OLIVEIRA, Silvério da Costa. “
Discrinto” (discr-into ou
into-discri = discriminação + intolerância): Discriminação e intolerância como
base para os fenômenos do assédio moral, harassment, ijime, whistleblowers,
mobbing e bullying dentre outros.. Rio de Janeiro: [s.n.], 2013. xx p.
Disponível em:
<www.doutorsilverio.com>.
Acesso em:
Sobre o autor
Silvério da Costa Oliveira é Doutor –
Ph.D. e Mestre em Psicologia; Psicólogo, Bacharel em Psicologia, Bacharel em
Filosofia, possui a Licenciatura Plena em Psicologia e a Licenciatura Plena em
Filosofia, possui a Licenciatura pelo MEC em História e Sociologia, autor de
vários livros e artigos, conferencista. Sua formação está estruturada sobre três
pilares: a Filosofia, a História e a Psicologia.
Título: “
Discrinto” (discr-into ou into-discri =
discriminação + intolerância): Discriminação e intolerância como base para os
fenômenos do assédio moral,
harassment, ijime, whistleblowers, mobbing e bullying dentre
outros.
Tema: bullying; assédio moral;
mobbing
Autor: Silvério da Costa
Oliveira.
Palavras chaves
Bulliyng; cyberbulliyng; assédio
moral; mobbing; harassment, ijume, whistleblowers; discriminação;
intolerância;
Resumo do texto
Procura-se fornecer uma melhor
denominação em língua portuguesa para o fenômeno abordado em distintas pesquisas
por distintos nomes, tais como: assédio moral, harassment, ijime,
whistleblowers, mobbing e bullying dentre outros. Entende-se que tais fenômenos
são formados basicamente pela junção da discriminação e da intolerância e que
todos se assemelham entre si em sua base de origem. Discute-se tal fenômeno e
explica-se como o mesmo se desenvolve e o significado dos diversos nomes dados
nas pesquisas que o abordam.
Por: Silvério da Costa
Oliveira.
O título
deste pequeno artigo, “Discrinto”, é uma proposta de mudança de nome para um
fenômeno bem antigo, se bem que as pesquisas sobre o tema sejam recentes, bem
como o maior interesse dado pela mídia. O fenômeno aqui abordado recebe diversos
e distintos nomes de acordo com o recorte dado pelos pesquisadores ao tema, mas
em essência o fenômeno é o mesmo, o que muda é o local onde o mesmo ocorre, a
faixa etária das pessoas envolvidas, a cultura predominante, enfim, o recorte
dado pelos pesquisadores que tende a favorecer a um determinado termo cunhado
por um grupo, visando salvaguardar os direitos autorais sobre a pesquisa. Quando
fazemos uso de um termo, fazemos uso de toda uma pesquisa anterior, citando os
nomes dos pesquisadores que foram os primeiros a usar o termo fazendo pesquisa
nesta área, deste modo, pesquisadores que usam um determinado termo tendem a
evitar usar outro pelo simples fato de o outro fazer referência a outros
pesquisadores e outras pesquisas sobre o mesmo fenômeno, em verdade, temos aqui
mais uma “reserva de mercado” do que distintas coisas sendo pesquisadas.
Quando
proponho o termo “Discrinto”, penso que o mesmo é apropriado em língua
portuguesa por fazer referência direta a dois conceitos profundamente presentes
em todo este fenômeno, independente do nome que tenha sido anteriormente dado ou
do local onde o mesmo se dá, pois, por tal termo entendemos a combinação da
“discriminação” com a “intolerância” e seu resultado é um somatório de agressões
gratuitas e uma série de humilhações impostas a uma pessoa ou um grupo por
outras pessoas ou grupos, de modo repetitivo, contínuo, freqüente, intencional e
voluntário.

