Colegas,
O catálogo da Mostra (mais de 400 pgs) em São Paulo está muito disputado. Aqui troca-se por 5 ingressos de sessões diferentes.
Hoje a palestra foi do Prof. Ismail Xavier, imperdível.
bjs
Kiyoko
28/09/2010
-
16h35
Rastros de Ford na história do cinema
PEDRO BUTCHER
DO RIO DE JANEIRO
"Dentro do formato clássico narrativo do qual foi um dos principais
construtores, John Ford desenvolveu uma atenção para o detalhe que marca
sua mise-en-scène e a torna reconhecível de filme para filme,
independente do gênero ao qual se filia (drama histórico, filmes de
temática social, comédia, filmes de guerra, western etc.)". Assim o
professor de cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF) João Luiz
Vieira define uma das particularidades da obra do diretor mais premiado
com o Oscar (recebeu quatro estatuetas como melhor diretor).
Em entrevista à
Folha, Vieira analisa a importância de Ford para a
história do cinema e comenta algumas das sequências mais importantes da
sua obra -em filmes como "As Vinhas da Ira" e "Rastros de Ódio".
Folha - Quais seriam, em linhas gerais, as marcas indeléveis do
"estilo" John Ford? É leviano falar em "estilo" para um cineasta que se
recusava terminantemente a ser chamado de "artista"?
João Luiz Vieira - Se tem algo que nos surpreende ao rever boa
parte dos filmes dele hoje, com as facilidades que a visão e revisão via
DVD possibilitam (ou seja, podemos estudar os filmes, congelar imagens,
fragmentar sequências etc.), é a simplicidade com a qual Ford filma seu
material, monta e conta muito bem uma história, apesar de toda a
complexidade de sentidos que vão se abrindo.
No geral, não há virtuosismos de câmera, nem enquadramentos com ângulos
inusitados, e a linguagem não fica chamando atenção continuamente para
si mesma. Quando isso eventualmente acontece, não é para efeitos
espetaculares ou embelezamento decorativo. Quando há algo que chama
atenção em termos do uso formal de um elemento da linguagem --o
movimento de câmera, por exemplo--, isso acontece exatamente em cima de
um regime de economia formal onde, por conta de enquadramentos fixos na
maior parte da narrativa, o movimento de câmera, quando se dá, ganha um
sentido e uma força realmente impactantes.
Veja o caso exemplar de um de seus maiores filmes, "As Vinhas da Ira"
(1940): os planos, em sua maioria, são fixos, câmera parada, numa
relação quase fotográfica com aquele ambiente e seus personagens. De
repente, quando a família entra num daqueles acampamentos destinados a
receber multidões de miseráveis em busca de emprego e sobrevivência,
Ford (e o seu excelente fotógrafo, Greg Tolland, o mesmo que no ano
seguinte trabalharia com Orson Welles em "Cidadão Kane") coloca a câmera
no ponto de vista de seus personagens dentro daquele calhambeque roto
para mostrar, em movimento, a surpresa da família (e dos espectadores,
num processo de espelhamento e identificação).
Nesse momento, eles percebem que não estão sós, que fazem parte de uma
legião de excluídos, sem teto, sem trabalho e vivendo na maior
precariedade. Como no movimento de câmera que expressa essas
impressionantes imagens, aos poucos a família se dá conta do engodo que
foi a "terra prometida" da Califórnia. Nesse filme, é possível comparar
Ford com o diretor japonês Yasujiro Ozu, outro mestre da economia, e que
também não gastava seus movimentos de câmera à toa e sim para momentos
muito especiais ("Era uma Vez em Tóquio" traz exemplos igualmente
extraordinários).
Folha - Qual seria a principal marca dos enquadramentos de John Ford?
João Luiz Vieira - Penso, em primeiro lugar, nas relações que se
estabelecem entre a geografia, a paisagem e o ser humano, levando em
conta, sempre, os dois espaços muito bem definidos por Noël Burch
[crítico americano radicado na França, autor de "Práxis do Cinema"] para
caracterizar a totalidade da imagem cinematográfica. Ou seja, a
consciência de que aquilo que entendemos como espaço cinematográfico é,
na verdade, sempre uma tensão entre o que está dentro e fora do quadro,
do campo de visão. Assim, fica mais claro perceber o peso dramático no
interior do quadro e das linhas de fuga do horizonte --que nunca se
esgotam ali na margem do quadro ou da tela onde o filme está sendo
projetado, estendendo-se sempre para os espaços fora da tela, que é
tanto o nosso espaço, de nossa presença, percepção e emoção, como também
da História (com H maiúsculo).
Momentos (e não são poucos) em que os personagens se encaminham para um
horizonte, como no final de vários filmes. No interior do quadro, Ford
sabe muito bem lançar mão de contrastes na justaposição da geografia
enquanto, simultaneamente, cenário e sentido e o uso que fez da
espetacular geografia do Monument Valley (região situada na fronteira
entre os Estados de Arizona e Utah que, apesar de representar boa parte
do Oeste norte-americano é, talvez, apenas o dobro em área da Ilha do
Governador, no RJ) também são exemplares naquilo que pode servir de
ambientação narrativa para os dramas do ser humano, no desenvolvimento
de temas que contrastam o "civilizado" e o "selvagem" (numa problemática
perspectiva eurocêntrica, sempre), o efêmero e o duradouro etc.
