Em comemoração dos 40 anos da ISKCON no Brasil, um dos seus principais pioneiros, Mahavira Prabhu, escreveu este doce relato.
Comemorando 40 anos da ISKCON do Brasil
Por Mahavira Das
Por favor aceita minhas humildes reverências e todas as glórias a Srila Prabhupada!
Primeiro quero agradecer a todos pela oportunidade de falar sobre um momento extraordinariamente especial na minha vida e também expressar para todos os devotos Brasileiros e em particular Dhanvantari Maharaj, Purushraya Maharaj, Chandra Mukha Maharaj, Lokasaksi, Isvara, Jagad Victra prabhu’s como incrível vocês realmente são. Vocês todos tem levado o movimento de Srila Prabhupada para níveis que pouco lugares no mundo tem alcançados ou sonhado. Sem dúvida a yatra do Brasil tem deixado Srila Prabhupada orgulhoso e feliz.

Na foto, Mahavira Prabhu na esquerda, Srila Acharyadeva na direita
Eu era um brahmachari muito novo, e estava fazendo Sankirtana em Toronto no Canada, onde eu entrei no movimento no comecinho de 1971. Um belo dia cedo da manha, muito frio com neve por todo parte sai para sankirtana distribuindo Bhagavad Gita’s de Srila Prabhupada. Entre em uma loja de turismo que era de uma família de hindus e vi na parede uns pôsteres grandes e coloridos de São Paulo e Rio de Janeiro, e fiquei encantado. Senti que os posters estavam me chamando, "Vem para cá, vem”!
Quando voltei para o templo depois do Sankirtana, perguntei o presidente do templo, Jagadisha prabhu, se tinha um templo no Brasil, e ele falou que não. Perguntei a ele se eu poderia ir, e logo depois escrevemos uma carta para Srila Prabhupada pedindo licença para que eu pudesse ir ao Brasil. A resposta veio logo, “Sim”, poderia ir com Suas bênçãos.
Entre o tempo de receber a confirmação de SP, e minha chegada ao Brasil, viajei pela América Latina, Caribe e conheci meu siksa guru, irmão espiritual e amigo na vida, Srila Acharyadeva.
Maharaj veio fazer uma curta missão de reconhecimento e se hospedou com o Doctor Ivan na Bahia, o Dhanvantari Maharaj. Eu estava em Trinidade e Tobago resolvendo problemas no templo quando Maharaj chegou e me disse que chegou a hora de ir para o Brasil. Finalmente!
Na mesma hora peguei minhas poucas coisas, e disse a Lokabandhu, um brahmachari da Republica Dominicana, “Arrume suas malas, estamos indo para o Brasil”.
Então viajamos para Brasil, praticamente sem dinheiro, e com passagem paga por Acharyadeva, Caracas, Rio, Montevideo. Naquela época o Brasil só deixava entrar com uma passagem de saída, e o lugar mais barato foi Montevideo.
Eu tinha comigo um endereço e o nome de um contato dado pela revista Back to Godhead em Los Angeles. O nome era Lucio Valera, o Lokasaksi, e o endereço do apartamento em Ipanema da tia Vanda, a tia de Claudio Belford, o Catur Murti.
Quando chegamos era meia noite e tia Vanda atendeu a porta espantada em ver na sua porta dois homens carecas, em dhotis cor de safrão. Eu não falava nada de Português e ela não falava nada de Inglês. Ficamos-nos olhando um para outro, meio assustados. Ela viu as malas e mais ou menos entendeu algo por que mandou a gente entrar. Ela nos ofereceu o quarto de empregada nos fundos, para dormir.
De manha cedo tia Vanda chegou na porta do quarto e falou que tinha um rapaz na porta que queria nos ver, bem, isto e o que eu imaginei que ela falou pois não entendia nada. Quando cheguei a porta encontrei com um rapaz que disse entusiasticamente, "Hare Krishna!" Isto me surpreendeu e fiquei muito feliz. O rapaz era Pedro Paulo, nosso querido Paravyoma, e tia Vanda tinha ligado para ele.