Entendo que
este fenômeno, por onde podemos claramente vislumbrar agressões gratuitas
físicas e mentais, humilhações, hostilidades diversas, intimidação, perseguição
e outras coisas ruins e nada dignificantes da condição humana, está imerso em um
mar de discriminação e intolerância, as quais se apresentam como base para os
fenômenos que recebem por meio dos pesquisadores diversos nomes de acordo com a
abordagem da pesquisa e o enfoque mais específico dado a uma determinada nuance
do problema, bem como, questões envoltas em valores culturais que tendem a
variar conforme a sociedade, deste modo, por meio da pesquisa francesa, por
exemplo, temos o conceito de assédio moral, focado no ambiente de trabalho e
onde temos um desnível de poder entre as partes, sendo este assédio visto de
modo mais sutil, disfarçado, levando a vítima a ter dúvidas se de fato sofre
assédio ou se é incompetente ou louca.
Nos últimos
anos este fenômeno tem ganhado cada vez mais presença na mídia e em pesquisas
ocorridas ao redor do mundo, sendo que cada grupo de pesquisadores tem feito um
recorte próprio neste fenômeno, selecionando uma determinada parte para
desenvolvimento de seus estudos e dando um nome particular ao fenômeno a partir
do enfoque dado à pesquisa, deste modo, este fenômeno tem sido abordado de
diferentes maneiras e recebido distintos nomes, tais como: assédio moral,
bullying, cyberbullying, mobbing, etc.
Nas
pesquisas norte-americanas temos o termo harassment, que se apresenta como um
outro nome para o assédio moral, onde temos aqui ataques repetitivos,
intencionais e voluntários visando atormentar a vítima.
Já o ijime,
é como o fenômeno se apresenta dentro dos estudos e da cultura japonesa, sendo
algo presente tanto no ambiente escolar, como também do trabalho, com a variação
que nesta cultura ainda é visto como algo aceito e necessário para manter-se a
uniformidade e evitar o individualismo visto como nocivo pela cultura
japonesa.
O termo
whistleblowers, por sua vez, traz a tona o problema gerado quando aqueles que
trabalham em áreas consideradas sensíveis, como, por exemplo, saúde e militar,
tendem a exercer sua cidadania alertando a população em geral sobre coisas muito
erradas que ocorrem em seus ambientes de trabalho, como, por exemplo, corrupção,
violações da lei ou de normas importantes à segurança, práticas desonestas no
serviço público, comportamentos apresentados por empresas ou associações que
tendam a ocasionar dano a natureza, saúde, segurança, propriedade e a sociedade
em geral. Claro está que denunciar o sistema, seja ele qual for, ocasiona
represarias e o indivíduo acaba sendo a vítima. Neste caso específico, as
agressões sofridas visam primeiramente silenciar o indivíduo, bem como evitar
que outros façam o mesmo.
Não
poderíamos deixar de falar na modalidade estudada com o nome de mobbing, pois
pela mesma os pesquisadores oriundos em geral dos países nórdicos (Suécia,
Dinamarca, Finlândia), da Suíça e da Alemanha entendem o comportamento agressivo
e hostil de um grupo para com uma pessoa isolada ou outro grupo menor, deste
modo, podemos ver o mobbing como um comportamento grupal presente no ambiente
escolar e do trabalho, no qual temos perseguições coletivas e violência
subjetiva e física. O termo mobbing tem sido usado quando se trata de um grupo
atacando uma pessoa ou outro grupo específico, de forma contínua, freqüente e
repetitiva.
Por fim,
temos a menininha de ouro da mídia nos tempos atuais, o bullying, termo presente
em pesquisas de origem norte-americana e que de início focavam mais o ambiente
escolar, onde um ou mais meninos ou meninas tidos como valentões escolhiam uma
ou mais vítimas (as pesquisas apontam em média cerca de três vítimas por cada
molestador) para agredir e humilhar de modo repetitivo e freqüente, geralmente
tais alunos são escolhidos por serem vistos como diferentes do grupo e sem
condições de se autodefenderem, não podendo responder em pé de igualdade ao
agressor. O termo bullying acabou sendo usado mais em pesquisas envolvendo o
ambiente escolar, crianças e adolescentes. Hoje, as pesquisas sobre bullying
incluem outros ambientes além do escolar e o termo é freqüentemente usado para
agressões no ambiente de trabalho.