Folha - Seria pertinente dizer que Ford atingiu um equilíbrio perfeito entre "forma" e "conteúdo"?
João Luiz Vieira - Acredito que sim. Dentro do formato clássico
narrativo do qual foi um dos principais construtores, John Ford (nunca
isolado, mas sempre em conjunto com uma equipe mais ou menos constante
em diversas fases de sua carreira) desenvolveu uma atenção para o
detalhe que marca sua mise-en-scène e a torna reconhecível de filme para
filme, independente do gênero ao qual se filia (drama histórico, filmes
de temática social, comédia, filmes de guerra, western etc.).
Foi um dos mestres da unidade orgânica, princípio em que os elementos
estéticos da linguagem cinematográfica se encontram em "diálogo" uns com
os outros e que define, inclusive, esse conceito de mise-en-scène, tão
caro aos teóricos do autorismo [que defende a ideia de que o cineasta
também é um autor]. Daí é importante estar atento e perceber que um
determinado enquadramento, com sua composição, iluminação, relação de
distância entre a câmera e o assunto, angulação, mobilidade, tudo isso
constrói sentidos exatamente pelo recorte e em conjunto com a
movimentação e expressão dos atores, figurino, cenografia (natural ou em
estúdio), pela duração do enquadramento e pela sua relação com o que
veio antes e o que vem a seguir. Ou seja, lado a lado com outros mestres
do cinema (como o alemão Fritz Lang ou o japonês Ozu, de quem tivemos a
oportunidade de assistir recentemente a toda sua filmografia em mostra
no CCBB), também podemos afirmar que, para Ford, tão importante quanto
uma boa história é a forma de se contar essa história.
Uma está visceralmente integrada à outra e perceber isso nos mínimos
detalhes é um prazer que nos faz sempre retornar a seus filmes. Um bom
percurso para quem for assistir aos filmes da mostra é prestar atenção
na colaboração entre Ford, o fotógrafo Greg Tolland e o ator Henry
Fonda, imprescindíveis para o bom resultado alcançado com "As Vinhas da
Ira", para citar apenas um exemplo.
Folha - Orson Welles se diz extremamente influenciado por Ford.
Apesar de ser um cineasta essencialmente clássico, Ford antecipou
características do cinema moderno? Em que filmes?
João Luiz Vieira - Além dos aspectos mais evidentes na admiração
que Welles tinha por Ford e que aparece, sem sombra de dúvidas, em
"Cidadão Kane" (por exemplo, na ênfase narrativa que Welles atribui ao
flashback), revendo os filmes de Ford percebe-se, aqui e ali, algo que
vai de encontro às normas ditadas pelo clássico, onde, em geral, quando o
filme ou o livro terminam, está tudo ali, explicado, entendido,
fechado, esclarecido. E "Rastros de Ódio" sempre retorna como um texto
exemplar: a cada vez que revejo esse filme, saio com mais dúvidas do que
certezas. E parte do fascínio e obsessão com esse filme talvez venham
exatamente desse aspecto de ambiguidade generalizada que o filme tem.
Há momentos em que os personagens não sabem muito bem o que está
acontecendo --e também os espectadores. Não é um filme que se paute pela
clareza, muito pelo contrário. A cada experiência, uma nova visão, e,
com ela, novos enigmas vão surgindo, se superpondo em novas dimensões,
vão se abrindo. Desde questões bastante pragmáticas (quanto tempo dura a
tal busca pela menina sequestrada pelos índios?) até temas complexos
como a centralidade do papel da mãe-esposa que abre o filme, as relações
entre incesto, miscigenação e racismo, o papel da música e tantas
outras.
No momento, estou oferecendo uma disciplina na UFF sobre cinema de
gênero (o filme noir) e me pergunto sobre as ambiguidades que "Rastros
de Ódio" traz em relação às contradições que sempre marcaram o western,
por exemplo, na representação dos povos indígenas. O western enquanto
gênero pode ser uma camisa de força nesse aspecto e como Ford, dentro
dessas limitações, trabalhou certas tensões nessa representação? Como se
dão a afirmação/desconstrução de certos estereótipos típicos do
faroeste?
É uma tensão que, a meu ver, só pode ser entendida no contexto das lutas
pelos direitos civis nos EUA que começavam a ganhar força pela metade
dos anos 50 (o filme é de 1956) e uma legislação que também começava a
se abrir para aceitar casamentos interraciais. "Rastros de Ódio", mesmo
situando-se na segunda metade do século 19, interpela esse momento dos
anos 1950 de forma muito especial. Enfim, ambiguidades, incertezas,
estruturas em aberto, são marcas estilísticas e narrativas de um cinema
moderno.
