síntese do capítulo 7

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Sonia B. Hoffmann

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Jul 30, 2010, 6:25:45 PM7/30/10
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Síntese do capítulo 7 de Paulo e Estevão.

7 As primeiras perseguições

Narrador:
Saulo de Tarso, impulsivo, deixou-se empolgar pela idéia de vingança, impressionado com o desassombro de Estevão em face da sua
autoridade e da sua fama. A seu ver, o pregador do Evangelho infligira-lhe humilhações públicas, que impunham reparações equivalentes.
Todos os círculos de Jerusalém não escondiam a admiração que lhe votavam. Os intelectuais do Templo
estimavam nele uma personalidade vigorosa, um guia seguro, tomando-o por mestre no racionalismo superior. Os mais antigos sacerdotes e doutores do Sinédrio reconheciam-lhe
a inteligência aguda e nele depositavam a esperança do porvir. Na época, sua juventude dinâmica, votada quase inteiramente ao ministério da Lei, centralizava, por
assim dizer, todos os interesses da casuística. Com a argúcia psicológica que o caracterizava, o jovem tarsense conhecia o papel que Jerusalém lhe destinava. Assim,
as controvérsias de Estevão doíam-lhe nas fibras mais sensíveis do coração. No fundo, seu ressentimento era apanágio de uma juventude ardorosa e sincera; entretanto,
a vaidade ferida, o orgulho racial, o instinto de domínio, toldavam-lhe a retina espiritual.
No âmago das suas reflexões, odiava agora aquele Cristo crucificado, porque detestava a Estevão, considerado então como perigoso inimigo. Não poderia tolerar
qualquer expressão daquela doutrina, aparentemente simples, mas que vinha abalar o fundamento dos princípios estabelecidos. Perseguiria inflexivelmente o
"Caminho",
na pessoa de quantos lhe estivessem associados. Estava convencido de que a maioria farisaica, em função política, ficaria a seu lado, animando-o na empresa
começada.
No dia seguinte à prisão de Estevão, procurou arregimentar as primeiras forças com a máxima habilidade. À cata de simpatia para o amplo movimento de perseguição
que pretendia efetuar, visitou as personalidades mais eminentes do judaísmo, abstendo-se, contudo, de procurar a cooperação das autoridades reconhecidamente pacifistas.
A inspiração dos prudentes não o interessava. Necessitava de temperamentos análogos ao seu, para que o cometimento não falhasse.
Solicitou uma audiência da Corte Provincial, para obter o apoio dos romanos encarregados da solução de
todos os assuntos políticos da província. O Procurador hipotecou-lhe solidariedade plena, elogiando as providências em perspectiva. Seduzido pelo verbo fluente
do moço rabino, fez-lhe sentir, com a displicência do homem de Estado de todos os tempos e em quaisquer circunstâncias pelos assuntos religiosos, que reconhecia
no farisaismo razões de sobra para mover combate aos galileus ignorantes, que perturbavam o ritmo das manifestações de fé, nos santuários da cidade santa.
Animado em seus propósitos pela quase geral aprovação do seu plano, Saulo começou a coordenar as primeiras diligências por desvendar as atividades do "Caminho"
em suas mínimas modalidades. Obcecado pela idéia da desforra pública, idealizava quadros sinistros na mente superexcitada. Tão logo fosse possível, prenderia todos
os implicados. O Evangelho, aos seus olhos, dissimulava sedição iminente. Apresentaria os conceitos oratórios de Estevão como senha da bandeira revolucionária, de
maneira a despertar a repulsa dos companheiros menos vigilantes, habituados a pactuar com o mal, a pretexto de acomodatícia tolerância. Combinaria os textos da Lei
de Moisés e dos Escritos Sagrados, para justificar que se deveria conduzir os desertores dos princípios da raça, até à morte. Demonstraria a irrepreensibilidade
da sua conduta inflexível. Tudo faria por conduzir Simão Pedro ao calabouço. Na sua opinião, devia ser ele o autor intelectual da trama sutil que se vinha formando
em torno da memória de um simples carpinteiro. No arrebatamento das idéias precipitadas, chegava a concluir que ninguém seria poupado nas suas decisões irrevogáveis.
Atento à autorização concedida pelos mais altos poderes políticos da província, Caifás propôs fosse o zeloso doutor de Tarso nomeado chefe e promotor de todas
as providências atinentes e indispensáveis à guarda e defesa da Lei. Competia-lhe, então, promover todos os recursos que julgasse convenientes e úteis, reservadas
ao Sinédrio as últimas decisões, máxime, as de natureza mais grave.
Satisfeito com o resultado da reunião que improvisara, o moço tarsense acentuou antes de se despedir dos amigos:
Saulo:
- Hoje mesmo requisitarei o corpo de tropa que deverá operar no perímetro da cidade.
Amanhã ordenarei algumas detenões e, no fim da semana, tratarei das capturas da gentalha do "Caminho".
