Política
O banqueiro livrou-se de 10 anos de prisão por suborno com a ajuda do ministro Gilmar Mendes, segundo o livro "Operação Banqueiro"
Com 24 anos de carreira, Rubens Valente é um dos repórteres mais premiados do Brasil. Rigoroso na apuração dos fatos, fiel na interpretação dos acontecimentos, construiu uma carreira respeitada no jornalismo. Durante mais de dois anos, Valente se dedicou à investigação que resultou no livro “Operação Banqueiro” (462 páginas, R$ 44,90, Geração Editorial), um mergulho nos documentos e bastidores da Satiagraha. O subtítulo da obra resume o conteúdo escrito com habilidade e independência: “Uma trama brasileira sobre poder, chantagem, crime e corrupção. A incrível história de como o banqueiro Daniel Dantas escapou da prisão com apoio do Supremo Tribunal Federal e virou o jogo, passando de acusado a acusador”. A análise do livro pode ser lida na edição impressa de CartaCapital que chega às bancas nesta sexta-feira 10. Na entrevista a seguir, Valente fala do papel do então presidente do STF, Gilmar Mendes, na campanha contra a operação policial e a favor de Dantas e desmonta algumas versões mentirosas alimentadas com o único intuito de anular a condenação do banqueiro a 10 anos de prisão por suborno. “Operação Banqueiro” é uma ode à verdade factual e presta um grande serviço à democracia e ao jornalismo.
CartaCapital: Na sua longa carreira de repórter, você se lembra de uma operação tão peculiar quanto a Satiagraha?
Rubens Valente: O aspecto mais grave foi a interdição da investigação, a impossibilidade de as autoridades levarem a apuração inteira até o final. Em termos gerais, a regra do jogo do processo penal no Brasil é simples: o delegado aponta evidências, o procurador acusa ou não, o juiz julga. Ao longo do processo, o réu se defende. Em caso de inocência, após o processo o réu pode buscar a punição dos responsáveis por um eventual erro judicial. Mas no caso da Satiagraha, o delegado foi proibido de investigar e o juiz foi impedido de julgar. O sistema foi brutalmente bloqueado, de modo a não funcionar, a não concluir sequer a apuração inicial. Ao longo de 24 anos como repórter, li e acompanhei algumas dezenas de inquéritos policiais. Mas nunca vi uma inversão de fatores tão dramática e na dimensão deste caso. Eu só posso qualificar o rumo dos acontecimentos como espantoso. Que dizer de um cidadão que não chega a ser julgado, mas em poucos meses passa a acusador em um processo contra o próprio delegado e o próprio juiz que o prenderam? É o sonho de todo investigado. As instituições estão em risco quando um acusado consegue impedir que a atribuição de um fato criminoso seja devidamente apurada até o fim pelos órgãos públicos. O bloqueio da Satiagraha foi um dos principais motivos do meu empenho neste livro, inclusive financeiro, pois todos os gastos, incluindo as viagens a três capitais e cópias de documentos, foram bancados com as minhas próprias economias.
CC: Daniel Dantas não só conseguiu anular na Justiça a operaçao como leis e regras judiciais foram mudadas depois da ação policial, entre elas o uso de algema (a Lei Dantas), que passou a ser disciplinado. De onde provém tanto poder?
RV: Até 2010, o Opportunity sequer constava nas listas de doadores das principais campanhas eleitorais registradas na Justiça eleitoral. Estranho que uma empresa com tantas relações no meio político não tenha colaborado para eleições até aquele ano. Mas certa vez um advogado de Dantas o descreveu como um indivíduo com boas relações com o Congresso, com os poderosos, uma pessoa “que se vira". De fato, as relações de Dantas com políticos parece ser um traço fundamental na sua trajetória. Mas isso não explica tudo. No livro procurei descrever as relações de amizade e acadêmicas de advogados de Dantas e do banco Opportunity com o ministro do Supremo Gilmar Mendes. Que durante a presidência do STF disse abertamente se opor ao que chamava de abusos do Ministério Público e da Polícia Federal. As coisas se juntaram. Sem Mendes na presidência do Supremo, nem todo o prestígio de Dantas teria sido capaz de reverter o jogo de forma tão espetacular. A alteração de regramentos se deveu ao empenho pessoal de Mendes, que chegou a convocar um “pacto social” e chamar o presidente da República “às falas”. Ele se tornou um ator fundamental no processo de desqualificação da Satiagraha. Partiu do Supremo o vazamento de um relatório, depois desmontado pelos fatos, que sugeria a existência de grampo sobre autoridades do tribunal. E partiu de Mendes a decisão de acolher a tese de que o juiz Fausto De Sanctis havia se “insurgido” contra o Supremo pelo simples fato de ter ordenado uma segunda ordem de prisão contra Dantas. Como se um juiz não pudesse julgar de acordo com sua consciência. A ideia de uma suposta “rebeldia” comoveu outros ministros do STF, que chegaram a falar em “união” em defesa do tribunal. Como se o Supremo fosse um clube no qual os filiados devem “defender” uns aos outros, e não meramente analisar fatos e provas.
CC: A introdução de “Operação Banqueiro” cita excessos e equívocos do delegado Protógenes Queiroz. Essas falhas eram suficientes para anular o processo?
RV: A defesa do banqueiro se aproveitou dessas falhas. Mas o delegado muito mais acertou do que errou. Ele acertou ao elaborar e colocar em prática um plano que levou à documentação da oferta de suborno e à apreensão do dinheiro que seria usado como propina para ele e outro delegado do caso. Foi uma situação arriscada, que ele soube concluir com sucesso. Acertou ao conseguir uma ampla interceptação de telefones e de comunicações por internet com ordem judicial que trouxe evidências importantes para a investigação. Acertou ao não se dobrar às dificuldades do inquérito, que tratava de temas variados e de certa complexidade técnica. Esses méritos, porém, foram ofuscados pela intensa campanha de desmoralização que ele e a Satiagraha sofreram em diversos níveis e por diferentes meios. Seus erros, por mais banais, acabaram amplificados à exaustão. Por quê? Porque ele era a peça mais fraca do inquérito, havia sido abandonado à própria sorte pela sua instituição, a Polícia Federal. Qualquer jornalista com alguma experiência em processos judiciais sabe que todo e qualquer inquérito policial, todo e qualquer, repito, contém certa dose de erros, imprecisões ou conclusões sem rigorosa base nos fatos. Mas o trabalho de um delegado é apenas uma parte do processo. O sistema judicial possui freios e contrapesos que permitem que as opiniões do delegado sejam verificadas por outras instâncias, a saber: o Ministério Público, o juiz e os advogados dos réus. O beabá de um advogado criminalista é descobrir esses erros e, por meio deles, tentar obter alguma vitória judicial, na estratégia de convencer o Judiciário sobre as “ilegalidades” da polícia. O jornalista isento que ler com paciência o inquérito da Satiagraha vai concluir que os erros cometidos pelo delegado ao longo da operação, talvez o principal deles tenha sido pedir a colaboração de agentes da Abin sem um respaldo superior da direção da Polícia Federal, jamais teriam a capacidade de levar à anulação da operação. Em situações normais de temperatura e pressão, seus erros poderiam ser censurados e corrigidos, mas não teriam qualquer repercussão em termos de legalidade.
