ūüĒī Lumen¬†N¬ļ565 ::: Confer√™ncia online com Iordan Gurgel e Curso Fundamentos do Ensino de Lacan

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Delegação Paraiba

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May 22, 2020, 7:04:28 PM5/22/20
to DPB/EBP

N¬ļ565, 22¬†de maio¬†de 2020

 

Evento On-line Gratuito
Aula inaugural com Iordan Gurgel

Inscri√ß√Ķes gratuitas no link:¬† https://bit.ly/2Zfn7g9
Atividade aberta ao p√ļblico e isenta de pagamento

>>>>>>>>>>>> VAGAS LIMITADAS <<<<<<<<<<<<<<

IV CURSO FUNDAMENTOS DO ENSINO DE LACAN - APPL
INSCRI√á√ēES PRORROGADAS


Modalidade on line - Aplicativo: Zoom 
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Per√≠odo de Inscri√ß√Ķes:¬†23-26 de maio de 2020 ¬†
Carga Horária: 60 h
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Anexar:
-Carta de Intenção
-Currículo Vitae
-Comprovante de depósito de inscrição no valor de R$50,00
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Período de seleção: 27-29 de maio de 2020
P√ļblico: Psic√≥logos, profissionais afins e alunos de Psicologia a partir do 8¬ļ per√≠odo.
Mais informa√ß√Ķes:¬†delegaca...@yahoo.com.br¬†ou pelo fone 83 9883139543.
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Coordenação: Glacy Gonzales Gorski
Colegiado do curso: Cassandra Dias, Cleide Pereira Monteiro, Glacy Gonzales Gorski,  Maria Cristina Maia Fernandes e Margarida Elia Assad.
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Carga Horária: 60 h
Investimento: 600,00 em quatro parcelas mensais de R$150,00.
Início do pagamento 10 de Junho.


Banco do Brasil
Favorecido: Associação Paraibana de Psicanálise Lacaniana
Agencia: 3396-0 
Conta Corrente: 24.409-0
CNPJ; 13.982.931/0001-84

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Aula inaugural - 29.05.2020 - 19:00h on line 
Sonho, via régia para o inconsciente?
Convidado: Iordan Gurgel -  Psicanalista, Membro da EBP-AMP - AME
Modalidade on line - Aplicativo: Zoom 
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O instante de ver
 
A Escola de Lacan na Paraíba preparava-se para iniciar seu ano de trabalho através das suas atividades, tendo já no horizonte um endereçamento à futura Seção Nordeste.
O XII Congresso da AMP que se aproximava prometia ser um momento de muita produção em torno do tema do sonho, reunindo psicanalistas de orientação lacaniana de todo o mundo.
Est√°vamos entusiasmados e desejosos por essa troca de experi√™ncias, pela oportunidade de reencontrar colegas, realizar reuni√Ķes, fazer acontecer os eventos sat√©lites atrav√©s das redes de psican√°lise aplicada, verificar nas Jornadas Cl√≠nicas a presen√ßa do analista, e, ¬†sobretudo, recolher dos testemunhos vivos daqueles que levaram a experi√™ncia anal√≠tica at√© o fim, os ensinamentos do passe.
Um acontecimento para garantir a existência da psicanálise através da ação de cada um dos membros desse organismo chamado Escola.
A trajetória de um vírus fez deter esse movimento, cancelar eventos, fechar consultórios, suspender atividades.
Em nossa perplexidade diante de um mundo parado e acompanhando o rastro letal da pandemia, precisamos nos recolher.
Inicialmente, para nos situarmos diante dessa queda vertiginosa.
 
O tempo de compreender
 
A partir da ang√ļstia, iniciamos uma elabora√ß√£o coletiva e √≠ntima sobre esse momento.
Membros da EBP, aderentes e correspondentes da extinta Delega√ß√£o Para√≠ba reuniram-se virtualmente, em duas conversa√ß√Ķes nomeadas ‚ÄúReflex√Ķes sobre o momento atual‚ÄĚ com o prop√≥sito de contornar, pelo simb√≥lico e pelo la√ßo entre os companheiros de trabalho, a cat√°strofe que nos atingiu.
Foram produzidos quatro textos (em anexo) por colegas que sentiram-se provocados¬† e que serviram de mote como norteadores da discuss√£o em que a palavra p√īde circular entre os participantes. ¬†
Muitas quest√Ķes foram suscitadas a partir dos efeitos desse invis√≠vel que nos cerca, sobre o sintoma de cada um tanto no social quanto na cl√≠nica, permitindo-nos refletir sobre a necessidade de¬†garantirmos¬†o lugar crucial da psican√°lise. Diante da queda do narcisismo coletivo e de um luto a ser elaborado, h√° que¬†assegurarmos¬†uma travessia para que possamos seguir, reafirmando o desejo enquanto √ļnico rem√©dio para a ang√ļstia.
  