Alexandre:
- Não temerás, acaso, os sortilégios?
Saulo:
- De modo algum. Sabendo de oitiva que os próprios militares começam a ficar supersticiosos sob a influência das
idéias extravagantes dessa gente, chefiarei em pessoa a expedição, porqüanto tenciono recolher o tal Simão Pedro ao calabouço.
Alguém:
- Simão Pedro?
Saulo:
- Por que não?
Alguém:
- Sabes o motivo da ausência de Gamaliel ao nosso encontro de hoje?
Saulo:
- Não.
Alguém:
- É que, a convite desse mesmo Simão, ele foi observar as instalações e os feitos do "Caminho". Não achas tudo isso extremamente curioso? Temos, de maneira
geral, a impressão de que o chefe humilde dos galileus, desaprovando a atitude de Estevão perante o Sinédrio, deseja recompor a situação, buscando aproximar-se de
nossa autoridade administrativa. Quem sabe? Talvez tudo isso seja útil. No mínimo, é bem possível estejamos caminhando para a necessária rearmonização.
Saulo: Saulo mostrava-se mais que surpreso, porque estupefato.
- Mas, que vem a ser tudo isso? Gamaliel visitando o "Caminho"? Chego a duvidar da sua integridade mental.
Alexandre:
- Mas sabemos que o mestre sempre pautou seus atos e pensamentos com a máxima correção. Era justo se negasse a tal convite, em
consideração a nós outros; entretanto, se tal não fez, é igualmente preciso não desacatemos a deliberação tomada, certo, com a nobreza de objetivos que sempre o
inspirou.
Saulo:
- De acordo, entretanto, apesar da amizade e gratidão que lhe consagro, nem mesmo Gamaliel poderá modificar minhas resoluções.
É possível que Simão Pedro se justifique, saindo ileso das provas a que será submetido; mas, seja como for, terá de ser conduzido ao cárcere para as necessárias
inquirições. Desconfio da sua aparente humildade. Com que fim se abalançaria ele a deixar suas redes para arvorar-se em benfeitor gracioso dos pobres de Jerusalém?
Vejo, em tudo isso, propósitos de sedução que não deve andar muito longe. Os mais humildes e ignorantes caminham à frente dos perigos. Os senhores da destruição
aparecem depois.
Narrador:
Saulo se despediu e voltou para casa, disposto a assentar os últimos detalhes do seu plano.
A prisão de Estevão tivera, na igreja modesta do "Caminho", ampla repercussão despertando justificados receios aos Apóstolos da Galiléia. Pedro recebera a notícia
com profunda tristeza. Encontrara no rapaz de Corinto um auxiliar devotado e um irmão. Além disso, pela nobreza de suas qualidades afetivas, Estevão se tornara uma
figura central a focalizar todas as atenções. Para a sua fronte inspirada convergiam numerosos problemas, em cuja solução o ex-pescador de Cafarnaum não mais dispensava
a sua prestigiosa cooperação.
Amado pelos aflitos e sofredores, tinha sempre a palavra de bom ânimo, que levantava o mais desalentado coração. Pedro e João preocuparam-se mais por amor, que
por quaisquer outras considerações. Entretanto Tiago, filho de Alfeu, não conseguia disfarçar seu desgosto em face da conduta desassombrada do irmão de fé, que não
hesitara em afrontar os poderes farisaicos, dos senhores da situação. Na opinião dele, Estevão andara errado no capítulo das exortações; deveria comedir-se, merecera
a prisão pelos argumentos precipitados na defesa de si mesmo. Fermentara-se a discussão. Pedro fazia-lhe sentir a oportunidade da ocorrência, para que se revelasse
a liberdade do Evangelho. E reforçava os argumentos com a lógica dos fatos. A resolução de Oséias e Samuel, entregando-se ao Cristo, era invocada para justificar
o êxito espiritual do "Caminho". Toda a cidade comentava os acontecimentos; muitos se aproximavam da igreja com sincero desejo de melhor conhecer o Cristo, e isso
devia significar a vitória da causa. Tiago, no entanto, não se deixava vencer pelos mais fortes raciocínios. A discórdia tomava corpo, mas Simão e o filho de Zebedeu
sobrepunham a tudo os interesses da Mensagem de Jesus.
O Mestre afirmara-se emissário para todos os desalentados e doentes. E estes já conheciam a igreja humilde de Jerusalém, iluminando-se com a palavra de vida
e de verdade.
Os enfermos, os desiludidos da sorte, os desprotegidos do mundo, os tristes, iam-lhe ao encontro para o esclarecimento consolador. Era de ver-se como se rejubilavam
na dor, quando se lhes falava da claridade eterna da ressurreição. Velhinhos trêmulos abriam os olhos desmesuradamente, como se contemplassem novos horizontes de
imprevistas esperanças. Criaturas cansadas da luta terrestre sorriam venturosas, quando, em ouvindo a Boa Nova, compreendiam que a existência amargurada não era
tudo.