CC: Ao longo da apuração, você encontrou alguma prova ou indício de que o então presidente do STF, Gilmar Mendes, ou algum integrante do tribunal foi grampeado pela Policia Federal ou pela Abin?
RV: Sob vários pontos de vista (jornalístico, técnico, jurídico e mesmo ético), não é mais possível aceitar que essa suspeita continue a ser veiculada como fato, pois todas as imensas e complicadas investigações desencadeadas por diferentes órgãos públicos jamais localizaram qualquer prova material de grampo telefônico ou ambiental sobre qualquer ministro do STF. Eu cuidei de verificar esse ponto quase à exaustão. Ouvi com atenção e a necessária dose de desconfiança integrantes da Operação Satiagraha, li as conclusões das investigações policiais, vi os laudos do material apreendido. Não há uma linha sequer sobre constatação de grampo contra autoridades do Supremo. Esses são os elementos concretos que integram o processo. Fora disso, só mesmo a paranóia, alimentada por um estranho silêncio das autoridades encarregadas de verificar a existências desses supostos grampos. A Polícia Federal e a Procuradoria Geral da República sabem muito bem que não existe prova alguma dos grampos, mas até hoje, mais de cinco anos depois, jamais vieram a público fazer o desmentido cabal. Nunca prestaram contas das investigações. Esse ato de transparência deveria ter ocorrido há muito tempo, pois instituições e figuras públicas foram colocadas em xeque.
CC: E quanto as supostas ilegalidades cometidas pela Abin?
RV: Li e reli várias vezes os diversos depoimentos e documentos que integram a Satiagraha e o inquérito aberto para apurar a participação da Abin. A única conclusão possível é que a Abin não usurpou o papel de investigação consagrado pela Constituição às polícias. A Abin não interceptou nenhum telefonema, não tomou nenhum depoimento e não requisitou ao juiz do caso nenhuma medida de qualquer natureza. Em suma, os agentes da Abin em momento algum conduziram o inquérito. Por todo o tempo a investigação continuou presidida pela autoridade policial, com a devida fiscalização do Ministério Público e sob os olhares do Judiciário. O papel dos agentes da Abin se restringiu a acompanhar e fotografar alvos nas ruas, ler emails interceptados por ordem judicial, transcrever conversas interceptadas com ordem judicial. Ou seja, era um papel meramente auxiliar. Um trabalho braçal. No pen drive do delegado Protógenes foram apreendidos também documentos em word produzidos por agentes da Abin sobre algumas autoridades. Esses papéis, que incluem dados delirantes e informações de difícil comprovação, jamais foram anexados à Satiagraha. São imprestáveis como prova, tanto que o delegado não os juntou ao inquérito. E foi apenas esse o papel da Abin. Por que a eventual participação de agentes da Abin em certo ponto do inquérito poderia ser capaz de anular a operação inteiraa? Não há uma única participação, nem mesmo lateral, de agentes da Abin no episódio do suborno de dois delegados federais. A alegação de que a mera e pontual ajuda de alguns agentes da Abin em qualquer ponto da investigação seja capaz de anular um processo inteiro é inteiramente risível. É, na verdade, um tapa na cara dos cidadãos brasileiros pagadores de impostos e cumpridores das leis. Os advogados falam na teoria importada dos EUA dos “frutos da árvore contaminada”. Diz a tese que um processo gerado por uma prova ilícita deve ser anulado pelo vício na origem. Ocorre que a participação dos agentes da Abin n Satiagraha nada teve a ver com a origem do processo, foi sempre posterior, e portanto a teoria é totalmente inválida.
CC: Dantas já foi condenado fora do Brasil. Cortes britânicas e norte-americanas se referiram a ele em termos duros e o acusaram de fraude, entre outro crimes. No Brasil, a despeito da anulação posterior (agora em analise no Supremo), ele foi condenado em primeira instancia por suborno. Seu nome também tem sido citado nos principais escândalos da era FHC e Lula. Ele continua, porém, a ser tratado em diversos círculos e por considerável parcela da mídia como um "empresário polêmico". E apenas isso. Pelo seu livro, conclui-se que ele e mais do que polêmico, certo?
RV: Dantas e o banco Opportunity aparecem referidos em diversos escândalos nos últimos anos: grampos do BNDES e as privatizações, caso do extinto banco Banestado, investigação privada da Kroll e a Operação Chacal, CPI dos Correios e o mensalão e, por fim, a Operação Satiagraha. Essa sequência de acontecimentos coloca o banqueiro como um dos principais personagens da história brasileira contemporânea. Tratá-lo como “polêmico” é um resumo pobre e impreciso. Ele foi acusado e investigado não por suas supostas “polêmicas”, mas por fatos e atos que podem e devem ser averiguados.
CC: As relações de Dantas com o PSDB foram retratadas em varias reportagens e livros ao longo das ultimas décadas. "Operação Banqueiro" acrescenta novas e interessantes provas dessa relação umbilical. O banqueiro, por outro lado, sempre se declarou perseguido pelo PT, mas os interesses do Opportunity e do partido se entrelaçam na Satiagraha. Você chegou a buscar explicações para os motivos de os petistas terem saído em apoio ao banqueiro e participarem da força tarefa para desacreditar a operação?
RV: A Satiagraha veio a público em abril de 2008, no mesmo período de intensas negociações entre os fundos de pensão ligados ao PT, a telefônica Oi e o banqueiro com vistas à criação da gigante da telefonia BrOi. Havia um interesse público e manifesto do governo na criação da nova supertele, uma operação que acabou possível após um ato do próprio presidente Lula. Creio que as investigações da Satiagraha chegaram num péssimo momento para os interesses do governo, que queria logo concluir aquela fusão. Isso pode ter contribuído para a extrema má vontade do governo em relação ao inquérito policial. Por outro lado, Dantas havia conseguido se aproximar de petistas históricos. No livro procurei descrever o papel de dois desses petistas no processo de criação da BrOi. Houve um segundo fato: em 2008, a Polícia Federal havia incomodado muitos interesses de políticos de vários partidos, incluindo petistas e integrantes da base aliada. E a “tolerância” do PT e do governo em relação à PF havia chegado ao ponto máximo um ano antes, quando uma equipe de policiais invadiu a casa do irmão de Lula na Grande São Paulo. Por sua vez, Lula havia superado, do ponto de vista da sua imagem diante o eleitorado, o trauma da acusação do mensalão, e não estava tão dependente das ações espetaculares da polícia, que davam ao governo um discurso anti-corrupção.
CC: Dantas recorre a uma teoria conspiratória para se defender. Diz-se vitima da união de interesses políticos e econômicos de integrantes do PT, seu desafeto Luis Roberto Demarco e a Telecom Italia. Ele tem usado esse argumento para tentar influenciar processos contra ele no Brasil. Nos últimos anos, ele e seus advogados se referem a um inquérito em Milao que investigou e puniu funcionários da Telecom Italia por espionagem. Esse inquérito sempre é evocado em diversos processos pelo Opportunity. Ao longo de sua pesquisa, encontrou alguma evidência dessa conspiração ou alguma relação entre os processos no Brasil e a investigação italiana?
