Dizem os livros de auto-ajuda pedagógica que é bom estimular as crianças
desde cedo, para que se desenvolvam mais inteligentes. Uma pena que há
mães que parecem seguir tudo o que dizem por aí, menos a parte boa dos
estímulos.
O cartunista Angeli tem uma série que adoro: “duas coisas que eu
odeio... e uma que eu adoro”. Numa das tirinhas, não lembro quais as
duas que ele odeia, mas lembro a que ele adora: crianças hiperativas: no
quadrinho, defronte a ele, uma criança alucinada, e ele pergunta: e chimpanzé, você sabe imitar? Lembrei dessa tirinha quando fiquei dez minutos dentro do ônibus, esperando dar a hora dele sair do terminal.
Uma menina, devia ter seus cinco anos (sou ruim pra chutar idade de
criança), corria do fundo do carro pra frente e se pendurava na catraca,
da frente pro fundo e pulava no banco, do fundo pra frente, da frente
pro fundo... enquanto isso a mãe, mal-humorada e preguiçosamente,
sentada num dos bancos da frente, mandava ela parar – no máximo, o que
ela conseguiu foi que ela mudasse a rota: subia em um banco na frente,
se pendurava na catraca, pulava em outro, no imediatamente atrás, subia
na catraca...
Eu estava sentado no último banco, e a menininha, quando vinha para o
fundo, pulava exatamente ao meu lado. Uma hora, tendo provocado algum
barulho que não ouvi, ela parou, achando que havia quebrado algo.
Interagi qualquer coisa com ela: está pesada, ein? Não, estou forte! UAAAH!!!
E foi pra frente, onde mudou de rota, pulando um pouco pelos bancos
daquela região, enquanto a mãe mandava ela sossegar. Foi nessa hora que
lembrei da tira do Angeli e lamentei meu sempre lerdo raciocínio –
principalmente quando na interação com outrem.
Ela, porém, resolveu voltar, e eu resolvi aproveitar a chance. Consegue se pendurar ali em cima? Perguntei, apontando para a barra de segurar. A mãe me olhou com cara feia nessa hora. Não, sou pequena. Me respondeu a guria. Tem que pular alto. Não dá, olha.
E pulou – duas vezes –, demonstrando que não conseguia. Foi o
suficiente, porém, para que ela, que já andava um tanto agitada, ficasse
a mil, para irritação maior da mãe, que não deixou ela se sentar ao meu
lado, quando o ônibus partiu, e teve, então, que aguentar ela pulando e
a pentelhando durante boa parte da viagem – até o momento em que,
finalmente, cansada de mandar que parasse, se dignou a se levantar,
pegou ela no colo e a segurou à força.
Lamentei por ambos o fim da diversão, aquela mãe mal humorada, para quem
o problema da filha saracotear no ônibus em movimento não era ela se
machucar, mas ela estar enchendo o saco. De qualquer forma, descobri que
Angeli tinha razão: pôr pilha em crianças já em estado de serelepice
profunda é divertido – inclusive pra elas, que devem ter poucas
oportunidades de um adulto dando corda. E a diversão ganha um gosto
extra quando a mãe não gosta e em breve você vai descer, deixando que
ela cuide da filha – que só queria brincar sem atrapalhar ninguém.
Campinas, 28 de novembro de 2011.
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dAniel gOrte-dAlmoro
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Na teoria a prática é simples.
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"A alienação do espectador em favor do objeto contemplado se expressa assim: quanto
mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas
imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria
existência e seu próprio desejo. É por isso que o espectador não se
sente em casa em nenhum lugar, pois o espetáculo está em toda parte."
Debord