Pelos novos caminhos da Chapada dos Veadeiros
http://www.oeco.org.br/noticias/27300-chapada-dos-veadeiros-inaugura-primeira-travessia-com-pernoite
Very Little Soy is Actually Sustainably Produced
http://www.enn.com/business/article/46145
A sabedoria no Araguaia / Washington Novaes / Jornalista
Há certos temas que parecem fantasmas - surgem no noticiário de repente e dele desaparecem da mesma forma. Há poucos dias, diante da ressurreição de um deles, na comunicação nacional, o autor destas linhas participou de um debate sobre a implantação de uma hidrovia no Rio Araguaia - que, afirma-se, será incluída no projeto de criação da Hidrobrás, anunciado há uns três meses pelo governo federal (O Estado de S. Paulo, 4/4). Assegura-se até que o novo órgão fará o primeiro leilão de hidrovias em 2014. E a projetada (?) hidrovia do Araguaia partiria de Aruanã e iria até Xambioá, com 1.230 quilômetros de extensão. Não pode haver projeto mais abstruso, da conveniência apenas de grandes empreiteiras, embora o pretexto seja viabilizar a saída das cargas de produtos agropecuários por um porto no Norte do País - deixando, assim, de utilizar os portos do Sul, o que lhes daria condições melhores de competir com os norte-americanos na Europa e na Ásia. Falácia pura. Quanto custaria transportar uma carga dos dois Mato Grosso ou de Goiás, considerando que seria preciso embarcá-la em caminhão, da origem até um porto na hidrovia; descarregá-la ali e embarcá-la de novo no navio ou chata, para que siga até Xambioá; desembarcá-la outra vez e colocá-la num caminhão para que vá até Imperatriz; descarregá-la ali e reembarcá-la na ferrovia para que chegue ao porto de Itaqui, no Maranhão; outra descarga, ali, e nova carga no navio que a levaria ao exterior? Ao todo, nove operações de carga/descarga. Essa é a probabilidade enquanto não se completam outras etapas até portos no Pará. Quanto custaria? E a competitividade? Mas esse ainda é o problema menor. Implantar e manter um canal navegável no Araguaia é tarefa para séculos, talvez milênios. Quem conhece o Araguaia em terras goianas sabe que ele por aí entra carregando um volume brutal de sedimentos, que o Laboratório de Hidrologia da UFG já mediu: por Aruanã, que seria o ponto de partida da hidrovia, passam 5 milhões de toneladas de sedimentos, cinco bilhões de quilos, por ano; eles mudam de lugar o canal navegável do rio e suas praias, todos os dias; e têm duas origens: um processo da natureza, por estarem as nascentes numa região ainda em formação, do quaternário, que dejecta areia de baixo para cima - e assim continuará por séculos ou milênios -, como demonstra uma tese do brilhante geomorfologista Aziz Ab´Saber, da Universidade de São Paulo; a outra causa é o desmatamento de encostas, principalmente na região das nascentes, para implantar lavoura ou pecuária - ele determina um forte processo de erosão do solo, formação de voçorocas (são mais de 20); e os sedimentos correm rio abaixo, como demonstrou a professora Selma Castro, também da UFG. E não é só nas nascentes. Em Aruanã já se mediu o desmatamento do Cerrado ali: 60%. Com esse panorama, que se faria para implantar um canal navegável em centenas de quilômetros? Quanto se escavaria? Onde se colocariam os resíduos que, afirma-se, seriam superiores aos gerados na escavação do Canal do Panamá? A que custos? Todo mundo sabe que o projeto que viabilizaria a competitividade maior dos produtos do Centro-Oeste na exportação é o da Ferrovia Norte-Sul. Não por acaso, numa conjunção de interesses internos e externos, a ferrovia foi inviabilizada desde a licitação inicial, quando houve uma denúncia do jornalista Jânio de Freitas, correta, sobre ilegalidades no processo, ainda na década de 80. A seguir, de irregularidade em irregularidade, junto com as improbidades, o orçamento já dobrou - sem que ela se complete nem tenha prazo para isso. Nesse meio tempo, a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado até já autorizou a implantação da Hidrovia do Araguaia, com dragagens e explosões de rochas em quatro Estados, construção de eclusas, comportas e todas as obras mais que as empreiteiras planejarem, inclusive à margem de terras indígenas e de conservação ambiental do Cerrado (que já perdeu a vegetação em mais de um milhão de quilômetros quadrados e boa parte de sua capacidade de estocar no subsolo 14% das águas superficiais brasileiras que vertem para as três grandes bacias nacionais - Amazônia, do São Francisco e do Paraná). O governo de Goiás desde 2001 pronuncia-se contra a hidrovia. Mas são muitos os ouvidos moucos. Não é preciso ser sábio para entender que a vocação do Vale do Araguaia é um grande projeto baseado no turismo ecológico e cultural - numa região que tem nada menos de 570 lagos (O POPULAR, 26/7/2009). Um projeto em que o meio ambiente seja o protagonista central. E que faz lembrar o mito de origem de povos indígenas da região, segundo o qual eles foram criados como peixes, aruanãs, e viviam no fundo do rio. Havia uma proibição: não poderiam passar por uma cavidade no fundo rio. Mas um aruanã passou. E ao chegar à superfície deparou com uma praia intocada do Araguaia, de areias muito brancas. Fascinado, retornou ao fundo e contou para seus companheiros. Juntos, eles foram a Kananciué, o espírito criador daquela gente, pedir para viverem nas praias. Kananciué explicou-lhes que, para isso, teriam de deixar de viver no fundo do rio, deixar de ser imortais. Por amor ao rio e suas praias, eles optaram por ser mortais. O psicanalista Hélio Pellegrino dizia que esse mito é um emblema da sabedoria humana: renunciar à imortalidade, aceitar ser mortal, para começar a viver. Quem sabe não imitamos os aruanãs e renunciamos a supostas grandezas financeiras para conviver em paz com o rio?
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