Prezado Pedro
Parece-me bem oportuno o seu texto,
notadamente a parte relativa ao efeito debilitador do pensamento
reencarnacionista. Por um lado, o conforto da segurança da sobrevivência,
por outro, a pressaga solidão no esforço de progredir, em vista da falta de um
maior estímulo de origem divina, que enriqueça e amplie os
caminhos possíveis.
Já tive ensejo de dizer para o Andrino que dei
outrora grande valor à série de livros "Com Deus", de Neale Donald
Walsch, cujas idéias vim a abandonar depois que encontrei o LU. Aquela
série defende a tese de ressurreição natural e automática para todos,
embora não sustente as outras duas teses luciferianas. Mas concede-nos
ampla liberdade e conclama-nos a fazer uso dessa liberdade para tranformar o
mundo no que de melhor possamos conceber. Noutras palavras, Deus ter-nos-ia
concedido a posição de pontas-de-lança da Criação, ao mesmo tempo que nos
responsabiliza por tudo de problemático que tem acontecido. E propõe que
passemos a pensá-lo de forma diversa da que tem sido usada até agora,
e isso para entrarmos em contato com o Deus como realmente é, em vez de com as
limitações que Lhe temos atribuído.
Dei muito valor à segurança e à liberdade com que
contamos, segundo esses livros, mas sentia-me incompetente para ser responsável
pelos caminhos da Criação. Penso que seriam
bem pobres as nossas realizações no grande caminho, caso tivéssemos
que ficar adstritos apenas à nossa capacidade inventiva. Seguir a
iniciativa do Pai, integrar-nos num plano de origem divina e de amplitude além
da nossa capacidade, parece-me mais confiável e promissor. Muita liberdade
muito cedo pode dar lugar a problemas, lê-se no LU. E cheguei à conclusão
de que a autonomia dos sistemas, pretendido por Lúcifer, poria fim à unidade do
todo e não levaria a Criação aos melhores ressultados possíveis.
Diferentemente de você, penso que Lúcifer era
sincero, embora fosse limitado em amplitude de visão, amor e criatividade. Suas
idéias, sobretudo sua negação da realidade do Pai, se inseriam numa
concepção de desamor e escassez. Tendiam mais para a dominação que para a
harmonia. Eis por que só vejo sentido em afirmar a Realidade do Pai,
Ele é indispensável à unidade do todo. E por que prefiro seguir a Sua
iniciativa, deixando para quando tiver alcançado maior aprendizado, o uso menos
tímido da Liberdade.
Fica imediatamente claro quão importantes são as
Revelações, quão importantes são as mensagens que nos dão notícia dos caminhos próximos possíveis - e que nos permitam evitar
os repetidos recomeços, os ensaios em busca de não se sabe o que, o
esforço solitário para progredir com as escassas luzes pessoais, quando podemos
beneficiarmo-nos das qualidades de um Plano da mais alta origem e que já vem em
andamento desde a origem do Tempo.
Disse o Andrino, numa de suas respostas, que as
idéias do LU "talvez seja uma boa história para se contar para
as crianças, antes de dormir, mas não para seres inteligentes, que têm um
cérebro investigativo" Nesse caso, os seres que são ditos inteligentes
teriam que se orientar necessáriamente por uma perspectiva de escassez,
considerando que ao Criador faltam meios para por em andamento uma Obra mais
perfeita, mais rica, mais de acordo com a Grande diretriz que a tudo rege.
Tratar-se-ia no caso, de seres descrentes do Criador, seres que poriam em dúvida
a capacidade, se não a existência do Pai, noutras palavras, seres contaminados
pelas teses luciferianas. Ainda bem que a inteligência não implica
necessáriamente tantas limitações, ainda bem que podemos contar com luzes
advindas de fontes mais esclarecidas e não apenas com os fracos recursos de quem
se coloca, talvez por circunstância pessoal, em marcha solitária pelos meandros
da escassez. Mas mesmo quem assim o faz, pode contar com a riqueza de qualidades
do Criador, entre as quais tem lugar de destaque a
Misericórdia.
O Mestre, cuja mensagem punha grande ênfase em
nossa condição de filhos, disse que o melhor que podemos fazer é encarar o Pai
com a confiança e entrega com que as crianças se relacionam com seus pais
terrenos. E confiar no pai é considerá-lo sábio, capaz e cheio da
melhor boa-vontade. Pois embora seja verdade que os pais terrenos
podem não ser tão sábios nem tão capazes, não há por que pensar o mesmo do Pai
Universal.
Tenho preferência pela mensagem do LU, não por um
impulso apenas emocional, mas pela ponderação das idéias apresentadas,
tendo em vista a amplitude, a coerência e sobretudo a riqueza das possibilidades
que se descortinam. Não vejo sentido em movimentar-me segundo uma
perspectiva de escassez, como se o Criador fosse incapaz, por carência de
recursos internos ou externos, de dar à Criação mais ricos
horizontes.
Fraternalmente
F. Santos