Fwd: Dersu Uzala na Copa

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Victor Rubens Orsi de Lucca

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Jul 11, 2014, 8:35:32 PM7/11/14
to Patricia Chaves, Renata Lucca de Souza, ΨŦєгภคภ๔คΨ ஐ♥ஐΨஐ♥ஐΨஐ, Vasco José de Souza, assoc.mm mm, ligia lucca, * Leticia * Orsi, Flavinha De Lucca, jorge euclides, Leticia Lautenschlaeger Lê, Paula Capelão Paula Escrita, Renata Lauten nata, Valéria Gardini Valéria, ☆Priscilla Lucca☆, ♥ Sandra GRÊMIO ♥, ♥¸.•♥.*.Þลŧ®ﺬ¢ﺬล .*.♥¸.•♥ Luto, al...@dinamize.com.br, Amado F Costa Dom Thomé, Amanda Borges, ama...@agenciaterraturismo.com.br, Ana Cristina Santos de Souza prof, Ana Lúcia Sattes De Almeida, anacris...@hotmail.com, andreia de lima, Anita Garcia, antonio goulart dom thome, Antonio Kavaliunas Neto, Antonio Kavaliunas Neto, BERENICE, cario...@ibest.com.br, carl...@terra.com.br, carlos silva, carlos...@gmail.com, carmen virginia cilenti, catarina anelise fenselau stevanin, catarina anelise Stevanin, CCALME...@gmail.com, Charles Santos, claudia damo bertoli, claudio Dthomé, cleci cagliari, cleyton.b...@gmail.com, cleyt...@terra.com.br, Conta Enfermagem, Costa, Amado F, costa...@hotmail.com, CVC - Lisete Pedroso, Dada ism, DAFA, Dagmar Zambon Wilke, Dapse DT, dautina constança silva, DAUTINASILVA CONSTANCA-DA-SILVA, DECOM CRE-1, doutr...@domthome.com.br, DUDU DIJ, Eduarda Andrade ..... Fãs, edum...@gmail.com, eglon-machado, eliana...@hotmail.com, elis...@cabotel.com.br, elizete castilho DThomé, Eloi SEDT, enf.f...@hotmail.com, enferm...@gmail.com, enfermagem ipuc, enfer...@edu.com.br, esd...@googlegroups.com, Estêvão Finger D.Thomé Costa, eugenio....@gmail.com, Eunice Carvalho, eveline...@hotmail.com, eviz...@hotmail.com, fabiana euclides nunes, fabiano....@bol.com.br, Fernanda kavaliunas, fernanda taise quaraí, Giselda Sanchez, Glaucia Oliveira, haje...@hotmail.com, haljesus smaforo, haljesus smaforo, helen...@bol.com.br, hugo...@hotmail.com, Iara Solange, ivanir carneiro dom thomé, Jac e Charles, jacque...@hotmail.com, josy...@hotmail.com, jota...@gmail.com, jovelino luz, juca...@hotmail.com, Juheis SEDT, Júlia Garcez, jussara Azevedo, jussara coelho, Jussara Zambon, kaiaso...@hotmail.com, katiamatusiak, Leia Costa, Léia Costa, Léia R. Rosa Costa, LENISE DOS SANTOS, Leonardo DT, lianeg...@terra.com.br, lidia lauten, lidia....@fiergs.org.br, Ligia Lucca, lisete...@cvc.com.br, lmm...@pop.com.br, luciane dornellas soares, Luciane Gonzatti, luis46....@hotmail.com, Luiz Carlos da Siveira, luizmar....@yahoo.com.br, lus...@terra.com.br, Marcelo Antonio Silva Rosa, marcos a martins quaraí, maria c da costa quaraí, maria de jesus machado, Maria Helena Schneider, maria quiteria rost, marisa domtome, monica....@bol.com.br, Nadja dos Santos Brandão, Neusa Maria Barbosa Farias, neuza fernandes, nilza...@hotmail.com, nlore...@cpovo.net, nyceca...@yahoo.com.br, pale...@domthome.com.br, PATRIMÔNIO Dom Thomé, paulac...@yahoo.com.br, Paulo Pancinha, pauloricardoSEDT, priscilla soiza, r.m...@hotmail.com, rar...@gmail.com, regina araujo, regin...@yahoo.com.br, regis de lucca, re...@morungava.com.br, renata soiza, renata...@ig.com.br, ritacas...@ig.com.br, Rodrigo Eduardo Müller de lucca, roselaine vasconcellos, rud...@terra.com.br, rute quaraí, sandrap...@hotmail.com, sb...@sbtur.com, Sebo Alfarrabios, se...@valisedecronopio.com.br, secre...@cre1.com.br, SEDT decom, SEDT dij, SEDT estudo, SEDT presidencia, SEDT secretaria, Segurosadm, sergio gomes de souza, sheila...@hotmail.com, Silvio Luz, Simone Peixoto de Andrade, Sirlei Lisboa, soc. espírita dom thomé, Sonia Sperb, Susana DThomé, TESOURARIA Dom Thomé, vasco jose de soiza, vera borges, Vera Goularte da Cruz, ver...@hotmail.com, veridiana karabasch, Vice Doutrinário, Vice Presidência Adm, ViceSEDT, Vidêncio Vieira, Vithor de Lucca, Vivian bernardi, viviane suarez quaraí, Volmir Carneiro, Volmir Carneiro


