Andar na contra-mão, dançar conforme a música, buscar seu próprio
bailado, disputar pra ser o primeiro. “La vie en rose???”,
espetáculo da Companhia de Danças de Diadema, consegue apresentar
uma interessante resposta à pergunta que se põe – se a vida é um
mar de rosas.
Trata-se de uma apresentação alegre – otimista em alguma medida,
portanto –, mas que não compartilha da idéia de uma alegria
permanente e idílica. A trilha sonora é composta de várias músicas
que se sobrepõem, de Bizet a hip hop, passando por Chico Buarque e
Edith Piaf. Quem dá o tom, contudo, é Satié e suas Gnossiennes.
Não faz muito, uma amiga disse que achava triste as Gnossiennes e
Gymnopedies. Eu as sinto de uma melancolia doce. Em “La vie em
rose???” elas preenchem parte da coreografia com a sensação de
falta, de ausência, e talvez seja essa uma das alternativas
propostas pelo grupo para encarar o mar da vida: o estar com o outro
– diferentemente de como começa a dança para uma das bailarinas.
A coreografia, contudo, não é linear, um caminhar para o encontro,
para a alegria, para o mar de rosas. Ela tem o oscilar do oceano –
esse que exige que navegar seja preciso, enquanto a vida dispensa
dessas precisões, mais ou menos como cantam Pessoa em uma das
músicas tocadas. Ora em harmonia, ora em disputa, ora em briga –
se o paraíso talvez esteja nos outros, o inferno, já comentava
Sartre, também está. A dificuldade em achar alguém que “dê uma
mãozinha”, e a hesitação de se oferecer essa ajuda – que chega
quando não mais necessária –, mostra os desencontros, as falhas
de comunicação, os medos, os egoísmos.
A frase O que vocês estão fazendo?, repetida por uma das
bailarinas três vezes, dá um outro ponto da resposta que o grupo tenta construir:
parece que ter um pouco de consciência do que se está fazendo leva
a um refazê-lo em outros termos – e não se trata de parar para
pensar, às vezes é agir para pensar. Não por acaso a parte que me
pareceu mais bela da coreografia vem depois dessa frase, dita após os
cinco bailarinos dançarem belicosamente – com uma imagem urbana ao
fundo, o que me pareceu uma ligação direta infeliz entre cidade e
violência. O que vocês estão fazendo? Não havia resposta,
e a conseqüência foi um maravilhoso flutuar da dançarina, bailando
como o vôo de um pássaro – livre mas ciente das alturas
que consegue alcançar, por mais que supere suas limitações –, com a ajuda dos cinco homens.
No final, após novamente a pergunta O que vocês estão fazendo?,
cada dançarino em sua própria dança, gerando uma coreografia
harmoniosa e bonita. Seria um grand finalle,
a tão sonhada solução. Seria bonito, porém irreal, demais
Poliana. A dança díspar de todos vai se homogeneizando, até todos
estarem dançando igual – o que não é ruim por princípio, o
problema é quando vira imposição. A saída para essa uniformidade,
de todos juntos, mas isolados? Havia uma janela ao fundo,
entreaberta, que mostrava luz do outro lado – uma janela, não uma
solução.
São Paulo, 23 de março de 2012.
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dAniel gOrte-dAlmoro
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Na teoria a prática é simples.
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"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto
mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas
imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria
existência e seu próprio desejo. É por isso que o espectador não se
sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte."
Debord