CINEMA
Meu nome é John Ford, eu faço westernsMostra reúne a obra do cineasta que recriou o caubói e o faroeste
RESUMO Idiossincrasias, temperamento
difícil, economia de meios e aversão a concessões à indústria fizeram de
John Ford um nome central no cinema do século 20. Vistos em
retrospectiva em São Paulo, Rio e Brasília, seus filmes
são um manifesto pela ordem coletiva, negando o tradicional
individualismo da figura do caubói.
PEDRO BUTCHER
ilustração
RODRIGO ANDRADE
EM 1961, JOHN FORD recebeu em seu escritório, nos estúdios da Paramount,
a visita de um moleque de 15 anos que sonhava em ser cineasta. O
diretor estava com 67 anos e preparava aquele que seria um de seus
melhores filmes, "O Homem que Matou o Facínora". A secretária
avisou: "Ele vai recebê-lo, mas só por um minuto".
O adolescente entrou na sala, decorada com pinturas que representavam o Velho Oeste.
"Então você quer fazer filmes?", perguntou Ford.
"Sim, s enhor. Quero ser diretor de cinema."
"Certo. Está vendo essas pinturas? Observe a primeira e me diga o que vê."
"Vejo um índio e um cavalo."
"Não, não, não. Cadê o horizonte? Você é capaz de me dizer onde está o horizonte?"
O moleque apontou.
"Não aponte", disse Ford. "Olhe para a pintura como um todo e me diga onde está o horizonte."
"Embaixo."
"Bom. Agora observe a próxima. Cadê o horizonte?"
"Em cima."
"Ok. Agora vem cá: quando você chegar à conclusão de que pôr o horizonte
na parte inferior ou na parte superior pode ser melhor do que no meio
do quadro, então talvez, algum dia, você possa se tornar um bom
diretor."
MITOLOGIA Quem conta a história, anos depois, é o próprio
moleque, chamado Steven Spielberg, no documentário "Directed by John
Ford", de Peter Bogdanovich, combinação de reflexão crítica sobre os
filmes de Ford e muitos casos narrados por atores e co
l aboradores do diretor de "Rastros de Ódio". As boas histórias são
muitas, pois, em torno de seu temperamento difícil, criou-se uma
mitologia tão forte quanto sua obra.
O relato de Spielberg, contudo, vai além da anedota, pois toca num ponto
fundamental: o gênio artístico do cineasta e seu apurado senso
estético.
Não que Ford (1894-1973) tenha sido injustiçado. Ao contrário de Orson
Welles e Alfred Hitchcock, que jamais ganharam o Oscar de melhor
diretor, Ford levou quatro (até hoje é o recordista na categoria, com "O
Delator", de 1935; "As Vinhas da Ira", de 1940;
"Como Era Verde Meu Vale", de 1941; e "Depois do Vendaval", de 1952).
Durante boa parte de sua vasta carreira, que durou de 1917 a 1970, foi
reconhecido como o maior cineasta americano.
Na avaliação do crítico americano Tag Gallagher, porém, tal
reconhecimento, mesmo quando cravado de elogios, se deu por linhas
tortas. "Nos filmes de Ford, a eloquência de suas composições to rn ava o
diálogo virtualmente desnecessário, não por falta de riqueza
do roteiro, mas porque a estrutura literária era apenas um aspecto da
complexa inteligência formal de seu cinema", escreve ele na monumental
biografia "John Ford - The Man and His Films", que o próprio autor
disponibilizou na internet, em
home.sprynet.com/~tag/tag/.
"É essa imensa inteligência que muitos críticos ignoraram."
SUTILEZAS "Os apologistas de Ford louvam seus instintos e emoções
como se ele fosse artista inconscientemente, sem intenção", prossegue
Gallagher. "Seus detratores depreciam seu sentimentalismo, o tacham de
racista, militarista e reacionário, ignorando
as sutilezas entre os extremos, os discursos de níveis duplos, o apelo
obsessivo de sua obra pela tolerância."
Gallagher reconhece que parte da culpa por essa incompreensão vem do
próprio Ford, "que se e sco ndia sob máscaras". A atitude seca e até
agressiva, repudiando o rótulo de "artista", foi uma estratégia de
sobrevivência na máquina trituradora de Hollywood, que
acabou moldando a figura pública de Ford e, aos poucos, ganhou contornos
folclóricos.