Pedro observava os sofredores que Jesus tanto amara e experimentava novas forças.
Ciente da atitude nobre de Gamaliel ante as acusações do doutor de Tarso, e crente de que só ela evitara o apedrejamento imediato de Estevão, concebeu o projeto
de convidá-lo a visitar as instalações toscas da igreja do “Caminho”. Exposta aos companheiros, a idéia foi unanimemente aprovada. João era o mensageiro escolhido
para o novo cometimento.
Gamaliel não só recebeu cavalheirescamente o emissário como também demonstrou grande interesse pelo convite, aceitando-o com a generosidade que lhe exornava
a velhice veneranda.
Entabuladas as combinações, o sábio rabino deu entrada na casa pobre dos galileus, que o receberam com infinita alegria. Simão Pedro, profundamente respeitoso,
explicou-lhe as finalidades da instituição, esclareceu-o relativamente aos feitos verificados e falou do conforto dispensado aos que se encontravam em abandono.
Carinhosamente, ofereceu-lhe uma cópia, em pergaminho, de todas as anotações de Mateus sobre a personalidade do Cristo e seus gloriosos ensinamentos. Gamaliel agradecia,
atencioso, ao ex-pescador, tratando-o igualmente com deferência e consideração. Dando a entender que desejava expor à sua respeitável apreciação todos os programas
da igreja humilde, Simão conduziu o velho doutor da Lei a todas as dependências. Chegados à longa enfermaria em que se aglomeravam os mais diversos doentes, o grande
rabino de Jerusalém não pôde ocultar a máxima impressão, comovido até as lágrimas com o quadro que se lhe deparava aos olhos espantados. Em leitos acolhedores via
anciães de cabelos nevados pelos invernos da vida, e crianças esquálidas cujos olhares agradecidos acompanhavam o vulto de Pedro, como se estivessem na presença
de um pai. Não dera ainda dez passos em torno dos móveis singelos e limpos, quando estacou à frente de um velhinho de miserável aspecto. Imobilizado péla enfermidade
que o prostrara, o pobre enfermo pareceu reconhecê-lo igualmente.
E o diálogo se travou sem preâmbulos:
Gamaliel:
- Samônio, tu aqui? Pois será possível que abandonasses Cesaréia?
Samônio:
- Ah! sois vós, senhor! Ainda bem que um dos meus compatrícios e amigos chegou a observar minha grande miséria.
Gamaliel:
-Mas, os teus filhos? E os parentes? Na posse de quem estão tuas propriedades da Samaria? Não chores, Deus tem sempre muito para nos dar.
Samônio:
- Ah! senhor, como Job, vi meu corpo apodrecer entre os confortos de minha casa; Jeová em sua sabedoria reservava-me longas provanças. Denunciado como leproso,
em vão solicitei socorro dos filhos que o Criador me concedeu na mocidade. Todos me abandonaram. Os familiares deram-se pressa em partir deixando-me sozinho. Os
amigos que se banqueteavam comigo, em Cesaréia, fugiram sem que os pudesse ver. Fiquei só e desamparado. Um dia, para suprema desesperação da minha desdita, os executores
da justiça procuraram-me para notificar a sentença cruel. Combinados entre si, a conselho da iniqüidade, meus filhos destituiram-me de todos os bens, assenhorearam-Se
de minhas posses e dos títulos em dinheiro, que representavam a esperança de uma velhice honesta. Por fim e para cúmulo de sofrimentos, conduziram-me ao vale dos
imundos, onde me abandonaram como se fora um criminoso sentenciado a morte. Senti tanto abandono e tanta fome, experimentei tamanhas necessidades, talvez pela minha
vida passada no trabalho e no conforto, que fugi do vale dos leprosos, fazendo longa jornada a pé, esperançoso de encontrar em Jerusalém as amizades valiosas de
outrora. Empreendi a viagem, mas tudo conspirou contra mim. Em breve os pés chagados não podiam caminhar. Arrastava-me como podia, cheio de cansaço e sede, quando
um
carroceiro humilde, apiedado, me colheu e trouxe a esta casa, onde a dor encontra um consolo fraternal.
Narrador:
Gamaliel não sabia como externar sua surpresa, tal a emoção que lhe vibrava no íntimo. Pedro, igualmente, estava sensibilizado. Acostumando-se à prática do bem
sem cogitar jamais dos antecedentes do socorrido, via no caso uma confortadora revelação do amoroso poder do Cristo.
O grande rabino estava atônito diante do que ali via e ouvia. Com a sinceridade que lhe era peculiar, não podia dissimular sua amizade agradecida ao pobre enfermo;
mas, sem recursos para retirá-lo daquele pobre albergue, via-se na contingência de estender seu reconhecimento a Simão Pedro e demais companheiros do ex-pescador
de Cafarnaum. Só agora reconhecia que o judaísmo não havia cogitado desses pousos de amor. Encontrando ali o amigo leproso, desejou sinceramente ampará-lo. Mas como?
