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unread,Jun 16, 2005, 1:12:25 PM6/16/05Sign in to reply to author
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Estudo sobre Lakatos
CONSIDERAÇÕES SOBRE O MÉTODO
Neste roteiro é apresentado anotações sobre os modernos conceitos de ciência
do filósofo Silvio Chibeni, a destacarem-se para esta parte dos estudos os
artigos "Concepções de Ciência". No seu trabalho intitulado Concepções de
Ciência o filósofo oferece-nos de maneira clara e didática os modernos
conceitos de Ciência, os quais cito abaixo:
"Do que vimos sobre as limitações das concepções indutivista e
falseacionista de ciência, transparece que representam as teorias
cientificas e suas relações com a experiência de modo
demasiadamente simples e fragmentário. A inspeção da natureza, gênese e
desenvolvimento das teorias cientificas reais evidencia que devem ser
consideradas como "estruturas" complexas e dinâmicas, que nascem e se
elaboram gradativamente, em um processo de influenciação reciproca com
a experiência, bem como com outras teorias. Essa visão da ciência e
ainda suportada por argumentos de ordem filosófica e metodológica.
Se é verdade que as teorias cientificas devem apoiar-se na
experiência - embora não dos modos descritos pelo indutivismo e pelo
falseacionismo -, residindo mesmo nela a sua principal raison d'etre, não é
menos verdade que a busca, condução, classificação e analise dos dados
empíricos requer diretrizes teóricas." (Obs: raison d'etre = razão de ser).
Por fim, em contraste com o que propões a visão indutivista (e talvez
também a falseacionista), as teorias cientificas não se consistem de
meros aglomerados de leis gerais. Devem incorporar ainda regras
metodológicas que disciplinem a absorção de impactos empíricos
desfavoráveis, e norteiem as pesquisas futuras com vistas ao seu
aperfeiçoamento."
PROGRAMA DE PESQUISA
O filósofo Imre Lakatos sistematizou de maneira interessante as
características da ciência que vimos discutindo, introduzindo a noção de
"programa cientifico de pesquisa". Iniciaremos nossa breve e simplificada
exposição das idéias centrais de Lakatos recorrendo a este parágrafo do
citado livro de Chalmers (CHALMERS, A.F. What is this Thing called
Science? St. Lucia, University of Queensland Press, 1976, p. 76):
Um "programa de pesquisa" lakatosiano é uma estrutura que fornece um guia
para futuras pesquisas, tanto de uma maneira positiva, como negativa. A
"heuristica negativa" de um programa envolve a estipulação de que as
assunções básicas subjacentes ao programa, que formam o seu "núcleo
rígido", não devem ser rejeitadas ou modificadas. Esse núcleo rígido e
resguardado contra falseações por um "cinturão protetor" de hipóteses
auxiliares, condições iniciais, etc. A "heurística positiva" constitui-se
de prescrições não muito precisas que indicam como o programa deve ser
desenvolvido... Os programas de pesquisa são considerados
"progressivos" ou "degenerantes", conforme tenham sucesso, ou
persistentemente fracassem, em levar a descoberta de novos fenômenos.
NÚCLEO RÌGIDO
O núcleo rígido (hard core) de um programa é aquilo que
essencialmente o identifica e caracteriza, constituindo-se de uma ou mais
hipóteses teóricas. Eis alguns exemplos. O núcleo rígido da cosmologia
aristotélica inclui, entre outras, as hipóteses da finitude e
esfericidade do Universo, a impossibilidade do vazio, os movimentos
naturais, a incorruptibilidade dos céus. O núcleo da astronomia
copernicana consiste das assunções de que a Terra gira sobre si mesma em
um dia e em torno do Sol em um ano, e de que os demais planetas também
orbitam o Sol. O da mecânica newtoniana e formado das três leis dinâmicas
e da lei da gravitação universal. O da teoria especial da relatividade, o
principio da relatividade e a constância da velocidade da luz; o da teoria
da evolução de Darwin-Wallace, o mecanismo da seleção natural.
HEURÍSTICA NEGATIVA
Por "uma decisão metodológica de seus protagonistas" (Lakatos 1970, p. 133),
o núcleo rígido de um programa de pesquisa e "decretado" não-refutavel.
