Prezad@s
Compartilho com todas e todos essa excelente notícia.
O povo Kotiria (Wanano) do alto rio Waupés vem lutando há anos pelo fortalecimento de sua língua, e a Educação Escolar foi uma das estratégias adotadas por eles.
Lembro que a partir da participação de vários professores Kotiria no curso de Formação de Professores Indígenas, decidiram se unir para fortalecer a sua língua por meio das atividades pedagógicas. Durante a primeira oficina de linguística realizada em 2002, fundaram a Escola Indígena Khumuno Wʉ'ʉ Kotiria e formaram a Associação da Escola. Desde então, buscaram apoio institucional dos órgãos de governo, como a Secretaria Municipal de Educação, e também de organizações não governamentais, bem como parcerias com pesquisadores de várias áreas interdisciplinares.
Atualmente, a Escola Indígena representa o espaço escolhido pelos Kotiria para continuação da resistência ao processo de aculturação que lhes foi imposto, bem como para manter e fortalecer a sua língua e cultura. Mas por que tomaram essa decisão?
No Brasil, a população Kotiria é de aproximadamente 400 pessoas que contraem casamentos preferencialmente com os grupos Kubeo, Tukano, Desano, Baniwa e Tariana, os últimos dois pertencentes à família linguística Aruak. Tanto os Tukano, Desano e Tariana em sua maioria adotam, atualmente, a língua tukano como primeira língua.
Em razão desses processos de mudança linguística, surgia um problema: a grande maioria dos jovens e crianças Kotiria estavam utilizando cada vez mais a língua materna (predominantemente Tukano) e a língua portuguesa, em detrimento da língua Kotiria. Embora sendo língua identitária dos pais, seu uso no cotidiano se dava mais entre os mais idosos. Da mesma forma os rituais sagrados estavam sendo esquecidos, pois os jovens se interessavam mais pelas músicas e culturas não indígenas.
Diante disso, os professores e as lideranças indígenas, com o apoio dos parceiros, iniciaram um processo de repensar a escola, começando com a elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP), importante instrumento de “expressão da autonomia e da identidade escolar, referência na garantia do direito a uma educação escolar diferenciada, por apresentar os princípios e objetivos da Educação Escolar Indígena de acordo com as diretrizes curriculares instituídas nacional e localmente, bem como as aspirações das comunidades indígenas em relação à educação escolar” (Parecer CEB/CNE nº 13/2012, pg. 22).
Ressalto que, em atos normativos editados pelo Conselho Nacional de Educação do Ministério da Educação está explicito que o PPP deve estar ligado intrinsecamente ao projeto de vida e bem-viver das comunidades indígenas, respeitando suas culturas, línguas, tradições e calendários tradicionais.
Lembro ainda que durante o processo de elaboração do PPP, que levou aproximadamente 3 anos, as comunidades Kotiria realizaram diversas oficinas de linguísticas para definirem a escrita desta língua e também produzirem livros e outros materiais didáticos para as suas escolas.
Acompanhei os trabalhos pedagógicos desta escola, juntamente com outros profissionais da área de linguística, antropologia, agronomia, dentre outros por mais de 6 anos. Muito embora tenha muitos avanços e conquistas, principalmente no que diz respeito ao fortalecimento do uso da língua entre as gerações mais novas, a execução da política de educação escolar indígena pelos sistemas de ensino estaduais e municipais é complexa e requer o desenvolvimento de estratégias de trabalho específicas e dialogadas com os povos indígenas, e, neste ponto, pouco se tem avançado em todo o país.
Os Kotiria, que há quase 20 anos se dedicam a esse trabalho, apesar das dificuldades, estão conseguindo fortalecer a sua língua e rituais. Seus esforços servem de modelo e inspiração para outros grupos da região e do Brasil que também estão no momento de definir estratégias para fortalecimento de suas línguas e tradições.
Orgulho-me muito de ter trabalhado com os Kotiria, pois eu também sou indígena do povo Baré de São Gabriel da Cachoeira, e com eles pude aprender muito, principalmente sobre a importância de trabalhar de forma comunitária, pensando sempre no bem-viver de todas e de todos.
Lucia Alberta Andrade de Oliveira
Excelência em Prêmios de Lingüística Comunitária anunciada para 2019
Quarta-feira, 5 de dezembro de 2018 - 13:13
A LSA tem o prazer de anunciar a seleção de dois destinatários para o Prêmio Excelência em Lingüística Comunitária para 2019:
· Associação das Escolas Indígenas Khumuno Wʉ'ʉ Kotiria (ASEKK). Uma colagem de fotos da escola é retratada à esquerda abaixo.
· Nancy Richardson Steele, Karuk Tribe e os defensores da sobrevivência da língua indígena da Califórnia ( foto à direita ).
Os prêmios serão entregues em uma cerimônia especial na Reunião Anual da LSA, no sábado, 5 de janeiro de 2019, às 18:00 horas, no Empire Ballroom do Sheraton Times Sq Hotel em Nova York, NY.
Estabelecido pela primeira vez em 2013, este prêmio reconhece as contribuições extraordinárias que membros de comunidades linguísticas (normalmente fora da esfera acadêmica de linguistas profissionais) fazem em benefício do idioma de sua comunidade. As contribuições feitas pelos premiados podem ser variadas, incluindo, entre outras coisas, o trabalho de documentação com um lingüista como consultor e os esforços para a revitalização da linguagem.
Atenciosamente,
Lucia Alberta Andrade de Oliveira
Coordenadora-Geral de Educação Escolar Indígena
CGEEI/DPECIRER/SECADI/MEC
Fone: (61) 2022-9068/9060
Educação Escolar Indígena específica, diferenciada, intercultural, bilíngue e multilíngue!
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