Pela primeira vez pensou na dolorosa eventualidade de enviar um ente amado ao vale dos imundos. Ele que aconselhara esse recurso a tanta gente, ali estava considerando,
agora, a situação de um amigo querido. O episódio abalava-o profundamente Procurando evitar raciocínios filosóficos, de modo a não cair em conclusões apressadas,
falou com doçura:
Gamaliel:
- Sim, tens razão para agradecer o esforço dos teus benfeitores.
- E também a misericórdia do Cristo. Creio, agora, que o generoso profeta de Nazaré, com o testemunho de amor que
nos trouxe, é o Messias prometido.
Narrador:
O grande doutor compreendeu o êxito da nova doutrina. Aquele Jesus desconhecido, ignorado da sociedade mais culta de Jerusalém, triunfava no coração dos
infelizes, pela contribuição de amor desinteressado que trouxera aos mais deserdados da sorte.
Compreendeu, ao mesmo tempo, a discrição que se lhe impunha naquele meio humilde, atentas as suas responsabilidades na vida pública. Precisando prosseguir na
conversa, por testemunhar o seu altruísmo e piedade, advertiu com um sorriso:
Gamaliel:
- Acredito que Jesus de Nazaré, de fato, foi um modelo de renúncia a prol de idéias que, até hoje, não pude perquirir ou compreender; mas daí a considerá-lo o próprio
Messias..
Samônio:
- Se eu estivesse com saúde, plenamente identificado com a família e no gozo dos bens que conquistei com esforço e trabalho, talvez duvidasse também dessa realidade
confortando- a, Mas estou prostrado, esquecido de todos e sei quem me deu mão amiga. Como israelitas, amantes da Lei de Moisés, temos esperado um Salvador na pessoa
mortal de um príncipe do mundo; contudo, essa crença há de prevalecer para uma situação passageira. São ilusórios preconceitos, esses que nos levam a induzir uma
dominação de forças perecíveis. A enfermidade, porém, é conselheira carinhosa e esclarecida. De que nos valeria um profeta que salvasse o mundo para depois desaparecer
entre as misérias anônimas de um corpo apodrecido? Não está escrito que toda iniqüidade perecerá? E onde está o príncipe poderoso da Terra que domine sem a garantia
das armas? O leito de dor é um campo de ensinamentos sublimes e luminosos. Nele, a alma exausta vai estimando no corpo a função de uma túnica.
Tudo o que se refira à vestimenta vai perdendo, conseqüentemente, de importância.
Persevera, contudo, a nossa realidade espiritual. Os antigos afirmavam que somos deuses. Na minha situação atual tenho a perfeita impressão de que somos deuses
projetados num turbilhão de pó. Apesar das chagas pustulentas que me segregaram das afeições mais queridas, penso, quero e amo. Na câmara escura do sofrimento, encontrei
o Senhor Jesus, para compreendê-lo melhor. Hoje creio que seu poder dominará as nações, porque é a força do amor triunfando da própria morte.
Narrador:
A voz daquele homem marcado de feridas roxas, no seu grave entono, parecia o clarim da verdade saindo de um montão de pó. Pedro verificava, satisfeito, o progresso
moral daquele mendigo anônimo, para avaliar íntimamente a força regeneradora do Evangelho.
Gamaliel, por sua vez, aturdia-se com o profundo sentido daqueles conceitos. A pregação do Cristo, nos lábios de um doente desamparado, tinha um cunho de beleza
misteriosa e singular. Samônio falara no tom de quem tivera experiências diretas de um encontro real com o profeta nazareno. Buscando afastar qualquer possibilidade
de controvérsia religiosa, o generoso rabino sorriu e acrescentou:
Gamaliel:
- Reconheço que falas com muita sabedoria. Se é incontestável que estou numa idade em que não seria útil alterar os princípios, não posso manifestar-me contrário
às tuas suposições, pois estou bem de saúde, gozo o carinho dos meus e tenho vida tranqüila. Minha faculdade de julgar, portanto, tem de operar noutro rumo.
Samônio:
- Sim, é justo, por enquanto não estais precisando de um salvador. Eis por que o Cristo afirmava que viera para os doentes e para os aflitos.
Narrador:
Gamaliel compreendeu o alcance dessas palavras que davam para meditar uma vida inteira. Sentiu os olhos úmidos. A observação de Samônio penetrara-lhe fundo o
coração sensível de homem justo. Percebendo, todavia, que necessitava de prudência para não confundir os sentimentos do povo, atento o cargo oficial que ocupava,
esboçou um manso sorriso para o interlocutor, bateu-lhe levemente no ombro, e com acento de fraternal sinceridade acentuou:
Gamaliel:
- Talvez tenhas razão. Estudarei o teu Cristo.
