A
garotinha não era feia – ou não deveria ser. Pelos dentes
nascendo, devia ter seus sete anos, apesar do falar um tanto
embebezado para sua idade, me pareceu. Entrou no metrô com a mãe e
outra mulher, e se sentou bem defronte a mim, de forma que o breve
trajeto que percorremos juntos, pus-me a observá-la – até porque
me chamava a atenção.

Não
era feia – já disse –, talvez até pudesse ser uma criança
bonita: olhos grandes, azuis, loira, gordinha (sem exageros) do
estilo redondinha. Mas usava lápis de olho, batom que marcava bem
(ou simulava) o contorno da boca, e devia usar mais alguns
apetrechos de maquilagem que não constam no meu escasso repertório
do gênero. Tudo isso dava a ela um ar de personagem de filme de
terror, algo como Chucky, o boneco assassino. E não adiantava ela
sorrir com as palhaçadas da amiga da mãe, tudo aquilo de
maquilagem
– que quem sabe na mãe não desse um ar sexy – a ela emprestava
um quê de sádico e alheio.
Me
lembrei das pinturas medievais, nas quais se representavam
crianças
como mini-adultos, ou mesmo nas de Paula Rego, em que crianças
mini-adultos dava um ar de horror a cenas que aparentemente
tendiam
para festas. Ocorre que a garota nascera no século XXI, mais
próxima
de Paula Rego do que de Fra Angelico, e sua mini-adultice era
horrorificante.
Ao
sair do vagão, reparei que a mãe – loira como a filha – tinha
as raízes escuras. Apesar da curiosidade, preferi não reparar de
novo no cabelo da garotinha.
São
Paulo, 10 de janeiro de 2012.
--
dAniel gOrte-dAlmoro
www.comportamentogeral.blogspot.com [página pessoal]
www.casuistica.tk [artes antiartes heterodoxias]
www.facebook.com/itcouldhavebeenabrilliantcareer
Na teoria a prática é simples.
---
"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. É por isso que o espectador não se sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte."
Debord