Um tempo para concluir 
 
Ainda n√£o h√° tempo para concluir. Apenas come√ßamos a levantar quest√Ķes.
Os corpos √†¬†dist√Ęncia, nos¬†interrogam. Novas modalidades de funcionamento ¬†nos desafiam.
Mas sabemos que precisamos sustentar, no coletivo, esse desejo que nos enlaça à vida e à transmissão da psicanálise que leve em conta a pergunta, que a cada dia, ressoa, cada vez mais apropriada: o que é um psicanalista?
Portanto, anunciamos a nossa decis√£o de retomar as nossas atividades, de forma remota a partir de ent√£o, apostando na transfer√™ncia de trabalho dessa comunidade que segue com sua ‚Äúesperan√ßa equilibrista‚ÄĚ. ¬†
 
Cassandra Dias Farias¬†‚Äď membro EBP/AMP
 
DE REPENTE, NÃO MAIS QUE DE REPENTE
Mª Cristina Maia Fernandes
 
“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das m√£os espalmadas fez-se o espanto‚ÄĚ
 
(Soneto de Separação - Vinicius de Moraes)
 
Desde o in√≠cio desse momento - prefiro chamar assim ‚Äď que estamos atravessando, lembro constantemente do belo soneto de Vinicius que, n√£o por acaso, remete √† separa√ß√£o.
De repente, n√£o mais que de repente, sem entendermos muito bem o porqu√™, o mundo mudou! Tivemos que nos separar uns dos outros para sobreviver. Ao mesmo tempo, assistimos estupefatos uma pr√©via tenebrosa imagem da morte em pa√≠ses j√° afetados por um v√≠rus que, embora t√£o anunciado, ainda n√£o tinha mostrado a sua cara. Desolados, testemunhamos, incr√©dulos, uma prociss√£o de carros que se tornaram f√ļnebres, ao transportarem os corpos de milhares de v√≠timas daquilo que, de invis√≠vel, tornou-se gigante, e obrigou-nos a parar, bem nos moldes do ‚Äúp√°ra o mundo que eu quero descer‚ÄĚ. Paramos! Descemos! Descemos, principalmente, do nosso pedestal humano, narc√≠sico, dali donde julg√°vamos controlar a vida, as coisas, as pessoas, as doen√ßas... Deparamo-nos crua e cruelmente com a transitoriedade a que se remete Freud em um passeio com um jovem poeta, transitoriedade descrita por ele como ‚Äúa propens√£o de tudo que √© belo e perfeito, √† decad√™ncia‚ÄĚ[1]. Deparamo-nos com o inapreens√≠vel, como o inexplic√°vel, com o real na sua mais brutal demonstra√ß√£o!

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a √ļltima chama
E da paix√£o fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
 
De repente, aquilo que parecia imposs√≠vel ‚Äď parar ‚Äď tornou-se obrigat√≥rio. Neste contexto, fam√≠lias compostas de pais e filhos pequenos em idade escolar entraram em p√Ęnico, sem saber como proceder diante dos filhos agitados, t√£o angustiados quanto eles, e entendendo menos ainda o que se passava ao redor. Foi assim ‚Äď com o confinamento - que todos os dias da semana se transformaram nos entediantes domingos, quando os pais aguardavam ansiosos pelas segundas para voltar √†s rotinas de trabalho e poderem estar ‚Äúlivres‚ÄĚ de gritarias, agita√ß√£o e demandas infantis. De repente, pai se viu obrigado a ser pai e ajudar nas tarefas dom√©sticas, assim como m√£e ‚Äď mesmo aquela que trabalha fora ‚Äď teve que ser m√£e e dona de casa.
 
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, n√£o mais que de repente
 
√Č imperativo pensar que o isolamento levou √† jun√ß√£o, ao conv√≠vio antes t√£o reclamado, reivindicado, mas imp√īs tamb√©m a separa√ß√£o. Separados, muitas vezes, de seus av√≥s, dos colegas, do dia a dia da escola, de passeios e, al√©m disso, tendo que lidar com as insatisfa√ß√Ķes, ang√ļstias e medos dos pais ‚Äúgrudados‚ÄĚ nelas, as crian√ßas t√™m respondido com muita ang√ļstia e mais agita√ß√£o, sintomas que muitas vezes, n√£o s√£o considerados no contexto em que se apresentam. Ao contr√°rio, isolados, servem muito mais para rotul√°-las, agora atrav√©s ‚Äď tamb√©m ‚Äď de redes sociais m√©dicas que est√£o se oferecendo para atendimentos on line. Ou mesmo o ‚ÄúDr. Google", recurso mais √† m√£o ainda, em tempos de confinamento.