RV: Tive acesso e verifiquei milhares de páginas que integram a investigação realizada na Itália, incluindo os extensos depoimentos dos principais envolvidos. Como digo no livro, o Opportunity enfrenta sérias e talvez incontornáveis dificuldades para demonstrar uma prova objetiva sobre a alegada corrupção de autoridades do Brasil por funcionários da Telecom Italia de modo a “perseguir” o banco brasileiro. Até o momento, essa hipótese não passa disso, uma simples suspeita sem confirmação. Nos autos há apenas referências indiretas e imprecisas. Mas os advogados do Opportunity passaram a manobrar esse fantasma para relacionar a investigação no Brasil à outra da Itália, exigindo que uma acusação só fosse investigada depois da outra. É como se um motorista atropelasse alguém na rua e, quando encontrado pela polícia, alegasse ao juiz: “Lá na Itália uma pessoa disse que esse delegado que me prendeu aqui está me perseguindo. Então eu só posso ser acusado do atropelamento se antes vocês investigarem esse delegado”. É um argumento juridicamente absurdo. Mas que ganhou guarida em variados meios.
CC: No relatório da Satiagraha, Protógenes Queiroz dedica um capitulo às relações de Dantas com a mídia. Como você definiria essa relação?
RV: O foco do meu livro são as provas, acusações e explicações do caso Satiagraha e não o papel da mídia, embora ela seja um personagem presente em toda a narrativa. Eu também entendi que o debate sobre o papel da mídia na cobertura da Satiagraha havia sido extenso e intenso na internet, por meio de blogs e sites e outras publicações, como CartaCapital, que remaram contra a maré, e por isso eu não precisava gastar páginas que poderiam ser usadas para avaliar outros aspectos do caso. Mas ao longo do livro eu procurei demonstrar diversas imprecisões e enganos divulgados pela mídia que acabaram por ajudar as posições do Opportunity. Outro aspecto notável foi ver que boa parte da mídia não viu nenhum problema na paralisação e anulação do caso Satiagraha, considerando-os fatos quase rotineiros, mas que de banais nada tinham.
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Política
Este é o país do futebol e da oligarquia ainda viva em muitos de seus recantos. Este é o país do batuque no morro e das atrocidades ocorridas nestes dias no Maranhão, feudo dos Sarney.
Este é o país do príncipe dos sociólogos, e também aquele que, conforme o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, o Pisa, entre 65 países pesquisados fica em 58º lugar em matemática, 55º em leitura e 59º em ciência, superado pela maioria dos países latino-americanos. Mas o ministro da Educação fala em “grande avanço”, embora tenhamos regredido em matemática e leitura e mantido a mesma classificação em ciência no confronto com a pesquisa de três anos atrás.
Este é o país onde até jornais que apoiaram o golpe de 1964 agora descobrem, tomados de espanto, que os Estados Unidos pretenderam e participaram ativamente da derrubada de Jango Goulart, e mais participariam se preciso fosse. Da mesma forma é o país onde nomes de ditadores e dos seus apaniguados e torturadores, e de quem os apoiou, adornam pontes, viadutos, galerias, avenidas.
Este é o país que anualmente registra mais de 50 mil homicídios, baixa esta próxima do número de mortos americanos ao longo de toda a Guerra do Vietnã. Este é o país que abriga na prisão um certo grupo criminoso chamado PCC, capaz de paralisar a quarta cidade mais populosa do mundo, capital do estado de São Paulo, a ostentar a sua condição de terceira economia latino-americana.
Este é o país onde ministros da Justiça presentes e futuros advogam para o banqueiro orelhudo do Opportunity, pluricondenado no exterior e no Brasil salvo sempre e sempre de qualquer enrascada, a contar com a poderosa e decisiva ajuda, no caso da Operação Satiagraha, do próprio presidente do STF, a corte suprema, à época Gilmar Mendes, habilitado a “chamar às falas” o presidente da República.
Nesta edição, CartaCapital volta a convocar na capa a singular figura de Daniel Dantas, não fosse este o país já estaria na cadeia. DD retorna à berlinda por causa de um livro de autoria de Rubens Valente editado pela Geração Editorial, Operação Banqueiro, incursão certeira por aventuras dantescas.
CartaCapital é certamente a publicação que mais espaço dedicou à personagem nos últimos 15 anos e mantém dele a documentação mais completa. O trabalho pioneiro coube a Bob Fernandes, então redator-chefe, mas sempre repórter. Bob teve um excelente continuador em Sergio Lirio, que o substituiu na chefia da redação e como repórter na cobertura das façanhas de DD.
Há outras citações indispensáveis, a começar por Rubens Glasberg e sua Teletime, na versão impressa e naquela online. Rubens foi o primeiro jornalista alvejado judicialmente pelo banqueiro, que já derrotou em cinco processos de sentença passada em julgado, enquanto o sexto ainda prossegue. Teletime contou também com o trabalho atilado de Samuel Possibon, diretor da sucursal da publicação em Brasília. E não esqueçamos entre os blogueiros o vigoroso, infatigável Paulo Henrique Amorim.
Este é o país de jornalistas, por mais raros, que sabem de suas responsabilidades e buscam a verdade factual. Claro que nem tudo é drama e tragédia. Pelo menos há quem se indigne e resista. Neste momento, receio, porém, que os eventos do Maranhão ganhem a dianteira para simbolizar o nosso atraso aterrador
Depois de referir na
introdução a chamada era de ouro das investigações da Polícia Federal,
de 2003 a 2008, era encerrada justamente com o malogro da Operação
Satiagraha, o livro começa com uma bem detalhada e bem documentada
descrição das negociações, em junho de 2008, entre o professor
universitário Hugo Sérgio Chicaroni, que se apresentou como
representante de Humberto Braz, este ligado a Daniel Dantas, e os
delegados da Polícia Federal Protógenes Queiroz e Victor Hugo.
Chicaroni
promete aos dois 500 mil dólares para Daniel Dantas e seus familiares
não serem perturbados nas investigações em curso e entrega 50 mil reais a
Protógenes, por já terem entrado em contato. Tudo isso está fartamente
documentado – nenhuma informação é em off – em gravações autorizadas
pela Justiça, suas transcrições e em depoimentos de testemunhas.
Depois
há uma densa narrativa da trajetória de Dantas, desde seu nascimento em
1954 como descendente de uma secular família de senhores de terras,
políticos e empresários na Bahia, até sua fundação do Banco Opportunity,
em 1994. O jovem Daniel cursou a Escola Politécnica na Bahia e no Rio
se tornou discípulo de Mário Henrique Simonsen, ministro da Fazenda
durante a ditadura, tendo sido seu aluno na Fundação Getúlio Vargas,
onde se doutorou em Economia, e tendo feito o pós-doutorado no Instituto
de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos.
