A) Caracteristicas Gerais do Sistema de Ensino Sul-Africano
A educação é compulsória na África do Sul do ano 1 (ingresso aos 6 anos de idade) ao ano 9 (ingresso aos 14 anos de idade). O ano R (ingresso aos 5 anos de idade) e os anos 10-12 (15-17 anos de idade) são opcionais, mas os anos 10-12 são obrigatórios para ingresso no ensino superior.
As escolas sul-africanas dividem-se em três classes: escolas independentes (particulares), escolas públicas pagas, e escolas públicas gratuitas. As escolas independentes cobram anuidades de todos os alunos e são normalmente as melhores e mais caras, mas atendem apenas menos de 5 % dos alunos sul-africanos. As escolas públicas pagas, por sua vez, correspondem geralmente às antigas escolas públicas "para brancos apenas" no tempo do Apartheid. Apesar de serem públicas,elas são parcialmente autofinanciadas pela cobrança de mensalidades dos alunos e outras fontes de financiamento privado e incluem professores e instalações pagos por fundos próprios administrados pelo Junta Diretora da Escola (School Governing Body) independentemente do Estado. Muitas das escolas públicas pagas mais tradicionais, algumas entre as mais antigas escolas de estilo ocidental da África do Sul, oferecem ensino de qualidade comparável às escolas particulares a preços mais acessíveis. Finalmente, as escolas públicas gratuitas correspondem a todos os estabelecimentos de ensino que não se enquadram nas duas categorias anteriores (hoje, cerca de 80 % das escolas do país). As escolas públicas gratuitas não cobram anuidades de alunos domésticos e, assim, recebem proporcionalmente mais fundos públicos para se manter do que as escolas públicas pagas. Como no Brasil, entretanto, a qualidade do ensino no setor público gratuito é mais baixa do que nas escolas pagas e, em alguns casos, principalmente nas escolas encontradas nas zonas rurais ou nas favelas urbanas (informal settlements), são de nível muito baixo.
Outro aspecto importante do sistema de ensino sul-africano tem a ver com o fato de a África do Sul ser um país multilíngue com 11 línguas oficiais, incluindo duas línguas europeias (o inglês e o Afrikaans. em português africâner, também chamado "holandês da África do Sul" ou "holandês do Cabo") e outras nove línguas nativas africanas (as mais comuns das quais são os isiZulu e o isiXhosa).. A constituição sul-africana garante em tese a todos os alunos o direito de estudar na língua oficial de sua escolha, desde que isso seja "praticável" (praticable). Na prática, os alunos sul-africanos são normalmente ensinados na língua doméstica da maioria do corpo discente da escola do ano R (ano zero) até o fim do ano 3. A partir do ano 4, a política oficial do atual governo sul-africano é que todos os alunos sejam ensinados em inglês em todas as matérias com uma segunda língua oficial sul-africana estudada apenas como uma matéria separada de línguas. A única exceção relevante a essa regra é um segmento minoritário de escolas, incluindo muitas escolas públicas pagas, onde a língua principal de instrução do ano zero ao ano 12 é o africâner. As escolas de língua africâner, cujo número segue uma tendência declinante, atendem cerca de 10 % da população estudantil e concentram-se principalmente na província do Cabo Ocidental (onde o africâner é a língua majoritária) e algumas partes da província de Gauteng.
O africâner especificamente é uma língua indo-europeia do ramo germânico derivada dos dialetos do holandês falados na antiga colônia holandesa do Cabo nos séculos XVII e XVIII. Entre o fim do século XIX e o início do século XX, o africâner foi padronizado como uma língua escrita separada com ortografia, gramática, vocabulário e pronúncia diferentes do holandês, mas as duas línguas ainda são mutuamente inteligíveis, especialmente na versão escrita, não tanto quando faladas. Apesar de ter um número pequeno de falantes nativos (cerca de 7 milhões), o africâner tem um corpo literário bem extenso e, apesar da hostilidade atualmente à língua por parte do governo do Congresso Nacional Sul-Africano (ANC), o intercambista brasileiro na África do Sul provavelmente encontrará livros, jornais, revistas e programas de rádio e televisão em africâner durante a sua estadia no país. O inglês, por sua vez, apesar de ser falado nativamente por apenas 9.8 % da população sul--africana (censo de 2011) é a língua dominante da administração pública, educação, mídia, e negócios, além da língua franca entre grupos de línguas nativas diferentes. O intercambista não terá problemas então em viver no país falando inglês apenas.
