síntese dos capítulos 4, 5 e 6 de Paulo e Estevão

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Sonia B. Hoffmann

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Jul 30, 2010, 4:28:41 PM7/30/10
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Olá, pessoal!

Tive acesso ao computador e aqui vão as sínteses dos capítulos 4, 5 e 6
do livro Paulo e Estevão. O narrador tem uma atuação intensa
principalmente nos capítulos cinco e seis. Dificimelmente será possível
sintetizar ainda mais a fala do narrador e, então, acho interessante que
sejam dois os narradores. Mas é a minha opinião, o grupo decide.

As falas já estão indicadas.

Até!

Sonia

Capítulo 4 Nas estradas de Jope

Narrador:
Estamos na velha Jerusalém, numa clara manhã do ano 35.
No interior de sólido, confortável e luxuoso edifício, um homem ainda moço parece impaciente, à espera de alguém que se demora. Ao menor
rumor da via pública, corre à janela, apressado, voltando a sentar-se e a examinar papiros e pergaminhos, como quem se diverte matando o tempo.
Chegando à cidade, Sadoc aguardava o amigo Saulo para o abraço afetuoso da sua amizade de muitos anos.
Dentro em breve um carro minúsculo, semelhante às bigas romanas, estacava à porta, tirado por dois soberbos cavalos brancos. Num minuto,
Sadoc e Saulo se abraçaram efusivamente, transbordantes de alegria e juventude.
O jovem Saulo apresentava toda a vivacidade de um homem solteiro, bordejando os seus trinta anos. Na fisionomia cheia de virilidade e máscula beleza, os traços
israelitas fixavam-se particularmente nos olhos profundos e percucientes, próprios dos temperamentos apaixonados e indomáveis, ricos de agudeza e resolução. Trajando
a túnica do patriciato, falava de preferência o grego, a que se afeiçoara na cidade natal, ao convívio de mestres
bem-amados.

Sadoc:
- Quando chegaste?

