Resumo Expandido
Carolina Pereira Malachias Coutinho
Hospital do Câncer / Departamento de Pediatria / Escola Especializada
Schwester Heine
INTRODUÇÃO
A Escola da Pediatria - Módulo Oftalmologia funciona desde dezembro
de 2002 e faz parte de uma gama de 3 módulos instalados nos locais que
atendem crianças no Hospital do Câncer A C. Camargo. Atende em média
530 pacientes por ano sendo 65% deles em idade entre 0 e 6 anos, 24%
entre 7 e 10 anos, 6% entre 11 e 14 anos, 4% entre 15 e 18 anos e 1%
com idade maior que 18 anos. 59% deles estão matriculados em escola
regular ou especial. 48% vem de outros estados do Brasil, 30% vem de
cidades do interior do estado de São Paulo e apenas 22% residem na
capital.
Os pacientes comparecem à Escola Módulo Oftalmologia para os
seguintes procedimentos médicos: avaliação oftalmológica, exame de
fundo de olho, aplicação de laser (TTT), crioterapia, controle de
Retinoblastoma, controle familiar de Retinoblastoma, curativo pós-
operatório, avaliação pré-cirurgica para correção estética (Ex:
reconstrução de órbita).
A maioria desses procedimentos está ligada ao Retinoblastoma que é o
tumor intraocular maligno mais freqüente na infância. Ele se origina
de células que formam parte da retina, pode invadir o nervo óptico e
atingir o sistema Nervoso Central. Classifica-se em esporádico (não
hereditário), onde a criança acometida é a primeira da família a
apresentar a doença e hereditário (germinal), onde os outros membros
da família podem apresentar a mesma doença ou histórias de tumores
ósseos. O Retinoblastoma pode aparecer em um ou em ambos os olhos e o
diagnóstico geralmente é feito até os 4 anos de idade.
Para ver o mundo com formas e cores, é necessário um nervo óptico e
uma retina intactos, sem alterações. Como o Retinoblastoma pode causar
alterações na retina, pode haver algum comprometimento visual, levando
o indivíduo a condição de visão sub-normal ou cegueira em um ou em
ambos os olhos. Existem casos de pacientes sem acometimento visual mas
em função do exame de fundo de olho, procedimento freqüente no Setor
de Oftalmologia, que implica na dilatação da pupila e conseqüentemente
visão turva para perto, apresentam alterações visuais.
RELATO DE PRÁTICA
Sendo essa a realidade dos pacientes, a escola trabalha com materiais
adaptados às necessidades dos alunos, materiais esses que ajudam a
tornar a aprendizagem significativa e auxiliam na alfabetização,
estimulação visual de bebês, estimulação tátil, olfativa, lateralidade
e organização espacial, discriminação de formas e cores, jogo
simbólico, seriação e classificação, seqüência, memória,
desenvolvimento da linguagem, familiarização de pontos, letras e
números em Braille. São produzidos na própria escola do hospital com
objetos reaproveitáveis e com auxílio de materiais específicos para
deficientes visuais já existentes no mercado, além disso podem ser
usados por qualquer tipo de criança, com ou sem visão sub-normal e
cegueira.
A adaptação desses materiais pedagógicos, dos de uso em projetos e as
formas de registros feitas pelos alunos, ajudam a garantir a adesão
deles às atividades propostas e a minimizar o desconforto causado pelo
tipo de atendimento oftalmológico do hospital.
Alguns exemplos de materiais voltados para:
ESTIMULAÇÃO DE BEBÊS: chocalhos com brilho e contrastes de cores
(estimulação visual), guizos para pés e mãos (reconhecimento
corporal).
ALFABETIZAÇÃO: alfabeto móvel em Braille de vários tamanhos e em tinta
ampliado com contraste preto/branco para alunos com visão sub-normal,
jogo de objetos a serem relacionados com suas respectivas escritas
adaptadas.