Por
cyberbullying entendemos o somatório dos ataques feitos com o uso dos meios de
informática, tais como mensagens eletrônicas, vídeos, fotos, textos e criação de
sites na Internet ou o uso das comunidades e redes sociais para infernizar a
vida de uma pessoa ou grupo, depreciando, humilhando, difamando, ameaçando e
organizando situações extremamente desagradáveis para a vida de tais
pessoas.
Por sua vez
o termo assédio moral esteve mais presente em pesquisas envolvendo adultos em
seus ambientes de trabalho.
Citei
algumas variações com seus respectivos nomes, dentre outros, presentes neste
fenômeno, mas cabe destacar e frisar que não importa o nome que seja dado, o que
temos sempre presente de modo repetitivo, freqüente e constante é a
discriminação de uma pessoa ou grupo de pessoas por serem as mesmas consideradas
de alguma forma como diferentes e a intolerância diante destas pessoas, desta
diferença e desta situação. A intolerância diante do diferente é tamanha que a
este é negada a possibilidade de existência, devendo ser isolado, negado e
afastado violentamente do grupo, neste caso vale tudo, desde zombarias a
agressões físicas abertas ou sutis e veladas.
Todas as
pessoas são diferentes, todos têm a sua individualidade, a qual deve ser
respeitada, no entanto, a grande maioria tem medo de ser diferente e prende-se a
idéia de ser igual a todos os demais integrantes de seu grupo social. Uma forma
de unificar os laços sociais e afetivos presentes entre os integrantes de um
grupo social é contrapor seus integrantes a outros que sejam diferentes do
grupo, ao afirmar esta diferença, destacando-a, reforçar a ilusão de igualdade
presente no grupo social. Deste modo, tanto a um indivíduo, como também a um
grupo social minoritário que seja considerado diferente podem advir
conseqüências bem desagradáveis, gerando dor, sofrimento e mesmo a morte.
Neste
fenômeno temos de destacar o aspecto repetitivo do mesmo que o irá diferenciar
de situações outras, onde mesmo havendo agressões a um indivíduo ou grupo não há
razões que o justifiquem incluir como parte integrante do fenômeno em análise.
Presente ao fenômeno teremos a possibilidade de agressões físicas que podem
aumentar em intensidade até provocar danos expressivos ou mesmo a morte da
vítima, temos também a presença de situações onde haja explícita ou implícita
intimidação, presença de ameaças, depreciação, exclusão de participação em
atividades do grupo, etc.
O que faz
com que alguém seja vítima é o fato desta pessoa ou grupo social ter
determinadas características que sejam desvalorizadas ou, ao contrário,
supervalorizadas e que gerem inveja por parte do grupo social dominante. Deste
modo, o alvo escolhido para vítima pode ser uma pessoa muito gorda ou muito
magra, muito alta ou muito baixa, que faça uso de alguma coisa que a torne
diferente (óculos de grau, aparelho nos dentes, colete ortopédico, etc), com
características de personalidade que a coloquem em um extremo de timidez e
introversão ou seu completo oposto, pessoas consideradas pelos padrões vigentes
como muito feias ou muito belas, pouco ou muito inteligentes, em relação à
média.
Vítimas
podem desenvolver transtornos, apresentar tentativas de suicídio ou tentativas
de vingança contra aqueles tidos como agressores. Temos diversos episódios de
pessoas que após terem sofrido episódios nos quais foram constantemente
molestados, humilhados e ridicularizados, tentaram se vingar adquirindo armas e
atacando diversas pessoas, ocasionando verdadeiros massacres aparentemente sem
sentido.
Querendo
admitir ou não, este fenômeno se apresenta para a vítima como a imposição de
forte agressão e crueldade deliberadamente direcionada para ela por outra pessoa
ou grupo social com o claro objetivo de fazê-la sofrer emocional e fisicamente,
criando relações de poder onde a vítima é percebida como exercendo um papel
social inferior, fraco, vulnerável e com possibilidade de manipular menos e mais
fracos instrumentos de poder que seus agressores.
