As fitas da vida - Um conto de Lobato

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Rodrigo Pedroso

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Jan 3, 2010, 2:41:41 PM1/3/10
to Oito Colunas, direita-critic...@googlegroups.com
AS FITAS DA VIDA
 
por Monteiro Lobato
(conservada a ortografia original do autor)
 
Perambulavamos ao sabor da fantasia, noite a dentro, pelas ruas feias do Braz, quando nos empolgou a silhueta duma pesada mole tijolacea, com aparencia de usina vazia de maquinismos.
 
-- Hospedaria dos Imigrantes, informa o meu amigo.
 
-- É aqui, então...
 
Paramos a contempla-la. Era ali a porta do Oeste Paulista, essa Canaã em que o ouro espirra do solo, era ali a ante-sala da Terra Roxa -- essa California do rubidio, oasis côr de sangue coalhado onde nasceu o Brasil de amanhã, uma coisa um pouco diferente do Brasil de ontem, luso e perro; era ali o ninho da nova raça, liga, amalgama, justaposição de elementos antimodorra, vencedor da vida á moda americana.
 
Onde pairam os nossos Walt Whitmans, que não veem estes aspectos do país e os não põem em cantos? Que cronica, que poema não daria aquela casa da Esperança e do Sonho! Por ela passaram milhares de criaturas humanas, de todos os paises e de todas as raças miseraveis, sujas, com o estigma das privações impresso nas faces -- mas refloridas de esperança ao calor do grande sonho da America. No fundo, herois, porque só os herois esperam e sonham. 
 
Emigrar: não pode existir fortaleza maior. Só os fortes atrevem-se a tanto. A miseria do torrão natal cansa-os e eles se atiram á aventura do desconhecido, fiando na paciencia dos musculos a vitoria da vida. E vencem.
 
Ninguem ao ve-los na Hospedaria, promiscuos, humildes, quase muçulmanos na surpresa da terra estranha, imagina o potencial da força neles acumulado, á espera de ambiente propicio para explosões magnificas.
 
Cerebro e braço do progresso americano, gritam o Sesamo ás nossas riquezas adormecidas. Estados Unidos, Argentina, São Paulo devem dois terços do que são a essa varredura humana trazida a granel para aterrar os vazios demograficos das regiões novas. Mal cai no solo novo, transforma-se, floresce, dá de si a apojadura farta com que se aleita a Civilização.
 
Aquela Hospedaria... Casa do Amanhã, corredor do futuro...
 
Por ali desfilam, inconscientes, os formadores duma raça nova.
 
-- Dei-me com um antigo diretor desta almanjarra, disse o meu companheiro, ao qual ouvi muita coisa interessante acontecida lá dentro. Sempre que passo por esta rua, avivam-me na memoria varios episodios sugestivos, e entre eles um, romantico, poetico, que até parece arranjo para terceiro ato de dramalhão lacrimogeneo. O romantismo, meu caro, existe na natureza, não é invenção dos Hugos; e agora que se fez cinema, posso assegurar-te que muitas vezes a vida plagia o cinema escandalosamente.
 
Foi em 1906, mais ou menos. Chegara do Ceará, então flagelado pela seca, uma leva de retirantes com destino a lavoura do café, na qual havia um cego, velho de mais de sessenta anos. Na sua categoria dolorosa de indesejavel, por que cargas d'agua dera com os costados aqui? Erro de expedição, evidentemente. Retirantes que emigram não merecem grande cuidado dos prepostos ao serviço. Vem a granel, como carga incomoda que entope o navio e cheira mal. Não são passageiros, mas fardos de couro vivo com carne magra por dentro, a triste carne de trabalho, irmã da carne de canhão.
 
Interpelado o cego por um funcionario da Hospedaria, explicou sua presença por engano de despacho. Destinavam-no ao Asilo dos Invalidos da Patria, no Rio, mas pregaram-lhe ás costas a papeleta de "Para o eito" e lá veiu. Não tinha olhar para guiar-se, nem tem olhos alheios que o guiassem. Triste destino dos cacos de gente...
 
-- Por que o Asilo dos Invalidos? perguntou o funcionario. É voluntario da Patria?
 
-- Sim, respondeu o cego, fiz cinco anos de guerra no Paraguai e lá apanhei a doença que me pôs a noite nos olhos. Depois que cheguei caí no desamparo. Para que presta um cego? Um gato sarnento vale mais.
 
Pausou uns instantes, revirando nas orbitas os olhos esbranquiçados. Depois:
 
-- Só havia no mundo um homem capaz de me socorrer: o meu capitão. Mas, esse, perdi-o de vista. Se o encontrasse -- tenho a certeza! -- até os olhos me era ele capaz de reviver. Que homem! Minhas desgraças todas vem de eu ter perdido meu capitão...
 
-- Não tem familia?
 
-- Tenho uma menina que não conheço. Quando veiu ao mundo, já meus olhos eram trevas.
 
Baixou a cabeça branca, como tomado de subita amrgura.
 
-- Daria o que me resta de vida para ve-la um instantinho só. Se o meu capitão...
 