Mas, de repente tamb√©m, viver passou a ter regras, manual, recomenda√ß√Ķes, ideias ‚Äúgeniais‚ÄĚ para passar esse tempo ‚Äúocioso‚ÄĚ, como se os pais fossem pedagogos ‚Äď ou profissionais afins - e s√≥ tivessem os filhos a quem se dedicar. Muitos da √°rea psi passaram a fazer lives, blogs se rechearam de brincadeiras, jogos, solu√ß√Ķes, ‚Äúensinando‚ÄĚ tudo que at√© ent√£o, em muitas fam√≠lias, n√£o tinha lugar, desconsiderando, absolutamente, a ideia de Lacan, da crian√ßa enquanto sintoma do casal parental.
 
 De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
 
De repente, a nossa cl√≠nica teve que sofrer adapta√ß√Ķes para acolher a ang√ļstia gerada diante da morte, da dor, da separa√ß√£o, do inexplic√°vel, da incerteza do futuro, da falta, do vazio da exist√™ncia. Para sobreviver e poupar o outro, pusemos um aparato entre n√≥s e o paciente, algo que o mantivesse √† dist√Ęncia, mas, ao mesmo tempo, de forma paradoxal, pr√≥ximo ‚Äď aquela dist√Ęncia ideal do conto de Schopenhauer -, para dar lugar √†s constru√ß√Ķes que cada um tem conseguido fazer para dar conta do seu desamparo, de sua ang√ļstia, ‚Äúacalmar os ventos‚ÄĚ, os ‚Äúdramas‚ÄĚ...

A quest√£o que passou a me inquietar foi: como operar a√≠ o analista, uma vez que a cl√≠nica com crian√ßas apresenta limita√ß√Ķes para ser exercida on line? Estou falando em sigilo, mas tamb√©m em termos operacionais, do atendimento atrav√©s de recursos que requerem o corpo, como desenho, etc. No momento, o que tem sido poss√≠vel fazer √© escutar os pais queixosos que, diante da subtra√ß√£o de est√≠mulos externos (diga-se trabalho e etc) e da proximidade imposta pelo confinamento - tal qual um BBB - tem atualizado quest√Ķes que, com a correria do dia-a-dia, passam desapercebidas, ou seja, um n√£o querer saber nada disso[2] pr√≥prio da neurose... no melhor dos casos. Levamos em conta tamb√©m que os afetos tem sofrido uma efervesc√™ncia tal, que o n√ļmero de viol√™ncia dom√©stica vem aumentando vertiginosamente; certamente, com os filhos presentes, pois tampouco eles podem se ausentar. Pergunto-me com frequ√™ncia, como essas crian√ßas podem sair (ilesas?) dessa pandemia de ang√ļstia, de ambientes muitas vezes j√° t√≥xicos que tem sofrido um incremento na toxicidade por efeito da conviv√™ncia sem intervalos, que parece n√£o ter fim.

Voltando a Freud, nesse texto citado, ele comenta que, nos depararmos com a transitoriedade das coisas, pode dar margem a dois impulsos diferentes - um penoso desalento ou uma rebeli√£o contra o fato consumado - embora ele n√£o concorde com nenhum deles, abrindo para um terceiro, que ‚Äúdeve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destrui√ß√£o‚ÄĚ. Freud critica o pessimismo do jovem poeta que acreditava que a ‚Äútransitoriedade do que √© belo implica uma perda de valor‚ÄĚ (p. 345) e assume uma posi√ß√£o contr√°ria, atribuindo um aumento de valor ao que √© evanescente, exatamente por isso mesmo. Ele continua afirmando que o que tanto perturbou o poeta e o outro amigo que com eles caminhava, foi essa ideia de que tudo √© transit√≥rio, o que lhes antecipou um luto, contra o qual eles lutavam.