Nos trechos de uma entrevista reproduzida no documentário, Bogdanovich
aproveita essa faceta para extrair momentos verdadeiramente cômicos:
Bogdanovich - (fora de quadro): "O senhor fez 'Three Bad Men' (1926),
um 'western' de grande escala, com uma sequência elaborada da chegada
dos colonos. Como o senhor a filmou?"
Ford- "Com uma câmera".
Sua visão do Oeste tem se tornado progressivamente triste e melancólica ao longo dos anos. O senhor se deu conta dessa mudança?
Não sei do que está falando.
Que elemento particular do Oeste o atraiu desde o começo de sua carreira?
Não saberia dizer.
O senhor concordaria que em "Sangue de Herói" (1948) a tradição do Exército tem mais importância que o indivíduo?
Corta!
ESTETA Tal atitude não diminui as qualidades de Ford como esteta.
Trabalhando no coração da indústria, quase sempre sem assinar os
roteiros e a montagem final de seus filmes, Ford construiu uma obra
absolutamente pessoal e singular. Poucos foram tão
perfeitos ao combinar conteúdo e forma.
"Ford foi um dos mestres da unidade orgânica, princípio em que os
elementos estéticos da linguagem cinematográfica se encontram em diálogo
uns com os outros", diz João Luiz Vieira, professor na Universidade
Federal Fluminense. "É importante perceber como determinado
enquadramento, com sua composição, iluminação, distância entre a câmera e
o assunto, angulação e mobilidade, constrói sentidos em conjunto com a
movimentação e expressão dos atores, figurino, cenografia (natural ou em
estúdio) etc.".
Após um mergulho na obra de Ford, o cineasta Bertrand Tavernier escreveu
o texto "La Chevauchée de Sganarelle" [A Cavalgada de Sganarelle],
publicado na revista "Présence du Cinéma" em 1965 e disponível em
francês na internet. "As grandes retrospectivas organizadas
pela Cinemateca Francesa são duras provas para os cineastas", diz,
citando os filmes de Vincente Minnelli e George Cukor como exemplos dos
que não sobrevivem tão bem quando vistos em conjunto.
OPORTUNIDADE Este, contudo, não seria o caso de Ford -e o
ilustríssimo espectador brasileiro pode tirar a prova na retrospectiva
dedicada ao cineasta que está em cartaz no CCBB de São Paulo até 17 de
outubro e depois segue para Brasília (28/9 a 17/10)
e Rio de Janeiro (12/10 a 7/11). É uma oportunidade raríssima: são 36
filmes, todos em película, e mais o fundamental documentário de Peter
Bogdanovich ("Directed by John Ford", 1971/2006).
O catálogo da mostr a traz 18 te xtos essenciais sobre Ford, quase todos
inéditos no Brasil (três assinados por Tag Gallagher, e análises de
Serge Daney, João Bénard da Costa, Jacques Rancière, Andrew Sarris, Jean
Mitry, Lindsay Anderson. Há também um curso,
dividido em quatro módulos, ministrado por Ismail Xavier, da USP, e João
Luiz Vieira, entre outros.
Tavernier, em seu texto, aponta com precisão os elementos que costuram
os filmes e tornam a obra de John Ford grandiosa, sem fazer vista grossa
a seus numerosos erros -entre os quais inclui o consagrado "O Delator",
que lhe rendeu o primeiro Oscar- e apontando
a dificuldade interna criada pelas próprias mutações ao longo da
carreira ("nosso homem é um dos mais rebeldes às exegeses").
VIAGENS E PEREGRINAÇÕES Enquanto o "western" clássico apresenta
uma visão individualista do mundo, marcada por uma forte ideia de
violência física ou interior ("um caubói e seu desejo de vingança; um
fora da lei que t enta escapar de seu passado; um
atirador e sua vontade de matar"), em Ford "a linha de força raramente é
constituída em torno de um sentimento individual ou de um motivador
negativo, destruidor", diz Tavernier. As viagens e peregrinações
predominam.
"Os filmes são odisseias de caravanas de emigrantes, patrulhas de um
grupo de cavaleiros, travessias do deserto por uma diligência, ou
bandidos procurados pela polícia. Ford só se interessa por problemas
pessoais na medida em que se interceptam aos da comunidade.
Seus heróis só reagem em função do meio em que vivem e não impõem
questões morais. Sua ética só existe em relação a um sentimento de ordem
coletivo."
