Tento acreditar todos os dias que a Justiça é levada a sério. Que advogados e juízes, empresas e jurisdicionados, servidores e assessores dão o máximo de si e que não estão numa conspiração para sempre levarem vantagem. Ultimamente está difícil acreditar nisso. Acontecimentos recentes me levam a ficar ainda mais cético sobre o assunto.
Eu sou cliente da telefonia móvel pós-paga da Vivo. Minha conta costumava ser debitada automaticamente e, há pouco mais de um ano, um seguro da ACE Seguros (Chubb) foi adicionado à fatura sem a minha autorização. Só descobri isso depois de alguns meses, quando vi pelo extrato do Banco do Brasil que a conta estava com um valor diferente.
Tentei resolver com a Vivo mas sem sucesso. Disseram que eu tinha que resolver com a Chubb porque o meu contrato fora com ela. Acontece que nunca autorizei cobrança de seguro algum. A própria atendente da Vivo me dissera que os meus dados foram compartilhados em razão de uma parceria com a Chubb e que eu "provavelmente teria autorizado por telefone ou SMS". Eu não tinha feito isso, então pedi que me encaminhassem o SMS ou a gravação da ligação com a minha voz. Óbvio que nunca recebi essa comprovação.
Quando me vi na situação descrita, eu decidi procurar mais pessoas com o mesmo problema que eu. Acessei o site Reclame Aqui e descobri vários casos semelhantes. E que provavelmente geraram vários processos com o mesmo fundamento. Naquele instante eu me perguntei: quando empresas prejudicam clientes em massa de forma reiterada e calculada, isso é um problema judicial ou de gestão incompetente? E se for um problema judicial, será que estamos resolvendo o problema da melhor maneira?
Eu decidi entrar com uma ação. Eu estava furioso com todo o fluxo a que fui submetido. Ligações demoradas que nunca resolviam nada. Transferências, musiquinhas, filas de espera...
Meus principais pedidos foram os seguintes:
c. a condenação das empresas rés ao ressarcimento em dobro dos valores cobrados indevidamente pela Chubb Seguros Brasil S.A. em fatura de serviço de telefonia da VIVO S.A. (duas parcelas de R$ 5,99 referentes aos meses de março e abril);
d. o encerramento definitivo de contrato de “seguro premiado” da empresa Chubb Seguros S.A., cuja existência é devido ao fornecimento de dados por parte da ré VIVO S.A.
e. a condenação das rés em reparação do dano moral no valor de R$ 10.000 (dez mil reais) em razão do uso e compartilhamento indevido de dados e do nome do autor para uso em concretização de negócio jurídico de natureza distinta sem a manifestação de vontade por parte do autor e sem a sua autorização;
f. regular processamento para que, ao final, seja julgada procedente a ação para encerramento das cobranças indevidas e do contrato de seguro efetivado sem a autorização do autor.
Perceberam o destaque no item e?
Todo advogado sabe que cobrança indevida não gera danos morais. Isso é tão recorrente em decisões que quem ainda tenta pedir dano moral por isso só pode estar desinformado, ou acredita com firmeza naquela história de "aborrecimento, constrangimento, etc. e tal". Dano moral não é isso.
Dano moral é aquele que atinge direitos de personalidade ou a dignidade da pessoa humana - aquele coringa que todo mundo define, mas na verdade é cômodo pra todos manterem uma zona cinzenta nele.
Mas vamos focar no direito de personalidade. O nome é um exemplo. Mas há outros:
X- são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.
Acho que fica muito claro que quando uma empresa fornece dados de um cliente a outra para fechar negócios sem a autorização dele, nome e intimidade são violados automaticamente. Eles me ligam para oferecer produtos insistentemente. E os mais atrevidos ainda formalizam contratos sem a anuência, como foi o caso da Chubb e Vivo. Então, todo o meu argumento foi em torno do fornecimento dos meus dados privados - CPF, Telefone... - e da violação de direitos de personalidade. O que o juiz achou disso? Bem, ele não achou. Ainda.