Participou
da elaboração do Consenso de Washington, segundo o qual os endividados
governos latino-americanos deveriam cortar os subsídios e os gastos
públicos e privatizar em massa as suas empresas estatais. A família
Braga, ligada ao Bradesco, o chamou para gerir os seus bens por meio da
instituição financeira Icatu. Atuou também nas discussões que levaram ao
Plano Collor, mas não aprovou o congelamento dos ativos financeiros que
o presidente Fernando Collor acabou decretando.
Em seguida vem
um bem circunstanciado relato das ligações de Dantas, primeiro com o PFL
de Antônio Carlos Magalhaes, e depois com membros do governo FHC,
particularmente durante as privatizações das telecomunicações. O
Opportunity de Dantas contratou integrantes importantes do governo FHC,
como Persio Arida e Elena Landau, para ajudar o grupo formado por
Dantas, Citibank e os fundos de pensão das estatais para conseguir
vencer o leilão da Tele Norte Leste, o mais rico quinhão entre as
telefônicas.
Não só isso, também o próprio governo FHC apoiou os
planos do Opportunity, segundo revelaram escutas telefônicas
clandestinas que levaram à queda de integrantes do governo. Entretanto, a
compra da Tele Norte Leste pelo grupo do Opportunity acabou não dando
certo, tendo essa telefônica ficado com o consórcio liderado pelo Grupo
Jereissati, o grupo do Opportunity sendo obrigado a se contentar com a
bem menos apetitosa BrT. Como as escutas clandestinas não podiam ser
usadas em juízo, os processos contra as irregularidades não puderam ir
adiante. Depois, se narram as disputas entre Dantas, de um lado, e a
italiana TIM e os fundos de pensão, de outro. Enquanto os fundos queriam
maior participação na gestão do consórcio, ou mesmo assumi-la por
inteiro, Dantas insistia em manter o controle total.
Dantas
inicialmente hostilizou o governo Lula, que desconfiava pretendia
favorecer os fundos de pensão para o controle da BrT em conjunto com a
Telemar. Mas foi chamado para reuniões com José Dirceu, chefe da Casa
Civil, e com Cássio Casseb, presidente do Banco do Brasil, contra o qual
Dantas montou uma vasta operação de espionagem executada por uma firma
americana de investigações, a Kroll.
As operações da Kroll, pelas
quais a BrT controlada por Dantas pagou 26 milhões de reais, e que
envolveram ações ilegais, como suborno a policiais federais e quebra de
sigilos bancário, atingiram também, no Brasil e na Itália, pessoas
ligadas à TIM e outros desafetos de Dantas, como Luís Roberto Demarco
Almeida.
Luís Demarco, paulista nascido em 1962, filho de
professores universitários, se formou engenheiro-químico na Politécnica
da USP, mas logo deixou essa profissão para trabalhar em finanças. Em
meados de 1997 passou a trabalhar com Pérsio Arida e Daniel Dantas no
Opportunity, mas um ano depois se afastou do grupo, segundo ele por não
ter concordado em pagar propina a um funcionário do governo do Paraná,
durante a privatização da Sanepar, empresa estadual de saneamento;
segundo o Opportunity, por suspeita de irregularidades por parte de
Demarco.
As duas partes se enfrentaram em ação judicial iniciada
em Cayman, em que Demarco exigia o pagamento de cotas de um fundo local
do Opportunity, que lhe pertenceriam segundo o acordo para trabalhar no
banco, apesar da proibição pela legislação brasileira de brasileiros
residentes no País participarem de fundos desse tipo. Demarco obteve
ganho de causa, referendado pela Corte de Londres com jurisdição sobre
países da Comunidade de Nações, ex-Comunidade Britânica. A partir daí
Demarco e Dantas se tornaram inimigos figadais.
A partir daí o
livro trata da malograda Operação Macuco, da Polícia Federal, uma
investigação, abortada pela própria direção-geral da PF, sobre o envio
clandestino de milhões de dólares para o Exterior, em benefício de
políticos e empresários, pelos bancos Araucária e Banestado. Grande
parte desse dinheiro foi para o fundo do Opportunity em Cayman, o que
levou o procurador Luiz Fernando de Souza a investigar se se tratava de
dinheiro da privatização das teles. Uma CPI do Banestado não deu em nada
e o procurador Souza foi desmoralizado por ter usado um computador de
uma pessoa ligada a Demarco para elaborar um relatório.
Aí chega a
vez de o livro revelar detalhes estarrecedores do Projeto Tóquio, ou
seja, as investigações da Kroll contratadas pelo Opportunity de Daniel
Dantas. Os alvos dessa espionagem cheia de ilegalidades incluíam a TIM,
juízes encarregado de decidir ações judiciais em que o Opportunity
estava envolvido, tudo com o objetivo de “assassinar reputações” por
meio da mídia. Essas investigações chamaram a atenção da Polícia
Federal, que montou a Operação Chacal para acompanhar as ligações da
Kroll com Dantas. Tudo isso estava acontecendo por volta de 2003.
Com
Dantas se sentindo ainda hostilizado pelo governo Lula, seu grupo
tentou contatos com Fábio Luís, o Lulinha, filho do presidente, e com
Luiz Gushiken e José Dirceu. Por outro lado, numa trama cheia de
escabrosidades, enquanto Dantas continuava patrocinando as investigações
nem sempre legais da Kroll, seus rivais na TI montaram, na Itália e no
Brasil, uma operação ainda maior de espionagem, tendo Dantas e a Kroll
como alguns de seus alvos. Essa operação, entretanto, acabou sendo
descoberta pelas autoridades italianas, e dirigentes da TI foram presos.
No, entanto, a TI e o Opportunity acabaram entrando em acordo quanto à
BrT e com isso a espionagem da TI se voltou contra Demarco, antes
considerado seu aliado. Paralelamente, a Polícia Federal, continuando
suas investigações, apreendeu com mandado judicial o disco rígido de um
computador do Opportunity.
Em 2005 estoura o escândalo do
mensalão. Na sua esteira surgem provas de ligação entre Marcos Valério e
o Opportunity, pois o publicitário detinha contas de empresas
telefônicas do grupo, num possível esquema de lavagem de dinheiro.
Narra-se
também a perseguição judicial e midiática que o grupo exerceu sobre a
juíza do Rio de Janeiro Márcia Cunha, que decidiu contra o Opportunity
num processo referente à disputa com os fundos de pensão. Em seguida o
livro aborda a acusação da existência de contas secretas no Exterior em
benefício de Lula e vários dirigentes petistas, feita pela revista Veja a
partir de informações prestadas pelo americano Frank Holder,
ex-integrante da Kroll, que teria agido em combinação com Dantas. Ao
mesmo tempo, a CPI dos Correios, encerrada em 2006, acusava Dantas de
gerir de forma espúria os recursos dos fundos de pensão.
Enquanto
tudo isso acontecia, o HD do Opportunity continuava sem ser
investigado, porque o banco havia recorrido judicialmente de sua
apreensão. Entretanto, em meados de 2006, em meio a outra investigação,
uma procuradora mandou apurar o que havia nos HDs (na verdade, eram
cinco, e não apenas um, e aí se apurou que o Opportunity havia
transferido fundos de brasileiros residentes no País a contas em
paraísos fiscais, o que era e continua sendo ilegal.