Numa relação com o cinema moderno brasileiro, sempre me chamou a atenção
(além de semelhanças entre a paisagem do nosso sertão e as pradarias
secas do sudoeste norte-americano) a óbvia comparação de gênero entre o
western e o que aqui chamaram, às vezes pejorativamente como é de
péssimo costume, de "nordestern" --uma outra semelhança entre o
personagem de John Wayne em "Rastros de Ódio", Ethan Edwards, e o
matador de cangaceiros Antonio das Mortes (Maurício do Vale) de "Deus e o
Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha. Para além da composição do
personagem brasileiro, com aquela idêntica capa escura protegendo o
corpo das agruras da paisagem, também esse lado sombrio, vingativo,
enigmático. Lembro de ter visto nos arquivos do Tempo Glauber
[instituição no Rio de Janeiro dedicada à obra do cineasta] um desenho
do jovem Glauber para a composição de Antonio das Mortes exatamente
igual a Ethan Edwards... e acho que tem mesmo muita coisa a ver.
Folha - De Welles a Pedro Costa [cineasta português], Ford é
citado como referência. Por que seu cinema permanece tão influente até
hoje? Quais seriam os aspectos "contemporâneos" de sua obra?
João Luiz Vieira - Vou tentar ser breve: citarei apenas um
exemplo, bastante fresco, já que aconteceu recentemente, em sala de
aula. Preparando meus alunos para a mostra John Ford, mostrei "As Vinhas
da Ira", considerado por muitos a maneira mais adequada de introduzir
Ford para as novas gerações.
Pois bem: foi uma experiência que há muito eu não tinha visto nos bancos
da UFF e, para mim, já valeu o semestre. Terminada a sessão, todos (eu
inclusive) estavam engasgados de emoção, sem palavras imediatas para
exprimir nada além do espanto e da atualidade do filme. Explicações? Não
sei direito, mas, para além de ser, de novo, uma boa história (John
Steinbeck por trás) e muito bem contada pelos aspectos em parte já ditos
acima, acho que tem o momento outra vez de reavaliação do capitalismo
tardio, das ressonâncias da última crise econômica (e o papel dos
banqueiros nisso tudo, como foi em 1929), hoje acentuada pela
consciência das mudanças climáticas e da destruição ecológica.
Do buraco para o qual esse modelo econômico e falido está nos levando a
todos (pensar, por exemplo, no acidente no Golfo do México)... Essa
exploração sempre abusiva e gananciosa dos recursos naturais (aqui a
destruição da região amazônica), enfim, me parece um filme visionário,
distópico, permanente, "universal" no sentido clássico (aqui um sentido
interessante para esse conceito já discutido) de seu humanismo...
O estilo do filme, que trafega pelo realismo documentarista que vinha
sendo construído na década de 30 (por um Joris Ivens, ou mesmo uma Leni
Riefenstahl, os ingleses, o Instituto Nacional de Cinema Educativo
daqui)... não sei, tudo tão diferente do cinema pipoca blockbuster dos
efeitos especiais que também fascinam estes jovens...acho que,
sinceramente, foi uma descoberta para muita gente!
Folha - Qual seu momento favorito de um filme de Ford?
João Luiz Vieira - Acho difícil esquecer toda a sequência de
abertura de "Rastros de Ódio": desde os créditos iniciais, com o título
do filme original -"The Searchers"-- numa tipografia típica de faroeste,
letras em vermelho sobre um fundo de tijolos em adobe cor de terra,
acompanhados pela música, cuja letra cria um enigma ao lançar para o
espectador a pergunta radical do filme --"o que faz um homem vagar sem
rumo por aí e deixar para trás o conforto de um lar?"-- à chegada
misteriosa de um forasteiro soturno, mal humorado, Ethan Edwards,
interpretado por John Wayne, surgindo no meio da paisagem árida do
deserto, emoldurado por duas formações rochosas do Monument Valley.
Um pouco antes, uma porta foi aberta e uma mulher impecavelmente vestida
num avental branco sobre um vestido azul o vê chegar ao longe. Ela
aperta o avental numa das mãos, perturbada pelo aparecimento daquele
estranho. Um a um vão saindo para o alpendre os moradores da casa, numa
coreografia de perfeito equilíbrio. Ele chega e é logo identificado por
um tapete navajo pendurado numa daquelas varas de amarrar cavalos, que
funciona também como um limite a separar o lado selvagem da natureza
(incluindo os índios) e a civilização, representada pela casa, pela
família e pela cultura europeia dos imigrantes.
No que o forasteiro cruza essa fronteira, o tapete milagrosamente
desaparece de cena e Ethan é reinserido na sociedade, numa relação de
parentesco onde ele é simultaneamente irmão, cunhado e tio. Pouquíssimas
palavras protocolares de boas-vindas são trocadas e a mulher caminha
para trás, entrando de novo na casa, seguida por todos, especialmente
por Ethan que parece, uma vez mais, atraído pelo corpo da cunhada. Está
tudo ali, nesses primeiros fotogramas e, em menos de um minuto e meio de
filme, você já sabe que está diante de uma verdadeira obra-prima.