---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Jorge Hirschmann <jota...@gmail.com>
Data: 11 de julho de 2014 18:01
Assunto: Fwd: Dersu Uzala na Copa
Para: Silvia Bevilacqua <bevilacq...@hotmail.com>





Belo texto, que serve para uma profunda reflexão sobre nossa “educação”. Vi este filme pela primeira vez logo que foi lançado no Brasil e depois mais duas vezes e sempre me emocionei com as lições do mestre Kurosawa, personalizadas na figura do velho e simplório Dersu Uzala, É um daqueles filmes que deve ser visto periodicamente, para que nunca dos esqueçamos o que é, verdadeiramente, ser civilizado. A quem ainda não o assistiu, recomendo fazê-lo.

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DERSU UZALA NA COPA

 

José Ribamar Bessa Freire

22/06/2014 - Diário do Amazonas

 

No futebol "a bola é um reles, um ridículo detalhe" escreve Nelson Rodrigues, para quem o que interessa é "o ser humano por trás da bola".

O que está em jogo no gramado, portanto, " não é a diversão lúdica, mas a complexidade da existência".

Se for assim, se Nelson tem razão como quer o cronista Joaquim Ferreira dos Santos, então o campeão mundial da Copa já é o Japão, que deu um show de vida lá na Arena Pernambuco contra a Costa do Marfim e, depois, na Arena das Dunas, em Natal, contra a Grécia.

O Japão perdeu um jogo e empatou o outro dentro do campo, mas nas arquibancadas ganhou os dois de 10 x 0. As imagens reproduzidas nas redes sociais não deixam dúvidas. Enquanto torcedores do Brasil e de outros países se retiravam dos estádios, deixando montanhas de lixo, sem sequer olhar para trás, os japoneses recolhiam discretamente garrafas e copos de plástico, papel, bandejinhas de isopor, latas de cervejas e de refrigerantes, canudinhos, restos de alimentos, embalagens usadas, enfim todo lixo produzido por eles.

Esse gesto civilizatório foi o legado mais eloquente da Copa. Com o exemplo, o japonês ensina ao mundo como tratar com respeito e civilidade o espaço público, como se relacionar com o meio ambiente e com os outros habitantes do planeta. A coleta do lixo, feita em sacos com a imagem impressa do sol nascente, foi uma lição de ética e de cidadania.

Lembrei cena antológica de rara beleza do filme Dersu Uzala dirigido pelo cineasta japonês Akira Kurosawa, em 1975, baseado no diário de um capitão russo. Na torcida nipônica (diria Nelson Rodrigues) todos eram Dersu Uzala.

O chibé repartido

O filme conta a história de uma expedição científica do exército czarista pela bacia do rio Usuri, entre 1902 e 1907, comandada pelo capitão Vladimir Arsenyev, com a finalidade de classificar as espécies existentes nas estepes da Sibéria e realizar trabalhos de topografia. O capitão faz amizade com um caçador nativo, Dersu Uzala, um velho sábio que trata o sol, as estrelas, a água, o fogo, o vento, a neve, as árvores e os animais como pessoas. Tal qual um tcheramoi guarani, ele ouve todas essas "pessoas" que vivem na taiga siberiana - a maior floresta fria do mundo - e conversa com elas.

Akira Kurosawa vai mostrando como se tece a amizade do capitão russo com o caçador, que lhe serve de guia não apenas pelas montanhas da Mongólia, mas também pelos sendeiros da vida.

