ENC: Grupo discente

0 views
Skip to first unread message

Carlos Henrique de Freitas Burity

unread,
Feb 1, 2010, 9:26:33 AM2/1/10
to discentes-da-...@googlegroups.com

 

 

Prof. Dr. Carlos Henrique de Freitas Burity

 
Coordenador Geral dos Cursos de Ciências Biológicas &

Superior de Tecnologia em Gestão Ambiental - CSE

) (21) 2672-7841; ) (21) 9308-4025.

* cbu...@unigranrio.com.br

www.unigranrio.br/unidades_acad/ibc/graduacao/biologia/index.html

http://blogs.unigranrio.com.br/novabiologia/

ü por favor, considere a proteção ao meio ambiente antes de imprimir esse e-mail

 

 

De: Vera Telma Macedo da Rocha [mailto:telma...@gmail.com]
Enviada em: quinta-feira, 28 de janeiro de 2010 19:26
Para: Carlos Henrique de Freitas Burity
Assunto: Grupo discente

 

Caro Profº Burity

Bom artigo para começar o ano....se vc gostar coloca no grupo discente!

Abç

Telma

A ARTE DE ENSINAR E A FUNÇÃO DO PROFESSOR

Anita Helena Schlesener

 

Não existe outra obra de arte que esta: nós e o mestre que nos guia. A nossa humanidade está toda voltada ao belo e somente a ele escuta.

O ponto de partida de nossas breves observações é um artigo escrito por Antonio Gramsci por ocasião da morte de Renato Serra, que desapareceu em combate em 20 de julho de 1915. Com o título: La luce che si é spenta o artigo mostra o reconhecimento de um aluno ao mestre que orientou suas reflexões no curso de Letras.

O aluno era Antonio Gramsci e este foi o período em que ele freqüentou a Universidade e iniciou uma áspera crítica ao intelectual tradicional, diletante, sectário e dado a abstrações. Oposto a esta figura, delineava-se um novo tipo de intelectual que, sem descuidar do rigor, era crítico e, ao mesmo tempo, apaixonado, que desenvolvia um trabalho de reflexão e procurava entender os problemas no processo histórico em que eram produzidos. Essa postura delineava também uma disposição em ouvir o outro e contribuir para o seu desenvolvimento intelectual e crítico: "Intelectual, sim, quando intelectual quer dizer inteligente e não tirano pela graça do título dos estudos." Não se podia sacrificar a própria inteligência, independência e liberdade ao intelecto e à vontade dos outros. “Pensar com a própria cabeça, errando às vezes, sem dúvida, mas prontos a reconhecer o erro e a  corrigí-lo”, dispostos a recomeçar para alcançar um fim, ainda que pequeno, mas importante, porque fruto da própria decisão e ação, não da obediência.

A admiração de Gramsci por seus professores e pela atividade do intelectual professor, isto é, daquele profissional que pode tanto despertar o interesse de um aluno por uma determinada área de conhecimento quanto matar sua disposição inicial a qualquer área do saber, transparece em vários artigos. No elogio ao trabalho do mestre, identificado na figura de Renato Serra, Gramsci recorda a experiência de um rapaz que, não podendo freqüentar a escola por problemas de saúde, preparou-se sozinho para um exame de habilitação para continuar em série mais avançada, mas não conseguiu concorrer por não conhecer os 84 artigos do Estatuto do reino. Mais tarde (janeiro de 1928), uma carta escrita do cárcere para Tatiana revelou que essa experiência foi vivida pelo próprio autor.

O artigo La luce che si é spenta nos mostra como o trabalho do professor precisa ser criativo e rigoroso, mergulhado como está na burocracia escolar, que se expressa na rigidez e no esquematismo dos programas curriculares, que limitam a participação e o aproveitamento dos alunos e ignoram suas capacidades reais. No entender de Gramsci, na escola italiana de 1915, mudar esta situação dependia em grande parte do professor, que precisava romper com dogmatismos e questionar a estrutura de ensino. No escrito do então aluno Gramsci, a função de ensinar assumia o significado de desmistificar e esclarecer o que parece obscuro e impenetrável para despertar o amor ao saber, mas não por um saber petrificado do qual certos intelectuais se fazem os guardiães, mas o saber que se constrói na troca de informações e experiências.