Assim, a
investigação contra Dantas não foi de iniciativa dos delegados Paulo
Lacerda, então superintendente da PF, e Protógenes Queiroz, mas foi
herdada por eles, tendo Queiroz iniciado a Operação Satiagraha em
fevereiro de 2007, mas Lacerda logo foi transferido para a chefia da
Agência Brasileira de Informações, a Abin, tendo Queiroz enfrentado
dificuldades com a nova direção da PF, que atrasou o pagamento a
fornecedores da Satiagraha e ainda deixou vazar na imprensa em fins de
2007 que havia planos para investigar Dantas, quando a Operação deveria
ter permanecido sigilosa até março de 2008.
Em contrapartida,
Queiroz contava com o apoio da Abin de Lacerda, que chegou a fornecer
175 agentes para a Satiagraha. A Abin considerava essa cooperação
perfeitamente legal, mas o problema é que Queiroz não comunicou nada
sobre isso a seus superiores na PF, que só mais tarde, e por acaso,
ficaram sabendo da cooperação. Trabalhando para a Satiagraha, agentes da
Abin chegaram a acompanhar as andanças de Dantas no Rio de Janeiro.
Tendo
assumido a Satiagraha, Queiroz logo teve dificuldades com o Ministério
Público, que chegou a acenar com a interrupção das investigações, porque
até então, meses depois de iniciada a Operação, nenhum crime fora
descoberto relacionado com o Opportunity. Mas daí, em meados de 2008,
Queiroz recebeu relatórios elaborados desde anos antes pelo Banco
Central, que constataram diversas irregularidades no Opportunity, tal
como a aceitação de depósitos milionários por parte de investidores
brasileiros residentes do País que de modo nenhum tinham renda e
patrimônio compatíveis com os descomunais valores de seus investimentos.
Isso
chegou à Satiagraha num momento em que Dantas estava particularmente
vulnerável, pois estava tentando entrar em acordo com seus antigos
desafetos dos fundos de pensão e do Citibank, com o objetivo de vender a
BrT para a OI, enquanto ainda corriam ações judiciais contra o
Opportunity nos Estados Unidos e no Brasil, movidas respectivamente pelo
Citibank e pelos fundos de pensão. A Satiagraha engordou seu arsenal
contra Dantas com o acompanhamento, autorizado judicialmente, das
manobras jurídicas adotadas pelo Opportunity para escapar das
condenações nessas ações.
Em meio a tudo isso, Dantas contratou o
advogado Luiz Greenhalgh, ex-defensor de presos políticos durante o
regime militar e ex-deputado pelo PT. Greenhalgh tratou do acordo com os
fundos de pensão com autoridades do governo Lula como Dilma Rousseff e
foi assessorado por um misterioso personagem chamado de Arquiteto nas
conversas com o Opportunity, e que um perito da Satiagraha identificou
como sendo o bancário João Vaccari Neto, petista histórico, que exerceu
vários cargos no partido e no governo Lula e que viria a ser o
tesoureiro nacional do PT depois da saída de Delúbio Soares.
Em
abril de 2008, com a bênção do governo federal,, o acordo para a venda
da BrT para a Oi foi finalmente firmado e as partes desistiram das ações
judiciais umas contra as outras. Isso apesar de a legislação proibir
que uma empresa telefônica atuasse em duas áreas territoriais contíguas,
proibição que Lula aboliu por decreto.
Isso é apresentado no
livro como um argumento contra a queixa de Dantas, de que sempre foi
perseguido pelo governo do PT. Enquanto tudo isso acontecia, Queiroz
enfrentava novas dificuldades com seus desafetos na PF, incluindo o
vazamento, pela Folha de S. Paulo, de que estava em andamento a Operação
Satiagraha contra Dantas. Isso permitiu aos advogados do Opportunity
solicitarem acesso ao inquérito secreto, pedido que chegou a tramitar em
juízo, mas logo foi negado. O maior responsável pela suspensão dessa
tramitação foi o juiz Fausto De Sanctis, em cuja vara corria o inquérito
da Satiagraha.
Em seguida, o livro retoma o seu início,
relatando a continuação das negociações, em junho de 2008 entre Hugo
Chicaroni e Humberto Braz com os delegados Victor Hugo e Queiroz, para
Dantas e seus familiares não serem incomodados nas investigações, a
troco de 500 mil dólares. No segundo encontro entre as duas partes, num
restaurante, Chicaroni e Braz se reúnem com Victor Hugo, sob as vistas,
em outra mesa, de dois repórteres da Rede Globo que já haviam coberto
outras ações comandadas por Queiroz. Dois pontos ficam claros: primeiro,
Braz era um alto executivo do Grupo Opportunity, com acesso direto a
Dantas, e não um funcionário subalterno; segundo, os repórteres não
gravaram o áudio das conversas, simplesmente gravaram a cena em vídeo;
quem gravou o áudio foi o delegado Victor Hugo.
Depois que os
repórteres foram embora, a conversa continuou, sendo apresentada a
proposta de uma segunda parcela de 500 mil dólares, referente a uma
investigação a ser feita pela PF sobre Demarco, o eterno desafeto de
Dantas. Num terceiro encontro, só entre os dois, Chicaroni entregou a
Victor Hugo cerca de 80 mil reais. Isso permitiu a pronta deflagração da
Operação Satiagraha.
A 8 de julho de 2008, 164 policiais
federais, em 42 carros, cumpriram mandados de busca e apreensão e de
prisão em 35 endereços no Rio, São Paulo e Brasília.
O próprio
Dantas, já de manhã, estava sob custódia em sua casa no Rio. Foi levado
para São Paulo, juntamente com outros integrantes do Opportunity, para a
carceragem da PF. No dia seguinte, o ministro Gilmar Mendes, então
presidente do Supremo Tribunal Federal, concedeu habeas-corpus a Dantas e
outros integrantes ao Opportunity ou ligados ao grupo. Eles foram
soltos e permaneceram em São Paulo.
Entretanto, munido de novas
provas e indícios obtidos nas buscas e apreensões do dia 8, Queiroz
obteve do juiz De Sanctis novo mandado de prisão contra Dantas e
comandou nova detenção do banqueiro a 10 de julho. Mas Gilmar Mendes,
desconsiderando as novas provas apresentadas, concedeu em seguida novo
habeas-corpus a Dantas e pediu a abertura de sindicância contra o juiz
De Sanctis, que segundo ele teria participado de um ardil. Dantas,
assim, foi novamente solto.
A par disso, tomou vulto, na mídia e
em outros meios, a versão de que a Satiagraha estaria grampeando o
próprio presidente do STF, quando a verdade, segundo o livro prova
inclusive com revelações inéditas, o que aconteceu é que o nome de
Gilmar Mendes aparece várias vezes em conversas de pessoas ligadas ao
Opportunity, estas sim monitoradas no quadro da Operação, com ordens
judiciais.
