Hoje era dia de médico. Consulta de rotina com o Aílton. Essas
visitas já foram mais felizes em tempos passados, quando eu ia ao
médico para ele dizer que eu não tinha nada. Hoje eles insistem em
achar problemas – como onze pedras no rim, por exemplo –, e me
receitar remédios. Há, claro, o contraponto positivo: a chance de
me encontrar com Ruth, a balconista de farmácia, que há meses não
me tira o sono – porque pra me tirar o sono é difícil –, mas povoa
meus sonhos.
Dia de ir na farmácia da Ruth é dia de se arrumar um pouco mais
pra ir pro centro. Nada em exagero, que roupa muito arrumada,
essas que só uso quando saio à noite, no meio do dia, soaria
estranho – apesar que o meu arrumado não deve superar em muito o
que uma pessoa normal usa para ir à padaria. Depois de provar meia
dúzia de camisetas, decidi, por fim, em uma gola polo com listras
horizontais, que ganhei de minha avó, para disfarçar um pouco o
excesso de esbeltez que me cabe – da última vez fora com uma
camisa preta, péssima idéia. Para dar um ar um pouco desleixado,
uma calça jeans puída – na verdade, rasgada.
De meio-dia que me dei conta: o horário da consulta! Eu sairia
dela quando Ruth, provavelmente, já teria encerrado seu
expediente. Raciocínio rápido: lembrei das minhas imprescindíveis
vitaminas, que há mais de um mês eu adio a compra: passaria na
farmácia antes de ir ao médico – a receita ficaria para a próxima
ida, sabe-se lá quando.
O resultado foi o mesmo das duas últimas embrenhadas pela botica:
Ruth não estava. Nem ela nem ninguém que costumo ver no turno
dela: teriam mudado a escala? Antes eu a encontrava a essa hora.
Decidi, de qualquer forma, comprar as vitaminas, já que estava lá
e precisava mesmo delas, que, como já disse, são imprescindíveis
(ou quase).
Na saída, a caixa não se atrapalhou, como da outra vez, mas se
mostrou muito simpática – parece que a loja contrata por simpatia
–, apesar de ter me chamado de "senhor". Cogitei se não deveria
perguntar e aquela atendente bochechudinha-sardenta, de nome
Ruth? Porém me veio uma tremenda dúvida nessa hora: o nome
dela é Ruth ou é Rita? Ruth, Rita, são nomes parecidos, quatro
letras, começam com R, tem um t como terceira letra. Sem ter
certeza do nome, preferi não perguntar nada – é certo que, mesmo
estando certo, tampouco perguntaria, até porque vai saber como ela
encararia o adjetivo "bochechudinha-sardenta".
Na sala de espera do consultório, meu raciocínio rápido chegou um
pouco atrasado, pra variar: eu poderia ter levado um pouco mais a
conversa, principalmente quando a caixa perguntou se eu morava em
Campinas, e eu respondi que morava em Barão: poderia emendar o
porquê de me deslocar tanto pra frequentar uma farmácia que tem
outra loja ao lado de casa, comentar, talvez, destas crônicas,
pedir se Ruth não tinha facebook, namorado, compromisso para a
noite.
Pela segunda vez perdi ótima oportunidade – a primeira fora com a
própria Ruth.
Apesar de estar de mudança para São Paulo, prosseguirei com o
Aílton, não tenho motivo algum para deixar de ser assistido por
ele, pelo contrário. A farmácia de Ruth fica relativamente perto
do consultório. Quem sabe na próxima meu raciocínio rápido não
seja um pouco mais ágil, e não leve meia hora para ter a grande
sacada do momento?
Campinas, 17 de janeiro de 2012.
ps: Me auto-respondendo: duvido-e-ó.
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dAniel gOrte-dAlmoro
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Na teoria a prática é simples.
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"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. É por isso que o espectador não se sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte."
Debord