Os mestres, como Serra e De Sanctis, diz Gramsci, não perguntavam a quem tinha a boa vontade de aprender se conhecia de cor os artigos da Constituição, ao contrário, se viam um rosto tímido, indeciso, incentivam-no e procuravam apontar-lhe o caminho. A constatação da necessidade de recuperar a função do verdadeiro mestre, no sentido grego do termo, isto é, pedagogo, aquele que nos inicia nos mistérios, nos parece muito atual.

Mestre é aquele que desvela os segredos, retira os véus mostrando que os mistérios “são vãs construções de literatos e que tudo é claro e límpido para quem tem olhos puros e vê a luz como cor e não como vibração de ions e elétrons". Ensinar é uma arte: o mestre nos ensina a dialogar com o saber, a desvelar os sinais da grandeza do passado, a descobrir novamente o que outros já souberam, o que a história lhes contou e a sua experiência recriou. O mestre nos inicia na dimensão simbólica que se concretiza no mistério da palavra, nos ensina a buscar os detalhes escondidos, a perceber a beleza nas coisas simples. Desse modo, o texto escrito toma vida e nos faz vibrar, nos abre perspectivas e nos ilumina. O “nosso gosto se refina, nossos nervos se tornam sutis para colher as mínimas vibrações” e, em seguida, percebemos que “também sozinhos, sem o mestre, podemos aproximar-nos da obra de arte, com mais frescor e sinceridade. Quantos véus são derrubados, quantos ídolos tombados," quantos valores questionados. Questões, antes obscuras, se esclarecem e se pode retomar os problemas para buscar soluções.

Esse artigo nos traz à mente outras reflexões, de Gramsci e de outros autores, que salientam a importância de ensinar no processo de libertação das mentes juvenis dos preconceitos e apriorismos recebidos em outras instâncias de aprendizagem. E, para realizar esse feito, é preciso entender que ensinar é, no fundo, saber viver como criança. O ensino precisa ter o fascínio das coisas vitais, respeitar a curiosidade que interroga, no incansável movimento de busca e recomeço. Conhecer não é buscar o acabamento, a visão abstrata e ordenada das coisas e das teorias, mas é abrir espaço à atividade da fantasia criadora.

Para Gramsci, o professor é como um relojoeiro: tem nas mãos a função de formar o homem e o trabalho eficaz é aquele que se desenvolve paciente e tenazmente, tendo como perspectiva o processo de produção histórica da vida e do conhecimento. O papel do professor é explicitar com modéstia e despretensão, colocando o aluno em contato direto com a história do pensamento e despertando o interesse pela investigação e pelo aprofundamento das questões. O professor é aquele que mostra caminhos abertos e inspira a audácia do pensamento criador. É preciso entender o conhecimento como um fogo vivo, uma energia vital, que una os homens em torno de objetivos comuns, de projetos inovadores, porque a vida é criação e nada é definitivo: em qualquer situação, sempre se abrem perspectivas de mudanças.

Ensinar, de modo geral, deveria significar proporcionar ao aluno tanto o acesso ao conhecimento historicamente produzido quanto a uma atitude reflexiva ante uma realidade existencial, social e política determinada. Trata-se de um processo de formação dinâmica e orgânica, pela qual o aluno adquire determinadas aptidões intelectuais que se traduzem em habilidade retórica e capacidade de argumentação, concretizadas no esforço em problematizar, desvelar os supostos, duvidar de fatos e razões apresentados como evidentes, despertar a força da negação, enfim, realizar o trabalho de crítica.

Essas leituras nos convidam a refletir sobre a situação atual da escola brasileira e da profissão que escolhemos para a nossa vida: e, se a escolhemos, foi certamente motivados pelo exemplo de bons professores e pela existência de uma boa escola pública. Cabe-nos constatar que o problema escolar, nas últimas décadas, tem sido motivo de muitos debates, de eventos pedagógicos e de reformas institucionais, demonstrando a importância que a sociedade e os órgãos oficiais atribuem à educação como fator de desenvolvimento. Entretanto, o discurso sobre a educação e a sua necessidade não se concretiza em atividades realmente renovadoras do ensino e a escola pública, em geral, está passando por um longo processo de abandono e sucateamento.