O problema é que entre os monitorados estavam
advogados dos investigados, o que gerou protestos de ilegalidade das
gravações. Outro mito derrubado pelo livro é o suposto ardil que o juiz
De Sanctis e o delegado Queiroz teriam armado para, sem base legal,
decretar a segunda prisão de Dantas e assim desafiar o primeiro
habeas-corpus outorgado pelo ministro Mendes. O fato é que o delegado e o
juiz se basearam em novas provas, tão contundentes que pessoas ligadas a
Dantas defenderam a tese de que as novas evidências haviam sido
“plantadas” pelos agentes da Satiagraha.
De todo modo, foi
instaurada uma investigação da PF sobre Queiroz, que seis dias depois do
início da Satiagraha participou de uma reunião com a cúpula da PF em
que foi afastado da Operação, relegado a dar aulas. A partir daí,
marginalizado, Queiroz foi investigado por várias razões, desde por ter
dado exclusividade à Rede Globo na cobertura até por ter supostamente
grampeado o presidente do STF. A mídia, em especial a revista Veja,
acusada por Queiroz num relatório de fazer parte do esquema de Dantas,
apontou erros e mais erros, até de português, nos relatórios de Queiroz e
deu como certo que Gilmar Mendes tinha sido espionado, como também até a
antessala do gabinete do presidente Lula.
Essas acusações nunca
foram comprovadas pelo Judiciário, mas a campanha contra Queiroz
prosseguiu na mídia. O livro aponta que Queiroz e os demais responsáveis
pela Satiagraha haviam mais acertado do que errado, mas que a mídia
praticamente só deu atenção aos erros, tendo a Operação só sido
defendida por alguns blogueiros e milhares de cidadãos comuns na
Internet. O dirigente da Abin, Paulo Lacerda, que colaborara com a
Satiagraha, foi afastado numa reunião de que participaram o ministro da
Defesa, Nelson Jobim, e o presidente Lula, para discutir denúncia de que
a Abin monitorara um telefonema entre Gilmar Mendes e o senador
Demóstenes Torres.
Isso nunca foi comprovado, mas Lacerda e
Queiroz continuaram sendo investigados sobre o assunto, inclusive na CPI
dos Grampos, que havia sido criada em 2007 e que incluía parlamentares
que em suas campanhas haviam recebido doações de gente ligada ao
Opportunity. Uma completa devassa na Abin, ordenada judicialmente e
cumprida pela Polícia Federal, não descobriu nenhum grampo. Mas a
investigação sobre a “exclusividade” dada a Rede Globo rendeu mais
críticas da mídia à Satiagraha. Queiroz acabou indiciado por esse
favorecimento, nunca por interceptação telefônica ilegal. Marginalizado
na PF, Queiroz no entanto se tornou uma celebridade nacional, tendo sido
chamado para palestras em todo o País.
Contrariando sua própria
carreira como delegado, chegou a dizer numa reunião de petroleiros que
era contra uma investigação tendo a Petrobrás como alvo. Acabou deputado
federal pelo PC do B, embora seja católico devoto e ande sempre com uma
imagem de Nossa Senhora na lapela.
Mais adiante o livro indica
que os dois habeas-corpus concedidos por Mendes a Dantas estavam para
ser julgados em seu mérito pelo pleno do STF em novembro de 2008.
Retrata a carreira de Mendes, que passou pelo Ministério Público sem
realizar nenhuma investigação importante, e se transferiu para o
Executivo, como assessor primeiro do presidente Fernando Collor e depois
de Fernando Henrique Cardoso, que o nomeou primeiro como advogado-geral
da União, tendo sido processado por procuradores por não transmitir ao
Ministério Público informações sobre casos de improbidade
administrativa, e sofrido outros processos, que sempre foram arquivados,
e acusado de mandar custear com verbas públicas cursos de funcionários
em uma escola de que era sócio.
Depois, se tornou ministro do
Supremo, tendo participado das campanhas que resultaram na eleição e
reeleição de um seu irmão como prefeito de Diamantino, MT, onde sua
família é proprietária de terras e de gado e onde ele nasceu. Mendes
sempre se mostrou contrário às ocupações dos sem-terra e favorável às
privatizações e à restrição dos poderes investigativos do Ministério
Público e da Polícia Federal, por ser contra o “Estado policial” –
posição que lhe angariou grande apoio entre advogados criminalistas. O
ministro Joaquim Barbosa acusou Mendes de manter “capangas” no Mato
Grosso. Mendes teve relações muito estreitas com pelo menos dois
advogados do Opportunity, Arnold Wald, com quem colaborou em textos para
a imprensa e em anteprojetos de lei, e Sérgio Bermudes, no escritório
do qual a mulher de Mendes, Guiomar, foi trabalhar ao lado de Elena
Landau. Mendes votou a favor da sustação da ação do procurador Luís
Sousa contra Dantas, por ter o procurador usado em seu relatório o
computador de uma pessoa ligada a Demarco.
Finalmente, na sessão
de 6 de novembro de 2008, o pleno do Supremo aprovou, por nove votos a
um – note-se que estava ausente um ministro, o agora famoso Joaquim
Barbosa – os habeas-corpus concedidos por Mendes e considerou rebelde o
juiz De Sanctis. O único que votou contra foi Marco Aurélio de Mello,
que julgou exemplar o comportamento de De Sanctis e defendeu a tese de
que haviam surgido fatos novos que justificavam a segunda ordem de
prisão contra Dantas. O vitorioso Mendes, presidente do Supremo e do
Conselho Nacional de Justiça, comandou nos meses seguintes uma ofensiva,
chamada de “legislação Satiagraha”, que praticamente tornou impossível a
policiais algemarem os presos e quase impraticável às autoridades e
juízes requererem ou autorizarem interceptações telefônicas.
O
ministro Eros Grau requereu e conseguiu o envio de tudo que tinha sido
apreendido na Satiagraha para que a defesa do Opportunity a examinasse
antes da Polícia Federal. Saiu na imprensa um relatório atribuído a um
executivo do Opportunity segundo o qual o material incluía indicações de
que o presidente Lula havia interferido em favor da compra da BrT pela
TIM, fato que a Satiagraha não se teria interessado em invesigar. Houve
também uma ofensiva midiática e jurídica para defender a tese de que
Queiroz teria se aliado a Demarco e ao jornalista Paulo Henrique Amorim,
que seriam os verdadeiros “orientadores” da Satiagraha, transformando-a
numa operação “privatizada”. Marginalizado e perseguido por ações
judiciais que não deram em nada, o juiz De Sanctis mesmo assim condenou
Dantas a dez anos de prisão, mas é decisão de primeira instância e coube
recurso.
Na Satiagraha, Queiroz foi substituído pelo delegado
Ricardo Andrade Saadi, que fez um relatório não só incriminando Dantas
pelas irregularidades que já haviam sido descobertas, como fez novas
investigações, inclusive em cooperação com autoridades americanas, que
envolveram Dantas em outras irregularidades, como o fato de ter
prometido ao Citibank um terço das ações da Telpart em troca de o banco
americano investir 22 milhões de dólares, enquanto o Grupo Opportunity
entraria com 65 milhões de dólares. No entanto, Dantas manobrou de tal
forma que o Citibank apenas teria direito à devolução de seus 22 milhões
de dólares, sem direito ao terço das ações da Telpart nem ao lucro com a
valorização das ações.