B) Estrutura do Currículo do Ensino Médio na África do Sul
O currículo sul-africano do ensino médio , que deve ser seguido por todas as escolas do país, exige que, nos anos 10 a 12, o aluno curse obrigatoriamente pelo menos sete matérias por ano, incluindo, em cada um dos três anos:
1. Duas línguas oficiais da África do Sul, sendo uma cursada obrigatoriamente no nível Home Language (HL) e a outra cursada pelo menos no nível First Additional Language (FAL). Praticamente 100 % dos alunos secundários cursam Inglês (17 % como HL e 83 % como FAL em 2015); a segunda língua mais estudada é o isiZulu (25,3 % como HL e 2,6 % como FAL em 2015), seguido do Africâner ou "holandês da África do Sul" (8,2% como HL e 13,3 % como FAL em 2015). Cada uma das duas línguas cursadas deve ter 4,5 horas semanais de instrução presencial (num total, portanto, de 9 horas semanais para as disciplinas obrigatórias de línguas).
2. Matemática (Mathematics), ou uma disciplina alternativa mais simples de Mathematical Literacy, ambas com 4,5 horas semanais de instrução presencial. Alunos que desejam ingressar em determinados cursos universitários como Economia, Engenharia, Medicina e Bacharelados em Ciências têm obrigatoriamente que cursar Mathematics ao invés de Mathematical Literacy.
3. Três disciplinas adicionais de escolha eletiva, cada uma da quais com 4 horas semanais de instrução presencial (num total, portanto, de 12 horas semanais para as disciplinas eletivas). Exemplos de disciplinas eletivas comuns são: Physical Sciences (examinada em duas provas separadas com igual peso, respectivamente de química e física, e obrigatória para ingresso em cursos superiores como Engenharia e Medicina); Life Sciences (biologia); História; Geografia; Economia; Contabilidade (Accounting),; Business Studies; Ciências Agrícolas (Agriculture Sciences); Estudos Religiosos (Religion Studies); Information Technology; Engineering Graphics and Design; uma terceira língua, ou uma disciplina de Artes (Dramatic Arts, Visual Arts, ou Music).
4. Uma disciplina obrigatória de Life Orientation com duas horas semanais de instrução presencial incluindo orientação vocacional, educação moral e cívica, e higiene/saúde pessoal.
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As disciplinas a serem cursadas nos anos 10 a 12 são escolhidas pelo aluno geralmente no final do ano 9 (sujeito às restrições explicadas anteriormente) Com exceção de Life Orientation, todas as demais disciplinas estudadas são examinadas no fim do ano 12 em provas nacionais externas, que representam tipicamente 75 % da nota final do aluno na matéria naquele ano e podem cobrir às vezes conteúdo dos três anos do ensino médio . Os exames nacionais públicos são os mesmos em toda a África do Sul, mas são aplicados e corrigidos independentemente em cada uma das províncias (equivalentes sul-africanos de "estados") sob supervisão dos departamentos de educação de cada província. Os exames podem ser feitos opcionalmente em inglês ou em africâner. Algumas escolas particulares usam alternativamente aos exames públicos as provas preparadas e corrigidas pelo Independent Examinations Board (IEB), que é uma corporação privada independente licenciada pelo Ministério da Educação para aplicar exames escolares. As provas do IBE baseiam-se no currículo nacional sul-africano e, apesar de serem consideradas geralmente mais difíceis que os exames públicos, levam ao mesmo certificado de conclusão do ensino médio.