Sabemos que somente uma análise profunda e ampla das condições econômicas, sociais e políticas da sociedade brasileira no processo de integração ao capitalismo internacional poderia explicar as contradições entre a valorização teórica da educação e a prática de profundo descaso e negliência com a escola pública em nosso país. As causas históricas que constituíram os problemas estruturais da sociedade brasileira, que engendraram as contradições da ordem social que vivemos, atuam no sentido de fazer da educação e da escola um mero mecanismo de sustentação de interesses das classes dominantes.

Embora tenhamos diferentes concepções do que seja educar, o que nos move, no fundo, é a crença de que por meio desse trabalho se pode mudar o mundo, que temos uma função social, que educar é também alimentar esperanças de construção do novo. A formação do nosso imaginário, a rememoração do passado, alimentam nossas expectativas de futuro e velam o presente, de modo que não percebemos claramente seus limites.

Essas questões nos levam a retomar algumas reflexões de Gramsci sobre o educador e a escola: os indivíduos se transformam enquanto transformam a sua realidade social, isto é, a educação é um processo que ocorre ao longo da vida, por meio de nossa inserção social. O próprio ambiente funciona como um dos muitos “professores”. Na crítica ao Ensaio Popular de Bukhárin, Gramsci acentua o aspecto dialético de nossa relação com o mundo e esclarece que, quando o senso comum predomina e se impõe à ciência, tem-se a situação em que o “ambiente não educado e rústico dominou o educador”. É preciso criar as condições políticas que possibilitem uma interação entre professor-aluno porque, “se o ambiente é o educador, ele deve ser por sua vez educado”.

Nesse contexto, é preciso entender que é necessário superar o senso comum e que a escola é apenas um pequeno espaço de formação que deve interagir com o conjunto da formação social. Superar o senso comum significa superar uma visão de mundo fragmentária que, por suas condições, nos mantém vinculados ao saber dominante; implica, por suposto, compreender e criticar o instituído elaborando um modo de pensar autônomo. Significa também pensar a questão pedagógica no âmbito da questão política e cultural, isto é, entender que a escola é um segmento de uma praxis histórica e social que acontece no cotidiano entre pessoas que atuam constantemente como educadores e educandos. Daí, há que constatar que nossa parcela de contribuição nesse processo, enquanto professores, é mínima, porque a educação se efetiva no conjunto das relações sociais; faz-se necessário integrar a escol a outros mecanismos de formação existentes na sociedade e que, por suas condições, exercem hoje um papel muito mais efetivo na formação do homem moderno (ex. a televisão, o cinema, a internet).

O progresso tecnológico, as mudanças mais recentes nas relações de trabalho, o predomínio do pensamento científico nas relações modernas de produção do saber, não apenas mudaram as condições de apropriação do saber historicamente produzido como transformaram a arte milenar de formação do homem por meio do ensino. Esses limites se ampliam quando se trata da realidade brasileira: as deficiências estruturais da escola pública, agravadas pelas condições de abandono a que foi relegada ao longo dos anos, tornam-na uma instituição que, de modo geral, não forma o homem nem prepara devidamente para o trabalho. É claro que precisamos respeitar as especificidades regionais e considerar que existem exceções, mas estas só confirmam a regra.

Não existem mais as condições de exercício da pedagogia como arte e os objetivos colocados pelas reformas de ensino mais recentes no Brasil (modernizar a escola, profissionalizar o aluno, desenvolver habilidades e competências, o domínio da leitura e da escrita, iniciar no conhecimento científico, entre outros) estão longe de serem concretizados, tanto em função das precárias condições materiais em que se encontra a escola, limites que se estendem à própria formação do professor, quanto pelo sentido que tais reformas assumem no contexto dos objetivos de desenvolvimento capitalista.