"Nos filmes de Ford, são evidentes os conflitos entre o indivíduo e a
civilização", afirma Gallagher num brilhante ensaio visual produzido
para a edição especial em DVD de "No Tempo das Diligências"
("Stagecoach", 1939), da coleção Criterion. "Enquanto em tantos
outros ci neastas os personagens são desprovidos de qualquer coisa que
os pré-defina, em Ford os personagens vivem e respiram sua cultura, suas
religiões, raças, classes." Em seus filmes, o quadro está sempre
carregado de detalhes riquíssimos. Cada personagem
tem um passado.
LOCAÇÃO Ford foi um pioneiro nas filmagens em locação. São
famosos seus planos abertos, mostrando homens a cavalo em pequena
escala, cujo movimento forma linhas diagonais ou espirais no interior de
uma vasta paisagem. Em "No Tempo das Diligências", ele
filmou pela primeira vez na belíssima região de Monument Valley, na
fronteira dos Estados de Arizona e Utah, paisagem que virou marca
registrada de seus filmes.
"Legião Invencível" ("She Wore a Yellow Ribbon", 1949), segunda parte da
"trilogia da cavalaria", também traz um momento visual marcante:
comandada por John Wayne, a cavalaria segue pela paisagem desértica
enquanto uma tempestade de raios avança por trás .
Consta q ue Ford ordenou prosseguir com as filmagens mesmo após o início
da tempestade, contra a vontade do fotógrafo e de parte do elenco.
Por causa desta e de outras imagens, estabeleceu-se mais um mito em
torno do cineasta: a famosa "Ford's luck", a "sorte de Ford", embora a
atriz Maureen O'Hara diminua sua importância ao revelar que o lindo
efeito do véu que voa ao vento na cena do casamento
de "Como Era Verde Meu Vale" ("How Green Was My Valley", 1941) é obra de
três ventiladores.
Numa complexa sequência que só corrobora seu senso de composição, vemos a
noiva e o noivo saírem da igreja em direção à carruagem. A beleza da
cena não põe a perder o senso de sutileza: a alegria da festa contrasta
com a melancolia da noiva, apaixonada por
outro homem (o pastor da cidade). Ela só aceitou se casar com o filho do
dono da mina de carvão onde trabalham o pai e os irmãos por força das
convenções sociais.
A sequência termina com a imagem do pastor no alto de uma colina,
observando a partida dos noivos ao longe. Robert Parrish, assistente de
Ford no filme, conta que, logo depois de rodar o plano, perguntou se o
diretor não faria um close do personagem -a escolha
mais óbvia para os padrões da narrativa clássica americana. Ford reagiu
com repúdio:
"Não, de jeito nenhum, eles podem acabar usando!"
"Eles" eram os produtores.
NA CABEÇA Assim era Ford: filmava só o necessário para a
compreensão da cena -nem mais, nem menos (algo particularmente exemplar
na era digital, em que se filma absolutamente tudo, o que gerou até um
protesto de Fernando Meirelles). Tal método é ainda
mais impressionante quando se conhece a aversão de Ford a storyboards,
ou seja, o planejamento visual do filme em desenhos semelhantes a
histórias em quadrinhos, método que Hitchcock, por exemplo, adorava.
A economia de planos era, sobretudo, uma forma de contornar a
interferência dos estúdios . "Se você filmar muito, o 'comitê' assume o
comando. Eles começam a tirar cenas, acrescentar outras, misturar as
coisas. Isso eles não conseguem fazer com meus filmes.
Corto na câmera e é isso aí. Não sobra muito material no chão quando
termino um trabalho."
Sua repulsa aos executivos de Hollywood, aliás, é tema de várias
histórias clássicas envolvendo Ford. Consta que ele teria contratado
seguranças para manter longe dos sets o poderoso Darryl F. Zanuck,
executivo da Fox conhecido por suas intervenções nos filmes.
Em outra ocasião, reuniu a equipe em torno de um executivo infiltrado e
disse em alto e bom som: "Este é um produtor associado. Podem dar uma
boa olhada nele, porque daqui para a frente vocês não vão vê-lo de
novo".
Reunir a equipe para constranger os atores era um dos esportes favoritos
do cineasta, que preferia trabalhar sob tensão. John Wayne, por
incrível que pareça, foi um alvo favorito de suas chacotas.
