Nestetexto trazemos mais uma pequena resenha de um livro da nossa bibliografia geral de referncia, que possui ttulos dos campos do planejamento urbano, engenharia legal e diagnstica, economia, tecnologia, dentre outros.
Apresentamos o clssico livro Histria da Cidade, de autoria do arquiteto e urbanista italiano Leonardo Benevolo, que foi um dos mais importantes historiadores e crticos da Arquitetura do mundo Ocidental.
Histria da Cidade conta a histria das cidades e percorre as grandes mudanas da organizao produtiva que transformaram a vida cotidiana dos homens e produziram, em cada etapa, um salto no desenvolvimento demogrfico.
Benevolo estudou arquitetura na Universidade de Roma, onde se graduou em 1946. Ensinou histria da arquitetura no Ateneo, e depois nas Universidades de Florena, Veneza e Palermo. Seus escritos foram disseminados e traduzidos para muitos idiomas, rendendo ao arquiteto fama internacional a ponto de ser reconhecido hoje em dia como um dos historiadores mais ilustres da arquitetura e urbanismo.
O arquiteto estudou a evoluo dos vrios movimentos e tendncias, abordando no apenas os trabalhos e projetos mais emblemticos, mas tambm a influncia que a arquitetura exerceu no desenvolvimento da tecnologia e da indstria, o aparecimento de movimentos de vanguarda, as mudanas e transformaes socioeconmicas e polticas.
Alm da atividade acadmica, Leonardo Benevolo desenvolveu uma intensa atividade profissional, como a construo da nova sede da Feira de Bolonha e os planos diretores de Ascoli Piceno, de Monza e do centro histrico de Bolonha e o plano regulatrio de Monza, entre outros. Em Brscia, tinha um escritrio onde trabalhava com os seus filhos Alessandro e Luigi.
Benevolo obteve reconhecimento internacional por defender de forma pioneira uma viso integrada entre a Arquitetura e o Planejamento Urbano: o espao, a sua utilizao e quem o ocupa forma um todo s e no pode ser dissociado.
Como fica evidente pela listagem dos captulos, o fio condutor do livro o nascimento e as transformaes do ambiente urbano na Europa e no Oriente Prximo. O autor leva em conta os acontecimentos em outras reas - Extremo Oriente, frica e Amricas - sob o ponto de vista europeu, descrevendo as cidades nativas encontradas pelos europeus e as construdas em consequncia da colonizao europia.
A partir da leitura possvel entender que a formao das cidades se deu por necessidade, por questes econmicas e a arquitetura frequentemente esteve vinculada a posies de poder. O territrio sempre teve lugar de destaque e certamente foi a cidade que se adequou a ele e no o contrrio. As intervenes feitas na paisagem foram de extrema importncia para a expanso do territrio e a gua foi um fator determinante para a localizao das cidades.
Uma concluso conceitual que pode ser extrada do livro que as cidades no existem por uma necessidade natural, mas uma necessidade histrica, que tem um incio e pode ter um fim. Nas palavras de Benevolo:
Esta foi uma resenha de um livro da nossa bibliografia geral de referncia, que possui ttulos dos diferentes campos a respeitos dos quais tratamos aqui, com os quais trabalhamos e sobre os quais estudamos. Em textos subsequentes continuaremos com outras resenhas e anlises de obras, intercalando-as com os outros tipos de artigo.
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Os ensaios reunidos em A cidade e o arquiteto so referentes s ideias encontradas na vasta obra de Leonardo Benevolo (1923-2017). Arquiteto e historiador de arquitetura, estudou em Roma, licenciando-se em 1943. Este conjunto de textos apresenta uma srie de problemas que surgem a todos os estudiosos de arquitetura, onde num vrtice est o arquiteto, esforando-se por no renunciar a um estudo e a um projeto unitrio do ambiente fsico onde se desenvolve a vida de todos os outros; da partem muitas linhas de ligao a uma quantidade de problemas distribudos pelos horizontes da cultura e da vida de hoje.1. A forma como distribui os ensaios vai de encontro resoluo do mapa de problemas que apresenta. Procura, ento, analisar a noo de cidade enquanto cenrio fsico da vida humana e como corpo social, o desenvolvimento da cidade moderna, fazendo uma reflexo e questionando-se sobre a beleza da mesma, e, por fim, pondera sobre a conservao das cidades antigas.
Esta obra faz uma anlise alargada de conceitos relacionados com a histria da arquitetura, e permite a compreenso dos mesmos, em diferentes contextos culturais e geogrficos. Uma reflexo do maior interesse acerca do visionamento da cidade enquanto documento histrico, por parte de Benevolo, passa pelo assinalar da diferena entre a cidade enquanto cenrio fsico e corpo social: mesmo que a populao desaparea, as evidencias fsicas permanecem, as quais correspondem organizao social contendo as mais
preciosas informaes sobre a sociedade em causa, permitindo estud-las. Isto assemelha-se analogia que Jouvet fez em relao arquitetura como o grande corpo vivo de um mistrio passado.2 . H, por parte de Benevolo, uma compreenso da cidade enquanto organismo vivo, ainda que o mesmo afirme que nem sempre a cidade e a sociedade andem de mo dada, pois s funcionam em pocas felizes e quando h estabilidade suficiente para se suportarem uma outra. Cidade enquanto conceito e definio algo varivel, tendo em conta as diferentes pocas e perodos histricos pelos quais passa. As duas definies que apresenta so a emprica e a cultural, sendo que a segunda definio, no faz um corte nos setores que constituem a cidade, dividindo a estrutura cultural e social, como a primeira.
