretanto, aqueles adeptos do carpinteiro crucificado ostentavam uma serenidade desconhecida! A alegação
de ignorância dos problemas mais graves da vida não prevalecia no caso, pois Estevão era uma inteligência poderosa e mostrara, ao morrer, uma paz impressionante,
acompanhada de valores espirituais que infundiam assombro.
Saulo não saberia explicar o que se passava. Suas reminiscências atingiam os períodos da primeira infância. Todo o seu passado laborioso aclarava-se,
nitidamente, naquele exame introspectivo. Dentre todas as figuras familiares, a lembrança de Estevão e de Abigail destacava-se, como a solicitá-lo para mais fortes
interrogações. Por que haviam adquirido, os dois irmãos de Corinto, tal ascendência em todos os problemas do seu ego? Por que esperava Abigail através de todas as
estradas da mocidade, na idealização de uma vida pura? Recordava os amigos mais eminentes, e em nenhum deles encontrou qualidades morais semelhantes às daquele jovem
pregador do "Caminho", que afrontara a sua autoridade político-religiosa, diante de Jerusalém em peso, desdenhando a humilhação e a morte, para morrer depois, abençoando-lhe
as resoluções iníquas e implacáveis. Que força os unira nos labirintos do mundo, para que o seu coração nunca mais os esquecesse? A verdade dolorosa é que se encontrava
sem paz interior, não obstante a conquista e gozo de todas as prerrogativas e privilégios, entre os vultos mais destacados da sua raça.
Atormentado pelas indagações profundas que lhe assoberbavam a mente, pareceu despertar de um grande pesadelo. Devia ser meio-dia. Muito
distante ainda, a paisagem de Damasco apresentava os seus contornos. Saulo ia à frente, em atitude dominadora.
Em dado instante, todavia, quando mal despertara das angustiosas cogitações, sente-se envolvido por luzes diferentes da tonalidade solar. Tem a impressão de que
o ar se fende como uma cortina, sob pressão invisível e poderosa. Íntimamente, considera-se presa de inesperada vertigem após o esforço mental, persistente e doloroso.
Quer voltar-se, pedir o socorro dos companheiros, mas não os vê, apesar da possibilidade de suplicar o auxílio.
Saulo:
- Jacob!... Demétrio!... Socorram-me!
Narrador:
Mas a confusão dos sentidos lhe tira a noção de equilíbrio e tomba do animal, ao desamparo, sobre a areia ardente. A visão, no entanto, parece dilatar-se ao infinito.
Outra luz lhe banha os olhos deslumbrados, e no caminho, que a atmosfera rasgada lhe desvenda, vê surgir a figura de um homem de majestática beleza, dando-lhe a
impressão de que descia do céu ao seu encontro. Sua túnica era feita de pontos luminosos, os cabelos tocavam nos ombros, à nazarena, os olhos magnéticos, imanados
de simpatia e de amor, iluminando a fisionomia grave e terna, onde pairava uma divina tristeza.
O doutor de Tarso contemplava-o com espanto profundo, e foi quando, numa inflexão de voz inesquecível, o desconhecido se fez ouvir:
Jesus:
- Saulo!... Saulo!... por que me persegues?
Narrador:
O moço tarsense não sabia que estava instintiva-mente de joelhos. Sem poder definir o que se passava, comprimiu o coração numa atitude desesperada. Incoercível
sentimento de veneração apossou-se inteiramente dele. Que significava aquilo? De quem o vulto divino que entrevia no painel do firmamento aberto e cuja presença
lhe inundava o coração precípite de emoções desconhecidas?
Enquanto os companheiros cercavam o jovem genuflexo, sem nada ouvirem nem verem, não obstante haverem percebido, a princípio, uma grande luz no alto, Saulo interrogava
em voz trêmula e receosa:
Saulo:
- Quem sois vós, Senhor?
Jesus:
- Eu sou Jesus!...
Narrador:
Então, viu-se o orgulhoso e inflexível doutor da Lei curvar-se para o solo, em pranto convulsivo. Dir-se-ia que o apaixonado rabino de Jerusalém fora ferido
de morte, experimentando num momento a derrocada de todos os princípios que lhe conformaram o espírito e o nortearam, até então, na vida. Diante dos olhos tinha,
agora, e assim, aquele Cristo magnânimo e incompreendido! Os pregadores do “Caminho” não estavam iludidos! A palavra de Estevão era a verdade pura! A crença de Abigail
era a senda real. Aquele era o Messias! A história maravilhosa da sua ressurreição não era um recurso lendário para fortificar as energias do povo. Sim, ele, Saulo,
via-o ali no esplendor de suas glórias divinas!