Referindo-se √† guerra que estourou um ano ap√≥s essa conversa de Freud e ‚Äúsubtraiu o mundo de suas belezas‚ÄĚ, aparte que podemos aplicar ao nosso momento, ele diz:¬†
 
‚ÄúN√£o s√≥ destruiu a beleza dos campos que atravessava [...], como tamb√©m destro√ßou nosso orgulho pelas realiza√ß√Ķes de nossa civiliza√ß√£o [...]. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ci√™ncia, revelou nossas puls√Ķes em toda a sua nudez e soltou dentro de n√≥s, os maus esp√≠ritos que julg√°vamos terem sido domados para sempre, por s√©culos de ininterrupta educa√ß√£o pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez, nosso pa√≠s, e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que am√°ramos e mostrou-nos qu√£o ef√™meras eram in√ļmeras coisas que consider√°vamos imut√°veis‚ÄĚ[3].
(Freud, Sobre a transitoriedade, p. 347)

Sim, estamos todos de luto! Nesta guerra contra um inimigo invis√≠vel, perdemos! Perdemos a liberdade de ir e vir; muitos perderam entes queridos, vizinhos, amigos; perdemos nosso dia-a-dia (louco? Sim... mas familiar...); perdemos o contato corporal com filhos, netos, amigos; perdemos a paz que sup√ļnhamos ter; perdemos o ideal de vida que constru√≠mos, como se fosse o √ļnico; perdemos a ‚Äúfortaleza‚ÄĚ que pens√°vamos ser! Escancararam-se a nossa fragilidade e transitoriedade.¬† H√° que se elaborar esse luto, cada um com os recursos simb√≥licos que possui; n√£o tem bula nem prescri√ß√£o. O luto - assim como o v√≠rus ‚Äď por mais que doa, por mais avassalador que seja, vai passar, vai chegar a um fim, espont√Ęneo ou n√£o. A nossa aposta √© que ‚Äď ao inv√©s de s√≥ perder - possamos tirar consequ√™ncias disso, na cl√≠nica ou na vida, que n√£o seja pela via do desalento nem da rebeli√£o citados por Freud. Mas que possamos ver beleza e otimismo nesse momento, ant√≠dotos contra a ‚Äúdestrui√ß√£o‚ÄĚ, e dizer com ele:
 
‚ÄúQuando o luto tiver terminado, verificar-se-√° que o alto conceito em que t√≠nhamos as riquezas da civiliza√ß√£o nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes‚ÄĚ[4].
De repente, não mais que de repente... outra vez mais! Até o fim!
 
[1] Freud, S. Sobre a transitoriedade. ESB Vol XIV, p. 345.
[2] Miller, J-A. Todo el mundo es loco. In Sutilezas analíticas, p. 74.
[3] Freud, S. Sobre a transitoriedade. ESB Vol XIV, p. 347.
[4] Idem, p. 348
ALGUMAS PALAVRAS...
Glacy Gonzales Gorski
 
‚ÄúNo momento encontro-me em uma noite polar e estou √† espera que o sol nas√ßa‚ÄĚ (Sigmund Freud ‚Äď Carta a Karl Abraham ‚Äď 25 de janeiro de 1915).
 
Gostaria de dizer algumas palavras e trazer reflex√Ķes que foram gestadas a partir do que mais tem me impactado neste momento de quarentena e que compartilho atrav√©s deste breve escrito que integro ao convite aos colegas para uma conversa√ß√£o a dist√Ęncia.
 
De forma bastante dolorosa, esta calamidade se abateu sobre o planeta e nos confrontou com a puls√£o de morte. Em um primeiro momento ‚Äď que se configura como um momento de ver ‚Äď rege a perplexidade acompanhada, muitas vezes, por uma nega√ß√£o dos acontecimentos, seja por parte dos governos, seja por parte dos sujeitos um a um.

As not√≠cias que mais me marcaram t√™m a ver com o que vem sendo mostrado: o crescente n√ļmero de mortos e a impossibilidade de um ritual funer√°rio, pois n√£o √© vi√°vel nem velar os mortos, nem tampouco viabilizar um enterro digno ‚Äď necess√°rio para o in√≠cio de um processo doloroso de luto. A dor e o horror se escancaram, e as ruas das grandes cidades agora est√£o desertas, reina um sil√™ncio sepulcral interrompido pelos aplausos aos profissionais da sa√ļde e, por vezes, pela m√ļsica que possibilita romper o isolamento e fazer la√ßo com os vizinhos outrora muitas vezes desconhecidos.

N√≥s assistimos at√īnitos √† devasta√ß√£o ocasionada por este v√≠rus invis√≠vel, que n√£o √© nem vivo nem morto, mas que, na posse de um corpo humano, se alastra. Diante desse cen√°rio, faltam as palavras de modo que escrever exige, neste momento, um esfor√ßo herc√ļleo; mas, como analistas, somos convocados a um exerc√≠cio de elabora√ß√£o.