Quanto aos
agressores, estes podem agir sozinhos ou em grupos. Pesquisas apontam que grupos
de meninas e mulheres tendem mais a optar por comportamentos que levem a
exclusão social da vítima escolhida, é comum neste grupo a utilização de boatos,
a intimidação por meio de insultos sussurrados ou risos no grupo diante da
vítima, destruição da reputação social da vítima, tentativas de afastar outras
pessoas do convívio da vítima. Já em meninos e homens é mais comum a agressão
física e verbal direta. Claro está que a forma como o grupo agride está
diretamente associada à cultura e época histórica em que as pessoas vivem,
conforme as mulheres e homens vão se assemelhando culturalmente em nossa
sociedade, também seus comportamentos agressivos tendem a tornarem-se mais
parecidos.

Podemos
falar de um determinado perfil de personalidade que esteja mais propenso aos
ataques no ambiente escolar e de trabalho, se bem que basta ser considerado
diferente do grupo dominante para ser alvo dos mais degradantes ataques. Como
perfil básico das vítimas podemos citar: timidez, ansiedade, insegurança, falta
de habilidades sociais, dificuldade de se impor perante o grupo, medo dos
agressores e recusa em denunciá-los, baixa auto-estima. Claro está que grupos
sociais específicos também são alvo constante de ataques, como, por exemplo:
etnias, religiões, preferências sexuais, obesidade, etc.
Para muitas
pessoas que mantêm a ilusão do grupo de iguais, ser diferente é uma ofensa
imperdoável que merece ser punida da forma mais violenta e horrenda possível,
para que não haja margem de dúvida que tal comportamento não é aceitável e mais
importante ainda, para deixar claro que os agressores são iguais entre si,
normais dentro de seu grupo, e não são semelhantes ao que é diferente. Este, por
afirmar a diferença, reforça a ilusão da igualdade e irmandade dentro do
grupo.
Para
entendermos este fenômeno é necessário a compreensão dos três atores presentes.
Os protagonistas desta tragédia social são (1) quem maltrata e agride, (2) a
vítima que sofre as agressões e (3) os espectadores do drama. Para mudar esta
situação e acabar com tal comportamento inaceitável é necessário trabalhar em
cada um destes personagens, propondo novas formas de lidar com situações
complexas, com seus próprios sentimentos e com o comportamento e atitude
expressado pelas demais pessoas. É preciso que os espectadores parem de assistir
calados e indiferentes a estas cenas grotescas de abuso, humilhação, agressão e
violência gratuita. É preciso que toda a sociedade diga não a tais
comportamentos agressivos e degradantes.
Aqui, por
“discrinto”, com os diversos e distintos nomes que fragmentos deste fenômeno
recebem em distintas sociedades e culturas por meio de pesquisas e abordagens
dadas por pesquisadores diferentes, temos, antes de mais nada, uma patologia
social do isolamento e da solidão. A mais eficaz defesa que se pode ter contra
tais fenômenos é a formação de grupos de amizade, de alianças construtivas, o
encontro de solidariedade. Quanto mais só a pessoa estiver, mais vulnerável aos
ataques ela estará, deste modo, estar em interação com o grupo, ter contatos
sociais e manter amizades diversas funciona como uma vacina profilática. Os
agressores em geral tendem a tentar isolar suas vítimas, privando-as da
solidariedade de outras pessoas e destruindo possíveis alianças que esta possa
ter, alimentando a rivalidade entre grupos e permitindo ataques sem defesa ou
intervenções externas. Alianças certas e uma eficaz rede de comunicação são
fortes armas contra a discriminação e a intolerância em todas as formas em que
se apresentar.
Pergunta: Você já foi vítima, autor ou
participante de alguma cena de forte discriminação e intolerância a uma pessoa
ou grupo social?
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(Respeite os Direitos Autorais – Respeite a autoria do
texto – Todo autor tem o direito de ter seu nome citado junto aos textos de sua
autoria)