Não concluiu. Percebera que o interlocutor já estava longe, atendendo ao serviço, e ali ficou, imerso na tristeza infinita da sua noite sem estrelas.
 
O incidente, entretanto, impressionara o funcionario, que o levou ao conhecimento do diretor. O diretor da Imigração era nesse tempo o major Carlos, nobre figura de paulista dos bons tempos, providencia humanizada daquele departamento. Ao saber que o ceho fora um soldado de 70, interessou-se e foi procura-lo. Encontrou-o imovel, imerso no seu eterno cismar.
 
-- Então, meu velho, é verdade que fez a campanha do Paraguai?
 
O cego ergueu a cabeça, tocado pela voz amiga.
 
-- Verdade, sim, meu patrão. Fui soldado do 33.
 
-- O 33 de São Paulo? Como isso se você é do Norte? objetou o major.
 
-- Verdade sim, patrão. Vim no 13, e logo depois de chegar ao imperio do Lopes entrei em fogo. Tivemos má sorte. Na batalha de Tuiuti nosso batalhão foi dizimado como milharal em tempo de chuva de pedra. Salvamo-nos eu e mais um punhado de camaradas. Fomos incorporados ao 33 paulista para preenchimento dos claros, e neles fiz o resto da campanha. 
 
O Major Carlos tambem era veterano do Paraguai, e por coincidencia servira no 33. Interessou-se, pois, vivamente pela estoria do cego, pondo-se a interrogá-lo a fundo.
 
-- Quem era o seu capitão?
 
O cego suspirou.
 
-- Meu capitão era um homem que, se eu o encontrasse de novo, até a vista me era capaz de dar! Mas não sei dele, perdi-o -- para mal meu...
 
-- Como se chamava?
 
-- Capitão Boucault.
 
Ao ouvir esse nome o major sentiu eletrizarem-se as carnes num arrepio intenso; dominou-se, porém, e prosseguiu:
 
-- Conheci esse capitão. Foi meu companheiro de regimento. Mau homem, por sinal, duro para com os soldados, grosseiro...
 
O cego, até ali vergado na atitude humilde do mendigo, ergueu altivamente o busto e, com indignação a fremir na voz, disse com firmeza:
 
-- Pare aí! Não blasfeme! O capitão Boucault era o mais leal dos homens, amigo, pai do soldado. Perto de mim ninguem o insulta. Conheci-o em todos os momentos, acompanhei-o durante anos como seu ordenança e nunca o vi praticar o menor ato de vileza.
 
O tom firme do cego comoveu estranhamente o major. A miseria não conseguira romper no velho soldado as fibras da lealdade, e não ha espetaculo mais arrebatador do que o de uma lealdade assim vivedoira até aos limites extremos da desgraça. O major, quase rendido, sobresteve-se por um instante. Depois, firmemente, prosseguiu na experiencia.
 
-- Engana-se, meu caro. O capitão Boucault era um covarde...
 
Um assomo de colera transformou as feições do cego. Seus olhos anuviados pela catarata revolveram-se nas orbitas, num horrivel esforço para ver a cara do infame detrator. Seus dedos crisparam-se; todo ele se retesou, como fera prestes a desferir o bote. Depois, sentindo pela primeira vez em toda a plenitude a infinita fragilidade dos cegos, recaiu em si, esmagado. A colera transfez-se-lhe em dor, e a dor assomou-lhe aos olhos sob a forma de lagrimas. E foi lacrimejando que murmurou em voz apagada:
 
-- Não se insulta assim um cego...
 
Mal pronunciara estas palavras, sentiu-se apertado nos braços do major, tambem em lagrimas, que dizia:
 
-- Abrace, amigo, abrace o seu velho capitão! Sou eu o antigo capitão Boucault...
 
Na incerteza, aparvalhado ante o imprevisto desenlace e como receoso de insidia, o cego vacilava.
 
-- Duvida? exclamou o major. Duvida de quem o salvou a nado na passagem do Tebiquari?
 
Áquelas palavras magicas a identificação se fez e, esvanecido de duvidas, chorando como criança, o cego abraçou-se com os joelhos do major Carlos Boucault, a exclamar num desvario:
 
-- Achei meu capitão! Achei meu pai! Minhas desgraças se acabaram!...
 
E acabaram-se de fato.
 
Metido num hospital sob os auspicios do major, lá sofreu a operação da catarata e readquiriu a vista.
 
Que impressão a sua, quando lhe tiraram a venda dos olhos! Não se cansava de "ver", de matar as saudades da retina. Foi á janela e sorriu para a luz que inundava a natureza. Sorriu para as arvores, para o céu, para as flores do jardim. Ressurreição!...
 
-- Eu bem dizia! exclamava a cada passo, eu bem dizia que se encontrasse o meu capitão estava findo o meu martirio. Posso agora ver minha filha! Que felicidade, meu Deus!...
 
E lá voltou para a terra dos verdes mares bravios onde canta a jandaia. Voltou a nado -- nadando em felicidade. A filha, a filha!...
 
-- Eu não dizia? Eu não dizia que se encontrasse o meu capitão até a luz dos meus olhos me havia de voltar?
 
 
1916
 
 
 
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