Paravyoma também estava muito feliz em nos ver, e melhor ainda, ele falava um pouco de inglês. Ele falou que Lucio, o Lokasaksi, e Claudio, o Catur Murti, estavam na fazenda de Catur Murti situada no ponto mais alto de Petrópolis. Eu tive um sentimento profundo que eles eram pessoas essências e importantes para estabelecer a missão de Srila Prabhupada e Senhor Chaitanya Mahaprabhu no Brasil, e isto se provou certo.
Nesta época o Brasil já tinha muitos devotos jovens e sinceros de Krishna, e a maioria era do Rio. Isto foi por causa do trabalho de um discípulo meio independente de Srila Prabhupada, Siddhasvarupananda e seus seguidores. Eles vieram do Havaí e tinham um estilo mais tranquilo, não usavam roupa devocional nem raspavam a cabeça. Pareciam surfistas transcendentais.
Eles seguiam os princípios básicos, cantavam Hare Krishna e eram sinceros, mas também eram suspeitos da nossa presença. Por causa do estilo da pregação de Siddhaswarup e seus seguidores, a ISKCON tinha um tipo de imagem de lobo mal. Eles não se consideravam membros da ISKCON mas sim seguidores de Siddhasvarup.
Senti-me afortunado de conhecê-los, e no final, a maioria deles se tornou seguidores sinceros de Srila Prabhupada e foram instrumentais em estabelecer o primeiro templo da ISKCON e a Editora BBT de Srila Prabhupada no Brasil.
A notícia da nossa chegada se espalhou rapidamente, e mais tarde na casa dos pais de Paravyoma, encontrei com muito deles. Eu me lembro de Marcio Pombo, o Mahakala, quieto, barbudo e cabeludo. Ele falava inglês e falou que era um tradutor profissional. Eu fiquei estático com isto, pois minhas instruções eram de primeiro ir a São Paulo e imprimir livros. Mas era claro que as tropas para fazer isto estavam no Rio.
Eu estava ansioso em subir a Petrópolis para encontrar com Lokasaksi e Catur Murti. Eu tinha um pressentimento que eles seriam importantes na missão de Srila Prabhupada.
Combinamos a subir na mesma noite. Mais tarde na casa da tia Vanda, Paravyoma apareceu com um amigo Carlos, que tinha um fusquinha preto. Começamos a subida e depois de uma hora e meia chegamos em Petrópolis. A fazenda ficava ainda mais alta, praticamente nas nuvens. Logo na subida para a fazenda o carro de Carlos quebrou, e começamos a subir a pé, a noite, e pelo meio do mato. Estou um dia no Brasil, perdido no mato, subindo uma montanha com duas pessoas estranhas. Não sei quanto tempo levou para chegarmos na fazenda, mas lembro que levou a noite toda, e só chegamos na madrugada quase na hora do nascer do sol.
Quando chegamos lá, ouvi cantando Hare Krishna e encontrei pela primeira vez com Lokasaksi, Catur Murti e a amável Mahayogesvari, a dona Maria.
Eles estavam vivendo uma vida no modo da bondade, cantando Hare Krishna, e Lokasaksi já estava traduzindo e mimeografando o Sri Isopanisad.
Depois de uma semana com muita prasadam deliciosa da Mahayogesvari, conversas com Lokasaksi e Catur, todos concordaram em descer para o Rio, abrir um templo e começar traduzir e publicar os livros de Srila Prabhupada.

Os primeiros sankirtaneiros - na foto Jagad Bharata,Yajni, Virochana e Bamaka Prabhus
Descemos para o Rio e voltamos para o apartamento da tia Vanda em Ipanema. Lokasaksi sem pedir apareceu com sua cabeça raspada, e logo em seguida os outros começaram a raspar, Jagad Bharat, Mahakala, Paravyoma, Virocana, Catur Murti, e algum outros.
Logo todo mundo apareceu e começamos um programa de aulas de Bhagavad Gita à noite com kirtans e prasadam. Tudo foi estático e bem atendido, crescendo em números a cada dia. Consequentemente os vizinhos começaram a reclamar do barulho, e ameaçar com violência se não parasse.
Procuramos um lugar para um templo, mas foi impossível, não encontramos nada no Rio, e persistimos porque na realidade ninguém queria ir para São Paulo, mas parecia que Krishna tinha outros planos.