Diante da página em branco, ocorreu-me oferecer uma contribuição pontual partindo da lembrança de dois textos de Freud, pois neles encontrei um ponto de ancoragem para lidar com o inusitado deste momento e que passo a compartilhar com vocês.

Assim, o primeiro texto que trago foi escrito por Freud, em 1915, ou seja, alguns meses depois da primeira guerra mundial ter sido deflagrada e porta, como t√≠tulo: Reflex√Ķes √†¬† altura da √©poca (Zeitgem√§sses) sobre Guerra e Morte.[1]

Neste momento, interessa-nos assinalar passagens de suas coloca√ß√Ķes abalizadas sobre o horror da guerra e as desilus√Ķes que ela acarreta. Cito Freud: ‚ÄúNa confus√£o dos tempos de guerra em que nos encontramos, [...] e sem um vislumbre do futuro que est√° sendo plasmado, [...]‚ÄĚ [2] nos sentimos em um estado de perplexidade. E, mais adiante, ele afirma ainda que ‚ÄúA pr√≥pria ci√™ncia perdeu sua imparcialidade desapaixonada; seus servidores, profundamente amargurados, procuram nela as armas com que contribuir para a luta contra o inimigo‚ÄĚ.[3] Esse √© um tema que Freud vai aprofundar em outros textos que merecem nossa aten√ß√£o, mas que n√£o √© nossa escolha neste momento.¬†

Gostaria de destacar, especificamente, as reflex√Ķes dele sobre as atitudes dos seres humanos diante da viv√™ncia da morte, seja dos combatentes ou daqueles que foram obrigados a se isolar em suas casas. ¬†

Freud concluiu que existe uma tend√™ncia ineg√°vel de colocar a morte de lado, de silenci√°-la, pois, no inconsciente, cada um de n√≥s est√° convencido de sua pr√≥pria imortalidade. Cito Freud: ‚ÄúNosso inconsciente, portanto, n√£o cr√™ em sua pr√≥pria morte; comporta-se como se fosse imortal.‚ÄĚ[4]

Segundo ele, é aí que reside o segredo do heroísmo. E se refere, então, à guisa de elucidação, a cena de uma comédia de Anzengruber, intitulada Hans, o quebrador de pedras, na qual o herói zomba do perigo e se desvela mostrando seu convencimento de que nada lhe poderia acontecer.

Gostaria de fazer uma articulação com o que a gente vem constatando em vários países: a dificuldade em reconhecer que a situação é verdadeiramente trágica, e que medidas extremas têm que ser tomadas, assim como o enfrentamento tem que ser uma ação coordenada de forma abrangente. Retornando ao texto freudiano, assinalo que a negação da morte que constatamos hoje com veemência é algo que remonta aos tempos primevos. 

Ademais, podemos observar tamb√©m que, se por um lado a nossa morte √© negada, de outro a admitimos para estranhos e inimigos sem a menor hesita√ß√£o. Os momentos de calamidade ‚Äď sejam eles provocados pelos humanos atrav√©s das guerras, ou por pandemias ‚Äď favorecem o aparecimento de posturas cru√©is, injustas e irrespons√°veis o que revela, por vezes, o que h√° de pior no ser humano. Nosso inconsciente se mostra ‚Äú[...] t√£o inclinado ao assassinato em rela√ß√£o a estranhos e t√£o dividido (isto √©, ambivalente) para com aqueles que amamos [...]‚ÄĚ.[5]

No final do texto ele nos oferece uma indica√ß√£o muito valiosa: ‚ÄúSivis vitam, para mortem‚ÄĚ, ou seja: ‚ÄúSe queres suportar a vida, prepara-te para a morte‚ÄĚ[6]. Que consequ√™ncias √© poss√≠vel extrair dessas palavras de Freud, no sentido de que sejam efetivas na atualidade?¬†

Por fim, trago como referência importante, um texto que também foi escrito nos tempos de guerra ­ (1915- 1916) onde Freud se reporta às conversas que teve num passeio nas altitudes da cadeia de montanhas, nomeadas Dolomitas, no Norte da Itália, ao lado de um jovem poeta que, segundo historiadores, seria o jovem Rilke. Eles tergiversavam sobre Transitoriedade, título que deu ao artigo escrito em homenagem a Goethe.[7]