Possíveis discrepâncias com os resultados empíricos são eliminadas pela
modificação das hipóteses do cinturão protetor.
Essa regra e' a heurística negativa do programa, e tem a função de limitar,
metodologicamente, a incerteza quanto a parte da teoria atingida pelas
"falseações". Recomendando-nos direcionar as "refutações" para as
hipóteses não-essenciais da teoria, a heurística negativa representa
uma regra de tolerância, que visa a dar uma chance para os princípios
fundamentais do núcleo mostrarem a sua potencialidade. O testemunho da
historia da ciência parece de fato corroborar essa regra, como vimos nos
exemplos que demos acima. Uma certa dose de obstinação parece ter sido
essencial para salvar nossas melhores teorias cientificas dos abundantes
problemas de ajuste empírico que apresentavam quando de seu nascimento.
Lakatos reconhece, porém, que essa atitude conservadora tem seus limites.
Quando o programa como um todo mostra-se sistematicamente incapaz de dar
conta de fatos importantes, e de levar a predição de novos fenômenos (i.e.,
torna-se "degenerante"), deve ceder lugar a um programa mais adequado,
"progressivo". Como uma questão de fato histórico, nota-se que um programa
nunca e abandonado antes que um substituto melhor esteja disponível.
HEURÍSTICA POSITIVA
A heurística positiva de um programa é mais vaga e difícil de
caracterizar que a heurística negativa. Segundo Lakatos, ela consiste
"de um conjunto parcialmente articulado de sugestões ou idéias de como
mudar ou desenvolver as 'variantes refutáveis' do programa de pesquisa,
de como modificar, sofisticar, o cinturão protetor 'refutável'." (op.
cit. p. 135) No caso da astronomia copernicana, por exemplo, a
heurística positiva indicava claramente a necessidade do desenvolvimento
de uma mecânica adequada a hipótese da Terra móvel, bem como de
novos instrumentos de observação astronômica, capazes de detectar as
previstas variações no tamanho aparente dos planetas e as fases de Vênus,
por exemplo. Assim, o telescópio foi construído algumas décadas após a
morte de Copérnico pelo seu ardente defensor, Galileu, que também principiou
a criação da nova mecânica. Esta, a seu turno, uma vez concebida por
Newton, apontou para um imenso campo aberto, no qual se deveria buscar uma
nova matemática, medidas das dimensões da Terra, aparelhos para a
detecção da forca gravitacional entre pequenos objetos, etc."
Tomando o exemplo de um dos mais bem sucedidos programas de pesquisa
da Física, a Mecânica Newtoniana, vemos que possui um núcleo rígido formado
pelas três leis newtonianas do movimento e pela lei da gravitação universal,
que a heurística negativa do programa recomenda sejam mantidas inalteradas:
eventuais discrepâncias com a experiência devem ser eliminadas através de
ajustes nas hipóteses auxiliares do cinturão protetor. Esse processo ocorreu
várias vezes durante o desenvolvimento do programa, como quando, no século
XIX, se verificou que as previsões teóricas para a trajetória do planeta
Urano conflitavam com os dados da observação astronômica; ao invés de
imputar esse desvio a possível falsidade das leis do núcleo rígido,
assumiu-se que deveria existir um corpo celeste desconhecido perturbando a
trajetória do planeta; mais tarde, foi, de fato, observada a existência
desse corpo, o planeta Netuno. Assim como nesse episódio, a conjunção das
heurísticas negativa e positiva do programa newtoniano levou à inúmeros
desenvolvimentos: novas teorias ópticas, novos aparelhos e técnicas de
observação, criação de novos ramos da Matemática etc. A partir do início de
nosso século, porém, o programa tornou-se degenerante, por motivos vários
que não cabe expor aqui, vindo a ser substituído pelos programas das Teorias
da Relatividade e da Mecânica Quântica.
CRITÉRIOS DE DEMARCAÇÃO
Como podemos notar da citação acima, os modernos conceitos de ciência,
mais realistas, deixam transparecer o caráter claramente humano da
ciência, que passa a ser então vista como um fruto das convicções de um
grupo social (que "decreta" que o núcleo rígido de seu programa de pesquisa
é não-refutável), com todo o seu conteúdo de crenças e des-crencas e,
portanto, de subjetivismo. Enfim, assume-se claramente a realidade de
que não existe um método "objetivo e seguro" de se fazer ciência.