QUANTIDADE: jogos com números adaptados e com peças concretas para
contagem.
ESTIMULAÇÃO TÁTIL: dominó e jogo de memória com texturas, caixa tátil
com objetos dentro para serem identificados, pareamento de bolas com
texturas diferentes, jogo dos pesos para identificação das
características de alguns materiais e associação com o peso dos
mesmos.
ESTIMULAÇÃO AUDITIVA: jogo com diversos chocalhos onde o aluno tem que
fazer o pareamento através dos sons.
ESTIMULAÇÃO OLFATIVA: jogo dos cheiros onde cada pote contém coisas
com aromas distintos para serem identificados.
MEMÓRIA: jogo de memória com texturas para alunos com deficiência
visual e memória com peças grandes e com desenhos ampliados em preto e
branco para alunos com visão sub-normal.
DISCRIMINAÇÃO DE FORMAS E CORES: blocos lógicos de tamanho maior.
JOGO SIMBÓLICO: bonecas, coisas de cozinha, animais em miniatura.
SERIAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO: seriação por tamanhos, classificação de
formas geométricas e objetos de uso diário.
SEQÜÊNCIA: seqüência de histórias para serem montadas trabalhando a
percepção temporal.
DESENVOLVIMENTO DE LINGUAGEM: trabalho com objetos diversos em
miniatura para que os alunos possam montar e escrever suas histórias.
ENSINO BRAILLE: materiais para familiarização e aperfeiçoamento da
leitura e escrita Braille: células Braille feitas de caixa de ovo,
E.V.A., madeira, pinos feitos de bolas e pregos. INFORMÁTICA:
computador com software sintetizador de voz (virtual vision).
BIBLIOTECA BRAILLE: composta de livros didáticos, paradidáticos e
infantis em Braille, livros e revistas falados.
Alguns exemplos de materiais adaptados para serem usados em projetos:
MEIO AMBIENTE: foi necessário montar uma bandeja que caracterizasse
uma praia com água, areia, conchas, coqueiro, outra bandeja que
caracterizasse o campo com terra, montanha de argila, grama, animais
em miniatura, uma horta para os alunos plantarem sementes, regarem a
terra e acompanharem as plantas em suas diversas fases do crescimento.
MAPA MUNDI: foi necessário pegar um mapa grande, destacar os países em
relevo com cola colorida e trazer um globo terrestre.
BANDEIRA DO BRASIL: foi necessário fazer uma bandeira grande, onde
cada cor e forma eram representadas por texturas diferentes, a escrita
"ORDEM E PROGRESSO" foi feita em tinta e em Braille.
As atividades de leitura, escrita e desenho também são adaptadas.
Para uma pessoa com dificuldade visual desenhar, pode-se usar uma tela
para insetos ou uma folha de E.V.A embaixo da folha de sulfite presas
em uma prancheta, assim, o que for desenhado fica em relevo na parte
de trás da folha; para a escrita Braille é necessário uso da reglete e
punção. Já para o aluno com visão sub-normal, oferecemos materiais que
proporcionem contrastes usando cores mais fortes e contornos de linhas
mais definidos, cadernos ampliados com pautas mais largas e linhas
mais grossas, caneta preta de ponta porosa para contraste com as
linhas, lápis 3B ou 6B, folha sulfite contornada com fita adesiva
preta para que o contraste diferencie a folha branca da mesa
geralmente clara. Ampliamos letras, figuras e textos quando
necessário.
Acreditando na necessidade de uma continuidade do trabalho da Escola
da Oftalmologia em casa e na escola, pais e professores são orientados
em relação a como lidar, adaptar recursos e estimular seus filhos e
alunos de forma a garantir o desenvolvimento integral dos mesmos nos
aspectos psicoafetivo, cognitivo, sensório-motor, da sócio-interação,
comunicação e linguagem. É deixado à disposição deles um material
informativo para consulta sobre o Retinoblastoma, orientação e
mobilidade, visão sub-normal, formas de adaptações de materiais em
casa e na escola, manual de confecção de brinquedos voltados a
estimulação de Deficientes Visuais, etc.