interessante analisar a preocupao do autor para com a questo da pesquisa histrica. Faz um percurso que nos leva do Renascimento, at cidade moderna. Afirma que devemos ter um raciocnio global, tendo em conta contributos como Cantimori ou Garin, para o qual o Renascimento foi uma quebra no equilbrio de setores claramente separados. Menciona ainda grandes autores como Burckhardt (1860), Pater (1873), cujas obras de sntese fazem um confronto entre os vrios setores, no pondo em dvida a sua continuidade, separadamente, tal como Huizinga3 que discute as fronteiras no existentes entre setores contguos.
Benevolo acaba por tomar uma atitude mais partidria, afirmando que a Histria de Arte e os seus operadores de memria4 como resistentes ao estudo arquitetnico. Acredita haver pouco trabalho por parte dos historiadores de arte no que toca cidade, e os trabalhos que produzem ainda pem em evidncia o isolamento de uma abordagem que se pretende plenamente autnoma (a arquitetura). Excetua autores como Francastel e Jos Augusto Frana. Benevolo cr em assegurar que os historiadores de arte apenas se preocupam em autonomizar a arte na sua esfera terica ou numa perspetiva histrica meramente ocidental. Atravs do seu conceito analtico, a cidade renascentista acaba por libertar o trabalho criativo de um aparelho corporativo, aproximando-o dos rgos que detm o poderio.
A partir do Renascimento, no possvel chancelar a correspondncia entre a cidade e sociedade. Na perspetiva do autor, nasce uma nova definio de cidade, a qual deriva da autonomia concedida arte: a cidade enquanto conjunto das qualidades formais do ambiente. Relembra-nos das diferentes fases pelas quais esta cidade passa: a cidade ideal, o modelo absoluto de Versailles e a aparente estabilizao da mesma com a cidade burguesa. Assim, comea a elencar, definir e caracterizar as cidades provenientes do modelo burgus.
Com a revoluo industrial h um desenvolvimento em pleno, mais clere, o qual, procedente do aumento demogrfico, habitacional e dos servios, pe a tnica na problemtica da planificao urbana. O caso europeu permite distinguir modelos distintos e sucessivos da cidade. Enuncia a cidade liberal, a ps-liberal, a ps-liberal corrigida, a cidade moderna e, por fim, a cidade ps-liberal recorrigida. Engles vai caracterizar a cidade liberal como produto da paisagem urbana marcada pela condio da classe operria do sculo XIX, origem da desordem planimtrica. Assim sendo, a pesquisa histrica torna-se inegavelmente fulcral, verificando a cidade enquanto uma estrutura histrica varivel no tempo, segundo modalidades sempre variveis.
O ambiente contemporneo acaba por ser caracterizado, acima de tudo, pelos efeitos provenientes do desenvolvimento industrial. A cidade industrial difere, em muito, da pr-industrial, principalmente ao nvel da aglomerao contnua, sendo que cada transformao vai prever a seguinte e o acentuado contraste cidade-campo. , no entanto, fulcral analisar os problemas que destas caractersticas advm. Os inconvenientes da industrializao deram origem a duas vertentes: Stuart Mill e Spencer, por um lado, que lamentam a eliminao dos velhos preceitos, recusando-se a acolher os novos regulamentos; Owen, Fourier e Cabet, pelo contrrio, levam ao extremo o conceito de gesto planificada.
Benevolo realiza uma distino do maior interesse entre engenheiros e arquitetos. Denomina os engenheiros como algum que recebe uma formao base em cincias puras, enquanto que o arquiteto algum com uma liberdade ilusria num campo separado da experincia comum. H, por parte do autor, uma viso extremamente potica em relao ao arquiteto, enquanto criador de coisas belas e maiores, ainda assim, conduzindo todo este manual de problemas, de uma forma extremamente lgica e racional.
Em relao cidade ps-liberal corrigida (cidade moderna), caracteriza-se por um avano moderno da conceo e vivncia da, e na, cidade. A sua interveno chega a uma escala internacional ao nvel da Europa central e setentrional, sendo que a sia, frica e Amrica Latina so padecentes de um desenvolvimento desigual: um carter fragmentrio e regressivo, contrariando a europa unitria e progressiva. Mas, ao analisar a cidade moderna, Benevolo abre as portas para uma questo fulminante: A cidade moderna poder ser bela? D como exemplo Piazza Navona, pr-industrial, palco de sucessivas alteraes e contributos, todavia consegue atingir um elevado grau de beleza. O belo o esplendor da verdade5, considerando a beleza como um tema crucial e cita Mondrian o qual afirma a beleza realizada na vida: isto tem de ser mais ou menos possvel no futuro.
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