De seu texto, extraio a reflex√£o de que a guerra ‚Äď a viv√™ncia da morte, as grandes perdas que ela acarreta ‚Äď, assim como a experi√™ncia de luto t√£o frequente em momento de calamidade, obrigam-nos a refletir sobre a transitoriedade. Esse texto tem, como embasamento te√≥rico, suas elabora√ß√Ķes realizadas no texto, que, nesta √©poca, j√° estava pronto, mas que s√≥ foi publicado, posteriormente, sob o t√≠tulo ‚ÄúLuto e Melancolia‚ÄĚ.[8]

Freud nos surpreende com palavras que t√™m um tom esperan√ßoso: ‚ÄúN√£o pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou [...]‚ÄĚ [9]. E, mais adiante, diz ainda que ‚ÄúQuando o luto tiver terminado, verificar-se-√° que o alto conceito que t√≠nhamos das riquezas da civiliza√ß√£o nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade‚ÄĚ[10]. ¬†

E, por fim, apostando na vida, afirma que ‚ÄúReconstruiremos tudo [...], e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes‚ÄĚ[11].

Estamos atravessando um momento de muitas perdas e estragos com as m√ļltiplas consequ√™ncias para cada sujeito de forma singular; pergunto, ent√£o, o que pode a psican√°lise e o psicanalista ofertar?
A resposta é: continuar apostando na emergência e na força da palavra para enfrentar e elaborar este confronto traumático com o inexorável, com o real. A fala, a talking cure, parafraseando Anna O., ainda é um poderoso antídoto nesses tempos tão sombrios.
 
 
[1]. Este título não corresponde ao da ESB, fiz esta tradução porque  em alemão Zeitgemäss significa à altura do tempo.  
[2] Freud, S. [1915] Reflex√Ķes para os tempos de guerra e morte, Edi√ß√£o Standard Brasileira, vol. , Rio de Janeiro: Imago edit.,1974, p. 311.¬†
[3] Ibidem, p. 311
[4] Ibidem, p. 335.
[5] Ibidem, p. 338.
[6] Ibidem, p.339.
[7] Freud, S.  Sobre a transitoriedade, Edição Standard Brasileira, vol.XIV , Rio de Janeiro: Imago edit., 1974, p. 345-348. 
[8] Freud, S., Luto e Melancolia, (1917 [1915]), Edição Standard Brasileira, vol.XIV, Rio de Janeiro: Imago edit., 1974, p. 271-291.
[9] Ibidem, p. 347.
[10] Ibidem, p. 348.
[11] Ibidem, p. 348.
 
O NOVO REAL?
Cassandra Dias
 
Não estávamos prontos para viver esse momento. O cenário apocalíptico de cinema nos confirma diariamente  nossa perplexidade diante de um real que irrompe transformando nossas vidas e nos fazendo parar diante da expansão de um vírus mortal.

Nada na nossa programação nos fazia supor que os anos vinte do nosso século iriam trazer um divisor de águas na maneira como trabalhamos, vivemos, circulamos, produzimos, nos relacionamos e também analisamos.

Em 2014, o IX Congresso Mundial da Associa√ß√£o Mundial de Psican√°lise se dedicou a discutir ‚ÄúUm real para o s√©culo XXI‚ÄĚ. Dois anos antes, na confer√™ncia de encerramento do VIII Congresso, Jacques Alain Miller, ao anunciar o novo tema de trabalho para o pr√≥ximo congresso, parecia antever a desordem que o real nos apresenta hoje, oito anos depois da sua fala. Ele articula a natureza e sua ordena√ß√£o √† uma conjun√ß√£o entre simb√≥lico e real, na medida em que ‚Äúa natureza est√° escrita em linguagem matem√°tica‚ÄĚ. (GALILEU apud MILLER, 2014).¬† Assistimos √† escalada do v√≠rus em progress√£o geom√©trica.

Confinados e conectados, a relação com o semelhante é atravessada pelo perigo iminente do contágio tornando-nos obcecados e fóbicos.  Algo na relação do homem com a natureza foi alterada. Um inimigo invisível e onipresente, mutatis mutandi, que segue sua escalada macabra, multiplicando as estatísticas de letalidade.

‚ÄúO real √© sem lei‚ÄĚ, j√° nos advertia Lacan, mas nos acostumamos a que a esp√©cie humana constru√≠sse sua civiliza√ß√£o crendo que o real se disfar√ßava de natureza com as suas leis.

De fato, a lei natural é cumprida à risca pela COVID 19. O vírus se alastra e contamina, porque essa é a sua natureza de vírus.

