Loucura!
Estilhaça-me começa sem preparação e
sem consolo para o leitor desavisado: Quem narra a história é Juliette, uma
garota trancada sozinha há mais de 200 dias, e ela não está bem. Economizando a
tinta da caneta quebrada, e no entanto riscando pensamentos desconexos de seu
diário, ela pode irritar confundir se você não chegar chegando na leitura. Nem
sempre completamente composta, ela explica o que precisamos saber desse ambiente
distópico – como o mundo está diferente, como os pássaros não voam e como a
natureza está devastada. Fala sobre o Restabelecimento e suas falsas
promessas.
Apesar de ter todo um fundo político e distópico, Estilhaça-me não
se vende exatamente por isso. Ainda é, em primeiro lugar, um romance. Fala de
relacionamentos complicados e de pessoas levemente desequilibradas ou
dissimuladas. A construção dos personagens é, apesar disso, incrivelmente
crível.
Juliette não pode tocar em pessoas; Quando ela o faz, causa
sofrimento, dor e, eventualmente, morte. Vamos todos ser sinceros aqui e admitir
que qualquer um que leu a descrição da personagem ou mesmo o próprio livro fez a
comparação com certa rebelde mutante; eu também fiz. A verdade é que a carência
de afeto de Juliette e seus questionamentos e anseios lembram sim essa
personagem, mas gostaria de pontuar que a versão mais conhecida dela hoje em dia
é a adolescente que nós vimos na TV durante toda a infância, não a clássica
série em que seus cabelos eram mais longos e ela voava LIKE A BOSS. I rest my
case.
Continuando, Juliette conquistou minha simpatia porque, numa descrição
piegas e dramática, a autora tornou-a um ser humano raro e bom. Bom no melhor
sentido da palavra – aquele em que a pessoa pensa nos outros antes de pensar em
si mesma, em que ela se odeia quando machuca outrem; Ansiando por um toque
gentil e um alguém que realmente se importe, que a veja como pessoa e não arma
ou monstro, ela mostra uma inocência ingênua que, apesar de piegas e dramática
como já pontuado, é digna de simpatia.
Quando você não tem acesso ao mínimo
de carinho e gentileza, eventualmente deve tornar-se desequilibrado ou
amargurado de tal forma que tudo o que quer fazer é jogar de volta no mundo uma
parte do sofrimento vivido; Juliette não faz isso, e apesar de acreditar que ela
seria igualmente interessante se fosse o tipo dissimulado, a versão escolhida
pela autora me pareceu acertada.
Outro personagem válido é Warner. Com
algumas atitudes que parecem beirar uma insanidade incrivelmente lúcida, ele é
interessante, insistente, irritante e desconfortavelmente delicioso de ler
(tanto que eu até peguei Destroy-me, narrado por ele, para ler). Em
contrapartida, há Adam, um salvador, amigo e muito mais para Juliette. Aquele em
quem por diversos motivos ela confia. É interessante a construção dos
relacionamentos que envolvem esse trio de personagens.
Não dá pra dizer que o
relacionamento romântico do livro é exatamente consistente; muito dele é baseado
em situações que não dá pra entender, como o isolamento social prolongado, a
ausência de contato físico e as agressões psicológicas que os personagens sofrem
na e desde a infância. Portanto, claro, eu acredito que os dois estejam
apaixonados, mas em geral não sei se o que eles tomam por amor é isso mesmo ou
apenas uma conseqüência do isolamento e da carência.
Falando agora dos
‘coadjuvantes’, acho que há um leque bem extenso deles, se ganharem mesmo mais
destaque nas continuações como creio que acontecerá. Alguns já ganharam
características marcantes, facilitando na hora de situá-los na história.
Provavelmente não apenas os personagens secundários, mas também o próprio
cenário e distopia ganharão um panorama amplo e, oremos, bem
trabalhado.
Estilhaça-me tem também uma linguagem poética que deve ser
ressaltada. Para alguém que fala tão pouco, Juliette usa figuras de linguagem
como poucos em sua narrativa. Há uma visão romântica e um toque de poesia em sua
perspectiva do mundo e dos acontecimentos ao seu redor. Tahereh Mafi tem um
talento discreto para criar imagens e associar a fatos na cabeça do
leitor.
Enfim, Estilhaça-me é um desses livros cuja definição de bom ou ruim
depende do leitor, mas a mim agradou muito. É fácil de ler, tem uma história
interessante, um final com abertura perfeita para continuação e personagens que
podem crescer e se expandir em participação e contexto. É uma história que pode
ganhar o leitor, independente dos comparativos e riscos escolhas de recursos na
narrativa.
“O mundo é achatado.
Sei porque fui atirada da margem do
planeta e há dezessete anos ando tentando me segurar. Há dezessete anos tenho
tentado escalar de volta, mas é quase impossível quando ninguém está disposto a
lhe dar a mão.”
“Os pássaros costumavam voar, é o que as histórias dizem.
Antes de a camada de ozônio ter se deteriorado, antes de os poluentes terem
transformado as criaturas em algo horrível incomum.”
Essa é uma resenha da
Dominação Distópica - Filhos do Átomo