Atuando nos vários níveis da escola, nossa ação se limita pelo modo como as contradições das relações sociais capitalistas e da integração do Brasil ao capitalismo internacional perpassam o sistema escolar e condicionam o seu funcionamento. Nesse contexto, não se tem aprendizado como diálogo criador entre mestre e aluno, mas a escola exerce um papel apenas na reprodução da ideologia dominante e na consolidação das relações de classe instituídas, cumprindo precariamente a função de alfabetizar e formar a força de trabalho como um exército de reserva disponível, na sua maioria não adaptado às necessidades de um mercado que muda constantemente. Os filhos das classes média e alta concluem um curso universitário e se preparam para os cargos dirigentes. Desse modo, a escola contribui para manter a divisão social do trabalho e a estrutura de classes vigente. A mediação desse processo é realizada pelo Estado, nos conteúdos da lei e das políticas educacionais.

A constatação da realidade deve servir para repensarmos as condições do educar, no sentido de recuperar nossa identidade como educadores e o ensino como arte, isto é, como experiência criadora e lúdica, que nos permita crescer juntos. A possibilidade de uma nova educação depende de uma mudança radical da estrutura escolar e de seu papel na sociedade (que, por sua vez, implica a mudança da estrutura da sociedade). Difícil, utópico, pode ser... mas nos resta ainda a capacidade de sonhar e a criatividade que tem sido largamente demonstrada ao longo dos anos. A tarefa que se nos apresenta é a de compreender a atual situação social e política e pensar alternativas de mudança  questionando os limites que nos são postos; exercer uma atitude crítica permanente para reconstruir as condições da arte de ensinar como meio efetivo de nos tornarmos sujeitos do conhecimento e da ação. 

“Ver a luz como cor e não como vibração de ions e elétrons”, isto é, perceber a qualidade das ações e o empenho em produzí-las, antes de quantificá-las, criar e não reproduzir, porque a realidade da escola (assim como a de um partido político, no dizer de Gramsci), “não se constitui só de números e de burocracia, mas também de idéias e de sentimentos”. E, acima de tudo, estar sempre atento para o problema da dominação do homem e da natureza, na forma que assumem na sociedade capitalista. Entender que “o jardim é a continuação da escola”, isto é, que nossa tarefa só pode ser bem desempenhada se tivermos em  conta a estrutura econômico-social que nos envolve e que nos cabe questionar.

O que precisamos é retomar, cotidianamente, a pergunta sobre o sentido de nossa prática, buscar os seus limites, verificar o que de novo pode ser feito, quais os caminhos que se abrem para a descoberta do novo. Perguntar-nos, cotidianamente, em que medida nossa prática é questionadora e, a partir desse pressuposto, criadora e libertadora para os nossos educandos, no sentido de possibilitar ao indivíduo formar-se como sujeito autônomo, isto é, um indivíduo capaz de pensar, opinar e gerir sua vida, decidindo sobre o seu próprio destino.  São estas algumas das condições básicas para recuperarmos a arte  (e o prazer) de ensinar.

BIBLIOGRAFIA:

DIAS, Edmundo Fernandes, Gramsci em Turim – a construção do conceito de hegemonia. São Paulo : Xamã, 2000.

GRAMSCI, Antonio. Sotto la Mole (1916-1920). Torino : Einaudi Editore, 1975. (SM)

GRAMSCI, Antonio. : Scritti Giovanili (1914-1918) Torino : Einaudi Editore, 1975, p. 10-12. (SG)

GRAMSCI, Antonio. Quaderni del Carcere (Edizione critica dell Istituto Gramsci, a cura di Valentino Gerratana). Torino : Einaudi Editore, l977, 2a. ed.

MARX, K. O l8 Brumário de Luís Bonaparte. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.

NOSELLA, Paolo. A Escola de Gramsci. Porto Alegre : Artes Médicas, 1992.

SCHLESENER, Anita. Revolução e Cultura em Gramsci. Curitiba : Ed. da UFPR, 2001.

 

Profa. Anita Helena Schlesener
Departmento de Filosofia – UFPR.

anita....@libero.it


 




avast! Antivirus: Outbound message clean.

Virus Database (VPS): 100131-0, 31/01/2010
Tested on: 01/02/2010 12:26:33
avast! - copyright (c) 1988-2010 ALWIL Software.


Reply all
Reply to author
Forward
0 new messages