Saulo:
- Estou em Jerusalém desde ontem de manhã.
Sadoc:
- E como vais de vida lá por Damasco?
Saulo:
- Sempre bem.
Sadoc:
- Mas como estás modificado!... Um carro à romana, a conversação em grego e...
Saulo:
- E no coração a Lei, sempre desejoso de submeter Roma e Atenas aos nossos princípios.
Sadoc:
- Sempre o mesmo homem! Aliás, posso apresentar um complemento às tuas próprias explicações. A biga éindispensável
às visitas a uma casinha florida, na estrada de Jope; e a conversação grega é necessária aos colóquios com uma legítima descendente de Issacar, nascida entre as
flores e os mármores de Corinto.
Narrador:
Jovialíssimo, Saulo contou ao amigo que, de fato, se enamorara de uma jovem da sua raça, que aliava os dotes de peregrina beleza aos mais elevados tesouros do
coração. Seu culto ao lar constituía um dos mais santificados atributos femininos. Explicou o primeiro encontro que tiveram. Em companhia de Alexandre e Gamaliel,
fora, havia uns três meses, à festividade íntima que Zacarias ben Hanan, adiantado lavrador no caminho de Jope, oferecera a alguns amigos bem colocados, em homenagem
à circuncisão dos filhinhos de seus servidores. Acrescentou que o anfitrião era antigo comerciante israelita emigrado de Corinto, após longos anos de trabalho na
Acaia, desgostoso com as perseguições de que fora vítima.
Após grandes provações na viagem de Cencréia a Cesaréia, Zacarias chegara àquele porto em péssimas condições financeiras, mas foi auxiliado por um patrício romano,
que lhe facultou recursos para arrendar uma grande propriedade na estrada de Jope, a regular distância de Jerusalém. Acolhido generosamente em sua casa, agora farta
e feliz, ali conhecera na jovem Abigail um terno coração de menina, dona dos mais belos predicados morais que pudessem exornar uma filha da sua raça. Era, de fato,
o seu ideal de moço:
inteligente, versada na Lei e, sobretudo, dócil e carinhosa. Adotada pelo casal como filha muito cara, havia sofrido amargamente em Corinto, ali deixando o pai morto
e o irmão escravizado para sempre. Havia três meses que se conheciam, permutando-se as mais risonhas esperanças e, quem sabe? talvez o Eterno lhes reservasse a união
conjugal, como coroamento dos sonhos sagrados da juventude. Saulo falava com o entusiasmo próprio do seu temperamento apaixonado e vibrátil. No olhar profundo, notava-se-lhe
a chama viva dos sentimentos resolutos, com respeito à afeição que lhe dominava a capacidade emotiva.
Sadoc:
- E já comunicaste a teus pais esses projetos?
Saulo:
- Minha irmã pretende ir a Tarso nestes dois meses e será a intérprete dos meus votos, concernentes à organização do meu futuro. Aliás, sabes, isso não
pode nem deve ser um problema de soluções precipitadas. Penso que ao homem não convém entregar-se assim, sem mais nem menos, a uma questão decisiva do seu destino.
Obedecendo ao nosso velho instinto de prudência, venho analisando demoradamente meus próprios ideais e ainda não trouxe Abigail para conviver com Dalila, alguns
dias, em nossa casa; pretendo fazê-lo tão-só nas vésperas da visita de minha irmã ao lar paterno.
Sadoc:
- Já que acalentas tantos projetos para o futuro, em que pé estão as tuas pretensões ao cargo no Sinédrio?
Saulo:
- Não posso queixar-me, porqüanto o Tribunal me confere atualmente atribuições especialissimas. Sabes que Gamaliel há muito vem instando com meu pai a respeito
da minha transferência para Jerusalém, onde me prometem lugar de relevo na administração do nosso povo. Como sabemos, o antigo mestre está idoso e deseja retirar-se
da vida pública. Não tardarei a substituí-lo no voto das mais altas deliberações, além de auferir atualmente ótima remuneração, independente da contribuição que
me vem de Tarso periodicamente. Tenho, acima de tudo, o ideal político de aumentar meu prestígio junto aos rabinos. É preciso não esquecer que Roma é poderosa e
que Atenas é sábia, tornando-se indispensável acordar a eterna hegemonia de Jerusalém como tabernáculo do Deus único. Precisamos, pois, dobrar os joelhos de gregos
e romanos ante a Lei de Moisés.
Sadoc:
- Pelo que me dizes, folgo em saber que teu pai vai melhorando, progressivamente, as condições financeiras. E dizer-se que foi tecelão humilde..
Saulo:
- Por isso mesmo, talvez, ensinou-me a profissão, quando menino, para que nunca me esquecesse de que o progresso de um homem depende do
seu próprio esforço. Hoje, porém, depois de tantas fadigas no tear, ele descansa, com justiça, numa velhice honrada e sem cuidados, junto de minha mãe. Suas caravanas
e camelos percorrem toda a Cilícia e os transportes lhe garantem um desenvolvimento de renda cada vez maior.
Narrador:
A palestra continuou animada e, em dado instante, o moço de Tarso inquiriu o amigo sobre os motivos que o traziam a Jerusalém.
Sadoc:
- Vim certificar-me da cura de meu tio Filodemos, que ficou curado da velha cegueira, mediante processos misteriosos.
Já ouviste falar nos homens do "Caminho"?
Saulo:
- Ah! Andrônico falou-me a respeito deles, há muito tempo. Não se trata de uns pobres galileus maltrapilhos e ignorantes que se refugiam nos bairros desprezíveis?
Sadoc:
- Isso, justamente. E contou que um homem chamado Estevão, portador de virtudes sobrenaturais, no dizer do povo, havia devolvido a vista ao tio, com assombro geral
de muita gente.
Saulo:
- Como é isso? Como pôde Filodemos submeter-se a experiências tão sórdidas? Acaso não terá compreendido que o fato pode radicar
nas artimanhas dos inimigos de Deus? Várias vezes, desde que Andrônico me referiu o assunto pela primeira vez, tenho ouvido comentários a respeito desses homens
e cheguei mesmo a trocar idéias com Gamaliel, no intuito de reprimir essas atividades perniciosas; entretanto, o mestre, com a tolerância que o caracteriza, me fez
ver que essa gente vem auxiliando a numerosas pessoas sem recursos.
Sadoc:
- Sim, mas ouço dizer que as pregações de Estevão estão arrebanhando muitos estudiosos a novos princípios que, de algum modo, infirmam
a Lei de Moisés.
Saulo:
- Todavia, não foi um carpinteiro galileu, obscuro, sem cultura, que originou tal movimento? Que poderíamos esperar da Galiléia? Porventura terá produzido
outra coisa além de legumes e peixes?
Sadoc:
- E, contudo, o carpinteiro martirizado tornou-se um ídolo para os sequazes. Procurando desfazer as impressões de meu tio, chamando-o à razão com a energia necessária,
fui levado a visitar, ontem, as obras de caridade dirigidas por um tal Simão Pedro. É uma instituição estranha e que não deixa de ser extraordinária. Crianças desamparadas
que encontram carinho, leprosos que recobram a saúde, velhos enfermos e desprotegidos da sorte, que exultam de conforto.
Saulo:
- Mas os doentes? Onde ficam esses doentes?
Sadoc:
- Todos se agasalham junto desses homens incompreensíVeiS.
Saulo:
- Estão todos malucos!
Narrador:
Ambos trocaram impressões íntimas, sobre a nova doutrina, pontuando de ironia o comentário de muitos fatos piedosos que empolgavam a atenção do povo simples de
Jerusalém.
Sadoc:
- Não me conformo em ver os nossos princípioS aviltados e proponho-me a cooperar contigo, embora esteja em Damasco, para estabelecermos a imprescindível repressão
a tais atividades. Com as tuas prerrogativas de futuro rabino, em destaque no Templo, poderás encabeçar uma ação decisiva contra esses mistificadores e falsos taumaturgos.
Saulo:
- Sem dúvida. E prontifico-me a executar todas as providências que o caso requer. Até agora, a atitude do Sinédrio tem sido da máxima tolerância
mas farei que todos os companheiros mudem de opinião e procedam como lhes compete, em face dessas investidas que estão a desafiar severa punição.
Quais os dias de pregação desse tal Estevão?
Sadoc:
- Aos sábados.
Saulo:
- Pois bem; depois de amanhã iremos juntos apreciar os sandeus. Caso verifique o caráter inofensivo dos seus ensinamentos, haverá que os deixar em paz
com a sua logomania, ao lado das mazelas do próximo; mas, caso contrário, pagarão muito caro a audácia de ofender nossos códigos religiosos, na própria metrópole
do judaísmo.
Narrador:
Ainda por longo tempo comentaram os fatos sociais, as tricas do farisaísmo a que pertenciam, os sucessos do presente e as esperanças do porvir.
Ao cair da tarde desse mesmo dia, a biga elegante de SauLo de Tarso atravessava as portas de Jerusalém, tomando a direção do porto de Jope.
O sol ardente, alto ainda no horizonte, enchia o caminho com a sua luz muito viva, O semblante do jovem doutor da Lei irradiava uma alegria louca, ao trote largo
dos animais, que, de quando em vez, passavam a galopar. Recordava, satisfeito, o esporte a que se afeiçoara na cidade natal, tão ao gosto grego em que fora educado,
graças à solicitude paterna. Olhos fixos nos cavalos árdegos e velozes, vinham-lhe à mente as vitórias alcançadas, entre os parceiros de jogos na sua descuidosa
adolescência.
Poucas milhas distante, erguia-se uma casa confortável, entre grandes tamareiras e pessegueiros em flor. Em torno, grandes plantações de legumes, ao lado de
tênue fio dágua inteligentemente aproveitado em extenso horto. A propriedade era parte integrante de uma das muitas pequenas aldeias que rodeavam a cidade santa.
Era aí que Zacarias se instalara com a família, para recomeçar a vida honesta, Ruth e Abigail procuravam ajudá-lo no seu nobre esforço de homem ativo e trabalhador,
cultivando
frutos e flores, e com isso aproveitando toda a terra disponível.
Auxiliado por amigos influentes, do estofo de Gamaliel e de Saulo de Tarso, que se emancipara da condição de discípulo para graduar-se em autoridade competente,
no mais alto tribunal da raça, pudera resgatar grande parte de suas dívidas, caminhando vertiginosamente para uma bela posição de independência financeira, no país
natal. Ruth regozijava-se com a vitória do marido, secundada por Abigail, em quem encontrara a dedicada afeição de verdadeira filha.
A irmã de Jeziel parecia haver refundido a delicadeza dos traços feminis, na forja dos sofrimentos experimentados. A gracilidade do semblante e o negrume dos
olhos haviam-se irmanado a um véu de formosa tristeza, que a envolvera toda, a partir daqueles dias trágicos e lúgubres, passados em Corinto. Quanto desejava uma
notícia, ainda que ligeira e banal, do irmão que o destino havia convertido em escravo de verdugos cruéis!... Para isso, desde os primeiros tempos, Zacarias não
poupara expedientes nem esforços. Incumbindo a um fiel amigo da Acaia de promover diligências em tal sentido, apenas fora informado de que Jeziel havia sido levado,
quase a ferros, para bordo de um navio mercante que se destinava a Nicópolis. Nada mais. Abigail instara novamente. E de Corinto vinham novas promessas dos amigos,
que prosseguiriam investigando nas rodas afeiçoadas a Licínio Minúcio, de modo a descobrirem o paradeiro do jovem cativo.
Nesse dia, a moça recordava profundamente a figura do irmão querido, as suas advertências e conselhos tão carinhosos sempre.
Desde que travara relações com o rapaz de Tarso e entrevira a possibilidade de uma união conjugal, era com ansiedade que suplicava a Deus a consoladora certeza
da existência do irmão, fosse onde fosse. A seu ver, Jeziel gostaria de conhecer o eleito do seu coração, cujos pensamentos eram igualmente iluminados pelo zelo
sincero de bem servir a Deus.
Contar-lhe-ia que a afeição da sua alma era também entretecida de comentários religiosos e filosóficos, e não tinham conta as vezes em que ambos se submergiam
na contemplação da Natureza, comparando as suas lições vivas com os símbolos divinos dos Escritos Sagrados.
Saulo muito lhe ajudara no cultivo das flores da fé, que Jeziel havia semeado em sua alma singela. Não era ele um homem excessivamente sentimental, dado às efusões
dos carinhos que passam sem maior significação, mas, compreendera-lhe o espírito nobre e leal, que um profundo sentimento de autodomínio assinalava. Abigail estava
certa de entender-lhe as aspirações mais íntimas, nos sonhos grandiosos que lhe empolgavam a mocidade. Sublime atração, essa que a impelia para o jovem sábio, voluntarioso