Narrador:
Antes de se retirar, o sábio rabino felicitou os compànheiros de Jesus pela obra que realizavam na cidade, e, compreendendo a delicadeza de sua missão num ambiente
por vezes tão hostil, aconselhou a Pedro não esquecer, na igreja do “Caminho”, todas as práticas exteriores do judaísmo. Seria justo, ao seu ver, que se cuidasse
da circuncisão de todos os que lhe batessem à porta; que evitassem as viandas impuras; que não olvidassem o Templo e seus princípios. Gamaliel sabia que os galileus
não seriam isentos de perseguição, ainda mais tratando-se de uma organização iniciada por alguém que fora condenado à morte pelo Sinédrio. Com aqueles conselhos,
visava aparar os golpes da violência, que, cedo ou tarde, haveriam de chegar.
Pedro, João e Tiago agradeceram sensibilizados a carinhosa admoestação e o velho doutor regressou ao lar, fundamente impressionado com as lições do dia, levando
consigo os apontamentos de Mateus, que se pôs a ler imediatamente.
Mais dois dias decorreram e as perseguições capitaneadas por Saulo de Tarso começaram a sacudir Jerusalém em todos os setores de suas atividades religiosas.
O moço de Tarso determinara que se abrisse inquérito geral. Entretanto, como
desejava dar uma demonstração de desassombro aos adversários, julgou que deveria iniciar as prisões de maior importância
no reduto mesmo dos galileus obscuros, que haviam ousado afrontar a sua autoridade.
Foi pela manhã de um dia muito claro, que o futuro rabino, cercado de alguns companheiros e soldados, bateu à porta da casa humilde, fazendo grande alarde dos
fins de sua visita insidiosa. Simão Pedro em pessoa foi atendê-lo com grande serenidade nos olhos.
Indisfarçável pavor estabeleceu-se entre os mais tímidos, porqüanto, dois jovens que acompanhavam o Apóstolo se incumbiram de correr ao interior e espalhar a
notícia.
Saulo:
- És tu Simão Pedro, antigo pescador de Cafarnaum?
Pedro:
- Eu mesmo.
Saulo:
- Estás preso!
Narrador:
Mandando que dois dos companheiros se adiantassem, ordenou fosse o Apóstolo algemado incontinenti.
Pedro não opôs a mínima resistência. Impressionado com o temperamento pacífico que os continuadores do Nazareno testemunhavam sempre, Saulo objetou com escárnio:
Saulo:
- O Mestre do "Caminho" deve ter sido um alto modelo de inércia e covardia. Ainda não encontrei qualquer indício de dignidade nos seus discípulos, cujas
faculdades de reação parecem mortas.
Pedro:
- Enganài-vos quando assim julgais. O discípulo do Evangelho é apenas inimigo do mal e, na sua tarefa coloca o amor acima de todos os princípios. Além do mais,
nós consideramos que todo jugo, com Jesus, é suave.
Saulo:
- Jonas, toma conta dele. Não discutamos. com este homem. Esta gente do “Caminho” está sempre cheia de raciocínios absurdos. É preciso não perder tempo com a cegueira
da ignorância.
Vamos até lá dentro, prendamos os chefes. Os sequazes do carpinteiro hão de ser perseguidos até ao fim.
Narrador:
Resoluto, tomou a dianteira, penetrando ousadamente em busca dos apartamentos mais íntimos. De porta a porta, encontrava mendigos que o fitavam tomados de espanto
e amargura. O quadro vivo de tanta miséria abrigada enchia-o de admiração; mas, esforçava-se por não perder a enfibratura implacável, de maneira a executar seus
projetos nos menores detalhes. Ao lado da enfermaria de mais vastas proporções, encontrou o filho de Zebedeu, que lhe ouviu a voz de prisão sem alterar a serenidade
fisionômica.
Sentindo as mãos grosseiras do soldado que lhe aplicava as algemas, João ergueu os olhos ao Alto e murmurou simplesmente:
João:
- Encomendo-me ao Cristo.
Narrador:
O chefe da caravana olhou-o com profundo desprezo e exclamou altivamente para os companheiros
que faltavam
Filipe e Tiago, na qualidade de discípulos diretos do Messias Nazareno.
Mais alguns passos e o primeiro foi encontrado facilmente. Filipe deixou-se algemar sem um protesto. Suas filhas o rodearam aflitas e chorosas.
Filipe:
- Coragem, filhas, acaso seríamos superiores a Jesus, que foi perseguido e crucificado pelos homens?
Saulo:
- Ouves, Clemente? Não se percebe outra coisa a não ser referências ao estranho Nazareno!
O primeiro falou em jugo do Cristo, o segundo encomendou-se ao Cristo, este alude à superioridade do Cristo... Aonde iremos?
Havemos de ir até ao fim.
Narrador:
Seguros os três prisioneiros, faltava o filho de Alfeu. Alguém se lembrou de procurá-lo no tosco biombo que ocupava. Com efeito, lá o acharam ajoelhado, tendo
diante dos olhos um rolo de pergaminhos em que se encontrava a Lei de Moisés. Via-se-Lhe a palidez marmórea do rosto, quando Saulo se aproximou ríspido:
Saulo:
- Que é isso? Há aqui alguém que cuide da Lei?