Depois de uma tempestade de neve, os dois conseguem se refugiar numa cabana no meio da floresta, onde descansam. No dia seguinte, antes de partirem, Dersu, o homem da floresta, abastece o fogão com lenha, separa um pouco de sal e estoca alimentos não perecíveis na cabana. Divide assim o pouco que tem para surpresa do capitão russo, o homem da cidade, que lhe diz: “Dersu, isso é um desperdício. É inútil deixar mantimentos aqui, nós nunca mais voltaremos a esse lugar”.

Quase todo semestre passo esse filme em sala de aula e todas as vezes me comove a cena, quando o caçador, então, explica que não é para eles dois, mas para uma pessoa qualquer, um eventual viajante, desconhecido, que chegue ali cansado e com frio, em busca de abrigo, de calor e de alimento. Compartilhar o pão não necessariamente para retribuir o que eles tinham encontrado, mas pelo prazer da partilha.

O capitão russo, um homem de ciência, civilizado, com escolaridade, fica no meio do tiroteio, perplexo e dividido entre, de um lado, o princípio da "farinha pouca meu pirão primeiro" que ele traz do mundo urbano e, de outro, o preceito do pirão compartilhado, que é único sinal humano de vida, como canta o poeta Aníbal Beça num haicai: "Apenas num gesto / o homem é capaz de vida / chibé repartido".

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Não vai haver lixo

A ética da solidariedade, do desprendimento, do pensar no outro está presente tanto no comportamento do velho caçador desescolarizado, que vive no mundo da oralidade e que detém os conhecimentos da vida, quanto na coleta silenciosa do lixo realizada pelos torcedores nipônicos.

 

O cineasta japonês Akira Kurosawa rodou as cenas de Dersu Uzala em 1974, em condições adversas, depois de haver tentado o suicídio três anos antes, cortando a própria garganta e os pulsos numa forte crise de depressão. Estava desencantado com o ser humano. Nesse contexto, o filme teve o efeito daquele poema de Allen Ginsberg: uma florzinha solitária desabrochando em cima de um monte de merda. É uma reconciliação com a vida, um canto de esperança, que desperta sentimento similar ao provocado pelas imagens dos japoneses coletando o lixo no estádio.

 

- “Eu sou bra-si-lei-ro, com mui-to or-gu-lho, com mui-to a-moooor” grita a nossa torcida embalada para a guerra. Resta saber (isso não é explicitado)  do que é que sentimos orgulho. Numa sociedade patriarcal como a brasileira, parasitária, tatuada por quatro séculos de escravidão, estamos acostumados a emporcalhar tudo, ordenando que garis limpem nossa sujeira. Nossas ruas com bueiros entupidos e os banheiros e salas de aula de nossas universidades públicas são testemunhas disso. Lá, o exército do "pessoal de limpeza" trava diariamente uma batalha perdida, registrando o rotundo fracasso da escola.

 

- “Somos milhões em ação. Todos juntos, vamos pra frente, Brasil. Salve a seleção! De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão!”. Sem patriotadas, o lema dos japoneses, talvez muito mais significativo do que "não vai haver copa", foi o silencioso "não vai haver lixo."

 

A corrente nipônica pra frente nos deu uma lição, que já rendeu os primeiros frutos. Na Fifa Fun Fest segunda-feira, em Copacabana, no Rio, turistas alemães, espelhados no exemplo vindo do Oriente, não apenas recolheram o lixo da praia, mas incentivaram outros frequentadores a ajudá-los.

 

Esse gesto de extrema delicadeza e refinamento, embora solitário, mostra que civilização não é abrir estradas, construir usinas, erguer pontes e viadutos, fabricar aviões, automóveis e robôs, clonar seres vivos. É saber se relacionar com o outro: gente, planta, animal, meio ambiente. É a qualidade dos gestos que torna a condição humana possível. Enquanto houver alguém juntando o lixo e nos deixando envergonhados de nossa imundície, o mundo não está totalmente perdido. Uma florzinha brota no esterco.

 

Foi um ato singelo, mas que renova nossas esperanças na espécie humana e no futuro do planeta. A bola, efetivamente, é um reles detalhe. Torcida japonesa, por despertar o Dersu Uzala que existe dentro de cada um de nós, domô arigatô gozaimasu.

 

 



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