e sincero! As vezes, parecia-lhe áspero e enérgico em demasia. Suas concepções da Lei não admitiam meios-termos. Sabia ordenar e desagradava-lhe qualquer expressão
de desõbediência aos seus propósitos. Aqueles meses de convívio, quase diário, davam-lhe a conhecer o seu temperamento indômito e inquieto, a par de um coração eminentemente
generoso, onde uma fonte de ignorada ternura se retraía em abismais profundezas.
Mergulhada em cismas, num gracioso banco de pedra junto dos pessegueiros em festa primaveril, viu que o carro de Saulo se aproximava ao trote largo dos animais.
Zacarias o recebeu a distância e, juntos, em conversação animada, demandaram o interior, para onde a jovem se dirigiu.
A palestra estabeleceu-se no tom de cordialidade, que se repetia várias vezes na semana, e, como de costume, os dois jovens, no deslumbramento da paisagem crepuscular,
quase de mãos dadas como dois prometidos, desceram ao pomar cuja relva se constituía de espaçosos canteiros de flores orientais. O mar estendia-se à distância de
muitas milhas, mas o ar fresco da tarde dava a impressão dos ventos suaves que sopram do litoral. Saulo e Abigail falaram, a princípio, das banalidades de cada dia;
contudo, em dado momento, reconhecendo o véu de tristeza que se estampava no rosto da companheira, o moço interrogou-a com ternura:
Saulo:
- Por que estás tão triste hoje?
Abigail:
- Não sei. Tenho pensado muito em meu irmão. Espero, ansiosa, notícias dele, pois guardo a esperança de que te possa conhecer, mais cedo ou mais tarde. Jeziel acolheria
tua palavra com entusiasmo e contentamento. Um amigo de Zacarias prometeu informações a respeito e estamos esperando notícias de Corinto.
Ouve, Saulo: Se Jeziel ainda estiver preso, prometes-me teu auxílio em seu favor? Teus prestigiosos amigos de Jerusalém poderão intervir para libertá-lo,
junto do Procônsul da Acaia! Quem sabe? Minhas esperanças, agora, resumem-se exclusivamente em ti.
Saulo:
- Farei tudo por ele. Abigail, amarias a teu irmão mais que a mim?
Abigail:
- Que dizes? compreendendo a delicadeza da pergunta. - Entendes o meu coração fraterno e isso me exime de mais amplas explicações. Como sabes,
querido, Jeziel foi meu amparo nos dias da orfandade materna. Companheiro de infância e amigo da juventude sem sonhos, foi sempre o irmão carinhoso que me ensinou
a soletrar os mandamentos, a cantar os Salmos de mãos-postas, livrando-me das veredas do mal e inclinando-me ao bem e à virtude. Tudo que encontraste em mim, constitui
dádiva da sua generosa assistência de irmão desvelado.
Saulo:
- Não chores. Compreendo as tuas sagradas razões afetivas. Se necessário, irei ao fim do mundo descobrir Jeziel, caso ainda esteja vivo. Levarei cartas de Jerusalém
à Corte Provincial de Corinto. Farei tudo. Tranqüiliza-te, pois. Pelos teus informes, presumo nele um santo. Mas falemos de outras coisas. Há problemas imediatos
a resolver. E nossos projetos, Abigail?
Abigail:
- Deus há de abençoar-nos.
Saulo:
- Ontem, Dalila e o esposo foram a Lida, em visita a alguns parentes nossos.
Entretanto, ficou tudo combinado para que estejas conosco em Jerusalém, daqui a dois meses. Antes que minha irmã empreenda a próxima viagem a Tarso, quero que
ela te conheça mais intimamente, a fim de que exponha, com franqueza, a meus pais, o nosso projeto de casamento.
Abigail:
- Teu convite me sensibiliza sobremaneira, mas...
Saulo:
- Nada de restrições nem timidez. Viremos buscar-te. Combinarei todas as providências indispensáveis, com Ruth e Zacarias, e, quanto ao necessário para
que te apresentes numa cidade grande, não permitirei que façam aqui despesa alguma. Já estou providenciando para que recebas, em breves dias, várias túnicas de modelo
grego.
Quero que apareças em Jerusalém como expoente perfeito da nossa raça, desenvolvida entre as antigas belezas de Corinto.
Narrador:
A moça fez um gesto tímido, demonstrando íntimo contentamento.
Mais alguns passos e sentaram-se sob velhos pessegueiros floridos, respirando a longos haustos as virações suaves que perfumavam o ambiente. A terra cultivada
e colorida de rosas de todos os matizes, exalava delicioso aroma. O fim do crepúsculo está sempre cheio de sons que passam apressados, como se a alma das coisas
estivesse igualmente ansiosa pelo silêncio, amigo do grande repouso... Eram árvores frondosas que se velavam nas sombras, derradeiros passarinhos errantes que voejavam
céleres e as brisas cariciosas que chegavam de longe, agitando as grandes ramarias e acentuando os doces murmúrios do vento.
Saulo, inebriado de indefinível alegria, contemplou as primeiras estrelas que sorriam no céu recamado de luz. A Natureza é sempre o espelho fiel das emoções mais
íntimas, e aquelas vagas de perfume, que as virações traziam de longe, encontravam eco de misterioso júbilo no seu coração.
Saulo:
- Abigail, a Natureza canta sempre com as almas esperançosas e crentes. Com que ansiedade esperei-te no caminho
da vida!... Meu pai falou-me do lar e das suas doçuras e eu aguardava a mulher que me compreendesse inteiramente.
Abigail:
- Deus é bom e somente agora reconheço que, depois de tantos sofrimentos, Ele me reservava, na sua misericórdia infinita, o tesouro
maior da minha vida, o teu amor, na terra de meus pais. Teu afeto, Saulo, concentra todos os meus ideais. O Céu nos fará felizes. Todas as manhãs, quando estivermos
casados, pedirei, em preces fervorosas, aos anjos de Deus que me ensinem a tecer a rede das tuas alegrias; à noite, quando a bênção do repouso envolver o mundo,
dar-te-ei um carinho sempre novo, do meu afeto. Tomarei tua cabeça atormentada pelos problemas da vida e ungirei tua fronte com a carícia de minhas mãos. Viverei
com Deus e contigo, somente. Ser-te-ei fiel por toda a vida e amarei os próprios sofrimentos que acaso o mundo possa acarretar-me, por amor à tua vida e ao teu nome.
Saulo:
- Dar-te-ei, por minha vez, meu coração dedicado e sincero. Abigail, meu espírito estava possuído somente do amor à Lei e a meus pais. Minha mocidade tem sido
muito inquieta, mas pura. Não te oferecerei uma flor sem perfume. Desde os primeiros dias da juventude, conheci companheiros que me incitaram a lhes seguir os passos
incertos na embriaguez dos sentidos, precursora da morte de nossas preocupações mais nobres neste mundo, mas nunca traí o ideal divino que me vibraria alma sincera.
Depois dos estudos iniciais da minha carreira, encontrei mulheres que me acenavam, levadas por uma concepção perigosa e errônea do amor. Em Tarso, nos dias suntuosos
dos jogos juvenis, após a conquista das melhores láureas, recebia, de jovens inquietas, declarações de amor e propostas de núpcias, mas, a verdade é que permanecia
insensível, a esperar-te como heroína ignota do meu sonho, nas assembléias ostentosas de púrpuras e flores. Quando Deus aqui me conduziu ao teu encontro, teus olhos
me falaram, num lampejo, de sublimes revelações. És o coração do meu cérebro, a essência do meu raciocínio e serás a mão guiadora das minhas edificações, em toda
a vida.
Narrador:
Enquanto a moça, sensibilizada e venturosa, tinha os olhos mareados de pranto, o fogoso mancebo
continuava.
Saulo:
- Viveremos um para o outro e teremos filhos fiéis a Deus. Serei a ordenação da nossa vida, serás a obediência em nossa paz. Nossa casa será um templo.
O amor a Deus será sua maior coluna e, quando o trabalho exigir minha ausência do altar doméstico, ficarás velando no tabernáculo da nossa ventura.
Abigail:
- Sim, querido. Que não faria por ti? mandarás e obedecerei. Serás a ordem de minha vida e eu rogarei ao Senhor que me auxilie a ser teu bálsamo de ternura.
Quando estiveres fatigado, lembrar-me-ei de minha mãe e adormecerei tua alma generosa com as mais formosas orações de David!... Interpretarás para mim a palavra
de Deus. Serás a lei, serei tua serva.
Narrador:
Saulo enternecia-se ouvindo aquelas expressões blandiciosas. Eram as mais belas que já havia recolhido de um coração feminino. Mulher alguma, que não Abigail,
jamais assim lhe falara ao espírito impetuoso. Habituado aos longos e difíceis raciocínios, escaldando o cérebro nos silogismos dos doutores, em busca de futuro
brilhante, sentia a alma ressecada, sedenta de verdadeiro idealismo. Desde criança, com a sadia educação doméstica, guardava puros os primeiros impulsos do coração,
sem jamais contaminá-los na esteira dos prazeres fáceis ou do fogo das paixões violentas, que soem deixar na alma o carvão das dores sem esperanças. Acostumado ao
esporte, aos jogos da época, seguido sempre de muitos companheiros em desvario, tivera o heroísmo sagrado de sobrepor as disposições da Lei às próprias tendências
naturais. Sua concepção de serviço a Deus não admitia concessões a si mesmo. A seu ver, todo homem devia conservar-se indene de contactos inferiores com o mundo,
até que atingisse o tálamo nupcial. O lar constituído haveria de ser um tabernáculo das bênçãos eternas; os filhos, as primícias do altar do Maior Amor, consagrado
ao Senhor Supremo. Não que a sua juventude estivesse isenta de desejos. Saulo de Tarso experimentava todos os anseios da mocidade impetuosa do seu tempo. Imaginava
situações de anelos satisfeitos, e, no entanto, sujeito aos carinhos maternos, prometera a si mesmo jamais tergiversar. A vida do lar é a vida de Deus. E Saulo guardava-se
para emoções mais sublimadas. De esperança em esperança, via passar os anos, esperando que a inspiração divina determinasse a rota dos seus ideais. Esperava e confiava.
Seus pais presumiam encontrar, ali ou acolá, aquela a quem devesse ele eleger; entretanto, Saulo, enérgico e resoluto, removia a intervenção dos entes caros, no
concernente à escolha que afetava a decisão do seu destino. Abigail enchera-lhe o coração. Era a flor mística do seu ideal, a alma que lhe entenderia as aspirações
em perfeita ressonância de pensamentos. De olhos fixos nas suas feições delicadas, que o luar pálido iluminava, teve ânsias de guardá-la para sempre nos braços fortes.
Ao mesmo tempo, doce enternecimento lhe vibrava na alma. Desejava atraí-la a si, como se o fizesse a uma criança meiga e afagar-lhe os cabelos sedosos com todo o
cabedal do seu carinho.
Inebriados de gozo espiritual, falaram longo tempo do amor que os identificava na mesma aspiração de ventura. Todos os comentários mais íntimos faziam de Deus
o sagrado partícipe de suas esperanças no futuro que se lhes auspiciava, santificado em júbilos infinitos.
De mãos dadas extasiaram-Se com o plenilúnio maravilhoso, Os eloendros pareciam sorrir-lhes. As rosas orientais, aureoladas pelos raios da lua, eram-lhes qual
mensagem de beleza e perfume.
Ao despedir-se, Saulo acrescentou, venturoso.
Saulo:
- Dentro de dois dias voltarei a ver-te. Ficamos combinados. Quando Dalila partir, levará notícias nossas a meus pais e, precisamente de hoje a seis meses, quero
ter-te comigo para sempre.
Abigail:
- Seis meses?
Saulo:
- Nada haverá, penso, que possa embargar esta resolução, de vez que já temos o indispensável.
Abigail:
- E se ainda não tivermos, até lá, notícias de Jeziel? Por mim, desejaria casar-me convicta do seu contentamento e aprovação.
Saulo:
- Quanto a isso, fica tranqüila. Cuidaremos primeiramente da atitude dos meus, que se encontram em plano mais imediato; e tão logo resolvamos o problema,
se preciso for, irei pessoalmente a Acaia. É impossível que Zacarias não receba novas notícias de Corinto, nas próximas semanas. Então, providenciaremos com mais
segurança.
Narrador:
Abigail teve um gesto de satisfação e reconhecimento.
Irmanados, agora, na mesma vibração de júbilo, antes que reentrassem em casa, onde os donos os aguardavam entretidos com a leitura das Profecias, Saulo levou
a mão da jovem aos lábios e murmurou a despedida habitual.
Saulo:
- Fiel para sempre!...
Narrador:
Daí a minutos, depois de ligeira palestra com os amigos, ouvia-se o trotear dos animais estrada em fora, de regresso a Jerusalém. O carro minúsculo rodava, celeremente,
ao luar, sob uma nuvem de pó.