"A concepção lakatosiana de ciência envolve um novo critério de
demarcação entre ciência e não-ciência. Lembremos que o critério
indutivista considerava cientificas somente as teorias provadas
empiricamente. Tal critério é, como vimos, forte demais: não haveria,
segundo ele, nenhuma teoria genuinamente cientifica, pois todo conhecimento
do mundo exterior e falível. Também o critério falseacionista, segundo o
qual só são cientificas as teorias refutáveis, elimina demais:
como nenhuma teoria pode ser rigorosamente falseada, nenhuma
poderia classificar-se como cientifica."
O critério de demarcação proposto por Lakatos, por outro lado,
adequadamente situa no campo cientifico algumas das teorias
unanimemente tidas como cientificas, como as grandes teorias da física.
Esse critério funda-se em duas exigências principais: uma teoria deve,
para ser cientifica, estar imersa em um programa de pesquisa, e este
programa deve ser progressivo. Deixemos a Lakatos a palavra (1970, pp.
175-6):
"Pode-se compreender muito pouco do desenvolvimento da ciência quando
nosso paradigma de uma porção de conhecimento cientifico e uma teoria
isolada, como 'Todo cisne é branco', solta no ar, sem estar imersa em um
grande programa de pesquisa. Minha abordagem implica um novo critério de
demarcação entre 'ciência madura', que consiste de programas de
pesquisa, e 'ciência imatura', que consiste de uma colcha de retalhos de
tentativas e erros ..."
"A ciência madura consiste de programas de pesquisa nos quais são
antecipados não apenas fatos novos, mas também novas teorias
auxiliares; a ciência madura possui 'poder heurístico', em
contraste com os processos banais de tentativa e erro." Lembremos que na
heurística positiva de um programa vigoroso há, desde o inicio, um
esboço geral de como construir os cinturões protetores: esse poder
heurístico gera "a autonomia da ciência teórica".
Essa "exigência de crescimento continuo" [progressividade do
programa] e minha reconstrução racional da exigência amplamente
reconhecida de 'unidade' ou 'beleza' da ciência. Ela põe a
descoberto a fraqueza de "dois" tipos de teorização aparentemente muito
diferentes entre si. Primeiro, evidencia a fraqueza de programas que,
como o marxismo ou o freudismo, são indubitavelmente 'unificados', e
fornecem um plano geral do tipo de teorias auxiliares que irão
utilizar para a absorção de anomalias, mas que invariavelmente criam suas
teorias na esteira dos fatos, sem ao mesmo tempo anteciparem fatos
novos. (que fatos novos o marxismo "previu" desde, digamos, 1917?) Em
segundo lugar, ela golpeia seqüências remendadas de ajustes
'empíricos' rasteiros e sem imaginação, tão freqüentes, por exemplo,
na psicologia social moderna. Tais ajustes podem, com o auxilio das
chamadas 'técnicas estatísticas', produzir algumas predições 'novas',
podendo mesmo evocar alguns fragmentos irrelevantes de verdade que
encerrem. Semelhantes teorizações, todavia, não possuem nenhuma
idéia unificadora, nenhum poder heurístico, nenhuma continuidade. Não
indicam nenhum programa de pesquisa, e são, no seu todo, inúteis."
CONCEPÇÃO MODERNA DE CIÊNCIA
Fica assim apresentada uma das concepções modernas de ciência, as
quais colocam o fazer ciência sob uma perspectiva muito mais
realista: fazer ciência e' uma atividade humana como outra
qualquer, e como tal está sujeita às convicções e julgamentos dos grupos
sociais que a realizam. Enfim, volto a frisar, me parece claro que não
existe uma forma segura e objetiva de se extrair conhecimento cientifico
mesmo a partir dos fatos. A ciência é muito mais complexa do que se
poderia supor a partir das concepções positivistas, pois tem-se que
elaborar teorias cientificas apesar de toda a subjetividade e
insegurança intrínsecas ao psiquismo humano.