No começo de 2009, as autoridades
brasileiras conseguiram o bloqueio de 2 bilhões de dólares em contas nos
Estados Unidos, Reino Unido e Suíça. Saadi contou ainda com a ajuda da
delatora premiada Claudine Spiero, ex-executiva do Crédit Suisse em São
Paulo, que tinha chegado a ser presa por ilegalidades, e que resolveu
colaborar com a Polícia Federal. Em relação a Dantas ela ajudou a
vasculhar irregularidades em que estava envolvido o consultor Roberto
Amaral, ligado à construtora Andrade Gutierrez, o qual ajudou Dantas a
“internar” 5 milhões de dólares a serem trazidos irregularmente do
Exterior para o Brasil, em espécie.
Uma apreensão, em dezembro de
2008 na casa de Roberto Amaral, ligado também a Orestes Quércia e Jânio
Quadros no Morumbi, em São Paulo, autorizada pelo juiz De Sanctis,
levaria à maior descoberta contra Dantas, aqui descrita pela primeira
vez em toda a sua dimensão. Segundo o autor, são e-mails trocados em
2001 e 2002 entre Amaral, de um lado, e Dantas, o presidente Fernando
Henrique Cardoso, o candidato José Serra e o tucano Andrea Matarazzo,
mais o consultor William Yu.
Segundo o livro, em fevereiro e
março de 2002, Amaral tentou, para beneficiar o Opportunity, indicar o
substituto de Luiz Tarquínio Sardinha Ferro na presidência do fundo de
pensão Previ. Em email para FHC, Amaral chegou a dizer, a FHC, que não
seria “bom” para o ministro Pedro Malan, para Serra, para Ricardo Sérgio
e Eduardo Jorge, indicar Carlos Tersandro, executivo do Banco do Brasil
em Londres, que de fato não foi nomeado. Nessa mesma época, Amaral se
esforçou para estabelecer que Dantas não havia sido a fonte da denúncia
de Antônio Carlos Magalhães, segundo a qual o empresário Benjamin
Steinbruch dissera que pagar 15 milhões de reais a Ricardo Sérgio para
facilitar a constituição do consórcio com que Steinbruch comprou a Vale
do Rio Doce. Em email a Serra, Amaral xinga Serra, diz que Serra precisa
dele, mas ele não precisa de Serra, e diz que Dantas é “um grande
credor”. Dantas envia email a Amaral para pedir que este esclareça junto
a FHC que de fato Dantas fizera pagamentos à Rivoli, empresa ligada a
Ricardo Sérgio, mas que Dantas nada tinha a ver com a corrupção de
Ricardo Sérgio.
Amaral escreve a Dantas para reclamar da suposta
incompreensão deste quanto às ações de Amaral para limpar Dantas, junto
a FHC e Serra, da acusação segundo a qual Dantas seria a fonte da
denúncia de ACM quanto a Ricardo Sérgio. O livro conta detalhes inéditos
da reunião entre Dantas e FHC em maio de 2002, que era para ser secreto
mas vazou na imprensa. Vinte dias antes do encontro, Dantas diz em
email que “a pessoa” (FHC) tem medo que a história toda da privatização
da Telemar venha a público.
Em outros e-mails, Dantas conta que,
em novembro de 2001, já se havia reunido com FHC para pedir que a
União, por intermédio da Advocacia Geral, comandada por Gilmar Mendes,
substituísse a Anatel na causa da Telemar. E que o apoio de Mendes ao
Opportunity se dava indiretamente por meio do procurador-geral da
Anatel, Antônio Domingos Teixeira Bedran além do que Mendes estava
ajudando o Opportunity a levar as causas para o âmbito da Justiça
Federal. E que se deveria agir para que Bedran, na prevista reformulação
na Anatel, fosse mantido no cargo, ou mesmo previsto. Bedran estava na
Anatel desde 1998, mas durante dois anos continuou integrando um
escritório de advocacia que prestava serviços à Telemig, controlada pelo
Opportunity, mas em 2001 a Corregedoria da Advocacia Geral da União,
apurando o assunto, isentou Bedran de quaisquer suspeitas. Entre 2001 e
2002 a Anatel discutia o conflito entre Dantas e o grupo canadense TTW,
pelo controle da Telemig. A Anatel entrou na Justiça ao lado do
Opportunity. Nove anos depois, em março de 2011, Bedran disse que nunca
discutiu com Mendes qualquer questão relativa ao Opportunity, embora a
AGU tenha feito uma petição no processo.
Em junho de 2002 Amaral
disse a Dantas que conversara com FHC, frisou as pressões que seu grupo
estava fazendo sobre o Planalto e falou sobre “grana” para “campanha” e
em outros e-mails contou dos esforços para que o governo não desse
apoio ao procurador Luiz Francisco, para obter, pela CVM e BC, uma lista
dos cotistas do Opportunity Fund em Cayman, segundo denúncia de
Demarco. Amaral disse a FHC que, se a lista aparecesse, envolveria nomes
de pessoas ligadas ao tucanato. O deputado petista Milton Temer soube
que Cayman havia enviado a lista ao BC, mas seu presidente, Armínio
Fraga, negou isso. O diretor-relator da CVM lamentou não ter conseguido
em Cayman acesso à lista. Luiz Francisco jamais conseguiu a lista.
Dantas contou a Amaral que a lista envolvia um filho de FHC.
Amaral
continuou tratando do assunto com FHC. De um documento apreendido com
Amaral se depreende que, além do Opportunity, outros bancos, o Pactual e
o Matrix, tinham também fundos irregulares no Exterior, ou seja, os
nomes dos investidores brasileiros nos fundos desses bancos poderiam
também aparecer. Em email a Serra, Amaral fala da necessidade de, para
“preservar o governo”, impedir que Luiz Francisco tivesse acesso a
qualquer lista, como de fato Luiz Francisco nunca teve. Dantas pretendeu
expor Demarco na imprensa usando e-mails de Demarco contra o
Opportunity obtidos por um antigo capitão-de-corveta que se tornou
empresário, Carlos Henrique Ferreira Braga, que era ao mesmo tempo amigo
de Milton Temer e contratado de William Yu para retirar a canadense TIW
do controle da Telemig Celular, manobra que segundo Yu disse a Braga
visava beneficiar um grupo português, mas na verdade Yu estava
trabalhando para o Opportunity. Amaral e Yu, entretanto, foram contra a
exposição de Demarco na mídia. Até 2011, Milton Temer não soube da
ligação de seu amigo Braga com esse caso da Telemig.
No fim do
primeiro semestre de 2002, Dantas rompeu o acordo com Amaral, alegando
que os contatos com FHC, Andrea Calabi e Ruy Mesquita, entre outros, não
haviam dado em nada, e ele nem fora convidado para um jantar de membros
do governo FHC com executivos da telefonia na Embaixada do Brasil em
Roma.