5 A pregação de Estevão
Narrador:
Saulo e Sadoc entraram na igreja humilde de Jerusalém, notando a massa compacta de pobres e miseráveis que ali se aglomeravam com um raio de esperança nos olhos
tristes.
O pavilhão singelo, construído à custa de tantos sacrifícios, não passava de grande telheiro revestido de paredes frágeis, carente de todo e qualquer conforto.
Tiago, Pedro e João surpreenderam-Se singularmente com a presença do jovem doutor da Lei, que se popularizara na cidade pela sua oratória veemente e pelo acurado
conhecimento das Escrituras.
Os generosos galileus ofereceram-lhe o banco mais confortável. Ele aceitou as gentilezas que lhe dispensavam, sorrindo com indisfarçável ironia de tudo que ali
se lhe deparava.
Íntimamente, considerava que o próprio Sadoc fora vítima de falsas apreciações. Que podiam fazer aqueleS homens ignorantes, irmanados a outros já envelhecidos,
valetudinários e doentes? Que podiam significar de perigoso para a Lei de Israel aquelas crianças ao abandono, aquelas mulheres semimortas, em cujo coração pareciam
aniquiladas todas as esperanças? Experimentava grande mal-estar defrontando tantos rostos que a lepra havia devastado, que as úlceras malignas haviam desfigurado
impiedosamente. Aqui, um velhote com chagas purulentas envolvidas em panos fétidos; além, um aleijado mal coberto de mulambos, ao lado de órfãos andrajosos que se
acomodavam com humildade.
O conhecido doutor da Lei notou a presença de várias pessoas que lhe acompanhavam a palavra na interpretação dos textos de Moisés, na Sinagoga dos cilícios; outras
que seguiam de perto as suas atividades no Sinédrio, onde a sua inteligência era tida como penhor de esperança racial. Pelo olhar, compreendeu que esses amigos ali
estavam igualmente pela primeira vez. Sua visita, ao templo ignorado dos galileus sem-nome, atraira muitos afeiçoados do farisaísmo dominante, ansiosos pelos serviços
eventuais que pudessem destacá-los e recomendá-los às autoridades mais importantes. Saulo concluiu que aquela fração do auditório fazia ato de presença e de solidariedade
em qualquer providência que houvesse de tomar. Pareceu-lhe natural e lógica aquela atitude, conveniente aos fins a que se propunha. Não se contavam fatos incríveis,
operados pelos adeptos do "Caminho"? Não seriam grosseiras e escandalosas mistificações? Quem diria que tudo aquilo não fosse o produto ignóbil de bruxarias e sortilégios
condenáveis? Na hipótese de lhe identificar qualquer finalidade desonesta, podia contar, mesmo ali, com grande número de correligionários, dispostos a defender o
rigoroso cumprimento da Lei, custasse-lhes embora os mais pesados sacrifícios.
Notando um que outro quadro menos grato ao seu olhar acostumado aos ambiéntes de luxo, evitava fixar os aleijados e doentes que se acotovelavam no recinto, chamando
a atenção de Sadoc, com observações irônicas e pitorescas. Quando o vasto recinto, desnudo de ornatos e símbolos de qualquer natureza, de todo se encheu, um Jovem
permeou as filas extensas, ladeado de Pedro e João, galgando os três um estrado quase natural, formado de pedras superpostas.
Vozes:
- Estevão!... É Estevão!...
Narrador:
Inesperado silêncio mantinha todas as frontes em singulares expectativas, O moço, magro e pálido, em cuja assistência os mais infelizes julgavam encontrar um
desdobramento do amor do Cristo, orou em voz alta suplicando para si e para a assembléia a inspiração do Todo-Poderoso. Em seguida, abriu um livro em forma de rolo
e leu uma passagem das anotações de Mateus:
- Mas, ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e, indo, pregai dizendo: é chegado o reino dos Céus. (1)
Estevão ergueu alto os olhos serenos e fulgurantes, e, sem se perturbar com a presença de Saulo e dos seus numerosos amigos, começou a falar mais ou menos nestes
termos, com voz clara e vibrante:
Estevão:
- "Meus caros, eis que chegados são os tempos em que o Pastor vem reunir as ovelhas em torno do seu zelo sem limites. éramos escravos das imposições pelos
raciocínios, mas hoje somos livres pelo Evangelho do Cristo Jesus. Nossa raça guardou, de épocas imemoriais, a luz do Tabernáculo e Deus nos enviou seu Filho sem
mácula. Onde estão, em Israel, os que ainda não ouviram as mensagens da Boa Nova? Onde os que ainda não se felicitaram com as alegrias da nova fé? Deus enviou sua
resposta divina aos nossos anseios milenários, a revelação dos Céus aclara os nossos caminhos. Consoante as promessas da profecia de todos quantos choraram e sofreram
por amor ao Eterno, o Emissário Divino veio até ao antro de nossas dores amargas e justas, para iluminar a noite de nossas almas impenitentes, para que se nos desdobrassem
os horizontes da redenção. O Messias atendeu aos problemas angustiosos da criatura humana, com a solução do amor que redime todos os seres e purifica todos os pecados.
Mestre do trabalho e da perfeita alegria da vida, suas bênçãos representam nossa herança. Moisés foi a porta, o Cristo é a chave. Com a coroa do martírio adquiriu,
para nós outros, a láurea imortal da salvação. éramos cativos do erro, mas seu sangue nos libertou. Na vida e na morte, nas
alegrias de Caná, como nas angústias do Calvário, pelo que fez e por tudo que deixou de fazer em sua gloriosa passagem pela Terra, Ele é o Filho de Deus iluminando
o caminho.
"Acima de todas as cogitações humanas, fora de todos os atritos das ambições terrestres, seu reino de paz e luz esplende na consciência das almas redimidas.
"Ó Israel! tu que esperaste por tantos séculos, tuas angústias e dolorosas experiências não foram vãs!... Enquanto outros povos se debatiam nos interesses inferiores,
cercando os falsos ídolos de falsa adoração e promovendo, simultaneamente, as guerras de extermínio com requintes de perversidade, tu, Israel, esperaste o Deus justo.
Carregaste os grilhões da impiedade humana, na desolação e no deserto; converteste em cânticos de esperança as ignomínias do cativeiro; sofreste o opróbrio dos poderosos
da Terra; viste os teus varões e as tuas mulheres, os teus jovens e as tuas crianças exterminados sob o guante das perseguições, mas nunca descreste da justiça dos
Céus! Como o Salmista, afirmaste com teu heroismo que o amor e a misericórdia vibram em todos os teus dias! Choraste no caminho longo dos séculos, com as tuas amarguras
e feridas. Como Job, viveste da tua fé, subjugada pelas algemas do mundo, mas já recebeste o sagrado depósito de Jeová - O Deus Único!... Oh! esperanças eternas
de Jerusalém, cantai de júbilo, regozijai-vos, embora não tivéssemos sido fiéis inteiramente à compreensão, por conduzir o Cordeiro Amado aos braços da cruz. Suas
chagas, todavia, nos compraram para o céu, com o alto preço do sacrifício supremo!...
"Isaías o contemplou, vergado ao peso de nossas iniqüidades, florescendo na aridez dos nossos corações, qual flor do céu num solo adusto, mas, revelou também,
que, desde a hora da sua extrema renúncia, na morte infamante, a sagrada causa divina prosperaria para sempre em suas mãos.
"Amados, onde andarão aquelas ovelhas que não souberam ou não puderam esperar?
Procuremo-las para o Cristo, como dracmas perdidas do seu desvelado amor!
Anunciemos a todos os desesperançados as glórias e os júbilos do seu reino de paz e de amor imortal!...
"A Lei nos retinha no espírito de nação, sem conseguir apagar de nossa alma o desejo humano de supremacia na Terra. Muitos de nossa raça hão esperado um príncipe
dominador, que penetrasse em triunfo a cidade santa, com os troféus sangrentos de uma batalha de ruína e morte; que nos fizesse empunhar um cetro odioso de força
e tirania. Mas o Cristo nos libertou para sempre. Filho de Deus e emissário da sua glória, seu maior mandamento confirma Moisés, quando recomenda o amor a Deus acima
de todas as coisas, de todo o coração e entendimento, acrescentando, no mais formoso decreto divino, que nos amemos uns aos outros, como Ele próprio nos amou.
"Seu reino é o da consciência reta e do coração purificado ao serviço de Deus. Suas portas constituem o maravilhoso caminho da redenção espiritual, abertas de
par em par aos filhos de todas as nações.
"Seus discípulos amados virão de todos os quadrantes. Fora de suas luzes haverá sempre tempestade para o viajor vacilante da Terra que, sem o Cristo, cairá vencido
nas batalhas infrutuosas e destruidoras das melhores energias do coração. Somente o seu Evangelho confere paz e liberdade. Ë o tesouro do mundo. Em sua glória sublime
os justos encontrarão a coroa de triunfo, os infortunados o consolo, os tristes a fortaleza do bom ânimo, os pecadores a senda redentora dos resgates misericordiosos.
"É verdade que o não havíamos compreendido. No grande testemunho, os homens não entenderam sua divina humildade, e os mais afeiçoados o abandonaram. Suas chagas
clamaram pela nossa indiferença criminosa. Ninguém poderá eximir-se dessa culpa, visto sermos todos herdeiros das suas dádivas celestiais. Onde todos gozam do benefício,
ninguém pode fugir à responsabilidade. Essa a razão por que respondemos pelo crime do Calvário.
Mas, suas feridas foram a nossa luz, seus martírios o mais ardente apelo de amor, seu exemplo o roteiro aberto para o bem sublime e imortal.
"Vinde, pois, comungar conosco à mesa do banquete divino! Não mais as festas do pão putrescível, mas o eterno alimento da alegria e da vida... Não mais o vinho
que fermenta, mas o néctar confortante da alma, diluído nos perfumes do amor imortal.
"O Cristo é a substância da nossa liberdade. Dia virá em que o seu reino abrangerá os filhos do Oriente e do Ocidente, num amplexo de fraternidade e de luz. Então,
compreenderemos que o Evangelho é a resposta de Deus aos nossos apelos, em face da Lei de Moisés. A Lei é humana; o Evangelho é divino. Moisés é o condutor; O Cristo,
o Salvador. Os profetas foram mordomos fiéis; Jesus, porém, é o Senhor da Vinha. Com a Lei, éramos servos; com o Evangelho, somos filhos livres de um Pai amoroso
e justo!..."
Nesse ínterim, Estevão sustou a palavra que lhe fluía harmoniosa e vibrante dos lábios, inspirada nos mais puros sentimentos. Os ouvintes de todos os matizes
não conseguiram ocultar o assombro, ante os seus conceitos de vigorosas revelações. A multidão embevecera-se com os princípios expostos. Os mendigos, ali aglomerados,
endereçavam ao pregador um sorriso de aprovação, bem significativo de jubilosas esperanças. João fixava nele os olhos enternecidos, identificando, mais uma vez,
no seu verbo ardente, a mensagem evangélica interpretada por um discípulo dileto do Mestre inesquecível, nunca ausente dos que se reúnem em seu nome.
Saulo de Tarso, emotivo por temperamento, fundia-se na onda de admiração geral; mas, altamente surpreendido, verificou a diferença entre a Lei e o Evangelho anunciado
por aqueles homens estranhos, que a sua mentalidade não podia compreender. Analisou, de relance, o perigo que os novos ensinos acarretavam para o judaísmo dominante.
Revoltara-se com a prédica ouvida, nada obstante a sua ressonância de misteriosa beleza. Ao seu raciocínio, impunha-se eliminar a confusão que se esboçava, a propósito
de Moisés. A Lei era uma e única. Aquele Cristo que culminou na derrota, entre dois ladrões, surgia a seus olhos como um mistificador indigno de qualquer consideração.
A vitória de Estevão na consciência popular, qual a verificava naquele instante, causava-lhe indignação. Aqueles galileus poderiam ser piedosos, mas não deixavam
de ser criminosos pela subversão dos princípios invioláveis da raça.
O orador preparava-se para retomar a palavra, momentaneamente interrompida e aguardada com expectação de júbilo geral, quando o jovem doutor se levantou
ousadamente e exclamou, quase colérico, frisando os conceitos com evidente ironia.
Saulo:
- "Piedosos galileus, onde o senso de vossas doutrinas estranhas e absurdas? Como ousais proclamar a falsa supremacia de um nazareno obscuro sobre Moisés,
na própria Jerusalém onde se decidem os destinos das tribos de Israel invencível? Quem era esse Cristo? Não foi um simples carpinteiro ?"
Narrador:
Ao orgulhoso entono da inesperada apóstrofe, houve no ambiente um tal ou qual retraimento de temor, mas, dos desvalidos da sorte, para quem a mensagem do Cristo
era o alimento supremo, partiu para Estevão um olhar de defesa e jubiloso entusiasmo. Os Apóstolos da Galiléia não conseguiam dissimular seu receio. Tiago estava
lívido. Os amigos de Saulo notaram-lhe a máscara escarninha. O pregador também empalidecera, mas revelava no olhar resoluto o mesmo traço de imperturbável serenidade.
Fitando o doutor da Lei, o primeiro homem da cidade que se atrevera a perturbar o esforço generoso do evangelismo, sem trair a seiva de amor que lhe desbordava do
coração, fez ver a Saulo a sinceridade das suas palavras e a nobreza dos seus pensamentos. E antes que os companheiros voltassem a si da surpresa que os assomara,
com admirável presença de espírito, indiferente à impressão do temor coletivo, obtemperou:
Estevão:
- "Ainda bem que o Messias fora carpinteiro: porque, nesse caso, a Humanidade já não ficaria sem abrigo. Ele era, de fato, o Abrigo da paz e da esperança!
Nunca mais andaremos ao léu das tempestades nem na esteira dos raciocínios quiméricos de quantos vivem pelo cálculo, sem a claridade do sentimento."
Saulo:
- Aonde iremos com semelhantes excessos de interpretação, em torno de um mistificador vulgar, que o Sinédrio puniu com a flagelação e a morte? Que dizer
de um Salvador que não conseguiu salvar-se a si mesmo? Emissário revestido de celestes poderes, como não evitou a humilhação da sentença infamante? O Deus dos exércitos,
que seqüestrou a nação privilegiada ao cativeiro, que a guiou através do deserto abrindo-lhe a passagem do mar; que lhe saciou a fome com o maná divino e, por amor,
transformou a rocha impassível em fonte de água viva, não teria meios, outros, de assinalar o seu enviado senão com uma cruz de martírio, entre malfeitores comuns?
Tendes, nesta casa, a glória do Senhor Supremo, assim barateada? Todos os doutores do Templo conhecem a história do impostor que celebrizais com a simplicidade da
vossa ignorância! Não vacilais em rebaixar nossos próprios valores, apresentando um Messias dilacerado e sangrento, sob os apupos do povo ..... Lançais vergonha
sobre Israel e desejais fundar um novo reino? Seria justo dardes a conhecer, inteiramente, a nós outros, o móvel das vossas fábulas piedosas."
Estevão:
- Amigo, bem se dizia que o Mestre chegaria ao mundo para confusão de muitos em Israel. Toda a história edificante do nosso povo é um documento da revelação
de Deus. No entanto, não vedes nos efeitos maravilhosos com que a Providência guiou as tribos hebréias, no passado, a manifestação do carinho extremo de um Pai desejoso
de construir o futuro espiritual de crianças queridas do seu coração? Com o correr do tempo, observamos que a mentalidade infantil enseja mais vastos princípios
