O SANGUE QUENTE DO JAPÃO: CINEMA JAPONÊS FORA-DA-LEI
05 a 21 de outubro de 2010
Em parceria com a Fundação Japão, a Cinemateca Brasileira e o Centro Cultural São Paulo recebem este mês a mostra O SANGUE QUENTE DO JAPÃO: CINEMA JAPONÊS FORA-DE-LEI, com 17 longas-metragens produzidos entre 1937 e 1996, quase todos eles inéditos no Brasil. Os filmes apresentam um amplo panorama do gênero conhecido no Japão como yakuza eiga, que envolve todos aquelas obras cujas tramas abordam foras-da-lei e organizações criminosas, desde filmes de época (jidaigeki) até produções contemporâneas sobre gângsteres e marginais.
A princípio, pode parecer estranho que filmes de samurais e espadachins (os chamados chambara) sejam incluídos entre os yakuza eiga. Vale lembrar, no entanto, que as associações criminosas conhecidas como Yakuza surgiram nos grandes centros urbanos japoneses de Osaka e Edo (atual Tóquio) justamente no início do século XVII, durante o período Edo (1603-1868), época em que são ambientados muitos dos jidaigeki. Se inicialmente os Yakuza reuniam andarilhos e jogadores profissionais, a partir de 1603, com o fim das guerras feudais, essas organizações passaram a incluir também ex-samurais que, com o advento dos tempos de paz, viram-se sem mestre e ameaçados de banimento. Todas essas categorias de foras-da-lei – e também os gângsteres do século XX – são contempladas pelos filmes reunidos nessa mostra, que podem tanto apresentar tramas sobre a atuação dos criminosos ainda no período Edo (como O Grande duelo, de Eiichi Kudo), quanto obras que abordam a Yakuza já num contexto urbano (caso, por exemplo, de Japanese Yakuza, de Makino Masahiro, e de A Cidade da violência, de Satsuo Yamamoto).
Além de apresentar um inédito panorama histórico da evolução dos yakuza eiga, a mostra O SANGUE QUENTE DO JAPÃO também oferece ao espectador a oportunidade de entrar em contato com a obra de realizadores japoneses de grande importância e originalidade que permanecem praticamente desconhecidos do grande público, como Hiroshi Inagaki (1905-1980), presente à mostra com dois de seus filmes mais célebres: Duelo em Takadanobaba, de 1937, título mais antigo da programação, e O Homem do Riquixá, de 1943, lançado originalmente no Brasil como O Endiabrado. Trata-se da primeira versão de uma história que alcançaria ainda maior sucesso ao ser refilmada em 1958, pelo próprio Inagaki.
Outro realizador de destaque presente à mostra é Kinji Fukasaku (1930-2003), responsável por promover, em meados dos anos 1970, um renascimento dos yakuza eiga com a série de filmes Luta sem código de honra (Jingi naki tatakai), que incluiu oito títulos rodados entre 1973 e 1976, divididos em uma série de cinco filmes e outra de três, mais um nono filme rodado em 1979 com direção de Eiichi Kudo. Por conta desse sucesso, Fukasaku conseguiu, em 1980, rodar o ambicioso projeto O Dia da ressurreição (Fukkatsu no hi), uma ficção-científica apocalíptica de grande produção, que contou em seu elenco com estrelas internacionais do calibre de Glenn Ford, Robert Vaughn, Edward James Olmos, George Kennedy e Bo Svenson. Já no final de sua carreira e de sua vida, Fukasaku conquistou ainda um novo e inesperado sucesso mundial com Batalha real (Battle Royale), ultra-violenta adaptação de um famoso mangá que se tornou um cult movie instantâneo em todo o mundo, originando seqüências e inúmeras imitações, além de uma estrondosa polêmica que se seguiu ao seu lançamento no Japão, onde associações de pais e autoridades pediram o banimento do filme para ele que não pudesse influenciar os jovens a imitar aquilo que viam na tela. Grande esteta da violência, muito admirado por realizadores como Quentin Tarantino, Fukasaku é contemplado na programação com dois filmes: Wolves, pigs and men, um de seus primeiros sucessos, lançado em 1964, e Alugados pelo inferno (também conhecido como Cemitério da honra), de 1975, que foi refilmado em 2002 pelo enfant terrible Takashi Miike, outro “profeta” da ultra-violência e legítimo herdeiro de Fukasaku.