Tiago:
- Senhor, jamais esqueci a Lei de nossos pais. Meus avós ensinaram-me a receber de joelhos as luzes do profeta santo.
Narrador:
A atitude de Tiago não traduzia fingimento. Consagrando o máximo respeito ao libertador de Israel, sempre ouvira dizer que seus livros sagrados estavam tocados
de virtude santa. Na expectativa do cárcere, atemorizara-se com o perigo iminente. Não pudera compreender, maiormente, como outros companheiros, o sentido divino
e oculto das lições do Evangelho. O sacrifício inspirava-lhe indisfarçáveis temores. Afinal, pensava ele na compreensão parcial do Cristo: quem ficaria para superintender
as obras começadas? O Mestre expirara na cruz e, naquele instante, os Apóstolos de Jerusalém estavam presos.
Precisava defender-se com os meios possíveis, ao seu alcance. Imaginou recorrer às virtudes sobrenaturais da Lei de Moisés, de acordo com as velhas crenças.
Genuflexo, esperara os verdugos que se aproximavam.
Em face da atitude imprevista de Tiago, Saulo de Tarso estava atônito. Só os espíritos profundamente aferrados ao judaísmo liam, de joelhos, os ensinamentos
de Moisés. Em sã consciência, não poderia ordenar a prisão daquele homem, O argumento que justificava sua tarefa, perante as autoridades políticas e religiosas de
Jerusalém, era o combate aos inimigos das tradições.
Saulo:
- Mas não sois amigo do carpinteiro?
Tiago:
- Não me consta que a Lei nos impeça de ter amigos.
Saulo:
- Mas, que escolheis? A Lei ou o Evangelho? Qual dos dois aceitais em primeiro lugar?
Tiago:
- A Lei é a primeira revelação divina.
Saulo:
- Está bem. Este homem fica em paz.
Narrador:
Afastando-se do aposento de Tiago, Saulo preparava-se para sair, quando, de regresso à portaria para ordenar a partida dos prisioneiros, esbarrou com a cena
que mais o haveria de impressionar.
Todos os doentes que se podiam arrastar, todos os abrigados capazes de se moverem, cercavam a pessoa de Pedro, chorando comovidamente. Algumas crianças lhe chamavam
"pai"; anciães trêmulos osculavam-lhe as mãos...
Saulo:
- Afastem-se, abram caminho!
Narrador:
Alguns recuaram, espavoridos, vendo os soldados que se aproximavam, enquanto que os mais resolutos não arredavam passo. Um leproso, que mal se punha em pé, adiantou-se.
O velho Samônio, recordando-se do tempo em que podia mandar e ser obedecido, aproximou-se de Saulo com desassombro.
Samônio:
- Nós precisamos saber para onde vão estes prisioneiros.
Saulo:
- Para trás! Será possível que um homem da Lei tenha de dar satisfações
a um velho imundo?
Samônio:
- O homem da Lei não precisa prestar contas senão a Deus, quando no exato cumprimento dos seus deveres; mas, nesta casa, falam os códigos de humanidade.
Para vós eu sou imundo, mas para Simão Pedro sou um irmão. Prendeis os bons e libertais os maus!
Onde a vossa justiça? Credes somente no Deus dos exércitos? Ë indispensável saberdes que se o Eterno é o fator supremo da ordem, o Evangelho nos ensina a buscar
em sua providência o carinho de um Pai.
Narrador:
Ouvindo aquela voz digna, que fluia da miséria e do sofrimento como um apelo de desesperação, Saulo quedara-se admirado. O mendigo, entretanto, depois de
longa pausa, prosseguia resoluto:
Samônio:
- Onde estão vossas casas de arrimo aos oprimidos da sorte? Quando vos lembrastes de um asilo para os mais infelizes? Enganais-vos se supondes inércia em nossa
atitude. Os fariseus levaram Jesus ao Calvário da crucificação, privando os necessitados de sua presença inefável. Por haver praticado o bem, Estevão foi metido
no cárcere. Agora, o Sinédrio requisita os Apóstolos do "Caminho", retribuindo-lhes a bondade com a escuridão do calabouço. Mas estais equivocados. Nós, os miseráveis
de Jerusalém, haveremos de lutar convosco. De Simão Pedro nós disputaremos a própria sombra. Se vos negardes a atender nossas súplicas, importa lembrardes que somos
leprosos. Envenenaremos vossos poços. Pagareis a perversidade com a saúde e com a vida.
Saulo:
- Cala-te miserável! Onde estou que te pude ouvir até agora? Nem mais uma palavra.
Sinésio, dá-lhe dez bastonadas. É indispensável castigar-lhe a língua insolente e viperina.