educativos, O que ontem era carinho, é hoje energia oriunda das grandes expressões amorosas da alma. O que ontem era bonança e verdor, para nutrição da sublime esperança,
hoje pode ser tempestade, para dar segurança e resistência. Antigamente, éramos meninos até no trato com a revelação; agora, porém, os varões e as mulheres de Israel
atingiram a condição de adultos no conhecimento, O Filho de Deus trouxe a luz da verdade aos homens, ensinando-lhes a misteriosa beleza da vida, com o seu engrandecimento
pela renúncia. Sua glória resumiu-se em amar-nos, como Deus nos ama.
Por essa mesma razão, Ele ainda não foi compreendido. Acaso poderíamos aguardar um salvador de acordo com os nossos propósitos inferiores? Os profetas afirmam
que as estradas de Deus podem não ser os caminhos que desejamos, e que os seus pensamentos nem sempre se poderão harmonizar com os nossos. Que dizermos de um Messias
que empunhasse o cetro no mundo, disputando com os príncipes da iniqüidade um galardão de triunfos sangrentos?
Porventura a Terra já não estará farta de batalhas e cadáveres? Perguntemos a um general romano quanto lhe custou o domínio da aldeia mais obscura; consultemos
a lista negra dos triunfadores, segundo as nossas idéias errôneas da vida. Israel jamais poderia esperar um Messias a exibir-se num carro de glórias magnificentes
do plano material, suscetível de tombar no primeiro resvaladouro do caminho. Essas expressões transitórias pertencem ao cenário efêmero, no qual a púrpura mais fulgurante
volta ao pó. Ao contrário de todos os que pretenderam ensinar a virtude, repousando na satisfação dos próprios sentidos, Jesus executou sua tarefa entre os mais
simples ou mais desventuradoS, onde, muitas vezes, se encontram as manifestações do Pai, que educa, através da esperança insatisfeita e das dores que trabalham,
do berço ao túmulo, a existência humana. O Cristo edificou, entre nós, seu reino de amor e paz, sobre alicerces divinos. Sua exemplificação está projetada na alma
humana, com luz eterna! Quem dê nós, então, compreendendo tudo isso, poderá identificar no Emissário de Deus um príncipe belicoso? Não! O Evangelho é amor em sua
expressão mais sublime. O Mestre deixou-se imolar transmitindo-nos o exemplo da redenção pelo amor mais puro. Pastor do imenso rebanho, Ele não quer se perca uma
só de suas ovelhas bem-amadas, nem determina a morte do pecador, O Cristoé vida, e a salvação que nos trouxe está na sagrada oportunidade da nossa elevação, como
filhos de Deus, exercendo os seus gloriosos ensinamentos."
Narrador:
Depois de uma pausa, o doutor da Lei já se erguia para revidar, quando Estevão
continuou.
Estevão:
- "E agora, irmãos, peço vênia para concluir minhas palavras. Se não vos falei como desejáveis, falei como o Evangelho nos aconselha, argüindo a mim próprio
na íntima condenação de meus grandes defeitos. Que a bênção do Cristo seja com todos vós.
Saulo:
- Exijo a continuação da arenga! Que o pregador espere, pois não terminei o que preciso dizer.
Estevão:
- Não poderei discutir.
Saulo:
- Por quê?Estais intimado a prosseguir.
Estevão:
- Amigo - o Cristo aconselhou que devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Se tendes alguma
acusação legal contra mim, exponde-a sem receio e vos obedecerei; mas, no que pertence a Deus, só a Ele compete argüir-me.
Narrador:
Tão alto espírito de resolução e serenidade, quase desconcertou o doutor do Sinédrio; compreendendo, porém, que a impulsividade somente poderia prejudicar-lhe
a clareza do pensamento, acrescentou mais calmo, apesar do tom imperioso que deixava transparecer toda a sua energia:
Saulo:
- Mas eu preciso elucidar os erros desta casa. Necessito perguntar e haveis de responder-me.
Estevão:
- No tocante ao Evangelho, já vos ofereci os elementos de que podia dispor, esclarecendo o que tenho ao meu alcance. Quanto ao mais, este
templo humilde é construção de fé e não de justas casuísticas. Jesus teve a preocupação de recomendar a seus discípulos que fugissem do fermento das discussões e
das discórdias. Eis por que não será lícito perdermos tempo em contendas inúteis, quando o trabalho do Cristo reclama o nosso esforço.
Saulo:
- Sempre o Cristo! sempre o impostor! Minha autoridade é insultada pelo vosso fanatismo, neste recinto de miséria e de ignorância.
Mistificadores, rejeitais as possibilidades de esclarecimento que vos ofereço; galileus incultos, não quereis considerar o meu nobre cartel de desafio. Saberei
vingar a Lei de Moisés, da qual se tripudia. Recusais a intimativa, mas não podereis fugir ao meu desforço.
Aprendereis a amar a verdade e a honrar Jerusalém, renunciando ao nazareno insolente, que pagou na cruz os criminosos desvarios. Recorrerei ao Sinédrio para
vos julgar e punir. O Sinédrio tem autoridade para desfazer vossas condenáveis alucinações.
Estevão:
- Amigo, o Sinédrio tem mil meios de me fazer chorar, mas não lhe reconheço poderes para obrigar-me a renunciar ao amor de
Jesus-Cristo.
Narrador:
Dito isso, desceu da tribuna com a mesma humildade, sem se deixar empolgar pelo gesto de aprovação que lhe enderaçavam os filhos do infortúnio, que ali o
ouviam como a um defensor de sagradas esperanças -
Alguns protestos isolados começaram a ser ouvidos. Fariseus irritados vociferavam insolências e remoques. A massa agitava-se, prevendo atrito iminente; mas,
antes que Estevão caminhasse dez passos para o interior junto dos companheiros, e antes que Saulo o alcançasse com outras objeções pessoais e diretas, uma velhinha
maltrapilha apresentou-lhe uma jovem pobremente vestida e exclamou cheia de confiança:
Estevão:
- Senhor! sei que continuais a bondade e os feitos do profeta de Nazaré, que um dia me salvou da morte, apesar dos meus pecados e fraquezas. Atendei-me também,
por piedade!
Minha filha emudeceu há mais de um ano. Trouxe-a de Dalmanuta até aqui, vencendo enormes dificuldades, confiada na vossa assistência fraternal!
Estevão:
- De nós nada temos, mas é justo esperar do Cristo as dádivas que nos sejam necessárias. Ele que é justo e generoso não te esquecerá na distribuição santificada
da sua misericórdia.
Hás de falar, para louvor do bom Mestre!...
Narrador:
Então, viu-se um fato singular, que impressionou de súbito a numerosa assembléia. Com um raio de infinita alegria nos olhos, a enferma falou:
Mulher:
- Louvarei ao Cristo de toda minhalma, eternamente.
Narrador:
Ela e a genitora, tomadas de forte comoção, caíram, ali mesmo, de joelhos e beijaram-lhe as mãos; Estevão, entretanto, tinha agora os olhos mareados de pranto,
profundamente sensibilizado. Era o primeiro a comover-se e admirar a proteção recebida, e não tinha outro meio que não o das lágrimas sinceras para traduzir a intensidade
do seu reconhecimento.
Os fariseus, que se aproximavam no intuito de comprometer a paz do recinto humilde, recuaram estupefatos. Os pobres e os aflitos, como se houvessem recebido um
reforço do Céu para o êxito da crença pura, encheram a sala de exclamações de sublime esperança.
Saulo observava a cena sem poder dissimular a própria ira. Se possível, desejaria esfrangalhar Estevão em suas mãos. No entanto, apesar do temperamento impulsivo,
chegou à conclusão de que um ato agressivo levaria os amigos presentes a um conflito de sérias proporções.
Refletiu, igualmente, que nem todos os adeptos do "Caminho" estavam, como o pregador, em condições de circunscrever a luta ao plano das lições de ordem espiritual,
e, de certa maneira, não recusariam a luta física. De relance, notou que alguns estavam armados, que os anciães traziam fortes cajados de arrimo, e os aleijados
exibiam rijas muletas. A luta corporal, naquele recinto de construção frágil, teria conseqüências lamentáveis. Procurou coordenar melhores raciocínios. Teria a Lei
a seu favor. Poderia contar com o Sinédrio. Os sacerdotes mais eminentes eram amigos devotados. Lutaria com Estevão até dobrar-lhe a resistência moral. Se não conseguisse
submetê-lo, odiá-lo-ia para sempre. Na satisfação dos seus caprichos, saberia remover todos os obstáculos.
Reconhecendo que Sadoc e mais dois companheiros iam iniciar o tumulto, gritou-lhes em voz grave e
imperiosa:
Saulo:
- Vamo-nos! Os adeptos do "Caminho" pagarão muito caro a sua ousadia.
Narrador:
Nesse momento, quando todos os fariseus se dispunham a lhe atender a voz de comando, o moço de Tarso notou que Estevão se encaminhava para o interior da casa,
passando-lhe rente aos ombros. Saulo sentiu-se abalado em todas as fibras do seu orgulho. Fixou-o, quase com ódio, mas o pregador correspondeu-lhe com um olhar sereno
e amistoso.
Tão logo se retirou o jovem doutor da Lei com os companheiros numerosos que não conseguiam disfarçar o seu despeito, os Apóstolos galileus passaram a considerar,
com grande receio, as conseqüências que poderiam advir do inesperado episódio.
No dia seguinte, como de costume, Saulo de Tarso, à tardinha, entrava em casa de Zacarias, deixando transparecer na fisionomia a contrariedade que lhe ia no íntimo.
Depois de aliviar-se um tanto dos pensamentos sombrios que o atribulavam, graças ao carinho da noiva amada, por ela instado a dizer os motivos de tamanha preocupação,
narrou-lhe os acontecimentos da véspera, acrescentando:
Saulo:
- Esse Estevão pagará caríssimo a humilhação que pretendeu infligir-se publicamente.
Seus raciocínios sutis podem confundir os menos argutos e necessárioé fazermos preponderar nossa autoridade em face dos que não têm competência para versar os
princípios sagrados. Hoje mesmo conversei com alguns amigos relativamenteàs providências que nos cumpre tomar. Os mais tolerantes alegam o caráter inofensivo dos
galileus, pacíficos e caritativos, mas sou de opinião que uma ovelha má põe o rebanho a perder.
Abigail:
- Acompanho-te na defesa das nossas crenças , não devemos abandonar nossa fé ao trato e ao sabor das interpretações individuais e incompetentes.
Ah! se Jeziel estivesse conosco, seria teu braço forte na exposição dos conhecimentos sagrados. Certamente, ele teria prazer em defender o Testamento
contra qualquer expressão menos razoável e fidedigna.
Saulo:
- Combateremos o inimigo que ameaça a genuinidade da revelação divina e não cederei terreno aos inovadores incultos e cavilosos.
Abigail:
- Esses homens são muitos?
Saulo:
- Sim, e o que os torna mais perigosos é o mascararem as intenções com atos piedosos, por exaltar a imaginação versátil do povo com pretensos poderes
misteriosos, naturalmente alimentados à custa de feitiçarias e sortilégios.
Em qualquer hipótese - advertiu a jovem depois de refletir um momento -
Abigail:
- convém proceder com serenidade e prudência, para evitar os abusos de autoridade. Quem sabe são criaturas mais necessitadas de educação que de castigo?
Saulo:
- Sim, já pensei em tudo isso. Aliás, não pretendo incomodar os galileus simplórios e despretensiosos que se cercam, em Jerusalém, de inválidos e doentes,
dando-nos a impressão de loucos pacíficos. Contudo, não posso deixar de reprimir o orador, cujos lábios, a meu ver, destilam poderoso veneno no espírito volúvel
das massas sem consciência perfeita dos princípios esposados. Aos primeiros importa esclarecer, mas o segundo precisa ser anulado, visto não se lhe conhecerem os
fins, quiçá criminosos e revolucionários.
Abigail:
- Não tenho como desaprovar as tuas ilações.
Narrador:
Em seguida, como de costume, palestraram sobre os sentimentos sagrados do coração, notando-se que o moço de Tarso encontrava singular encanto e caridoso bálsamo
nas observações afetuosas da companheira querida.
Passados alguns dias, tomavam-se em Jerusalém providências para que Estevão fosse levado ao Sinédrio e ali interrogado sobre a finalidade colimada com as prédicas
do "Caminho".
Dada a intercessão conciliatória de Gamaliel, o feito se resumiria a uma discussão em que o pregador das novas interpretações definisse perante o mais alto tribunal
da raça os seus pontos de vista, a fim de que os sacerdotes, como juizes e defensores da lei, expusessem a verdade nos devidos termos.
O convite à requesta chegou à igreja humilde, mas Estevão se esquivou, alegando que não seria razoável disputar, em obediência aos preceitos do Mestre, apesar
dos argumentos do filho de Alfeu, a quem intimidava a perspectiva de uma luta com as autoridades em evidência, parecendo-lhe que a recusa chocaria a opinião pública.
Saulo a seu turno, não poderia obrigar o antagonista a corresponder ao desafio, mesmo porque, o Sinédrio só poderia empregar meios compulsórios no caso de uma denúncia
pública, depois da instauração de um processo em que o denunciado fosse reconhecido como blasfemo ou caluniador.
Ante a reiterada escusa de Estevão, o doutor de Tarso exasperou-se. E depois de irritar a maioria dos companheiros contra o adversário, arquitetou vasto plano,
de modo a forçá-lo à polêmica desejada, na qual buscaria humilhá-lo diante de todos os maiorais do judaísmo dominador.
Depois de uma das sessões comuns do Tribunal, Saulo chamou um de seus amigos serviçais e falou-lhe em voz baixa:
Saulo:
- Neemias, nossa causa precisa de um cooperador decidido e lembrei-me de ti para a defesa dos nossos princípios sagrados.
Neemias:
- De que se trata? Mandai e estou pronto a obedecer.
Saulo:
- Já ouviste falar num falso taumaturgo chamado Estevão?
Neemias:
- Um dos tais homens detestáveis do "Caminho"? Já lhe ouvi a própria palavra e por sinal que reconheci nas suas idéias as de um verdadeiro alucinado.
Saulo:
- Ainda bem que o conheces de perto. Necessito de alguém que o denuncie como blasfemo em face da Lei e lembrei-me da tua cooperação neste sentido.
Neemias:
- Só isso? É coisa fácil e agradável. Pois não o ouvi dizer que o carpinteiro crucificado é o fundamento da
verdade divina? Isso é mais que blasfêmia. Trata-se de um revolucionário perigoso, que deve ser punido como caluniador de Moisés.
Saulo:
- Muito bem! Conto, pois, contigo.
Narrador:
No dia imediato, Neemias compareceu ao Sinédrio e denunciou o generoso pregador do Evangelho como blasfemo e caluniador, acrescentando criminosas observações
de própria conta. Na peça acusatória, Estevão figurava como feiticeiro vulgar, mestre de preceitos subversivos em nome de um falso Messias que Jerusalém havia crucificado
anos antes, mediante idênticas acusações - Neemias inculcava-se como vítima da perigosa seita que lhe atingira e disturbara a própria família, e afirmava-se testemunha
de baixos sortilégios por ele praticados, em prejuízo de outrem.
Saulo de Tarso anotou as mínimas declarações, acentuando os detalhes comprometedores.
A notícia estourou na igreja do "Caminho", produzindo efeitos singulares e dolorosos.
Os menos resolutos, com Tiago à frente, deixaram-se empolgar por considerações de toda ordem, receosos de se verem perseguidos; mas Estevão, com Simão Pedro e
João, mantinha-se absolutamente sereno, recebendo com bom ânimo a ordem de responder corajosamente ao libelo.
Cheio de esperança, rogava a Jesus não o desamparasse, de maneira a testemunhar a riqueza da sua fé evangélica.
E esperou o ensejo com fidelidade e alegria.

