|
OS 4 MACACOS
Jorge Linhaça
Nos plúmbeos tempos da
Ditadura Militar, era bastante comum vermos sobre as cômodas
ou penteadeiras um conjunto de três macacos. Um tampando os
olhos, outro tampando os olhos e outro a tapar os
ouvidos.
Não sei se aquilo era uma
forma de protesto contra o regime implantado ou um sonoro
lembrete sobre o perigo de ver, ouvir ou comentar o que
ocorria em nosso país.
Esses bibelôs ( assim como
esta palavra ) foram caindo em desuso assim como o pinguim de
geladeira, a boneca dorminhoca e as colchas de chenil.
Talvez a abertura política e o
inconsciente coletivo tenham contribuído para
isso.
No entanto, é inegável que
esses simpáticos símios fizeram escola entre todas as classes
do nosso país.
Parece-me que a sua simbologia
ficou tão arraigada nas gerações da época que acabou por ser
transmitida até os dias atuais.
Nem vou aqui comentar sobre as
muitas comunidades dominadas pelo crime organizado onde os
macacos são lei.
Vou me ater a comentar sobre o
comportamento das pessoas em geral, independente de sua classe
social.
Não é preciso muito esforço
para perceber-se que as pessoas , em sua grande maioria,
preferem não se pronunciar com respeito a coisas polêmicas ou
mesmo sobre algo que possa afetar a sua popularidade seja em
que esfera for.
A maioria também prefere
fingir que nada vê sobre os descalabros praticados por
políticos, empresários ou mesmo sobre os famosos endeusados
pela mídia.
Fecham também os ouvidos a
tudo que possa parecer contestatório, geralmente com a
desculpa de que não entendem o suficiente sobre determinado
assunto para que possam manifestar-se.
Temos portanto, cada vez mais,
criado uma geração de cegos, surdos e mudos, incapazes de
desenvolver o próprio senso crítico. Alguns alegam que
isso se deve em boa parte aos bancos escolares, o que não
deixa de ser uma verdade até certo ponto, no entanto, a escola
é um microcosmo que , via de regra, reproduz aquilo que ocorre
no seu entorno.
Embora ,aqui e acolá, alguma
voz se levante contra a unanimidade burra, a mais pura
realidade é que somos ensinados desde pequenos a "engolir
sapos" para não sofrermos prejuízos profissionais,
financeiros ou sociais.
A situação encontrada no
senado federal, assim como tantos outros escândalos políticos,
só torna-se possível por que vivemos em uma sociedade
anestesiada, incapaz de uma mobilização real contra esses
desmandos e falcatruas.
Desde há muito tempo que o
cheiro emanado do senado e da câmara, sem contar as outras
instituições políticas, é um odor putrefato como uma caixa de
esgoto a céu aberto.
Esperar que a solução venha
dos pares dos que cometem "atos secretos"; corrupção ou compra
de votos é como acreditar que as raposas são capazes de
proteger algum galinheiro.
Poderíamos perguntar onde
estão os "cara pintadas" que saíram às ruas exigindo a saída
de Fernando Collor de Mello da presidência da república.
Arrisco-me a responder que eles cresceram e se
acomodaram ao movimento da sociedade.
Novos "caras pintadas" ? Talvez isso seja esperar
demais de uma juventude, em sua maioria apolítica e preocupada
demais com suas próprias tribos para dar atenção a problemas
que envolvem a sociedade como um todo.
Hoje, se fossemos resgatar os
simpáticos macaquinhos, teríamos de agregar a eles um quarto
elemento, um novo símio a tampar o nariz, o "não cheira".
Talvez estejamos já tão acostumados a sentir o odor de "algo
de podre no reino da Dinamarca" que nosso olfato já não seja
capaz de sentir-se agredido pelo mau cheiro
exalado.
Infelizmente isto não se
restringe apenas aos problemas nacionais, esse comportamento
ocorre mesmo entre as relações pessoais e
profissionais.
Se o favorecimento de parentes
e amigos no Senado Federal, por exemplo, nos causa uma certa
indignação, seria interessante analisarmos que coisas muito
mais simples e corriqueiras, como por exemplo, "guardar" o
lugar para alguém na fila do banco ou de algum show, faz parte
do mesmo processo.
Talvez esteja justamente aí o
motivo de "deixarmos o barco correr" pois se nos incomoda ver
alguém ser beneficiado por outra pessoa ou instituição, se
formos nós ou alguém querido que receba tal benefício isso não
nos parece tão injusto assim.
Não ouço; não vejo; não
falo e não cheiro por que isso pode trazer à baila,
conscientemente ou não, as lembranças de meu próprio
comportamento mutante.
Alguém disse certa vez que " é
das pequenas coisas que provém as grandes". O condicionamento
social não se consegue partindo logo para as
proibições ou imposições, a melhor maneira de controlar as
massas é dar-lhes uma aparente sensação de liberdade ao mesmo
tempo em que, através da mídia , seja esta formal ou informal,
transformamos comportamentos indesejados em algo corriqueiro e
até necessário para uma aceitação
social.
Nunca é demais lembrar que
vivemos em uma sociedade que prioriza o "ter" sobre o "ser",
onde o "ficar" reflete bem a falta de compromisso com o que
quer que seja.
Nossos jovens, via de regra,
não tem sonhos que não sejam voltados para o consumo ou a fama
fácil.
Na ausência de sonhos reais,
abre-se a perspectiva de reproduzirmos, infinitamente, os
pesadelos cotidianos como a violência e a dependência
química.
Deixar de ser uma sociedade
que perpetua o modo de ser dos quatro macacos
é o desafio que se nos apresenta hoje.
Ou encontramos uma forma de
reverter este quadro ou em breve, em uma estação espacial
girando na órbita da terra, poderemos ver um grande luminoso
com os dizeres:
"BEM-VINDO AO PLANETA DOS QUATRO
MACACOS"
|