Finalmente, além das sete matérias listadas acima, os alunos, principalmente nas escolas particulares, têm a opção de cursar uma oitava disciplina adicional como Advanced Programme (ortografia britânica) , incluindo conteúdo programático do curso superior. No momento, disciplinas AP são geralmente disponíveis apenas em matemática e inglês e implicam uma carga horária adicional às 27,5 horas semanais obrigatórias listadas acima.Disciplinas AP não são parte do currículo nacional e são examinadas apenas em provas do IEB. Esportes como rugby, cricket, atletismo, etc. são também frequentemente oferecidos como atividades extracurriculares (fora da grade horária obrigatória). A prática de um esporte é às vezes compulsória, especialmente nas escolas particulares e nas escolas públicas pagas, embora essa obrigatoriedade não esteja prevista no currículo nacional
O intercambista brasileiro em particular para atender às exigências do vestibular brasileiro deve cursar preferencialmente Mathematics (e não Mathematical Literacy) . O currículo de Mathematics nos anos 10 a 12 cobre aproximadamente o mesmo programa de matemática do ensino médio do Brasil exceto matrizes e números complexos, mas inclui alguns tópicos adicionais não vistos no Brasil no ensino médio como limites e noções de derivadas para funções reais de uma variável real. Se o intercambista estudar numa escola (geralmente particular) onde Advanced Programme Mathematics estiver disponível, vale a pena cursar essa matéria também para cobrir números complexos e aprender tópicos avançados vistos no Brasil só na faculdade como uma tratamento mais completo de cálculo diferencial do que em Mathematics e noções de cálculo integral. Em geral, recomenda-se também ao intercambista cursar English HL ou English FAL; Physical Sciences (que cobra mais ou menos o programa de física e química do ensino médio brasileiro). e Life Sciences (que cobre mais ou menos o mesmo conteúdo de biologia do ensino médio brasileiro). Vale a pena também escolher como terceira eletiva uma matéria de humanidades como History ou Geography, embora o currículo de história e geografia na África do Sul, como ocorre nos países de língua inglesa em geral, seja bem diferente do brasileiro e não seja adequado para preparação para o vestibular. Finalmente, é importante ressaltar que alunos estrangeiros como intercambistas são geralmente isentos da obrigatoriedade de estudar uma segunda língua sul-africana na escola e podem substituí-la, quando disponível, por uma língua estrangeira como francês ou alemão.
C) Conclusão do Ensino Médio e Ingresso no Ensino Superior na Áfru
O certificado nacional do ensino secundário (National Senior Certificate, ou NSC), equivalente ao diploma básico do ensino médio no Brasil, é concedido a alunos que satisfizerem as seguintes condições abaixo no fim do ano 12 :
1. Nota mínima 40 % em três das sete disciplinas, incluindo obrigatoriamente a língua oficial cursada no nível HL , mais
2. Nota mínima 30 % em três outras disciplinas.
Para obtenção do NSC com eligibilidade para ingresso em um curso de graduação (bacharelado) em uma universidade pública sul-africana, exige-se, entretanto, no fim do ano 12:
⦁ Nota mínima 50 % em quatro das sete disciplinas, excluindo Life Orientation, e incluídas na lista de disciplinas aceitáveis como preparação acadêmica para o ensino superior, mais
⦁ Nota mínima 30 % em três outras disciplinas cursadas, incluindo obrigatoriamente a língua de instrução da universidade pretendida pelo menos no nível FAL, e
⦁ Nota mínima 40 % na língua oficial cursada no nível HL.
Na prática, como o número de candidatos com as qualificações mínimas para ingresso no bacharelado costuma ser maior que o número de vagas nos cursos mais concorridos, as universidades públicas sul-africanas costumam classificar os candidatos a partir do seu score agregado (com ou sem ponderação) nas matérias cursadas no ensino médio (excluindo Life Orientation) e preenchem as vagas disponíveis a partir de uma nota de corte, de facto bem maior que as notas mínimas. Mais raramente, para ingresso em algumas graduações específicas, as universidades podem usar ainda outros exames como os National Benchmarking Tests (NBTs), cuja nota é então composta com a nota agregada do ensino médio para fins de classificação dos candidatos.
As opções AP (por exemplo em matemática e inglês) são examinadas também externamente em provas nacionais, mas a sua nota final não faz parte do NSC e não é usada pelas universidades públicas sul-africanas para classificação ou seleção de candidatos a ingresso no curso de bacharelado,
Observação: Note que, no contexto do currículo sul-africano, o termo Home Language (literalmente, "língua doméstica" em português) se refere apenas ao nível em que a língua é ensinada, e não necessariamente à língua efetivamente usada pelos alunos em casa ou à sua primeira língua adquirida. É comum, por exemplo, que inglês seja cursado no nível HL por um número considerável de alunos cuja língua doméstica não é o inglês. As demais línguas oficiais como o africâner e o isiZulu por exemplo costumam, porém, ser cursadas no nível HL apens por falantes nativos. A maioria (mais de 75 %) dos alunos que cursam Inglês HL geralmente cursam Afrikaans FAL.