http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/12252-resposta-a-carlos-nougue.html
Antes de tudo, eu devo dizer que não acho que alguém tenha que dar
atenção a esse debate (ou algo parecido). Sei que alguns podem não
querer se envolver demais com uma das partes, ou ambas. E também sei
que outros não têm tempo, simplesmente. Por outro lado, eu também não
saberia dizer muita coisa sobre a maior parte do artigo. Então, me
restringirei a apenas um ponto, o que mais me interessa:
"3) E a terceira quaestio disputata giraria em torno do seguinte tema:
"É possível conciliar a doutrina ético-política de Santo Tomás com o
liberalismo e a democracia liberal?".
"Neste ponto seria talvez possível um debate, mas não com quem começa
por confundir os termos da questão. Você se refere à democracia
liberal como modelo abstrato, tal como concebido por John Locke e
similares, ou às democracias liberais reais, historicamente
existentes, nascidas não da imitação servil de um modelo e sim de
circunstâncias histórico-sociais complexas, praticamente
incontroláveis?"
Aí, surge o problema maior que vejo entre muitos (não todos) liberais
e libertários, e conservadores, que é: eles adotam a democracia
liberal real, nascida de circunstâncias histórico-sociais complexas e
praticamente incontroláveis, como o modelo teórico por excelência. Por
exemplo, a democracia americana, que por um lado tem defeitos, por
outro tem características que só fazem sentido para o povo americano,
é o modelo teórico de quase todas as democracias do mundo, certamente
de todas na América Latina, e até alguns regimes que não eram
democracias na prática, como os Estados Unidos do Brasil, criado em
1891, e o Regime Militar Brasileiro, que criou o bipartidarismo
artificial da Arena e MDB em parte para imitar o bipartidarismo real
dos americanos.
Se eu acho isso errado? Não, em si não acho errado. É claro que
aproveitar o que deu certo em outros países não é errado, desde que se
considere as circunstâncias, que sempre serão diferentes em nações
diferentes. É um vício intelectual de brasileiros tomar o que há de
concreto no exterior como modelo teórico e não considerar as
circunstâncias.
Aí, surge outra questão: A democracia americana, como modelo teórico e
abstrato (ou seja, tratada como tendo sido criado pela mente de um
filosofo e não pela história), é compatível com a doutrina ético-
política de Santo Tomás? Bem, eu não sei responder. Mas isso não
parece ser problema para as dezenas de milhões de católicos que vivem
nos Estados Unidos, menos ainda para outras dezenas de milhões de
católicos latino-americanos que querem muito se mudar para lá. Sobre
os últimos, uma questão: como a Igreja considera um católico que quer
viver num país com um sistema, digamos, pecaminoso? Os católicos
deveriam ser proibidos de querer se mudar para os Estados Unidos?
Lembrando que o Jack Kennedy, católico de origem irlandesa, teve que
jurar que como presidente dos Estados Unidos obedeceria à constituição
americana e não ao Papa. O Jack Kennedy cometeu algum pecado, do ponto
de vista da Igreja?