Skinner: sobre ciência e comportamento humano1 1 O autor agradece imensamente a Milena S. Lisboa, por sua paciência e seu amor, e a Rodrigo P. Guimarães, por seu incentivo e seus comentários.
Desde fins do século XIX, desse modo, é praticamente impossível tratar-se do conhecimento sobre as ações humanas sem considerar a proposta de abordagem científica a esse objeto. Mesmo que se busque criticá-la, a referência à abordagem científica é onipresente. A própria delimitação/regulamentação da atuação profissional do psicólogo, muitas vezes, se vale da referência a "critérios científicos" - vide, por exemplo, as inúmeras referências a eles no Código de Ética Profissional e em resoluções do Conselho Federal de Psicologia.
A noção de ciência que parece guiar os primeiros trabalhos de Skinner, assim, deve muito a Mach e a Bridgman. A ênfase sobre o empírico e sobre as experiências concretas vivenciadas pelo cientista, a afirmação da indissociabilidade entre as operações empregadas na investigação e o conhecimento obtido e a sustentação da ciência como discurso mais eficiente: todas essas noções presentes no pensamento skinneriano devem muito à influência dos dois físicos.
Podemos perceber, ao longo do desenvolvimento da obra de Skinner, uma ampliação da sua concepção de objeto de estudo (Micheletto, 2001). Um primeiro marco importante nesse sentido é a elaboração do conceito de comportamento operante, em 1937. Com este, o sentido da ação dos organismos se amplia para englobar a operação dos organismos sobre o mundo e o efeito das suas conseqüências sobre as ações futuras.
Em suma, podemos perceber que, desde o início de sua obra, Skinner se alinha a concepções críticas ao mecanicismo. Isso o leva a abandonar desde cedo a necessidade de referir-se a mecanismos físicos para dar conta da relação entre as operações do ambiente e a ação humana (suas críticas vão dirigir-se especialmente a referências ao sistema nervoso, real ou hipotético). Seguindo as concepções de Mach e Bridgman, a causalidade mecânica é criticada e substituída pela busca de relações funcionais entre variáveis. Também o modo como os conceitos são definidos é proposto de forma a evitar os problemas do mecanicismo e a promover uma ênfase sobre os dados empíricos. O operacionismo de Bridgman leva Skinner a elaborar conceitos tendo sempre como base as operações práticas envolvidas na sua mensuração.
O legado do pai do behaviorismo radical continua a ser enaltecido entre os idealizadores da B.F. Skinner Foundation, que promove eventos anuais para reconhecer outros profissionais e pesquisadores que se dedicam à área da análise do comportamento.
O behaviorismo opõe-se de maneira enfática a essa visão internalista, e responsabiliza os condicionantes ambientais pelas causas do comportamento humano, e não algo em seu interior.
Leva-se em conta as condições filogenéticas herdadas da espécie. Possui também uma estreita relação com a psicologia evolucionista, que explica o comportamento a partir da necessidade de sobrevivência das espécies.
Por ser uma ciência natural, aqui não se utiliza explicações que recorrem a fatores que não existam nas dimensões espaciais e temporais. Ou seja, não se aceitam explicações metafísicas, metapsicológicas, especulativas ou sobrenaturais.
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