Narrador:
Ali mesmo, à vista de todos os companheiros que se retraíam amedrontados, Samônio recebeu o castigo sem balbuciar uma queixa. Pedro e João tinham os olhos úmidos.
Os demais doentes encolhiam-se estarrecidos.
Terminada a tarefa, um grande silêncio dominava os corações ansiosos e doloridos. O doutor de Tarso rompeu a expectativa com a ordem de partida, a caminho do
cárcere.
Duas crianças pálidas acercaram-se, então, do ex-pescador de Cafarnaum e perguntaram chorosas:
Crianças?
- “Pai”, com quem ficaremos nós?
Pedro:
- As filhas de Filipe ficarão convosco... Se Jesus permitir, meus filhos, não me demorarei.
Narrador:
O próprio Saulo, intimamente, estava comovido; entretanto, não desejava trair-se a si mesmo, deixando-se vencer pela emoção que o quadro lhe provocava.
Pedro compreendeu que as lágrimas silenciosas de todos os tutelados humildes do “Caminho” traduziam desvelado amor, naquele momento de angustiantes despedidas.
Em seguida a esse feito, o jovem tarsense desdobrou as energias na primeira perseguição experimentada pelas expressões individuais e coletivas do Cristianismo
nascente. Mais do que se poderia supor, Jerusalém regurgitava de criaturas que se interessavam pelas idéias do Messias Nazareno. Saulo prevaleceu-se dessa circunstância
para fazer sentir, mais uma vez, o perigo ideológico que o Evangelho representava. Numerosas prisões foram efetuadas. Na cidade, iniciara-se um êxodo de grandes
proporções. Os amigos do "Caminho", com possibilidades financeiras, preferiam encetar vida nova na Iduméia ou na Arábia, na Cilícia ou na Síria. Os que podiam. escapavam
ao rigor dos inquéritos violentos, iniciados com retumbâncias de escândalo público. As personalidades mais eminentes eram metidas na prisão, incomunicáveis, mas
os anônimos e humildes, os da plebe, sofriam grandes vexames nas dependências do tribunal onde se faziam os interrogatórios. Os guardas assalariados por Saulo. para
a execução do nefando trabalho, excediam-se nos abusos.
Naquele tribunal singular, por longos dias seguidos, verificaram-se punições de toda espécie. Das respostas do querelado dependiam o encarceramento,
os açoites, o chanfalho. as bastonadas. as macerações e os apupos.
Saulo tornara-se a mola central do movimento terrível e execrado por todos os simpatizantes do “Caminho”. Multiplicando energias, visitava diariamente os núcleos
do serviço a que costumava chamar “expurgo de Jerusalém, desenvolvendo atividade pasmosa, dentro da qual mantinha a vigilância constante das autoridades administrativas,
encorajava os auxiliares e prepostos, instigava outros perseguidores dos princípios de Jesus, sem deixar arrefecer-se o zelo religioso do Sinédrio.
Dentro de uma semana, após as prisões efetuadas na igreja modesta, realizava-se a memorável sessão em que Pedro, João e Filipe deveriam ser julgados. A assembléia
excepcional despertara a maior curiosidade. Lá se congregavam todas as personalidades eminentes do farisaísmo dominante. Gamaliel compareceu, dando mostras de profundo
abatimento.
De modo geral, comentava-se a atitude dos mendigos que, não obtendo permissão de ingresso, aglomeravam-se em longas filas na grande praça e protestavam em atroante
vozerio.
Debalde aplicavam-lhes bastonadas a torto e a direito, porque a turba de miseráveis assumira proporções nunca vistas, O quadro era curioso e alarmante. Tomar
providências para correr com a massa, parecia tarefa impossível, Os peregrinos e os doentes contavam-se por centenas numerosas. Era inútil reprimir nos pontos isolados,
o que somente vinha agravar a revolta e desesperação de muitos. Em altos brados reclamavam a liberdade de Simão Pedro.
Exigiam em tumulto a sua libertação, como se exigissem um legado de seu legítimo direito.
No salão nobre, não só os assistentes comentavam o fato, mas, também os juizes não dissimulavam profunda impressão. O próprio Anás contava o assédio de que
vinha sendo objeto, por parte dos favorecidos de Jerusalém. Alexandre alegava que à sua residência afluíram centenas de aflitos a solicitar-lhe os bons ofícios a
favor dos prisioneiros. Saulo, de vez em quando, respondia a um que outro, com rápidos monossílabos. Sua fisionomia carregada traduzia propósitos inferiores relativamente
ao destino dos Apóstolos da Boa Nova, que lá estavam à sua frente, no fundo da sala, humildes, serenos, no banco dos criminosos comuns.
Viu-se, então, que Gamaliel se detinha com o sumo-sacerdote em conversação íntima, que durou alguns minutos e despertava grande curiosidade entre os colegas.