Capítulo 6 Ante o Sinédrio

Narrador:
No dia fixado, o grande recinto do mais alto sodalido israelita enchia-se de verdadeira multidão de crentes e curiosos, ávidos de assistir ao primeiro embate
entre os sacerdotes e os homens piedosos e estranhos, do "Caminho". A assembléia congraçava o que Jerusalém tinha de mais aristocrático e de mais culto. Os mendigos,
porém, não tiveram acesso, embora se tratasse de um ato público.
O Sinédrio exibia suas personagens mais eminentes. De mistura com os sacerdotes e mestres de Israel, notava-se a presença das personalidades mais salientes do
farisaismo. Lá estavam representantes de todas as sinagogas.
Compreendendo a acuidade intelectual de Estevão, Saulo queria fornecer-lhe um confronto do cenário em que dominava o seu talento, com a igreja humilde dos adeptos
do carpinteiro de Nazaré. No fundo, seu propósito radicava na jactanciosa demonstração de superioridade, afagando, ao mesmo tempo, a íntima esperança de conquistá-lo
para as hostes do judaismo. Preparara, por isso, a reunião com todos os requisitos, de feição a impressionar-lhe os sentidos.
Estevão comparecia como um homem chamado a defender-se das acusações a ele imputadas, não como prisioneiro comum obrigado a acertar contas com a justiça. Examinando,
pois, a situação, rogou com insistência aos Apóstolos galileus não o acompanhassem, considerando, não só a necessidade de permanecerem junto dos sofredores, como
também a possível ocorrência de sérios atritos, no caso de comparecimento dos adeptos do "Caminho", dada a firmeza de ânimo com que procuraria salvaguardar a pureza
e a liberdade do Evangelho do Cristo. Além disso, os recursos de que poderiam dispor eram demasiadamente simples e não seria justo afrontar com eles o poderio supremo
dos sacerdotes, que tinham encontrado recursos para crucificar o próprio Messias. Em favor do "Caminho" pontificavam, apenas, aqueles enfermos desventurados; as
convicções puras dos mais humildes; a gratidão dos mais infelizes - única força poderosa pelo seu conteúdo de virtude divina, a lhes amparar a causa perante as autoridades
dominantes do mundo. Assim ponderando, disputava o júbilo de assumir, sozinho, a responsabilidade da sua atitude, sem comprometer qualquer companheiro, tal como
fizera Jesus um dia, no seu apostolado sublime. Se necessário, não desdenharia a possibilidade do derradeiro sacrifício, no sagrado testemunho de amor ao seu coração
augusto e misericordioso. O sofrimento, por Ele, ser-lhe-ia suave e doce. Sua argumentação vencera o bom desejo dos companheiros mais veementes.
Assim, sem amparo de qualquer amigo, compareceu ao Sinédrio, tomado de forte impressão ao lhe observar a grandeza e a suntuosidade. Habituado aos quadros tristes
e pobres dos subúrbios, onde se refugiavam os infelizes de toda espécie, deslumbrava-se com a riqueza do Templo, com o aspecto soberbo da torre dos romanos, com
os edifícios residenciais de estilo grego, com a feição exterior das sinagogas que se espalhavam em grande número por toda parte.
Compreendendo a importância daquela sessão a que acorriam os elementos de escol, por identificarem o invulgar interesse de Saulo, que, no momento, era a expressão
de mocidade mais vibrante do judaísmo, o Sinédrio requisitara o concurso da autoridade romana para a absoluta manutenção da ordem. A Corte Provincial não regateara
providências. Os próprios patrícios residentes em Jerusalém compareceram, numerosos, ao grande feito do dia, considerando que se tratava do primeiro processo em
torno das idéias ensinadas pelo profeta nazareno, depois da sua crucificação, que deixara tanta perplexidade e tantas dúvidas no espírito público.
Quando o grande recinto regurgitava de pessoas de alto destaque social, Estevão sentou-se no lugar previamente designado, conduzido por um ministro do Templo,
ali permanecendo sob a guarda de soldados que o fixavam ironicamente.
A sessão começou com todas as cerimônias regimentais. Ao iniciar os trabalhos, o sumo-sacerdote anunciou a escolha de Saulo, consoante seu próprio desejo, para
interpelar o denunciado e averiguar a extensão de sua culpa no aviltamento dos princípios sagrados da raça. Recebendo o convite para funcionar como juiz do feito,
o jovem tarsense esboçou um sorriso triunfante. Com imperioso gesto, mandou que o humilde pregador do "Caminho" se aproximasse do centro da sala suntuosa, para onde
se dirigiu Estevão serenamente, acompanhado por dois guardas de cenho carregado.
O moço de Corinto fixou o quadro que o rodeava, considerando o contraste de uma e outra assembléia e recordando a última reunião da sua igreja pobre, onde fora
compelido a conhecer tão caprichoso antagonista. Não seriam aquelas as "ovelhas perdidas" da casa de Israel, a que aludia Jesus nos seus vigorosos ensinamentos?
Ainda que o judaísmo não houvesse aceitado a missão do Evangelho, como conciliava ele as observações sagradas dos profetas e sua elevada exemplificação de virtude,
com a avareza e o desregramento? O próprio Moisés fora escravo e, por dedicação ao seu povo, sofrera inúmeras dificuldades em todos os dias da existência consagrada
ao Todo-Poderoso. Job padecera misérias sem-nome e dera testemunho de fé nos sofrimentos mais acerbos. Jeremias chorara incompreendido. Amós experimentara o fel
da ingratidão. Como poderiam os israelitas harmonizar o egoísmo com a sabedoria amorosa dos Salmos de David? Estranhável que, tão zelosos da Lei, se entregassem
de modo absoluto aos interesses mesquinhos, quando Jerusalém estava cheia de famílias, irmãs pela raça, em completo abandono. Como cooperante de uma comunidade modesta,
conhecia de perto as necessidades e sofrimentos do povo. Com essas unções, sentia que o Mestre de Nazaré se elevava muito mais, agora, aos seus olhos, distribuindo
entre os aflitos as esperanças mais puras e as mais consoladoras verdades espirituais.
Ainda não voltara a si da surpresa com que examinava as túnicas brilhantes e os ornamentos de ouro que exuberavam no recinto, quando a voz de Saulo, clara e vibrante,
o chamou à realidade da situação.
Depois de ler a peça acusatória em que Neemias figurava como principal testemunha e no que foi ouvido com a máxima atenção, Saulo interrogou Estevão entre ríspido
e altivo:
Saulo:
- Como vedes, sois acusado de blasfemo, caluniador e feiticeiro, perante as autoridades mais representativas. No entanto, antes de qualquer decisão, o
Tribunal deseja conhecer vossa origem para determinar os direitos que vos assistem neste momento. Sois, porventura, de família israelita?
Estevão:
- Pertenço aos filhos da tribo de Issacar.
Saulo:
- Como israelita, tendes o direito de replicar livremente às minhas interpelações; todavia, faz-se mister esclarecer que essa condição não vos eximirá de pesados
castigos, caso perseverardes na exposição dos erros crassos de uma doutrina revolucionária, cujo fundador foi condenado à cruz infamante pela autoridade deste Tribunal,
onde pontificam os filhos mais veneráveis das tribos de Deus. Aliás, apreciando, por suposição, a vossa origem, convidei-vos a discutir lealmente comigo, quando
de nosso primeiro encontro na assembléia dos homens do "Caminho". Fechei os olhos aos quadros de miséria que então me cercavam, para analisar tão-só os vossos dotes
de inteligência; mas, evidenciando estranha exaltação de espírito, talvez em virtude de sortilégios, cujas influências são ali visíveis, vos mantivestes em singular
reserva de opinião, apesar dos meus apelos reiterados. Vossa atitude inexplicável deu azo a que o Sinédrio considerasse a presente denúncia de vosso nome como inimigo
de nossas ordenações. Sereis agora obrigado a responder a todas as interpelações convenientes e necessárias, e eu espero reconheçais que o título de israelita não
vos poderá livrar da punição reservada aos traidores de nossa causa.
Narrador:
Depois de não pequeno intervalo em que o juiz e o denunciado puderam verificar a ansiosa expectativa da assembléia, Saulo entrou a interrogar:
Saulo:
- Por que rejeitastes meu convite à discussão quando honrei a pregação no "Caminho" com a minha presença?
Estevão:
- O Cristo, a quem sirvo, recomendou aos seus discípulos evitassem, a qualquer tempo, o fermento das discórdias. Quanto ao ato de haverdes honrado minha
palavra humilde com a vossa presença, agradeço a prova de imerecido interesse, mas prefiro considerar com David (1) que nossa alma se gloriará no Senhor, visto nada
possuirmos de bom em nós mesmos, se Deus nos não amparar com a grandeza da sua glória.
Narrador:
s Em face da lição sutil que lhe era lançada em rosto, Saulo de Tarso mordeu os lábios, entre colérico e despeitado, e, procurando evitar, agora, qualquer alusão
pessoal, para não cair em situação semelhante, prosseguiu:
Saulo:
- Sois acusado de blasfemo, caluniador e feiticeiro.
Estevão:
- Permito-me perguntar em que sentido.
Saulo:
- Blasfemo quando inculcais o carpinteiro de Nazaré como Salvador; caluniador quando achincalhais a Lei de Moisés, renegando os princípios sagrados que
nos regem os destinos. Confirmais tudo isso? Aprovais essas acusações?
Estevão:
- Mantenho minha crença de que o Cristo é o Salvador prometido pelo Eterno, através dos ensinos dos profetas de Israel, que choraram e sofreram no decurso
de longos séculos, por transmitir-nos os júbilos doces da Promessa. Quanto à segunda parte, suponho que a acusação procede de interpretação errônea em torno de minhas
palavras. Jamais deixei de venerar a Lei e as Sagradas Escrituras, mas considero o Evangelho de Jesus o seu divino complemento. As primeiras são o trabalho dos homens,
o segundo é o salário de Deus aos trabalhadores fiéis.
Saulo:
- Sois então de parecer que o carpinteiro é maior que o grande legislador?
Estevão:
- Moisés é a justiça pela revelação, mas o Cristo éo amor vivo e permanente.
Narrador:
A essa resposta do acusado, houve um prurido de exaltação na grande assembléia.
Alguns fariseus encolerizados gritavam injúrias. Saulo, porém, lhes fez um sinal imperioso e o silêncio voltou a possibilitar o interrogatório. E, dando à voz
um timbre de severidade, prosseguiu:
Saulo:
- Sois israelita e jovem ainda. Uma inteligência apreciável serve ao vosso esforço.
Temos então o dever, antes de qualquer punição, de trabalhar pelo vosso regresso ao aprisco. É imprescindível chamar o irmão desertor, com carinho, antes do extremo
recurso às armas. A Lei de Moisés poderá conferir-vos uma situação de grande relevo, mas, que proveito tiraríeis da palavra insignificante, inexpressiva, do operário
ignorante de Nazaré, que sonhou com a glória para pagar as esperanças loucas numa cruz de ignomínia?
Estevão:
- Desprezo o valor puramente convencional que a Lei me poderia oferecer em troca do apoio à política do mundo, que se transforma todos os dias, considerando que
a nossa segurança reside na consciência iluminada com Deus e para Deus.
Saulo:
- Mas, que esperais do mistificador que lançou a confusão entre nós, para morrer no Calvário?
Estevão:
- O discípulo do Cristo deve saber a quem serve e eu me honro em ser instrumento humilde nas suas mãos.
Saulo:
- Não precisamos de um inovador para a vida de Israel.
Estevão:
- Compreendereis, um dia, que, para Deus, Israel significa a Humanidade inteira.
Narrador:
Diante dessa resposta ousada, a quase totalidade da assembléia prorrompeu em apupos, mostrando sua hostilidade franca ao denunciado de Neemias. Afeitos a um regionalismo
intransigente, os israelitas não toleravam a idéia de confraternização com os povos que consideravam bárbaros e gentios. Enquanto os mais exaltados davam expansão
a protestos veementes, os romanos observavam a cena, curiosos e interessados, como se presenciassem uma cerimônia festiva.
Depois de longa pausa, o futuro rabino continuou:
Saulo:
- Confirmais a acusação de blasfêmia, enunciando semelhante princípio contra a situação do povo escolhido, a vossa primeira condenação.
Estevão:
- E isso não me atemoriza, às ilusões orgulhosas que nos conduziriam a tenebrosos abismos, prefiro acreditar, com o Cristo,
que todos os homens são filhos de Deus, merecendo o carinho do mesmo Pai.
Saulo:
- Caluniais Moisés, proferindo tais palavras. Aguardo vossa confirmação.
Estevão:
- Por que aguardais minha confirmação se obedeceis a um critério arbitrário? O Evangelho desconhece as complicações da casuística. Não desdenho Moisés, mas não
posso deixar de proclamar a superioridade de Jesus-Cristo. Podeis lavrar sentenças e proferir anátemas contra mim; entretanto, é necessário que alguém coopere com
o Salvador no restabelecimento da verdade acima de tudo, e sem embargo das mais dolorosas conseqüências. Aqui estou para fazê-lo e saberei pagar, pelo Mestre, o
preço da mais pura fidelidade.
Saulo:
- O Tribunal reconhece-vos como caluniador, passível das punições atinentes a esse título odioso.
É indispensável não esquecer que sois acusado de feiticeiro. Que respondeis a semelhante argüição?
Estevão:
- De que me acusam, nesse particular?
Saulo:
- Eu próprio vos vi curar uma jovem muda, num dia de sábado, e ignoro a natureza dos sortilégios que utilizastes nesse feito.
Estevão:
- Não fui eu quem praticou esse ato de amor, como, certamente, me ouvistes afirmar; foi o Cristo, por intermédio de minha pobreza, que nada tem de boa.
Saulo:
- Pensais inocentar-vos com esta ingênua declaração? A suposta humildade não vos exculpa. Fui testemunha do fato e só a feitiçaria
poderá elucidar seus ascendentes estranhos.
Estevão:
- E, contudo, o judaísmo está cheio desses fatos que julgais não compreender. Em virtude de que sortilégio conseguiu Moisés fazer jorrar de uma rocha a
fonte de água viva? Com que feitiçaria o povo eleito viu abrirem-se-lhe as ondas revoltas do mar para a necessária fuga do cativeiro? Com que talismã presumiu Josué
atrasar a marcha do Sol? Não vedes em tudo isso, os recursos da Providência Divina? De nós nada temos, e, todavia, no cumprimento do nosso dever, tudo devemos esperar
da divina misericórdia.
Narrador:
Analisando a resposta concisa, reveladora de raciocínios lógicos, irretorquíveis, o doutor de Tarso quase rilhou os dentes. Um rápido relancear de olhos na
assembléia deu-lhe a conhecer que o antagonista contava com a simpatia e admiração de muitos. Chegava a desconceifar-se íntimamente. Como recuperar a calma, dado
o temperamento impulsivo que o levava aos extremos emotivos? Examinando a última assertiva de Estevão, sentia dificuldade em coordenar uma argumentação decisiva.
Sem poder revelar o desapontamento próprio, incapaz de encontrar a resposta devida, considerou a urgência de uma saída a propósito e dirigiu-se ao sumo-sacerdote,
nestes termos:
Saulo:
- O acusado confirma, por sua palavra, a denúncia de que foi objeto. Acaba de confessar, de público, que é blasfemo, caluniador e feiticeiro. Entretanto, por
sua condição de nascimento, ele tem direito à defesa última, independentemente das minhas interpretações de julgador. Proponho, então, que a autoridade competente
lhe conceda esse recurso.
Narrador:
Grande número de sacerdotes e personalidades eminentes entreolharam-se, quase com espanto, como a prelibar a primeira derrota do orgulhoso doutor da Lei, cuja
palavra vibrante sempre conseguira triunfar sobre quaisquer adversários, fixando-lhe o rosto rubro de cólera, denunciando a tempestade que lhe rugia no coração.
Aceita a proposta formulada pelo juiz da causa, Estevão passou a usar de um direito que lhe era conferido pelo seu nascimento.
Levantando-se, nobremente contemplou os rostos ansiosos que o buscavam de todos os lados. Adivinhou que a maioria dos presentes presumia na sua figura um perigoso
inimigo das tradições raciais, tal a sua expressão de hostilidade; mas notou, igualmente, que alguns israelitas o encaravam com simpatia e compreensão. Valendo-se
desse auxílio, sentiu consolidar-se-lhe o bom ânimo, de maneira a expor com maior serenidade os sagrados ensinos do Evangelho. Lembrou, instintivamente, a promessa
de Jesus aos seus continuadores, de que estaria presente no instante em que devessem dar testemunho pela palavra, competindo-lhe não tremer ante as provocações inconscientes
do mundo. Mais que nunca, sentiu a convicção de que o Mestre auxiliá-lo-ia na exposição da doutrina de amor.
Passado um minuto de ansiosa expectativa, começou a falar de modo impressionante:
Estevão:
- Israelitas! por maior que fosse nossa divergência de opinião religiosa, não poderíamos alterar nossos laços de fraternidade em Deus - o supremo dispensador
de todas as graças. É a esse Pai, generoso e justo, que elevo minha rogativa em favor de nossa compreensão fiel das verdades santas. Outrora, nossos antepassados
ouviram as exortações grandiosas e profundas dos emissários do Céu. Por organizar um futuro de paz sólida aos seus descendentes, nossos avós sofreram misérias e
penúriaS do cativeiro. Seu pão era molhado nas lágrimas de amargura, sua sede angustiava. Viram malogradas todas as esperanças de independência, perseguições sem
conto destruíram-lhes o lar, com agravo de sofrimentos nas lutas de seu roteiro. A frente de seus martírios dignificantes, andaram os santos varões de Israel, Como
gloriosa coroa do seu triunfo. Alimentou-os a palavra do Eterno, através de todas as vicissitudes. Suas experiências constituem poderoso e sagrado patrimônio. Delas,
temos a Lei e os Escritos dos profetas. Apesar disso, não podemos iludir nossa sede. Nossa concepção de justiça é fruto de um labor milenário, em que empregamos
as maiores energias, mas sentimos, por intuição, que existe algo de mais elevado, além dela. Temos o cárcere para os que se transviam, o vale dos imundos para os
que adoecem sem a proteção da família, a lapidação na praça pública para a mulher que fraqueja, a escravidão para os endividados, os trinta e nove açoites para os
mais infelizes. Bastará isso? As lições do passado não estão cheias da palavra "misericórdia"? Algo nos fala à consciência, de uma vida maior, que inspira sentimentos
mais elevados e mais belos. Ingente foi o trabalho no curso longo e multissecular, mas o Deus justo respondeu aos angustiados apelos do coração, enviando-nos seu
Filho bem-amado - O Cristo Jesus!...