E que amor deveria animar-lhe o coração cheio de augusta misericórdia, para vir encontrá-lo nas estradas desertas, a ele, Saulo, que se arvorara em perseguidor
implacável dos discípulos mais fiéis!. .. Na expressão de sinceridade da sua alma ardente, considerou tudo isso na fugacidade de um minuto. Experimentou invencível
vergonha do seu passado cruel. Uma torrente de lágrimas impetuosas lavava-lhe o coração. Quis falar, penitenciar-se, clamar suas infindas desilusões, protestar fidelidade
e dedicação ao Messias de Nazaré, mas a contrição sincera do espírito arrependido e dilacerado embargava-lhe a voz.
Foi quando notou que Jesus se aproximava e, contemplando-o carinhosamente, o Mestre tocou-lhe os ombros com ternura, dizendo com inflexão paternal:
Jesus:
- Não recalcitres contra os aguilhões!...
Narrador:
Saulo compreendeu. Desde o primeiro encontro com Estevão, forças profundas o compeliam a cada momento, e em qualquer parte, à meditação dos novos ensinamentos.
O Cristo chamara-o por todos os meios e de todos os modos.
Sem que pudessem entender a grandeza divina daquele instante, os companheiros de viagem viram-no chorar mais copiosamente.
O moço de Tarso soluçava. Ante a expressão doce e persuasiva do Messias Nazareno, considerava o tempo perdido em caminhos escabrosos e ingratos. Doravante
necessitava reformar o patrimônio dos pensamentos mais íntimos; a Visão de Jesus ressuscitado, aos seus olhos mortais, renovava-lhe integralmente as concepções religiosas.
Certo, o Salvador apiedara-se do seu coração leal e sincero, consagrado ao serviço da Lei, e descera da sua glória estendendo-lhe as mãos divinas. Ele, Saulo, era
a ovelha perdida no resvaladouro das teorias escaldantes e destruidoras. Jesus era o Pastor amigo que se dignava fechar os olhos para os espinheirOS ingratos, a
fim de salvá-lo carinhosamente. Num ápice, o jovem rabino considerou a extensão daquele gesto de amor. As lágrimas brotaram-lhe do coração amargurado, como a linfa
pura, de uma fonte desconhecida. Ali mesmo, no santuário augusto do espírito, fez o protesto de entregar-se a Jesus para sempre. Recordou, de súbito, as provações
rígidas e dolorosas. A idéia de um lar morrera com Abigail. Sentia-se só e acabrunhado. Doravante, porém, entregar-se-ia ao Cristo, como simples escravo do seu amor.
E tudo envidaria para provar-lhe que sabia compreender o seu sacrifício, amparando-o na senda escura das iniqüidades humanas, naquele instante decisivo do seu
destino. Banhado em pranto, como nunca lhe acontecera na vida, fez, ali mesmo, sob o olhar assombrado dos companheiros e ao calor escaldante do meio-dia, a sua primeira
profissão de fé.
Saulo:
- Senhor, que quereis que eu faça?
Narrador:
Aquela alma resoluta, mesmo no transe de uma capitulaçãO incondicional, humilhada e ferida em seus princípios mais estimáveiS, dava mostras de sua nobreza
e lealdade.
Encontrando a revelação maior, em face do amor que Jesus lhe demonstraVa solícito, Saulo de Tarso não escolhe tarefas para servi-lo, na renovação de seus
esforços de homem.
Entregando-se-lhe de alma e corpo, como se fora ínfimo servo, interroga com humildade o que desejava o Mestre da sua cooperação.
Foi aí que Jesus, contemplando-o mais amorosamente e dando-lhe a entender a necessidade de os homens se harmonizarem no trabalho comum da edificação de todos,
no amor universal, em seu nome, esclareceu generosamente:
Jesus:
- Levanta-te, Saulo! Entra na cidade e lá te será dito o que te convém fazer!...