Antes de eu mostrar os absurdos que aconteceram eu preciso contextualizar o seguinte. O processo demorou mais de 290 dias para ser sentenciado em razão de a citação não ter sido efetivada em relação à Chubb. Foram quatro tentativas. Pedi o endereço à própria empresa, ela me enviou por e-mail e, pasmem, a citação não ocorreu porque o endereço estava errado - eles haviam se mudado (pela quarta vez?)!
Como os valores eram baixos, fiz o seguinte: desisti em relação à Chubb (que era quem teria efetivamente que reembolsar o que foi cobrado indevidamente) e prossegui em relação à VIVO, que foi quem forneceu os dados para o contrato de seguro. A essa altura, inclusive, eu já tinha conseguido, com muito suor, cancelar o serviço de seguro.
O processo é público e aconteceu na 15ª Vara do Consumidor dos Juizados Especiais Cíveis da Comarca de Salvador. A audiência aconteceu nesta segunda (12 de março de 2018). No dia seguinte, havia uma sentença:
Isto posto, com fulcro no teor do artigo 487, inciso I do NCPC, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTES os pedidos formulados na exordial, para determinar que a ré proceda com a restituição, dos valores excedentes intitulados de ¿seguro premiado¿, no valor de duas parcelas de R$ 5,99 (cinco reais e noventa e nove centavos), referentes aos meses de março e abril, em dobro, nos termos do artigo 42,§único do CDC, a incidir juros de 01% ao mês e correção monetária pelo INPC, ambos a partir do pagamento de cada fatura, nos termos do artigo 397 do CC e súmula 43 do STJ.
Indefiro o pleito relativo aos danos morais face a constatação de sua inocorrência, uma vez que a mera cobrança indevida é inapta a desencadear afetação aos direitos da personalidade, em respeito ao REsp 1.550.509-RJ, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 3/3/2016 (Info 579).
A sentença parece ter saído de um modelo pronto e deve ter considerado o pedido médio que a grande maioria das pessoas fazem: dano por cobrança indevida. Não leva em cinta em momento nenhum o meu pedido e causa de pedir.
Para completar, ainda me concedeu os pedidos que eu tinha desistido. Quem deveria me reembolsar era a Chubb e não a Vivo. (Tudo bem que poderia haver o entendimento de responsabilidade solidária e mais.)
O que concluir de tudo isso?
Eu falo ninguém porque há uma chance - uma chance grande - de uma decisão ser concebida por alguém que não seja o próprio juiz. Com muita sorte, eles revisam e remetem para que o estagiário ou assessor refaçam.
Eu estagiei com um Juiz Federal que fazia isso - Salomão Viana - com tudo que passava por minhas mãos e de todos os assessores. Lembro dos rabiscos vermelhos enormes com alterações e emendas. Um juiz assim não é visto como uma máquina de produtividade, mas tenha certeza que ele cuidava de cada caso com uma visão particular e adequada. E isso é o que deve ser feito, mas de uma forma eficiente.
E em todos os lugares. É claro que com a quantidade de ações que existe hoje em dia parece impossível dar conta de tudo com carinho e atenção necessários.
Veja o caso da Chubb e da Vivo. Eles têm claramente um déficit no gerenciamento de suas informações e procedimentos, são empresas gigantes e ineficientes e que têm um incentivo a mais para manterem suas práticas abusivas recorrentes: um Judiciário ineficiente. Basta ir ao Reclame Aqui e verificar quantas reclamações existem, ou acessar os milhares de processos que existem com os mesmos pedidos.
O Judiciário está entupido de ações repetitivas com a mesma causa de pedir e pedido. Tudo por causa de erros procedimentais de empresas que não são punidas e não veem razão nenhuma para mudarem de comportamento. Por que não resolver um problema de forma única e agrupada? Por que não solucionar falhas? Por que dispersar e esperar isso em processos múltiplos?