Quando há necessidade, a escola da Oftalmologia vai atrás de
instituições/escolas especializadas para o encaminhamento dos
pacientes que estão sem atendimento pedagógico especializado muitas
vezes fora da cidade de São Paulo.
Os pacientes são periodicamente observados em relação ao seu
desenvolvimento. Cada um tem sua ficha de acompanhamento para que se
possa tomar as providências necessárias.
CONCLUSÕES
De acordo com o grande número de pacientes que necessitam de
orientações a seus pais e escolas, constata-se a importância do
atendimento específico na área da deficiência visual na Escola da
Pediatria - Módulo Oftalmologia. Percebe-se que o tipo de atendimento
prestado ajuda a criança a se familiarizar com o ambiente hospitalar,
minimiza o medo dos pacientes em relação aos procedimentos médicos,
acalma-os na hora da consulta, e auxilia médicos e a equipe de
enfermagem a fazerem os exames necessários com mais tranqüilidade.
Como em um primeiro momento a prioridade dos pais é a cura da doença
do filho e não tanto a reabilitação visual e as questões ligadas à
escolaridade, fica um pouco difícil orientá-los em relação a essas
questões e esperar que eles busquem prontamente os recursos indicados
mas mesmo assim, observamos que há adesão e participação na maior
parte dos casos.
É de suma importância o envolvimento da escola regular ou especial do
paciente nesse processo. Sem esse envolvimento, o trabalho não é tão
efetivo e para fluir, uma parceria tem que se estabelecer: escola
devidamente orientada e família envolvida!
"A criança cega ou com baixa visão pode se desenvolver muito bem desde
que tenha acesso à educação com métodos e recursos adequados, que
prepare seus sentidos para conhecer o ambiente, que tenha participação
na vida familiar, amor, carinho e otimismo em seu ambiente. Isso é
fundamental para ajudá-la a ter bom desenvolvimento afetivo e
emocional, condição necessária para um pleno e harmonioso
desenvolvimento global. As brincadeiras e os brinquedos são muito
importantes em sua vida."
Mara O de Campos Siaulys
PALAVRAS-CHAVES
Retinoblastoma, deficiência visual, visão sub-normal, intervenção
pedagógica e encaminhamentos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SIAULYS, Mara O. Campos Brincar para todos. São Paulo: Laramara, 2005.
SIAULYS, Mara O. Campos Papai e mamãe, vamos brincar? São Paulo:
Laramara, 1997.
SIAULYS, Mara O. Campos Brincar juntinhos. São Paulo: Laramara.
BRUNO, Marilda M. G. O desenvolvimento integral do portador de
deficiência visual. São Paulo: Laramara, 1993.
BRUNO, Marilda M. G. Deficiência visual: reflexões sobre a prática
pedagógica. São Paulo: Laramara, 1997.
HADAD, Maria A O, SAMPAIO, Marcos W. e JOSÉ, Newton K. Auxílios para
baixa visão volume I. São Paulo: Laramara, 2001.
MIN, Hsu Y., SAMPAIO, Marcos W. e HADAD, Maria A O Baixa visão:
conhecendo mais para ajudar melhor. São Paulo: Laramara, 2001.
MAZINI, E. F. S. O perceber e o relacionar-se do deficiente visual.
Brasília: CORDE, 1994.
SÉRIE ATUALIDADES PEDAGÓGICAS 6: programa de capacitação de recursos
humanos do Ensino Fundamental - Deficiência visual, volumes 1, 2 e 3,
MEC.
www.mec.gov.br
www.hcancer.org.br
www.espaçorealmedico.com.br
www.caccdurvalpaiva.org.br
www.tucca.org.br