Portanto, para nós, que  real se escancara desordenado, sem lei e que retorna sempre ao mesmo lugar por trás do curso natural do vírus mortífero?

‚ÄúEu diria que capitalismo e ci√™ncia se combinaram para fazer desaparecer a natureza e que o que resta do desvanecimento da natureza √© o que chamamos de real, quer dizer, um resto, desordenado por estrutura‚ÄĚ (MILLER, 2012). ¬†

Agora, mais do que nunca, estamos diante de uma desordem que nos agita por suas varia√ß√Ķes invari√°veis, absolutamente desprovida de um saber, uma vez que n√£o h√° saber no real.

No entanto, desse alinhamento entre o discurso do capitalismo e da ciência produzindo efeitos no real, qual o lugar onde alojar-se o discurso do analista?

A psicanálise enquanto uma práxis que precisa estar à altura da subjetividade da sua época, é confrontada agora, a novo desafio.

As consequências do momento atual alcançaram os psicanalistas que precisarão dar conta desses efeitos tanto no um a um, como para o coletivo de analistas.

Para tanto, os membros da EBP na Para√≠ba est√£o convocando uma conversa√ß√£o virtual para podermos tratar do instante de ver que o momento atual suscita, por entender que √© na solid√£o de cada um tratada no coletivo que poderemos encontrar um ponto de ref√ļgio diante da ang√ļstia que nos assola.
 
O QUE PODE O PSICANALISTA DIANTE DESSE REAL: CORONAV√ćRUS, COVID-19?¬†
Karynna Nóbrega
 
‚Äú √Č como significantes que todos voc√™s existem‚ÄĚ
(LACAN, 2012, p√°g. 35)

O desejo de escrever sobre esse novo nome do mal-estar surgiu ap√≥s a conversa√ß√£o, que aconteceu com os membros, correspondentes e participantes da Se√ß√£o Nordeste ‚Äď EBP intitulada Sobre o momento atual ¬†na noite do dia 16 de abril, servindo-se das plataformas online, a fim de fazer a palavra circular sobre o real COVID-19 fomos confrontados na nossa cl√≠nica, no social e na intimidade de cada um, cada um a seu modo atravessado por esse novo nome do mal-estar que nos confronta com o real da solid√£o, do isolamento, da morte e da perda.

Resumidamente, podemos destacar a partir das falas recolhidas durante esse encontro que √© poss√≠vel observar as sa√≠das e solu√ß√Ķes singulares para lidar com esse real; e as solu√ß√Ķes no coletivo, seja por meio do uso da arte, da religi√£o e a relativiza√ß√£o do especular nas redes sociais. Com isso, podemos recolher que em torno desse S1: o corona, o covid-19 os sujeitos fazem sintoma, o que mobiliza a libido tal como Miller (2016) esclarece: ‚Äú ... a libido do sujeito, est√° sempre marcada pela impress√£o significante‚ÄĚ, a aposta da psican√°lise se d√° em fazer uso da palavra para dar um tratamento ao real, a partir de uma diferen√ßa absoluta.

Em meados de mar√ßo de 2020, a popula√ß√£o mundial se confrontou com uma pandemia: um novo v√≠rus se espalhou por v√°rios pa√≠ses e desencadeou uma crise sanit√°ria e econ√īmica com mortes em larga escala, em diferentes pa√≠ses, apresentando alto poder de cont√°gio e de letalidade em especial aos acima de sessenta anos.

Diante desse real, o discurso da ci√™ncia demostra um furo no saber, para conter a curva do pico de cont√°gio dessa pandemia e tentar conter o colapso do sistema de sa√ļde, para tanto prop√Ķe: o uso do isolamento social, a lavagem das m√£os com √°gua e sab√£o e uso de m√°scaras. Com isso, as interven√ß√Ķes promovidas pelo estado se d√° pela solicita√ß√£o de isolamento social, as aglomera√ß√Ķes s√£o proibidas e devem ser evitadas, al√©m disso a recomenda√ß√£o √© de constante lavagem das m√£os, uso de √°lcool a 70¬ļ ¬†e uso de m√°scaras para cobrir o nariz e a boca. Como tamb√©m o uso de equipamentos de prote√ß√£o individual para os profissionais de sa√ļde, uma das popula√ß√Ķes bastante vulner√°veis, seja para o cont√°gio como o de transmiss√£o.

