APRENDENDO A MORRER
Ora, se no universo não existe o nada, então, antes da existência do
universo não existia o nada, pois, o NADA, NADA GERA.
Com o universo surge o tempo e o espaço, ou melhor, com o surgimento
da consciência aparece a apreensão de tempo e espaço. Afinal, o tempo
e o espaço são fenômenos da consciência.
O tempo e o espaço se inserem no universo da relatividade e, para
existir o relativo é necessário existir o absoluto, caso contrário, o
relativo tornar-se-ia absoluto. Não tem como existir o relativo se não
existir o absoluto.
Existindo, portanto, o absoluto, ele é eterno, imutável e infinito.
Estas são qualidades que atribuímos a uma mente superior, ou melhor,
Deus.
Ora, se o universo material é relativo, ou seja, se apresenta dentro
do tempo e espaço (noções que só a consciência pode captar), então,
sua origem está no absoluto, no imaterial, já que ele (o relativo) não
poderia se auto-gerar. Para isto, ele teria que estar além do tempo e
espaço, ou seja, no absoluto.
Este campo imaterial (o absoluto) não é o nada, porque o nada nada
gera. Deste universo imaterial surgiu o universo material
consequentemente. Ou seja, do invisível surgiu o visível. A energia
(invisível), por exemplo, faz surgiu tudo que é sólido, tátil,
visível.
Então, qual a natureza deste ser, que em muitas culturas recebe vários
nomes?
A sua natureza, logicamente, só pode ser absoluta, imutável, infinita.
Todas as outras concepções (principalmente religiosas) são limitações
da apreensão desta verdade, embora, estejam essencialmente certas.
Mas, como limitados e vivendo no mundo da relatividade do tempo e
espaço, podemos entender completamente este ser?
Não podemos.
Só podemos tentar nos aproximar deste ser através de sua criação. Ou
melhor, ao nos conhecermos melhor, estamos comungando com Deus.
Curioso, tentamos entender o mundo (físico, manifesto) através de
nossa consciência, presos ao tempo e espaço, ou seja, limitados, e
chamamos isto de ciência (o que é correto), contudo, temos que admitir
que isto é uma limitação. Só a experiência pode nos confirmar certas
teorias. Mas, seja como for, o nosso instrumento de investigação
(científico e filosófico) é a consciência.
Mas, há como nossa consciência transcender o tempo e o espaço? Há como
vivenciarmos o absoluto?
Toda técnica de meditação se fundamenta na suspensão dos sentidos
para, assim, irmos além da consciência objetiva, limitada pelo tempo e
espaço.
Fechamos os olhos, ficamos em silêncio e imóveis e, assim, vamos
gradativamente perdendo a noção de tempo e espaço, mas, diferentemente
do sono, conscientemente. Quando isto acontece eficientemente a nossa
consciência naturalmente entra num estágio de apreensão diferente
daquele quando estamos completamente ativos.
A maior luta, no entanto, para atingir este nível de consciência são
os pensamentos. É necessário aprender a “desacelerar” a mente. Quando
ela se aquieta, então, entramos no universo além do tempo e espaço, ou
seja, do absoluto.
Óbvio, portanto, que esta vivência (bem real) é intraduzível, afinal,
tratar-se de um universo sem referências.
Ou seja, a apreensão do absoluto (Deus) só pode ser atingida de forma
transcendente. Não se tem como racionalizar esta experiência.
A comunhão com Deus é uma vivência pessoal e, portanto, intraduzível.
Todavia, esta é uma experiência absoluta, inquestionável para quem a
vivencia e isto está além de crença e conceito limitantes.
Para o ser humano atingir plenamente o absoluto ele precisa morrer. E,
principalmente, morrer consciente, pois, na maioria das vezes o
falecido permanece em estado de inconsciência.
A meditação é um aprendizado para a morte (consciente).
A morte não é um mero castigo infringido aos mortais, mas o nosso
objetivo final como destino cósmico. Afinal, não viemos do nada (já
que o nada não existe), mas do absoluto.
Apenas vivemos a consciência ilusória do tempo e espaço e toda a sua
relatividade.
Hideraldo Montenegro
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