A personal idade difícil e exigente, no entanto, não impediu que muitos
atores reconhecessem que seus melhores desempenhos foram alcançados sob a
direção de Ford. A "trupe" do cineasta entendia que, sob a carapaça da
dureza, havia enorme sensibilidade.
ÉTICA No mesmo ensaio visual sobre "No Tempo das Diligências",
Tag Gallagher analisa uma sequência aparentemente simples, mas exemplar
da ética rigorosa de Ford (sempre traduzida em estética, ou seja,
escolhas de enquadramentos e posicionamento de câmera).
"No Tempo das Diligências" conta a história de um grupo heterogêneo que
atravessa o deserto na mesma diligência. Entre eles está Dallas (Claire
Trevor), prostituta expulsa da cidade em que vivia, e Lucy (Louise
Platt), que viaja grávida para reencontrar o marido.
Em uma pausa na viagem, Ringo, o personagem de John Wayne, convida
Dallas para sentar-se à mesa de jantar, o que choca a todos e deixa Lucy
especialmente incomoda da. O esp ectador entende tudo o que se passa
apenas pela troca de olhares.Gallagher cita um texto
do crítico Nick Browne que acusa Ford de ter feito uma cena moralista.
Logo em seguida, destrói essa versão: analisando a cena plano a plano,
demonstra como, pelo posicionamento da câmera e pela escolha da ordem
das imagens, Ford evita julgar os personagens.
Depois de mostrar o olhar reprovador de Lucy do ponto de vista de
Dallas, o cineasta não corta para o que seria a continuação mais óbvia
da cena: o ponto de vista de Lucy. Prefere situar a câmera do outro lado
da mesa. É uma estratégia, na verdade, simples:
nunca mostrar dois pontos de vistas seguidos: "Ford não quer submeter o
espectador à manipulação da câmera. O que ele busca é uma empatia à
distância". As conclusões se dão na cabeça de cada um.
MURNAU No fundo, John Ford era um romântico. Filho de irlandeses,
carregava consigo um fascínio pelo país natal e horro r às hi stórias
de injustiça e pobreza que marcaram a infância dos pais. Um de seus
filmes favoritos era uma história de amor: "Aurora"
(1927), de F.W. Murnau.
Para cada história em torno da dureza de Ford há também uma história de
ternura e de justiça. Quando Hollywood viveu a sombra do macarthismo e
os setores conservadores da indústria promoveram uma intensa perseguição
aos profissionais suspeitos de serem filiados
ao Partido Comunista, Cecil B. De Mille, um dos diretores mais
influentes da época, liderou um movimento para que Sindicato dos
Diretores destituísse Joseph L. Mankiewicz, seu presidente.
Numa reunião do sindicato, Ford fez um pronunciamento célebre: "Meu nome
é John Ford. Eu faço 'westerns'. Não acredito que exista alguém nessa
sala que saiba mais o que o público americano quer ver do que Cecil B.
De Mille. Mas eu não gosto do senhor, não gosto
do que você representa nem do que o senhor tem dito aqui, nesta noite".
A m ais bel a das histórias românticas envolvendo Ford encerra o
documentário de Peter Bogdanovich e revela sua paixão por Katharine
Hepburn, com quem o cineasta teria tido um breve caso depois de "Maria
Stuart" ("Mary of Scotland", 1936).
Já doente e perto de morrer, Ford recebeu a visita de Katharine. Quando
os dois ficam sozinhos no quarto dele, Ford diz: "Eu te amo" - e ela
responde: "Eu sei".
Peter Bogdanovich sugere que a sucessão de obras-primas de Ford entre
1939 e 1941 ("No Tempo das Diligências", "A Mocidade de Lincoln", "As
Vinhas da Ira" e "Como Era Verde Meu Vale") teria sido feita sob o
feitiço dessa paixão. Os brutos, afinal, também amam.
"Trabalhando no coração da indústria, quase sempre sem assinar os
roteiros e a montagem final de seus filmes, Ford construiu uma obra
absolutamente pessoal e singular. Poucos foram tão perfeitos ao combinar
conteúdo e forma"
'A economia de planos era, sobretudo, uma forma de c ontorn ar a
interferência dos estúdios. "Se você filmar muito, o 'comitê' assume o
comando. Eles começam a tirar cenas, acrescentar outras, misturar as
coisas. Isso eles não conseguem fazer com meus filmes.
Corto na câmera e é isso aí"'