Narrador:
A assembléia ouvia grandemente surpreendida. No entanto, quando o orador frisou mais forte a referência ao Messias de Nazaré, os fariseus presentes, fazendo causa
comum com o jovem de Tarso, prorromperam em protestos, gritando alucinadamente:
Platéia:
- Anátema! Anátema!... Punição ao trânsfuga!
Estevão:
- Por que me apupais desta forma? Toda precipitação de julgamento demonstra fraqueza. Primeiramente, renunciei à discussão considerando que se deve eliminar todo
fermento de discórdia; mas, dia a dia o Cristo nos convoca para um trabalho novo e, certamente, o Mestre me chama hoje, a fim de palestrar convosco relativamente
às suas verdades poderosas. Desejais impor-me o ridículo e a zombaria? Isso, porém, deve confortar-me, porque Jesus experimentou esse tratamento em grau superlativo.
Não obstante vossa repulsa, honra-me em proclamar as glórias inexcedíveis do profeta nazareno, cuja grandeza veio ao encontro de nossas ruínas morais, levantando-nos
para Deus com o seu Evangelho de redenção.
Narrador:
Nova saraivada de apóstrofes cortou-lhe a palavra. Ditos mordentes e ásperos baldões eram-lhe atirados a esmo, de todos os lados. Estevão não esmoreceu. Voltando-se,
sereno, fixou nobremente os circunstantes, guardando a intuição de que os mais exaltados seriam os fariseus, os mais fundamente atingidos pelas verdades novas.
Esperando que recobrassem a calma, falou novamente:
Estevão:
- Fariseus amigos, por que teimais em não compreender? Porventura temeis a realidade das minhas afirmações? Se vossos protestos se fundam nesse receio, calai-vos
para que eu continue. Lembrai-vos de que me refiro aos nossos erros do passado e quem se associa na culpa dá testemunho de amor, no capítulo das reparações. Apesar
de nossas misérias, Deus nos ama e, reconhecendo eu a própria indigência, não poderia falar-vos senão como irmão. Entretanto, se expressais desespero e revolta,
recordai que não poderemos fugir à realidade da nossa profunda insignificância. Lestes, acaso, as lições de Isaías? Importa considerar a exortação (1) de que não
poderemos sair, apressadamente, nem enganando a nós mesmos, nem fugindo aos nossos deveres, porque o Senhor irá adiante e o Deus de Israel será a nossa retaguarda.
Ouvi-me! Deus é o Pai, o Cristo é o Senhor nosso.
Muito falais da Lei de Moisés e dos Profetas; todavia, podereis afirmar com a mão na consciência a plena observância dos seus gloriosos ensinamentos? Não estaríeis
cegos atualmente, negando-vos à compreensão da mensagem divina? Aquele, a quem chamais ironicamente o carpinteiro de Nazaré, foi amigo de todos os infelizes. Sua
pregação não se limitou a expor princípios filosóficos. Antes, pela exemplificaçãO, renovou nossos hábitos, reformou as idéias mais elevadas, com o selo do amor
divino. Suas mãos nobilitaram o trabalho, pensaram úlceras, curaram leprosos, deram vista aos cegos. Seu coração repartiu-Se entre todos os homens, dentro do novo
entendimento do amor que nos trouxe com o exemplo mais puro.
Acaso ignorais que a palavra de Deus tem ouvintes e praticantes? Convém consultardes se não tendes sido meros ouvintes da Lei, de maneira a não falsear o testemunho.
Jerusalém não me parece o santuário de tradições da fé, que conheci por informações de meus pais, desde criança. Atualmente, dá impressão de um grande bazar onde
se vendem as coisas sagradas. O Templo está cheio de mercadores. As sinagogas regurgitam de assuntos atinentes a interesses mundanos. As células farisaicas assemelham-se
a um vespeiro de interesses mesquinhos. O luxo das vossas túnicas assombra. Vossos desperdícios espantam. Não sabeis que à sombra de vossos muros há
infelizes que morrem de fome? Venho dos subúrbios, onde se concentra grande parte de nossas misérias.
Falais de Moisés e dos Profetas, repito. Acreditais que os antepassados veneráveis mercadejassem com os bens de Deus? O grande legislador viveu entre experiências
terríveis e dolorosas. Jeremias conheceu longas noites de angústias, a trabalhar pela intangibilidade do nosso patrimônio religioso, entre as perdições de Babilônia.
Amós era pobre pastor, filho do trabalho e da humildade. Elias sofreu toda sorte de perseguições, compelido a recolher-se ao deserto, tendo só lágrimas como preço
do seu iluminismo. Esdras foi modelo de sacrifício pela paz dos seus compatriotas. Ezequiel foi condenado à morte por haver proclamado a verdade. Daniel curtiu as
infinitas amarguras do cativeiro. Mencionais os nossos heróicos instrutores do passado, tão-só para justificar o gozo egoístico da vida? Onde guardais a fé? No conforto
ocioso, ou no trabalho produtivo? Na bolsa do mundo, ou no coração que é o templo divino? Incentivais a revolta e quereis a paz? Explorais o próximo e falais de
amor a Deus? Não vos lembrais de que o Eterno não pode aceitar o louvor dos lábios quando o coração da criatura permanece dele distante?
Narrador:
A assembléia, ante o sopro daquela sublime inspiração, parecia imóvel, incapaz de se definir. Muitos israelitas supunham ver em Estevão o ressurgimento de um
dos primevos profetas da raça. Mas os fariseus, como se quebrassem a misteriosa força que os emudecia, romperam em algazarra ensurdecedora, gesticulando a esmo,
proferindo impropérios, no propósito de atenuar a forte impressão causada pelos surtos eloqüentes e calorosos do orador.
Fariseus:
- Apedrejemos o imundo! Matemos a calúnia! Anátema ao caminho de Satanás!...
Estevão:
- Vossa atitude não me intimida. O Cristo foi solícito no recomendar não temêssemos os que só podem matar-nos o corpo.
Saulo:
- Basta! Basta! Nem mais uma palavra!... Agora que te foi concedido o último recurso inutilmente, também usarei o que me faculta a condição do nascimento,
em face de um irmão desertor.
Narrador:
E caiu-lhe de punhos fechados no rosto, sem que Estevão tentasse a menor reação. Os fariseus aplaudiram o gesto brutal, em atroada delirante, qual se estivessem
num dia de festa.
Dando expansão ao seu arrebatamento, Saulo esmurrava sem compaixão. Sem recursos de ordem moral, ante a lógica do Evangelho, recorria àforça física, satisfazendo
à índole voluntariosa.
O pregador do "Caminho", submetido a tais extremos, implorava de Jesus a necessária assistência para não se trair no testemunho. Não obstante a reforma
radical que a influência do Cristo havia imposto às suas concepções mais íntimas, ele não podia fugir à dor da dignidade ferida. Procurou, contudo, recompor imediatamente
as energias interiores, na compreensão da renúncia que o Mestre predicara como lição suprema. Lembrou os sacrifícios do pai em Corinto, reviu na imaginação o seu
suplício e morte. Recordou a prova angustiosa que sofrera e considerou que, se tão-só no conhecimento de Moisés e dos Profetas tanto conseguira em energia moral
para enfrentar os ignorantes da bondade divina, que não poderia testemunhar agora com o Cristo no coração? Esses pensamentos acudiam-lhe ao cérebro atormentado,
como bálsamo de suprema consolação. Entretanto, embora a fortaleza deânimo que lhe marcava o caráter, viu-se que ele vertia copiosas lágrimas. Quando lhe observou
o pranto misturado com o sangue a jorrar da ferida que as punhadas lhe abriram em pleno rosto, Saulo de Tarso conteve-se saciado na sua imensa cólera. Não podia
compreender a passividade com que o agredido recebera os bofetões da sua força enrijada nos exercícios do esporte.
A serenidade de Estevão perturbou-o ainda mais. Sem dúvida, estava diante de uma energia ignorada.
Esboçando um sorriso de zombaria, advertiu altaneiro:
Saulo:
- Não reages, covarde? Tua escola é também a da indignidade?
Estevão:
- A paz difere da violência, tanto quanto a força do Cristo diverge da vossa -
Narrador:
Verificando tamanha superioridade de concepção e pensamento, o doutor da Lei não podia ocultar o despeito e a fúria que lhe transpareciam nos olhos chamejantes.
Parecia no auge da irritação, a extravasar nos maiores despropósitos. Dir-se-ia haver chegado ao cúmulo de tolerância e resistência.
Voltando-se para observar a aprovação dos seus partidários, que se contavam por maioria, dirigiu-se ao sumo-sacerdote e impetrou uma sentença cruel. Tremia-lhe
a voz, pelo esforço físico despendido.
Saulo:
- Analisando a peça condenatória e, considerados os graves insultos aqui bolçados, como juiz da causa rogo seja o réu
lapidado.
Narrador:
Frenéticos aplausos secundaram-lhe a palavra inflexível. Os fariseus tão duramente atingidos pelo verbo ardente do discípulo do Evangelho supunham vingar, desse
modo, o que consideravam escárnio criminoso às suas prerrogativas.
A autoridade superior recebeu o alvitre e procurou submetê-lo à votação no reduzido círculo dos colegas mais eminentes.
Foi então que Gamaliel, depois de palestrar em voz baixa com os colegas de elevada investidura, comentando talvez o caráter generoso e a incoercível impulsividade
do ex-discípulo, dando-lhes a entender que a sanção proposta seria a morte imediata do pregador do "Caminho", levantou-se no inquieto cenáculo e ponderou nobremente:
Gamaiel:
- Tendo voto neste Tribunal e não desejando precipitar a solução de um problema de consciência, proponho que se estude mais ponderadamente a sentença pedida,
retendo-se o acusado em calabouço até que se esclareça a sua responsabilidade perante a justiça.
Narrador:
Saulo percebeu o ponto de vista do antigo mestre, inferindo que ele punha em jogo o seu reconhecido pendor à tolerância. Aquela advertência contrariava-lhe sobremaneira
os propósitos resolutos, mas, sabendo que não lhe poderia ultrapassar a autoridade veneranda, acentuou:
Saulo:
- Aceito a proposição na qualidade de juiz do feito; entretanto, adiada a execução da pena, qual fora de desejar e tendo em vista o veneno destilado pelo verbo
irreverente e ingrato do réu, espero seja este algemado e recolhido imediatamente ao cárcere. E proponho igualmente investigações mais amplas sobre as atividades
supostamente piedosas dos perigosos crentes do "Caminho", a fim de que se extirpe na raiz a noção de indisciplina por eles criada contra a Lei de Moisés, movimento
revolucionário de conseqüências imprevisíveis, que significa, em substância, desordem e confusão em nossas próprias fileiras e ominoso esquecimento das ordenações
divinas, conjurando assim a propagação do mal, cujo crescimento intensificará os castigos.
Narrador:
A nova proposta foi plenamente aprovada. Com a sua profunda experiência dos homens, Gamaliel compreendeu que era indispensável conceder alguma coisa.
Ali mesmo, Saulo de Tarso foi autorizado pelo Sinédrio a iniciar as mais latas diligências em torno das atividades do "Caminho", com ordem de admoestar, corrigir
e prender todos os descendentes de Israel dominados pelos sentimentos colhidos no Evangelho, considerado, desde aquela hora, pelo regionalismo semita, como repositório
de veneno ideológico, com que o ousado carpinteiro nazareno pretendia revolucionar a vida israelita, operando a dissolução dos seus elos mais legítimos.
O moço tarsense, em frente de Estevão prisioneiro, recebeu a notificação oficial com um sorriso triunfante.
Encerrou-se, assim, a memorável sessão. Numerosos companheiros acercaram-se do moço judeu, felicitando-o pela palavra vibrante, ciosa da hegemonia de Moisés.
O ex-discípulo de Gamaliel recebia a saudação dos amigos e murmurava confortado:
Saulo:
- Conto com todos, lutaremos até ao fim.
Narrador:
Os trabalhos daquela tarde tinham sido exaustivos, mas o interesse despertado fora enorme. Estevão sentia-se cansadíssimo. Ante os grupos que se retiravam esflorando
os mais diversos comentários, foi ele maniatado antes de conduzido à prisão. Polarizando os sentimentos do Mestre, não obstante a fadiga, tinha confortada a consciência.
Com sincera alegria interior, verificava que mais uma vez Deus lhe concedia à oportunidade de testemunhar a sua fé.
Em poucos instantes, a sombra do crepúsculo parecia caminhar rápida para a noite sombria.
Após suportar as mais dolorosas humilhações de alguns fariseus que se retiravam sob profunda impressão de despeito, custodiado por guardas rudes e insensíveis,
ei-lo recolhido ao cárcere, com pesadas algemas.