Em termos de prestígio e reconhecimento crítico, no entanto, nenhum dos cineastas contemplados nessa retrospectiva se compara a Tomu Uchida (1898-1970). Considerado o melhor cineasta do Japão ou o “mais japonês” dos cineastas por muitos críticos e realizadores, Uchida teve uma longa e notável carreira como diretor desde o período do cinema silencioso, jamais se atendo a um único gênero. Sua contribuição ao universo dos yakuza eiga, no entanto, é de valor inestimável, como o público poderá comprovar a partir de seus três filmes incluídos na mostra: o antológico A Lança ensanguentada, que chegou a ser exibido no Brasil nos antigos cinemas do bairro paulistano da Liberdade, Tragédia em Yoshiwara, baseado numa história real, e Hishakaku e Kiratsune, tido como um dos maiores clássicos do gênero. Dentre os admiradores confessos de Uchida está o cineasta brasileiro Carlos Reichenbach, que apresenta um debate sobre o mestre na abertura do evento, na Cinemateca.
O mais importante dentre todos os realizadores de yakuza eiga, principalmente daqueles filmes de época desse gênero, é contudo o diretor Tai Kato – e isso se reflete na seleção dos filmes dessa mostra, que contempla nada menos do que seis de suas obras. Tendo iniciado sua carreira como assistente de direção para nomes consagrados como Akira Kurosawa – com quem trabalhou no fundamental Rashomon –, Tai Kato (1916-1985) foi responsável por revitalizar os jidaigeki, rompendo com as rígidas tradições da representação cinematográfica então vigentes, sobretudo em favor do realismo. Foi o primeiro diretor a eliminar a maquiagem peculiar dos atores nos filmes de época, que considerava artificial, e a introduzir uma visão autoral que ultrapassava as convenções de gênero. Um mestre absoluto dos yakuza eiga, Kato soube como ninguém balancear a violência em seus filmes com um sentido de solidão e angústia que conferia densidade emocional a cada gesto de seus personagens. Apesar de ter despertado a admiração de muitos realizadores ocidentais, Tai Kato permaneceu – e ainda permanece – praticamente desconhecido fora de seu país. Porém, algumas retrospectivas recentes de seus filmes na Europa e nos Estados Unidos vêm contribuindo para reverter esse quadro e conduzi-lo ao lugar de destaque que ele merece dentre os cineastas japoneses de sua época. Agora é a vez de o público brasileiro ter uma chance de finalmente entrar em contato com sua obra, por meio de filmes absolutamente originais como a obra-prima Sangue de vingança, que conta com uma das mais impressionantes cenas de ação do cinema japonês, e o moderno History of a man's face, que traz uma trilha sonora inusitada, repleta de pop japonês e jazz americano. Ambos os filmes são estrelados pelo lendário Noburo Ando, um legítimo yakuza na vida real, que foi chefe de gangue e chegou a cumprir pena na prisão antes de se lançar como ator em 1965, num filme sobre a sua própria vida.
Dentre os filmes de Tai Kato presentes nessa retrospectiva estão incluídos também dois capítulos da célebre série de oito longas-metragens protagonizados pela personagem Red Peony Gambler (conhecida no Brasil como A Peônia Escarlate, a Peônia Carmesim ou, ainda, a Jogadora da Peônia Escarlate), uma jogadora profissional que tem essa flor tatuada em seu corpo. Criada pelo roteirista Noribumi Suzuki em 1968, para os estúdios Toei, a heroína, interpretada pela bela Junko Fuji, é a filha de um chefe de bandoleiros assassinado covardemente por seus rivais, que abandona os estudos, adota o nome de Oryu, e sai em busca dos responsáveis pela morte de seu pai. Depois de cumprir sua missão de vingança, ela segue viagem ganhando a vida em jogos de cartas e encarando aventuras nas quais suas fabulosas habilidades como espadachim são postas à prova. O sucesso desses filmes foi tão grande que levou a Toei a produzir em seguida uma nova série, A Gueixa Heróica, também estrelada por Junko Fuji, além de ter motivado outros estúdios a explorar o filão das heroínas lutadoras. A Peônia Escarlate, contudo, segue inigualável, em grande medida graças à contribuição de Tai Kato, que dirigiu três dos oito títulos da série, dois dos quais estão incluídos nessa mostra: o terceiro capítulo, A Peônia Escarlate – Cartada de uma flor, primeiro dirigido por Kato e considerado o melhor dentre todos os filmes com a personagem, e A Peônia Escarlate – Aqui está Oryu, sexto capítulo das aventuras da heroína.
Como se vê, os yakuza eiga se constituem num gênero riquíssimo em diversão e originalidade, para o qual a mostra O SANGUE QUENTE DO JAPÃO: CINEMA JAPONÊS FORA-DA-LEI representa uma excelente introdução. Todos os filmes da retrospectiva, que tem entrada franca, serão exibidos em cópias novas em película de 35mm, trazidas diretamente de Tóquio pela Fundação Japão. Simplesmente imperdível.