Narrador:
Então, o moço tarsense não mais percebeu o vulto amorável, guardando a impressão de estar mergulhado num mar de sombras. Prosternado, continuava chorando, causando
piedade aos companheiros. Esfregou os olhos como se desejasse rasgar o véu que lhe obscurecia a vista mas só conseguia tatear no seio das trevas densas. Aos poucos,
começou a perceber a presença dos amigos, que pareciam comentar a situação:
Demétrio:
- Afinal, Jacob, que faremos agora?
Jacob:
- Acho bom enviarmos Jonas a Damasco, requisitando providências imediatas.
Jonas:
- Mas, que se teria passado?
Jacob:
- Não sei bem, a princípio, notei intensa luz nos céus e, logo em seguida, ouvi que ele pedia socorro. Nem tive tempo de
atender, porque, no mesmo instante, ele caiu do animal, sem poder esperar qualquer recurso.
Demétrio:
- O que me preocupa é esse diálogo com as sombras. Com quem conversará ele? Se lhe escutamos a voz e não vemos ninguém, que se
passará aqui, nesta hora, sem que possamos compreender?
Jacob:
- Mas não percebes que o chefe está em delírio? As grandes viagens, com o sol causticante, costumam abater as organizações
mais resistentes. Além disso, como vimos, desde a manhã, ele parece acabrunhado e doente. Não se alimentou, enfraqueceu-se com o esforço destes dias tão longos,
que vimos atravessando, desde Jerusalém, com grande sacrifício. A meu ver — concluía abanando a cabeça entristecido — trata-se de um desses casos de febres que atacam
repentinamente no deserto...
Jonas:
- Tenho grande experiência destas marchas com o sol a pino. Gastei a mocidade conduzindo camelos através dos desertos da Arábia. Mas, nunca vi um doente,
nesses lugares, com estas características — a febre dos que caem extenuados no caminho não se manifesta com delírio e com lágrimas. O enfermo cai abatido, sem reações.
Aqui, porém, observamos o patrão como se estivesse a conversar com um homem invisível para nós.
Reluto em aceitar essa hipótese, mas estou desconfiado de que, em tudo isso, haja sinal dos sortilégios do “Caminho” Os seguidores do carpinteiro sabem processos
mágicos que estamos longe de compreender. Não ignoramos que o doutor se consagrou à tarefa de persegui-los onde se encontrem. Quem sabe planejaram contra ele alguma,
vingança cruel?
Ofereci-me para vir a Damasco, a fim de fugir dos meus parentes, que parecem seduzidos por essas doutrinas novas. Onde já se viu curar a cegueira de alguém com
a simples imposição das mãos? Entretanto, meu irmão curou-se com o famoso Simão Pedro. Só a feitiçaria, a meu ver, esclarecerá essas coisas. Vendo tantos fatos misteriosos,
em minha própria casa, tive medo de Satanás e fugi.
Narrador:
Recolhido em si próprio, surpreendido no meio das trevas densas que o envolviam, Saulo escutou os comentários dos amigos, experimentando grande abatimento, como
se voltasse exausto e cego, de uma imensa derrota.
Limpando as lágrimas, chamou um deles com profunda humildade. Acudiram todos solicitamente.
Jacob:
- Que aconteceu. Estamos aflitos por vossa causa. Estais doente, senhor ?... Providenciaremos o que julgardes
necessário...
Saulo:
- Estou cego.
Jonas:
- Mas que foi?
Saulo:
- Eu vi Jesus Nazareno!
Narrador:
Jonas fez um sinal significativo, como a afirmar aos companheiros que tinha razão, entreolhando-se todos muito admirados. Entenderam, de modo instintivo, que
o jovem rabino se havia perturbado. Jacob, que era pessoa de sua intimidade, tomou a iniciativa das primeiras providências e acentuou:
Jacob:
- Senhor, lamentamos vossa enfermidade. Precisamos resolver quanto ao destino da caravana.
Saulo:
- Jacob, não te preocupes comigo... Relativamente ao que me cumpre fazer, preciso chegar a Damasco, sem demora. Quanto a vocês...
façam como quiserem, pois, até agora, vocês eram meus servos, mas, de ora em diante, eu também sou escravo, não mais me pertenço a mim mesmo.