Selecionamos dois livros simples, e uma revista, para serem traduzidos e imprimidos primeiro. "Fácil Viagem para Outros Planetas”, “Além do Nascimento e da Morte" e a primeira revista, "De Volta Ao Supremo". Mahakala, Lokasaksi e eu começamos a trabalhar nos livros. Mahakala era o tradutor principal com assistência de Lokasaksi, e eu desenhando as capas e fazendo o papel de fazer revisão filosófica das traduções, mesmo que não intendia nada de português, mas eu tinha muita confiança e fé na sinceridade de Lokasaksi e Mahakala.
Depois de muito esforço em tentar encontrar um templo no Rio, realizamos que Krishna mesmo queria São Paulo. Eu me lembrei das palavras de Acharyadeva, “Imprimir Livros, e vai para São Paulo onde tem as gráficas”.

Vishvandya Prabhu na Rua Afrânio Peixoto, Butantã
Então fizemos as malas, que era muita pouca coisa, e seis de nós entramos no Decave de Catur Murti, e partimos para São Paulo. Lokasaksi, Jagad Bharat, Virocana, Mahakala, Catur Murti e eu chegamos em São Paulo e praticamente a primeira coisa que encontramos foi uma casa linda e perfeita para um templo na Rua Alfranio Peixoto na frente da Universidade de São Paulo, com uma placa ALUGA-SE. Nós olhamos uns para os outros e vimos que isto era um sinal de Krishna. Queria tanto esta casa para o templo, era perfeito, parecia um Museu pequeno numa boulevard prestigiosa.
Entre nos seis só tínhamos dinheiro para gasolina e café da manha, mas nem pensamos no valor ou como iriamos pagar, ou como convencer alguém de nos alugar a casa.
Dormimos aquela noite num prédio da Universidade ainda em construção. Lembro os mosquitos enormes e não consegui dormir, pensando naquela casa na boulevarde. O nascer do sol chegou e todos acordaram. Aproveitamos a mangueira dos empregados da construção para tomar banho, e lembro eles chegando para trabalhar, ficando assustados com a gente tomando banho.
Compramos umas frutas e queijo para café da manha e depois voltamos para a casa, que agora tinha uma rapaz que estava de guarda tomando conta. Ele falou que a dona morava num apartamento no Ibirapuera, e nos deu o endereço.
Entramos no carro para procurar a dona da casa. Chegamos ao endereço e decidimos que a melhor estratégia era para eu, o gringo, e Mahakala, o santo, subir juntos para conversar com ela. Ela recebeu bem a gente, conversamos muito. Ela era uma senhora simpática tipo alemã. Eu contava a nossa situação e Mahakala traduzia. Falei que representamos uma sociedade filantrópica e filosófica Indiana com matriz nos Estados Unidos, e que precisávamos uma sede em São Paulo para trabalhar e montar a nossa editora. Ela gostou, mas não estava mostrando sinais de estar convencida a deixar a gente ter sua casa. De repente uma moça, sua filha, entrou no apartamento, e olhou para gente e disse "Hare Krishna”!
Sua filha tinha acabado de voltar da Inglaterra onde estudava na Universidade e frequentava o templo Hare Krishna de Londres. Naquele momento tudo mudou! A dona da casa agora muito feliz, concordou em nos alugar a casa. Ela entregou as chaves na hora, e concordou em esperar o dinheiro de pagamento chegar pelo correio, que estava vindo dos Estados Unidos. Bem isto foi a única mentirinha, não estava vindo nenhum dinheiro de fora. Mahakala e eu saímos dançando nas nuvens com as chaves em mão. Chegamos ao carro onde todo mundo ficou doido com as notícias. A mágica de Krishna e a misericórdia de Senhor Chaitanya se revelou claramente naquela hora, sentimos que estávamos em um passatempo transcendental de um outro mundo. Saímos para o nosso primeiro templo lindo de São Paulo, eufóricos.
Meia noite no dia seguinte escutei batendo na porta do tempo, e a voz de menina gritando, Hare Krishna. Quando abri a porta estavam 3 meninas do Rio sorrindo com mala em mãos, Raga Bhumi, Butamata e Mahayogesvari. Nos dias seguintes chegaram Paravyoma, Vyasa, e alguns outros do Rio. De Recife chegou Yagni e Bamaka. Quão rápida a notícia do novo templo se espalhou. Depois da primeira semana o templo estava cheio e devotos novos de São Paulo começaram a se render, Achala, Vishvavandya, Durasada e muitos outros.
