Há três meses, na noite de 29 de janeiro, depois de um dia melancólico
em Barão, eu aportava em São Paulo, que me recebia com sua famosa garoa.
O apartamento aquela noite era só para mim. Estava todo bagunçado,
abarrotado de expectativas e caixas para serem desempacotadas, que
atrapalhavam a locomoção, mas não diminuíram minha alegria – era uma
questão de me organizar.
Pois eis São Paulo sob garoa neste 29 de abril – não, São Paulo não é a
"terra da garoa", não no século XXI, aqui é a terra das tempestades –, e
eu com o apartamento inteiro só para mim: as duas pessoas com quem
dividia saíram esta semana, uma porque daqui parte para a Europa; a
outra porque os santos não bateram. Não há caixas a atrapalhar o
movimento, apesar de ainda haver muitas expectativas a espera de
ganharem a luz do dia (ou da noite). Outras pessoas já estão acertadas
de virem morar, mas até se mudarem, relembro o que é morar sozinho. E
este apartamento grande e branco e vazio reflete bem meu estado de
espírito melancólico deste instante – deste instante!, é bom salientar.
Porque vivi neste três meses de São Paulo mais do que vivera nos últimos
quatro anos em Barão. Uma cidade que tem meu ritmo – agitado –, e por
isso faz com que eu me sinta mais tranqüilo: estamos em sintonia, em
sincronia. Uma cidade que, se procurar, se encontra a cada dia
horizontes novos, e oferece caminhos que permitem não andar em círculos.
Ou mesmo onde percorrer o trajeto de sempre não significa revivenciar
as mesmas coisas.
Cidade que me abriu liberdades que eu não vislumbrava em Campinas, e com
elas, coragens que eu não me permitia. É certo que São Paulo me faz
rever muitas pessoas que não via há tempos, me permite encontrar sem
querer com conhecidos. Mas, acima de tudo, me permite essa estranha
comunhão do anonimato e da insignificância. Ser um anônimo, conhecer
pessoas novas – interessantes, inteligentes, inusitadas –, e poder me
apresentar também de formas novas. Que carregam ainda muito do velho –
medos, limitações, e um jarro que eu julgava vazio, mas que descobri ser
quase que uma caixa de Pandora para mim mesmo (ou de mim mesmo?). E
sentir que mais do que à espreita, ao meu lado está a pantera que tanto
temo. Ao mesmo tempo, notar o quão simples (não significa fácil) pode
ser encontrar o refúgio quase idílico que almejo.
Descobri que São Paulo, que me soava hostil, por ser quase só cimento e
asfalto, é poética, porque há pessoas, pessoas dos mais variados tipos,
circulando e parando e te interpelando por entre o concreto e o piche.
Que há o pixo, o lambe-lambe, que podem ser – parecem ser, muitas vezes –
sinais de amor pela cidade. Cidade que por mais que autoridades e parte
da população tentem, não permite que brinquem de esconde-esconde com
ela, que se apresenta sempre inteira para quem quiser enxergar: nobre e
mendiga, revolucionária e conservadora, violenta e pacífica, ampla e
bitolada.

Como gosto de coincidências... neste dia 28 veio me visitar o Rafael,
amigo de Barão – um dos poucos que, depois de terem entrado no mestrado
em filosofia ou ciências sociais, consegui manter o mesmo contato franco
e agradável de antes. Chegou quando o antigo morador terminava de
retirar suas coisas. Em 28 de janeiro, Rafael foi um dos que estiveram
no meu encontro de despedida. Esteve nas minhas duas despedidas: a de
Barão, e a desta fase de São Paulo. Se da outra me deixou melancólico,
me trouxe alegria desta feita: foi uma mostra mais de que o importante
eu não deixara para trás.
Minha vinda pra São Paulo foi uma mudança, não uma revolução. São Paulo
se apresentou a mim como uma cidade aberta, cabia a mim estar aberto a
ela também para aproveitá-la, desfrutá-la. Esse me abrir – ainda
incompleto – talvez tenha sido uma das minhas mudanças mais
significativas nestes três meses. Que São Paulo agora dentre por
completo este apartamento hoje vazio.
São Paulo, 29 de abril de 2012.
ps: a foto é do fotografo japonês Tatewaki Nio, que tomei conhecimento
na exposição "Escultura do insconsciente", na Funarte, Campos Elíseos.
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dAniel gOrte-dAlmoro
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Na teoria a prática é simples.
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"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto
mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas
imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria
existência e seu próprio desejo. É por isso que o espectador não se
sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte."
Debord