A pandemia promoveu uma crise no capitalismo, em plena ebulição, a orientação após a pandemia é ficar em casa, aqueles quem podem pararam e ficam em casa. Outros, porém, seguem sem se isolar, seja porque precisam para se manter, ou porque a profissão demanda esse enfrentamento. Nas famílias novas lógicas se instalam, os pais passaram a ter mais tempo com a presença dos filhos, os casais passam a ter mais tempo juntos e as crianças deixaram de se deslocar para ir até a escola e passaram a ter aulas online, com isso a casa a se transforma num hibrido, um ambiente de home office e lar.  

Al√©m do colapso econ√īmico, √© crescente o n√ļmero de mortos, desempregados, os rituais tan√°ticos tamb√©m foram afetados, a fam√≠lia j√° n√£o √© permitida velar o corpo morto, vetor de transmiss√£o de v√≠rus, o cen√°rio √© de guerra, muitas mortes, corpos mortos empacotados e embalsamados colocados em valas e covas e aqueles que tem contato com o corpo moribundo ou morto s√£o obrigados ao uso de EPIS.

As cidades ficaram silenciosas e vazias, o limite das fronteiras se tornaram mais vis√≠veis em virtude dos distanciamentos, em sua maioria apenas os servi√ßos essenciais funcionam. ¬†Os artistas e cantores passaram a utilizar as redes sociais para realizar lives, fazendo um apelo para que a popula√ß√£o fique em casa e diante dessa corrente eles promovem uma corrente de solidariedade por meio de doa√ß√Ķes de alimentos e EPIS, para a rede de sa√ļde e aos atingidos pela COVID-19. Por outro lado, os telejornais e m√≠dia televisiva, mostram de maneira superego√≠ca o n√ļmero crescente de mortes, de transmiss√£o e de cont√°gio, ressaltando que h√° subnotifica√ß√£o em virtude da n√£o testagem da popula√ß√£o em geral. Com isso, o medo passou a assolar a popula√ß√£o. Transmite-se o medo como um dispositivo de controle para conter a popula√ß√£o em casa.

Conforme Delumeau (2009) em A hist√≥ria do medo no Ocidente por meio do trabalho historiogr√°fico de fatos etnogr√°ficos, toma o medo como objeto de estudo e revela que o medo assola a humanidade e que atinge tanto individualmente como tamb√©m a coletividade.¬† Citando Sartre revela que ‚ÄĚ...o homem √© um ser que tem medo‚ÄĚ. Na obra revela alguns nomes dos medos, a saber: o medo do mar, do vizinho, do judeu, dos moribundos, do Sol desaparecer para sempre, dos mortos por suic√≠dio, de ser enterrado vivo, de fantasmas, da morte dentre outros. Por meio dessa leitura podemos extrair que o desconhecido e o estranho nos provocam medo. Diante desse cen√°rio, podemos acrescentar que surgiu na cultura um novo medo: o do cont√°gio do Coronav√≠rus.

O coronavírus, em certa medida, faz recordar o inimigo invisível e traumático da radiação, por ser invisível a olho nu, inodor e insípido e por não saber onde se localiza, com isso percebemos que o outro se torna um possível vetor de transmissão e em certa medida uma ameaça, fazendo surgir em alguns casos sintomas fóbicos e rituais de limpeza e ordem para se defender da presença do vírus.

Fazendo um paralelo com o acontecimento Tchernóbil, o coronavírus, nos confronta com a verdade e um pedaço de real. Inferimos que há um antes e um depois do Covid 19.  Quais os efeitos dessa fratura no simbólico? O que pode cada um diante desse real?  Conforme, Brousse (2020) em Os tempos do vírus, o covid-19 transformou as modalidades do laço social, e em virtude da descontinuidade não houve um instante de ver, fomos atravessados por esse real, não havendo tempo para uma subjetivação.  Esse novo nome do mal-estar está promovendo sofrimento e novos sintomas, apostamos que a psicanálise possa oferecer a escuta para que o sujeito aposte no laço social e no saber fazer com o real, como orienta Brousse (2018) em O inconsciente é a política.
 
Referências:
ALESKSIEVITCH, SVETLANA As vozes de Tchernóbil São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
BROUSSE, M-H O inconsciente é a política 2 ed. São Paulo: EBP, 2018
BROUSSE, M-H Os tempos do vírus Disponível em: https://www.ebp.org.br/correio_express/2020/04/04/os-tempos-do-virus/ Acesso em: 20/03/2020
JEAN DELUMEAU História do medo no Ocidente São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
LACAN, J O semin√°rio livro 19: ...ou pior Rio de Janeiro, 2012.
MILLER, J-A La experiência de lo real en la cura psicoanalitica: Buenos Aires: Paidos, 2016.
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