Amaral respondeu que tivera dificuldades por ser Dantas
ligado a ACM e “malfalado”, por isso, nos meios tucanos. O autor do
livro, em 2011, procurou funcionários do Planalto, mais Fraga, FHC e
Serra, que todos negaram quaisquer contatos ou e-mails trocados com
Amaral e Dantas em torno da lista de Cayman.
Entretanto, nos
e-mails fica claro que Amaral conseguia publicar notas, inclusive contra
Demarco, nas colunas de Gilberto di Pierro, o Giba Um, e Claudio
Humberto. De todo modo, os e-mails Amaral-Dantas ficaram sob a guarda do
procurador-geral Roberto Gurgel, que nunca tomou qualquer providência
em relação a eles, muito menos os liberou para divulgação. (citar
encerramento do capítulo).
Embora ainda esteja em andamento
recurso no Supremo, a 7 de junho de 2011, por 3 votos a 2, o Superior
Tribunal de Justiça, a pedido do Opportunity, mandou anular toda a
Satiagraha e, principalmente, mandou incinerar toda a documentação por
ela apreendida, o que foi feito. Assim como seu ancestral Cícero Dantas
combateu o Antônio Conselheiro, agora Dantas, por meio da Agropecuária
Santa Bárbara Xinguara, do Pará, controlada pelo Opportunity, combate o
MST para defender seus 500 mil hectares em que abate 500 mil cabeças de
gado. O autor não conseguiu ouvir Dantas.
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http://tijolaco.com.br/blog/?p=12411
O livro Operação Banqueiro, de Rubens Valente, é um deprimente retrato do Brasil das elites.
Um mundo de investidores, governantes, operadores de dinheiro, polícia, juízes – de todos os níveis – e dinheiro, muito dinheiro público.
Algo que, em qualquer país do mundo onde houvesse um Judiciário brioso, abalaria a República e aposentaria, de vez, muitos de seus pró-homens.
É a história de como Daniel Dantas, aquele a quem um dia Fernando Henrique Cardoso chamou de “brilhante” construiu seu império.
E como esta construção esteve intrinsecamente ligada ao processo de privatização do patrimônio público.
Curiosamente, este personagem esteve na periferia do momento inaugural do mando neoliberal sobre o mundo: o Consenso de Washington.
Fazia parte de um formigueiro de economistas que se dispunha a traçar novos túneis – mais amplos e mais diretos – para a acumulação de capitais.
Daniel Dantas, a rigor, jamais foi um empresário, mas um financista. Seu mundo não era o da produção, das fábricas, dos empregados, dos produtos e matérias primas reais.
O de fazer dinheiro do dinheiro alheio: tanto dos que a ele entregavam seus capitais – adquiridos à luz e à sombra – pelo favoritismo, pelas pressões, pelos desvãos obscuros do poder e da grana.
E se Daniel Dantas não foi (e não é) um empresário, mais custa a dizer que seja brasileiro.
Seu negócio nunca foi o Brasil ou seu desenvolvimento.
O Brasil sempre foi, ao contrário, o corpo inerte do qual se devia sugar e levar.
E é assim, ainda.
Neste sentido, Daniel Dantas certamente é brilhante.
Sua luminosidade revela um submundo que quase, quase foi iluminado para que a Nação o visse.
Uma possibilidade que acabou pelas mãos de Gilmar Mendes e o nosso inquestionável STF, que mergulhou nas sombras a Operação Satiagraha.
Assassinada a golpes de habeas-corpus, seus herói viram-se convertidos em bandidos levados às barras do tribunal.
Escaparam, é certo, mas a condenação foi a todos os que se atreverem – no jornalismo ou nos cargos públicos – a penetrar nesse serpentário financeiro: “não façam mais isso, ouviram?”
O livro é imperdível e me consome há dias.
Dele, trago a sinopse do editor, aqui. Mais tarde, alguns trechos, para que todos entendam o quão grave é o que se descreve.
E a entrevista de Sérgio Lírio, de CartaCapital, com o autor:
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DE SÃO PAULO
Chega hoje à praça um livro que examina os bastidores da operação policial que investigou os negócios do banqueiro Daniel Dantas em 2008 e divulga pela primeira vez alguns dos documentos recolhidos durante as investigações.
Batizada pela Polícia Federal de Satiagraha, expressão em sânscrito que significa "busca da verdade", a operação fez barulho ao provocar a prisão temporária de Dantas e outros 23 envolvidos, mas depois foi anulada pelo Superior Tribunal de Justiça por causa de ilegalidades cometidas nas investigações.
Justiça italiana condena presidente da Pirelli por espionar Dantas
Donos de portos financiaram políticos
Escrito pelo jornalista Rubens Valente, da Folha, "Operação Banqueiro" oferece um relato minucioso do caso e uma visão crítica da atuação de autoridades que impediram que ela avançasse.
O material inédito inclui e-mails obtidos pela PF na casa do consultor Roberto Amaral, que trabalhou para Dantas entre 2001 e 2002, no fim do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Segundo o livro, as mensagens sugerem que Dantas pediu ajuda ao ex-presidente e a outras autoridades para barrar investigações que o Ministério Público conduzia sobre seus negócios na época.
Dantas, que controla o grupo Opportunity e administra recursos de investidores brasileiros e estrangeiros, adquiriu participações em várias empresas privatizadas no governo FHC, em especial no setor de telecomunicações.
Boa parte do dinheiro administrado pelo Opportunity na época pertencia a um fundo sediado nas Ilhas Cayman, um paraíso fiscal no Caribe, e as autoridades sempre suspeitaram que políticos e investidores brasileiros participavam desse fundo, o que as leis brasileiras proibiam.
| Fernando Donasci - 10.jul.2008/Folhapress | ||
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| O banqueiro Daniel Dantas na época em que foi deflagrada a Operação Satiagraha, da Polícia Federal |
De acordo com o livro, Amaral enviou várias mensagens a ajudantes de ordem de Fernando Henrique para se comunicar com ele. Não há registro de que esses e-mails foram encaminhados ao ex-presidente e lidos por ele.
Outras mensagens obtidas por Valente sugerem que Dantas tinha como aliado no governo o atual ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, então chefe da Advocacia-Geral da União.
Um dos e-mails sugere que Dantas contava com o apoio de Mendes numa disputa com a Agência Nacional de Telecomunicações e para manter na agência um procurador simpático a seus interesses. Em 2008, quando Mendes estava no Supremo e Dantas estava preso, o ministro concedeu habeas corpus para libertá-lo e fez críticas públicas à maneira como as investigações foram conduzidas.
"Eu nunca vi Daniel Dantas", disse Mendes à Folha. "Na Satiagraha, houve abuso na investigação e minhas decisões impuseram uma derrota ao Estado policial." Em mensagem a Rubens Valente, o ex-presidente Fernando Henrique disse que sabia da relação de Roberto Amaral com Daniel Dantas e afirmou que nunca tomou medidas para favorecê-lo.
A assessoria do Opportunity afirmou que Dantas desconhece as mensagens encontradas pela polícia na residência de Roberto Amaral.
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OPERAÇÃO BANQUEIRO
AUTOR Rubens Valente
EDITORA Geração Editorial
QUANTO R$ 44,90 (462 págs.)
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