Levantamos bastante laxmi saindo e distribuindo convites, mimeografados na maquina do Lokasaksi, dizendo “Ajude Construir Um Mundo Melhor”. As primeiras festas de domingo estavam lotadas e cheias de gente fina. Foi um belo começo em São Paulo.
Enquanto todo mundo saia a sankirtana, cantando nas ruas e distribuindo convites, Mahakala e Lokasaksi continuavam trabalhando traduzindo os primeiro livros. Lokasaksi Prabhu também estava arrumando e preparando a documentação para a legalização da Iskcon no Brasil.

Litográfica Ypiranga
Primeiro fizemos uma lista das gráficas mais importantes de São Paulo, e saímos batendo nas portas. Usamos a mesma estratégia, eu e Mahakala, o gringo e o santo. A primeira porta foi da Editora Abril, e eles nem queriam ver a gente pintada. A segunda porta foi da Litográfica Ypiranga, dono do jornal Folha de Sao Paulo. Fomos convidados para o escritório do Diretor Alfeu . Eu e Mahakala de dhoti’s e cabeça raspadas sentamos na frente da mesa dele e explicamos a nossa situação e intenção de traduzir e imprimir todos os livros de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivendanta Swami, o mais famoso autor de livros espirituais do mundo. Alfeu ficou cativado com a nossa presença, mas a verdade é que Krishna estava invocando sua magia de novo. Explicamos para ele que "queremos fazer primeiro 2 livros pequenos e uma revista. Fácil Viagem aos Outros Planetas, Além do Nascimento e da Morte, e a revista De Volta Ao Supremo".
Alfeu era um cara legal, bem vestido e bonitão e gostou muito da gente. No final da nossa conversa ele fez uma proposta. Que ele iria imprimir 50 mil unidades de cada livro e revista, 150 mil em tudo. Ele iria entregar 5 mil de cada um e era para nos sair e vender todos. Ao vender os 5 mil de cada um, voltaríamos, pagando a ele, e ele então iria nos dar mais 5 mil de cada um. Além da incrível oferta de publicar e armazenar nossos primeiros livros, sem pagar nada adiantado, Alfeu colocou a companhia a nossa disposição. Todo dia Mahakala e Lokasaksi iam para a gráfica para trabalhar nos livros, aproveitando as maquinas e os profissionais da gráfica sem nenhum custo para nos. A magia continuava!

Mahavira Prabhu liderando harinam nas ruas na década de 70
No meu livro que esta quase pronto para publicação, fala muito dos eventos mágicos que experimentamos como jovens seguidores de Srila Prabhupada, viajando pelo mundo todo, estabelecendo o movimento de Senhor Chaitanya Mahaprabhu. Brasil certamente teve experiências das magicas de Krishna, mas os eventos do começo da ISKCON no Brasil, o primeiro templo em Sao Paulo e o inicio da produção e distribuição dos livros de Srila Prabhupada, certamente estão no topo da lista das maravilhas do mundo mágico de Krishna. Para quem pessoalmente participou nestes eventos, acredito que marcou e nunca esquecerão.
Eu pessoalmente estou profundamente grato de ter sido uma peça neste teatro transcendental, e também pelo carinho e a confiança que os devotos brasileiros mostraram a mim. Eu devo muito ao Brasil por tudo que ele me deu; a oportunidade de oferecer um serviço que fez meu mestre espiritual muito feliz, minha esposa Jayagauri, uma grande devota de Krishna e Srila Prabhupada, e meus filhos que apesar de ter 3 passaportes todos se consideram brasileiros primeiro. Agora meu filho Sanjay (Acharinha), vai casar-se com uma devota brasileira de São Paulo, Maisa La Macchia (Manasa Chandra DD) e parece que a conexão vai continuar.
Parabéns nos 40 anos!
Obrigado por tudo!
Jai Srila Prabhupada!!!
Jai Sri Sri Radha Gokulananda!!!
Seu servo,
Mahavira...