Narrador:
Ante aquela voz humilde e triste, Jacob começou a chorar. Tinha plena convicção de que Saulo enlouquecera. Chamou os dois companheiros à parte e explicou:
Jacob:
- Vocês voltarão para Jerusalém com a triste nova, enquanto me dirijo à cidade próxima, com o doutor, a providenciar da melhor forma. Levá-lo-ei aos seus
amigos e buscaremos o socorro de algum médico... Noto-o extremamente perturbado...
Narrador:
O jovem rabino cientificou-se das deliberações quase sem surpresa. Conformou-se passivamente com a resolução do servo. Naquela hora, submerso em trevas densas
e profundas, tinha a imaginação repleta de conjeturas transcendentes. A cegueira súbita não o afligia. Do âmbito daquela escuridão que lhe enchia os olhos da carne,
parecia emergir o vulto radioso de Jesus, aos seus olhos de Espírito. Era justo que cessassem as suas percepções visuais, a fim de conservar, para sempre, a lembrança
do glorioso minuto de sua transformação para uma vida mais sublime.
Saulo recebeu as observações de Jacob, com a humildade de uma criança. Sem uma queixa, sem resistência, ouviu o trotar da caravana que regressava, enquanto o
velho servidor lhe oferecia o braço amigo, tomado de infinitos receios.
Com o pranto a escorrer dos olhos inexpressivos,
como perdidos nalguma visão indevassável no vácuo, o
orgulhoso doutor de Tarso, guiado por Jacob, seguiu a pé, sob o sol ardente das primeiras horas da tarde.
Comovido pelas bênçãos que recebera das esferas mais elevadas da vida, Saulo chorava como nunca. Estava cego e separado dos seus. Dolorosas angústias represavam-se-lhe
no coração opresso. Mas a visão do Cristo redivivo, sua palavra inesquecível, sua expressão de amor lhe estavam presentes na alma transformada. Jesus era o Senhor,
inacessível à morte.
Ele orientaria os seus passos no caminho, dar-lhe-ia novas ordens, secaria as chagas da vaidade e do orgulho que lhe corroíam o coração; sobretudo, conceder-lhe-ia
forças para reparar os erros dos seus dias de ilusão.
Impressionado e triste, Jacob guiava o chefe amigo, perguntando a si próprio a razão daquele pranto incessante e silencioso.
Envolvido na sombra da cegueira temporária, Saulo não percebeu que os mantos espessos do crepúsculo abraçavam a Natureza. Nuvens escuras precipitavam a queda
da noite, enquanto ventos sufocantes sopravam da imensa planície. Dificilmente, acompanhava as passadas de Jacob, que desejava apressar a marcha, receoso da chuva.
Coração resoluto e enérgico, não reparava os obstáculos que se antepunham à sua jornada dolorosa. Faltava-lhe a visão, necessitava de um guia; mas Jesus recomendara
que entrasse na cidade, onde lhe seria dito o que tinha a fazer. Era preciso obedecer ao Salvador que o honrara com as supremas revelações da vida. A passos indecisos,
ferindo os pés em cada movimento inseguro, caminharia de qualquer modo para executar as ordens divinas. Era indispensável não observar as dificuldades, era imprescindível
não esquecer os fins. Que importava o olhar em trevas, o regresso da caravana a Jerusalém, a penosa caminhada a pé em demanda de Damasco, a falsa suposição dos companheiros
a respeito da inolvidável ocorrência, a perda dos títulos honoríficos, o repúdio dos sacerdotes seus amigos, a incompreensão do mundo inteiro, diante do fato culminante
do seu destino?
Saulo de Tarso, com a profunda sinceridade que lhe caracterizava as mínimas ações, só queria saber que Deus havia mudado de resolução a seu respeito. Ser-lhe-ia
fiel até ao fim.
Quando as sombras crepusculares se faziam mais densas, dois homens desconhecidos entravam nos subúrbios da cidade.
Grossos pingos de chuva caíam, aqui e ali, sobre a poeira ardente das ruas.
As janelas das casas residenciais fechavam-se com estrépito.
Damasco podia recordar o jovem tarsense, formoso e triunfador. Conhecia-o nas suas festas mais brilhantes, costumava aplaudi-lo nas sinagogas. Mas, vendo passar
na via pública aqueles dois homens cansados e tristes, jamais poderia identificá-lo naquele rapaz que caminhava cambaleante, de olhos mortos...