Emerson Pappa Silva

unread,
Jul 30, 2010, 7:38:48 PM7/30/10
to esp...@googlegroups.com
Ol� a todos!
Gostaria que algu�m me enviasse o cap�tulo 3 para eu ir lendo. Se algu�m
puder me fazer esse favor eu agrade�o.
Abra�os Emerson

PS. Se algu�m quiser me adicionar no Skype ou msn pra discutir sobre a
novela meus contatos s�o:
Skype: els_iniciados1
MSN: els_in...@hotmail.com

Sonia B. Hoffmann

unread,
Jul 30, 2010, 7:43:33 PM7/30/10
to esp...@googlegroups.com
Desculpe não te enviar os capítulos anteriores, Emerson, mas vim para o
RJ e não trouxe este material comigo.

Sonia

-----Mensagem original-----
De: "Emerson Pappa Silva" <emerso...@gmail.com>
Para: <esp...@googlegroups.com>
Data: Sexta, 30 de Julho de 2010 20:38
Assunto: Re: 'es' síntese dos capítulos 4, 5 e 6 de Paulo e Estevão

Olá a todos!
Gostaria que alguém me enviasse o capítulo 3 para eu ir lendo. Se alguém
puder me fazer esse favor eu agradeço.
Abraços Emerson

PS. Se alguém quiser me adicionar no Skype ou msn pra discutir sobre a
novela meus contatos são:
Skype: els_iniciados1
MSN: els_in...@hotmail.com

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Para postar neste grupo, envie um e-mail para esp...@googlegroups.com.
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