A resposta é: o custo de responder judicialmente é baixo. O "crime" nesse caso compensa. E tendo um bando de advogados se esbofeteando para atuarem como representantes dessas grandes causas de grandes empresas a coisa fica fácil.
Eu tento ser um advogado diferente. Não só porque eu ando de jeans e camiseta nos Fóruns ou porque atendo meus clientes de bermuda, camiseta estampada e ando de metrô e não com um Audi TT.
Eu acredito que ser advogado é mais do que litigar e ganhar dinheiro. É ganhar a vida de forma a revolucionar e inovar nas formas de resolvermos problemas que nem sempre são problemas judiciais. Cada profissional tende a ver situações do ponto de vista que estudou. As faculdades ajudam a emburrecer nesse sentido. Mas por que não resolver as coisas de outras formas?
A maioria não pensa assim e é por isso que vemos a luta diária de advogados e escritórios lutando por contas enormes de clientes como Vivo e Chubb. Eles pensam que ganham muito dinheiro (que na verdade é pouco para as empresas) e acham que pagam muito dinheiro aos seus "associados" (que na verdade são empregados e ganham pouco). A máquina gira em torno de pessoas iludidas e há um reflexo claro que é o seguinte...
Num escritório de massa as ações chegam aos montes. Quem perde tempo lendo? Os sócios? Não. Os advogados? Bem, deveria ser. Mas há prazos novos a toda hora e são poucos os que dão a devida atenção às especificidades. Além do mais existem seguros e as perdas sempre são compensadas, e eu ganho tão pouco pra trabalhar tanto que se der errado e eu for demitido tudo bem, certo? O sistema recompensa a ineficiência. Todos estão seguros ou desmotivados o suficiente para não ligarem para o seu processo. O resultado são petições ruins que contestam coisas sem sentido, que erram a parte autora, que tem informações equivocadas, advogados que perdem audiência...
Mas para a Vivo e Chubb tudo permanece dentro dos padrões. Consigo imaginar uma mesa de reunião em que alguém levanta o problema dos processos judiciais.
- Os custos com processo estão aumentando, precisamos fazer algo!
- Calma, vamos aumentar as contas de telefone. Assim podemos compensar os custos.
- Genial.
Além disso juízes e servidores não ligam para quem arca com a derrota, se o autor ou réu. O Judiciário recompensa a produtividade. O que todos querem é limpar a prateleira ou - no mundo digital - arquivar o máximo de processos. E não importa quem vai perder ou ganhar. Eles que se virem.
Eu pensei muito antes de finalizar esse texto. Eu detesto textos que jogam um monte de problema e informações e não apresentam soluções. São criadores de problema apenas. Eu não tenho ideias claras de como solucionar todos eles mas vou arriscar alguns esboços.
Escrevi demais? Sim. Mas não cheguei a falar metade do que queria.
É preciso esclarecer que isso é um problema sistêmico. Servidores, advogados e juízes estão tão atrelados a um sistema que funciona de maneira equivocada, que não percebem os erros. Ou se percebem, preferem não perder determinadas regalias. O resultado é visível: servidores sobrecarregados, advogados sobrecarregados, empresas ineficientes.
É incrível como as pessoas são inertes e anestesiadas. Elas corroboram com a própria farsa, hipnotizadas. Continuam estressados, sobrecarregados, infelizes, mas permanecem imóveis. Saímos todos perdendo.
PS.: Juízes, advogados e servidores devem acabar com essa noção de rivalidade. A mudança deve acontecer de uma união. Essa luta é conjunta e tem impacto social gigantesco.
Você concorda ou não?
Número do Processo (Projudi-TJ Bahia) N.º: 0070134-44.2017.8.05.0001
( Como muita gente pediu que enviasse a petição por email, nos comentários, publiquei no Jusbrasil. Acesse a petição aqui >>> https://goo.gl/a8w6w1)