Em seguida, o venerando doutor da Lei chamou o ex-discípulo para um entendimento particular, antes de iniciarem os trabalhos. Os colegas perceberam que o rabino
tolerante e generoso ia advogar a causa dos continuadores do Nazareno.
Gamaliel:
- Qual a sentença a ser proposta para os prisioneiros?
Saulo:
- Sendo eles galileus
não lhes será conferido o direito da palavra no recinto; de maneira que já deliberei
a punição que lhes cabe.
Vou propor a morte dos três, com a de Estevão, pelo apedrejamento.
Gamaliel:
- Que dizes?
Saulo:
- Não vejo outro recurso, precisamos extirpar pela raiz os males que começam. Acredito que, se encararmos o movimento com tolerância,
teremos o prestígio do judaísmo abalado por nossas próprias mãos.
Gamaliel:
- Entretanto, Saulo, devo invocar o ascendente que tenho em tua formação espiritual, para defender estes homens da pena de morte.
Ninguém mais do que eu conhece a generosidade do teu coração e sou o primeiro a reconhecer que tuas resoluções obedecem ao zelo inexcedível na defesa
de nossos princípios milenários; mas o "Caminho", Saulo, parece ter uma grande finalidade na renovação dos nossos valores humanos e religiosos. Quem, entre nós,
se havia lembrado de amparar os infortunados com o provimento de um lar afetuoso e fraterno? Antes da tua diligência corretiva, visitei essa instituição singela
e pude confortar-me na observação do seu excelente programa.
Saulo:
Masserá possível que também vós tenhais lido o Evangelho dos galileus?
Gamaliel:
- Estou a lê-lo e pretendo meditar mais demoradamente os fenômenos que ocorrem em nosso tempo. Pressinto grandes transformações
em toda parte. Tenciono retirar-me da vida pública em breves dias, a fim de tomar o caminho do deserto. É claro, porém, que estas minhas palavras devem ser guardadas
por ti, em penhor de mútua confiança.
Não me suponhas mentalmente debilitado. A velhice no corpo não me apagou a capacidade de pensar e discernir por mim mesmo. Compreendo o escândalo que se levantaria
em Jerusalém se um rabino do Sinédrio modificasse publicamente as convicções mais íntimas. Mas é preciso convir que estou falando a um filho espiritual. E expondo,
sinceramente, o meu ponto de vista, faço-o tão-só para defender homens generosos e justos de uma sentença iníqua e indevida.
Saulo:
- Vossa revelação decepciona-me profundamente!
Gamaliel?
- Conheces-me de menino e sabes que o homem sincero não se poderá preocupar com os que o elogiem ou o lamentem no cumprimento de um sagrado dever.
Não me faças ir contigo, nesta assembléia, aos debates públicos escandalosos e atentatórios da feição amorosa que toda verdade deve trazer consigo. Libertarás
estes homens em atenção ao nosso passado de mútuo entendimento. É só o que te peço. Deixa-os em paz, por amor aos nossos laços afetivos. Daqui a alguns dias não
precisarás conceder mais coisa alguma ao velho mestre. Serás meu substituto neste cenáculo, porqüanto tenciono abandonar a cidade em breves dias.
Não precisarás refletir muito tempo. O sumo-sacerdote está ciente de que eu pediria tua demência para os prisioneiros.
Saulo:
- Mas... e a minha autoridade? Como conciliar a indulgência com a necessidade de reprimir o mal?
Gamaliel:
- Toda a autoridade é de Deus. Nós somos simples instrumentos, meu filho. Ninguém se diminuirá por ser bom e tolerante. Quanto à providência mais digna,
cabível no caso, é conceder liberdade a todos eles.
Saulo:
- Todos?
Gamaliel:
- Como não? Pedro é um homem generoso, Filipe é um pai de família extremamente dedicado ao cumprimento de seus deveres,
João é um moço simples, Estevão se consagrou aos pobres.
Saulo:
- Sim, sim. —Concordo com a libertação dos três primeiros, com uma condição. Por serem casados, Pedro e Filipe poderão continuar
em Jerusalém, restringindo suas atividades ao socorro dos doentes e necessitados; João será banido; mas Estevão deverá sofrer a sentença decisiva. Já propus, publicamente,
a lapidação, e não vejo motivos para transigir, mesmo porque, para escarmento, pelo menos um dos discípulos do carpinteiro deve morrer.
Gamaliel:
- Pois bem, seja assim!
Narrador:
Daí a instantes, com surpresa geral da assembléia, Saulo de Tarso, da tribuna, propunha a libertação de Pedro e Filipe, o banimento de João, e reiterava o pedido
de apedrejamento para Estevão, por considerá-lo o mais perigoso dos elementos do "Caminho". As autoridades do Sinédrio apreciando os alvitres, com satisfação, por
saberem que a medida agradaria à turba numerosa, afirmaram seu unânime consentimento e a morte de Estevão foi aprazada para uma semana depois, convidando Saulo os
amigos para a triste cerimônia pública a que ele próprio haveria de presidir.

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